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Relatório de jogo na Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos falar sobre a vitória do Futebol Clube do Porto por 1 x 0 sobre o Académico de Viseu. A equipa portista segue em frente para a final four da competição da Taça da Liga, com um gol solitário de Santiago Gimenez. O avançado mexicano estreou-se a titular e marcou o segundo gol com a camisola portista ao converter da melhor forma uma grande penalidade em cima do intervalo. Este relatório de jogo é entregue pelo Filipe Coelho. Filipe, antes de mais, que notas a retirar deste jogo entre Futebol Clube do Porto e Académico de Viseu, com muitas mudanças de ambos os lados?

Sim, realmente uma das notas principais desta partida tem a ver com as muitas mexidas de parte a parte. Quer o Farioli, quer o Bruno Pinheiro fizeram autênticas revoluções nos 11. E do lado do Porto, há desde logo a realçar a mudança de sistema tático. E é algo que não tem sido realmente comum em Francisco Farioli, que é um quase indefectível adepto do 4-3-3, mas hoje acabou por optar por uma espécie de 3-4-2-1 com a presença de três centrais, o Nehuén Pérez, o Pepic e o Smalling a fazer a sua estreia de dragão ao peito. Depois o Varela e o Uang numa primeira linha de médios e bastante rotativos. Houve muita mobilidade entre estes dois jogadores. Sabemos que o Porto, por norma, dentro do seu 4-3-3, acaba por ser bastante inflexível no posicionamento, nomeadamente o médio defensivo e depois dos dois interiores, o Gabriel Veiga e o Fran Holz são jogadores cuja posição não mexe muito, digamos assim, mas hoje dentro desta mudança tática, houve também uma maior mobilidade no centro de terreno. Depois para a frente, o Fofaná, que apareceu mais sobre a meia-direita e foi um jogador importante na primeira parte. Creio que o Porto melhorou e cresceu em termos ofensivos quando o Fofaná ganhou um pouco mais de liberdade, apareceu à largura no corredor e foi capaz de carregar a bola. O Gabriel Mec a fazer também a estreia na equipa principal no centro-esquerda, no apoio ao Gimenez. Diria, desde logo, que é preciso relativizar a performance coletiva, porque com tantas mexidas é natural alguma descontinuidade, uma menor fluidez, e nesse aspecto há também que perceber se isto foi uma aposta conjuntural do Francisco Farioli, se é uma experiência com pernas para andar. O Farioli, para justificar esta mudança, falou nas lesões do William Gomes e do Pietro Sever, que portanto o Porto, tendo menos extremos disponíveis, fica um pouco mais limitado a sua aposta no 4-3-3, mas também falou numa espécie de teste e, portanto, pode haver realmente aqui um pensamento já para futuro do técnico italiano. Não é uma superexibição do Porto, obviamente, mas eu creio que há aqui notas a realçar do ponto de vista individual. O Alan Varela faz uma das melhores exibições da temporada. Foi um jogador um pouco mais ligado ao jogo da equipa, mais assertivo ao nível de passe. É verdade que cometeu ali um erro que poderia ter sido catastrófico para a equipa do Porto, mas no cômputo geral esteve bastante bem, tal como o Uang. Depois salientar também o lado esquerdo do ataque. O Gabriel Mec um pouco discreto nas vezes em que apareceu, foi mais na dimensão do remate e de fato fica a nota ser um jogador com remate bastante espontâneo. O Sousa muito voluntarioso, com capacidade para atacar a profundidade, mas creio que é um jogador que não é muito limpo a definir os lances. Ele ainda se desfaz da bola de forma algo atabalhoada. É verdade que apareceu bastante no último terço, mas também nem sempre concretizou o potencial das jogadas. Creio que é um jogador que até do ponto de vista defensivo vai ter que crescer, nomeadamente a nível do encaixe da pressão. Eu vi pelo menos dois lances que o Farioli ficou algo desagradado com a performance do brasileiro, porque é um jogador que ainda chega tarde à zona de pressão e isso acaba por facilitar a saída de bola, neste caso, do Académico de Viseu. Finalmente, o gol do Santiago Gimenez, que eu creio que também pode ser um boost de motivação para o avançado mexicano.

Filipe, foi dos jogadores que mais aproveitou esta oportunidade?

Sim, de certa forma, sim, nomeadamente na primeira parte, não só pelo pênalti, mas tem outro lance muito vistoso a aparecer na meia direita, a receber a bola nas costas dos médios do Académico, depois a encaminhar para o pé esquerdo, a lançar um remate que foi bastante perigoso. Ainda lançou também algumas desmarcações na profundidade, na segunda parte, mais sobre o lado direito. E eu creio que o Porto ficou com o jogo mais encravado na segunda parte, porque o Fofaná, nesse momento ou nessa fase da partida, foi mais médio do que atacante. E foi até o Gimenez a largar um pouco mais sobre o lado direito, mas creio que é um dos ganhadores desta partida, a par do Nehuén Pérez, que também apareceu muito bem, conseguiu valorizar algumas saídas de bola. O próprio Pepic, que eu creio que fica um pouco mais seguro e mais resguardado com esta estrutura de três centrais. Portanto, tal como o Farioli disse, eu creio que é possível retirar aqui algumas notas positivas, pelo menos a nível de exibições individuais.

E o Futebol Clube do Porto ganhou um novo sistema tático ou foi um teste bem-sucedido para algo que pode vir a ser preparado?

Essa é a grande dúvida, de fato, é perceber se isso foi meramente conjuntural ou se pode ser realmente algo com pernas para andar. Surpreender-me-ia se assim fosse, porque o Farioli é um técnico muito ligado ao 4-3-3, e não só do Porto, mas também nas suas experiências anteriores, o Ajax, o Nice. Foi sempre um treinador muito mais conectado com este sistema do 4-3-3. Depois há outra particularidade, é que o Farioli hoje teve o Chris Smalling disponível, mas por exemplo, na Liga dos Campeões, o central inglês não foi inscrito. O Pepic também não está inscrito na Champions, portanto ele fica logo limitado em termos de opções para a linha ofensiva. É verdade que o Pablo Rosário pode jogar como central, o Quieroz hoje não foi utilizado e é um habitual titular.

Aliás, ainda antes de aparecer Bernarec, é Pablo Rosário que salta do banco.

Precisamente, na altura em que o Smalling sai por lesão, o Rosário entra para ser o central pelo meio. Mas essa dupla contingência de o Smalling e o Pepic não estarem, por exemplo, disponíveis para a Champions, pode limitar essa aposta, pelo menos no contexto da Liga dos Campeões. Mas creio que é uma nota positiva, pelo menos a nível de alguma demonstração de flexibilidade do Francesco Farioli, que em alguns momentos foi acusado de ser um treinador até algo conservador dentro deste plano que trouxe para o Porto, foi acusado de não ter propriamente um plano B, e pelo menos há aqui alguma demonstração de interesse em experimentar coisas diferentes e nesse aspecto, de fato, foi um Porto distinto daquilo que temos visto nos últimos tempos.

Felipe Coelho, destaque também para esta equipa do Académico de Viseu, depois de ter ganho em Alvalade, com muitas mudanças também, faz boa figura aqui no Estádio do Dragão.

Sim, o Académico no campeonato empatou na Luz, venceu em Alvalade e agora na Taça da Liga, mesmo com muitas mexidas promovidas pelo Bruno Pinheiro, não deixa de ser uma exibição positiva dos viriatos, nomeadamente na parte inicial e na parte final do jogo. Creio que foram os melhores períodos do Académico na partida, nomeadamente no primeiro tempo, mais do ponto de vista defensivo. A equipa foi muito coordenada, mesmo no momento em que quis pressionar alto o Porto com as referências individuais que tem, os três da frente a encaixarem nos três centrais, criou problemas, limitou a progressão do Porto. Depois numa fase mais adiantada, pelo menos quando o Porto conseguiu chegar ao meio-campo ofensivo, o Académico a baixar num 5-4-1 com o Seiti a encaixar junto dos centrais, mas a equipa sempre bem coordenada. Não houve propriamente aqui falta de coesão. É uma equipa bastante compacta e tem bons valores. Isso ficou ainda mais vincado na segunda parte, quando o Bruno Pinheiro começou a lançar os jogadores, nomeadamente o Mortimer, o João Guilherme, o Clóvis, mais tarde o Caraman. Desde logo são os titulares e isso fica justificado pela forma como entraram na partida. E na reta final, o Académico também cresceu, nomeadamente com o Caraman, que eu creio que é um médio de mão cheia, de ótimo nível para este patamar do Académico e que foi capaz de dotar a equipa de argumentos diferentes para ter mais presença no meio-campo ofensivo.

Felipe Coelho, falta-nos apenas ficarmos a saber o que é que no teu entender foi o melhor e o pior da partida. Vamos começar com o melhor deste jogo entre o Futebol Clube do Porto e o Académico de Viseu.

O melhor, vou salientar esta vontade de Francesco Farioli em experimentar, em testar coisas diferentes, a ser um pouco mais flexível. Eu creio que a Taça da Liga também é um contexto idôneo para este tipo de experimentação. É verdade que o Porto não tem o Pietro Zezski e o William Gomes e portanto fica limitado a nível de extremos, mas creio que o Farioli quis dar aqui uma roupagem diferente à equipa e até um pouco para acomodar o Gabriel Mac, que é um jogador que se sente mais confortável a jogar num espaço interior do que propriamente a ser um flanqueador. E portanto o Farioli foi à procura desse casamento também de características individuais. Creio que é um sinal importante para o Porto e um treinador que vai, ou pelo menos indicia também vontade de mostrar coisas diferentes e tentar também surpreender os adversários no plano estratégico.

Vamos então ficar a conhecer, no teu entender, Felipe Coelho, qual é que foi o pior aspecto deste encontro?

Acabou por ser um jogo bastante entretenido, mesmo num contexto em que houve muitas mudanças de parte a parte, não deixa de ser um jogo competitivo e, portanto, eu vou salientar como o pior este formato da Taça da Liga. Creio que é justo realçar, por três razões. Desde logo, o formato da competição em si, que protege os três grandes, o fato de o próprio calendário estar esquematizado para beneficiar os três grandes e o Braga, que jogam todos eles em casa com equipes claramente de nível inferior, e o absurdo que é esta Taça da Liga estar a ser disputada por várias equipes e nenhuma delas ser o atual detentor do troféu, porque o Vitória, fruto da classificação no campeonato, não se conseguiu qualificar para esta Taça da Liga, mesmo tendo vencido a Taça da Liga na última temporada, o que me parece, de fato, um absurdo. É uma competição que teima em ter um enquadramento competitivo que me deixa muitas dúvidas e tenho bastantes reservas com a forma como continua a ser pensado e enquadrado no nosso panorama futebolístico.

Relatório de jogo entregue pelo Felipe Coelho a esta vitória do Futebol Clube do Porto sobre o Académico de Viseu por 1 x 0. Santiago Gimenez foi o homem da partida, fez o único gol ao converter uma grande penalidade.