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Boa moeda poupança. Já temos conosco o Miguel Ferreira, economista e professor da Nova SBE, com quem falamos de poupança todas as semanas. Miguel, bem-vindo mais uma vez. Hoje vamos ao essencial do que devemos saber quando aplicamos poupanças a longo prazo.
Sim, bom dia, Paulo. É realmente importante saber alguns conceitos quando queremos investir no longo prazo. Um aspecto muito importante é que quando investimos no longo prazo e com risco, há incerteza sobre a recuperação do capital que estamos investindo. Isso é diferente, por exemplo, quando investimos num depósito a prazo, em que existe um mecanismo que garante o capital, que é o Fundo de Garantia de Depósitos, até pelo menos €100.000.
Por pessoa?
Por depósito.
Por pessoa.
Exato, por titular.
Titular de conta em si.
E por conta. Enquanto quando investimos em ações, obrigações, fundos de investimento ou ETFs, como já falamos aqui.
Já vamos ver o que é que são os ETFs.
Não há garantia de recuperação do capital.
No limite, podemos perder tudo.
No limite, é difícil perdermos tudo.
Sim, claro, mas no limite, num cenário absolutamente trágico em termos de investimento.
Se seguirmos boas práticas, nomeadamente de diversificação de risco, muito dificilmente perderíamos tudo e, no longo prazo, esse risco é muito mitigado.
Certo. Vamos então ver o que é isso do risco de um ativo, de uma poupança.
Exatamente. O risco, por um lado, podemos realmente perder, especialmente em horizontes de curto prazo, mas a longo prazo, há tendência para haver uma valorização. Em média, quando investimos em ativos com risco, nomeadamente em ações ou produtos relacionados com ações, há um prêmio anual de 8% de rentabilidade comparativamente a investirmos em depósitos. Isso é um prêmio considerável.
Quando falas de prêmio, é um excedente de rentabilidade.
Exato.
Aqui chama-se prêmio, nesta linguagem mais técnica.
O excedente de rentabilidade num ETF em ações, carteira diversificada, tende a ser 8% em média ao ano, comparativamente a investir em depósitos a prazo.
Já agora, um ETF é um instrumento de investimento coletivo, um fundo que replica a composição de um índice, é isso?
Exatamente. E é muito diversificado, tanto em termos geográficos como em termos de indústrias. Há ETFs em que conseguimos estar a investir em mais de mil empresas do mundo inteiro, portanto, há um grande nível de diversificação.
Certo. O risco é isso, não é? No fundo, é a possibilidade, se quisermos, de termos alguma perda, que é mitigada à medida que o tempo vai passando.
Exatamente.
Depois, há alguma relação entre o risco que corremos e a rentabilidade, o tal prêmio?
Existe uma relação positiva. Quanto maior o risco em que corremos, maior também é a rentabilidade que podemos almejar atingir. Obviamente, no curto prazo, pode haver flutuações. Tivemos a crise da dívida soberana em 2011, 2012, ou temos agora a situação conjuntural com as tarifas, que gera também oscilações no mercado, mas no longo prazo, tende a haver uma apreciação do valor desses ativos financeiros com risco.
Claro. Aliás, nós agora estamos a sentir, ou sentimos nas últimas semanas, uma grande volatilidade de preços, mas provavelmente daqui a cinco ou 10 anos, quando olharmos para trás, para esta altura, e olharmos para o gráfico, aquilo quase nem se nota.
Exatamente.
Aquilo que são grandes variações agora.
O que devemos fazer é pôr cinto de segurança e retribuir um pouco do mercado, porque se o nosso investimento for num horizonte longo prazo, cinco anos ou 10 anos.
É como um período de turbulência num voo de algumas horas. Depois, é preciso ter atenção também ao perfil de risco de cada um.
Sim, o perfil de risco é também uma variável importante. Há pessoas que são mais tolerantes ao risco, outras que são menos. As que são mais tolerantes ao risco podem investir uma parte maior das suas poupanças realmente nestes ativos com risco, mas um aspecto muito importante é o horizonte para o qual estamos a investir. Um exemplo concreto é investirmos para a reforma, que é um investimento a longo prazo. Aqui uma regra prática que se costuma utilizar, que funciona muito bem, é que devemos investir em ações ou ETFs 100 menos a nossa idade.
100 menos a nossa idade, muito bem.
Ou seja, se tivermos 40 anos, devemos investir 60% das nossas poupanças em ações ou produtos relacionados com ações. Ou seja, quanto mais jovens formos, mais devemos investir no longo prazo para a reforma em produtos relacionados com ações.
Porque o horizonte temporal é, de facto, mais longo quando somos mais novos.
Exato. E esta regra de 100 menos a idade é uma perspectiva conservadora, porque até temos alguns especialistas que recomendam, baseados em evidência científica, que pessoas jovens até cerca dos 30, 40 anos, podem investir 100% das suas poupanças em ETFs ou ações.
ETFs, já falamos várias vezes, então vamos lá explicar bem o que é isto de ETFs.
É como se investíssemos em muitas ações simultaneamente.
Alguém que constitui um pacote, não é?
Há uma entidade financeira que constitui um pacote que engloba, em muitos casos, mais de mil ações de vários países, de vários setores de atividade, que permite diversificar muito o risco e minimizar estas flutuações, e que atinge o nosso objetivo de investirmos num conjunto alargado de ações, em vez de investir apenas numa única ou poucas ações que estão muito mais sujeitas a flutuações e têm um risco muito mais acentuado.
Muito bem. No fundo, alguém faz a diversificação por nós. Podemos fazer comparações em termos de retornos destes investimentos?
Sim, podemos. E eu trazia aqui um exemplo muito simples que acho que ilustra bem o que podemos ganhar ao investir em ETFs ou ações no longo prazo. Se eu tiver €1.000 para investir hoje e se puser num depósito a prazo, que tipicamente dá volta de 2% ao ano, daqui a 40 anos, ou seja, seria para a minha reforma, teria €2.200. Os 1.000 passariam a €2.200. Se eu investir num ETF diversificado com retorno médio de 10%
Os mesmos €1.000 de investimento.
Os mesmos €1.000 com retorno médio anual de 10%, que é aquilo que observamos nos últimos 100 anos, em média, eu dentro de 40 anos, em vez de ter €2.200, tenho quase €50.000. É uma diferença abismal investir num depósito a prazo versus investir num ETF, mas com a ressalva que podemos perder no curto prazo e estamos a fazer cálculos a 40 anos de distância.
Aqui está a relação entre o risco e o retorno, que há pouco falaste muito bem identificado. Miguel, muito rapidamente, mensagens finais de hoje.
Mensagens finais: devemos investir com objetivos de longo prazo, devemos começar o mais cedo possível, nomeadamente os jovens, começar logo a preparar a sua reforma, até por causa dos desafios que vêm aí em termos de redução das reformas. E é importante, há um ganho significativo se investirmos em produtos com risco, nomeadamente em ações, ETFs ou fundos de ações.
Muito bem, aqui alguns conselhos para a poupança a longo prazo no Boa Moeda Poupança. Todas as sextas com o Miguel Ferreira. Até para a semana.
Obrigado, Paulo.