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Pedro Lino, mais uma vez, bom dia. Cá estamos, é sexta-feira. Há uma pergunta que muita gente faz quando há algum dinheiro de parte, de poupança, ou quando aparece um reembolso maior do IRS ou um subsídio de férias lá em casa que é: o que eu devo fazer com isto? Devo amortizar um empréstimo ou devo investir?
Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. Esta é uma pergunta recorrente, dúvida de muitas pessoas, que é: eu tenho dinheiro, o que eu faço? Amortizo o meu empréstimo ou invisto? O que eu faço? A resposta não é simples, não é fácil, porque a maior parte das pessoas tende a querer amortizar a dívida e ver-se livre logo da dívida, porque as pessoas têm este peso. Mas a resposta não sempre é essa.
Parece que é sempre uma ótima ideia, sempre a melhor ideia amortizar um empréstimo.
Pois, e como vamos ver, não é.
Não é sempre.
Por isso, parece sempre uma boa ideia. Não, quando nós amortizamos um empréstimo, temos que perceber o seguinte: estamos a obter uma poupança que é certa. Qual é essa poupança? A poupança é a taxa de juro que eu vou deixar de pagar ao banco. Ou seja, se eu tiver um empréstimo de € 10 mil com uma taxa de 4%, eu vou estar a pagar ao banco € 400 ao ano.
Certo.
É o que eu vou estar a ganhar. Eu vou deixar de pagar esse juro ao banco. Por isso, tenho essa rentabilidade sem volatilidade, sem risco de mercado e sem oscilações. Por isso, amortizar esta dívida é esta rentabilidade garantida. Por isso, quanto maior for a taxa de juro, mais interessante vai ser essa amortização. E é aqui que entra que nem todas as dívidas são iguais.
Exatamente, claro. Então vamos ver que tipo de dívidas há, se quisermos, nesta perspectiva.
Por exemplo, crédito pessoal ou cartão de crédito, temos taxas de 8, 10 ou 15%, até mais.
Elevadíssimas.
Esta poupança é efetivamente muito elevada e não há investimento seguro que garanta isto. Por isso, se eu tiver este tipo de dívidas, faz todo o sentido amortizá-las, porque eu não vou ter uma rentabilidade garantida.
Que igual aos juros que estamos a pagar.
Sem dúvida, porque crédito pessoal 10 ou 15% não é.
Esta é de caras pagar, se calhar é melhor amortizar.
Aliás, as pessoas deviam ter o mínimo crédito pessoal possível.
De preferência não fazê-lo, se calhar.
Se calhar nem fazer, exatamente.
Ou nem usar o cartão de crédito com aqueles plafonds que pagamos em tantos meses.
Exatamente.
Depois há o crédito à habitação.
Aqui já é uma análise diferente, porque as taxas de juro tendem a ser mais baixas, tendem a ser muito próximas da Euribor, com um spread pequeno, por isso é uma forma fácil e barata de financiamento a longo prazo. Por isso a decisão aqui já não é tão óbvia.
Claro. E agora o outro lado, investir. Quando é que faz sentido investir?
Faz sentido investir-
Em vez de, já agora, amortizar empréstimos, foi o que falámos até agora.
Investir faz sentido se o horizonte temporal for longo e se eu já tiver pago as dívidas com taxas de juro muito elevadas.
Os cartões de crédito e por aí fora.
Exatamente, essas têm que ser as primeiras. Depois, sobrando dinheiro, se eu tiver um horizonte temporal longo, se conseguir aguentar tolerância ao risco e se a minha expectativa de retorno a longo prazo for superior ao custo que eu tenho agora.
Ao juro que estou a pagar.
Por exemplo, se eu tiver um crédito à habitação com Euribor a 3% com um spread de um, vamos pensar que temos um custo de 4%. Se eu achar que tenho uma alternativa a longo prazo, cinco ou 10 anos, que me dá mais do que seis, sete ou oito, então eu devo investir.
E não amortizar.
E não amortizar. Por quê? Porque eu estou a ganhar este diferencial. Se eu tiver um instrumento que historicamente tenha dado, de uma forma consistente, 7%, então eu estou a ganhar 3. A diferença dos sete para os três, mas tem que ter um horizonte temporal a longo prazo.
A diferença dos sete para os quatro.
Porque isto não é garantido.
Claro.
O investimento é uma diferença que não é garantida, é uma expectativa de rentabilidade.
O encargo com o empréstimo é garantido.
Sim.
O retorno do investimento não é garantido.
Não é garantido.
Portanto, é preciso ter alguma segurança nessa expectativa.
Exatamente. Por isso não se pode investir em produtos muito voláteis, da moda, setoriais ou de momento.
Muito bem. E depois há uma questão essencial nisso tudo, que é a liquidez.
Sim. E aqui é um erro frequente, é que muitas pessoas têm algum dinheiro e depois querem amortizá-lo tudo e ficam sem liquidez, porque pensam: "Eu quero é ver-me livre das dívidas". Isto tem um problema: é que muitas vezes nós temos despesas inesperadas. Acontece-nos a todos. E o que eu vou fazer? Vou fazer um crédito pessoal que custa 10 ou 15%?
Com as taxas de juro, claro.
E por isso, o que temos que saber é quando amortizamos tudo, quando gastamos o dinheiro todo, o dinheiro já não está disponível para ser utilizado em emergências. Por isso, estar investido também é bastante positivo. Não devemos estar sem nada, sem liquidez nenhuma. Devemos ter primeiro o fundo de emergência constituído e alguma liquidez para imprevistos. Nunca utilizar a almofada toda para amortizar a dívida. Mais uma vez, a prioridade tem que ser aquelas de cartões de crédito ou taxas de juro mais altas.
Muito bem. E depois, quando olhamos para estas coisas, a opção não tem que ser ou uma ou outra. Pode haver aqui um mix das duas coisas, não é?
Sim, esse é o outro erro comum, é que as pessoas pensam: "Eu amortizo tudo ou nada". Não, e há aqui um misto. Se tenho, sei lá, € 10 mil, posso utilizar € 5 mil para amortizar o crédito e outros € 5 mil para investir. E por isso, esta é a parte da gestão que devemos fazer, que é eu quero reforçar o fundo de emergência, parte para reduzir o risco, parte para investir. Eu posso dividir. E este que é um dos segredos.
Muito bem. Antes de tomar essa decisão e de passar à ação, então quais são as perguntas certas que as pessoas devem fazer?
São cinco. A primeira é: qual é a taxa de juro da minha dívida? É 4%, ou 10, ou 15?
Ter a noção clara disso. Qual é o custo, claro.
Porque o custo é o que eu vou poupar. Tenho fundo de emergência suficiente ou não? Esse fundo de emergência é essencial, como vimos.
Se não tiver, reforçar.
Reforçar, para não ter que pedir um crédito à pressa. Vou precisar deste dinheiro a quanto tempo? O horizonte temporal. Consigo lidar com as oscilações do mercado, ver os mercados a cair 5, 10%, sem ter problema?
Sem perder o sono à noite, claro.
E depois, qual é o objetivo principal? É a segurança ou é o crescimento? Porque depois há produtos que se adequam ou mais para segurança, e tem que ser mais para as obrigações, ou então mais crescimento.
Muito bem.
Mais ações.
Então, para fechar, Pedro.
Amortizar a dívida aumenta ou não aumenta a tranquilidade. Investir aumenta o potencial de crescimento. E é aqui que as pessoas têm que decidir. Nenhuma delas é errada, mas o importante é que esteja alinhada com a situação financeira, com os objetivos e com o perfil de risco.
Claro.
Por isso, também referimos que a solução ideal pode ser a divisão. Metade para um, metade para outro.
Ou 60/40, ou 70/30, claro.
Como for. Por isso, a melhor decisão, no fim, é aquela que ajuda a dormir descansado. Nós temos falado aqui muito no sono, dormir descansado e aproximar-se dos objetivos de longo prazo. Essa é que é a melhor solução.
Muito bem. Olhámos então aqui para este dilema que se coloca muitas vezes com algum dinheiro de parte, amortizar empréstimos ou investir. O Pedro Lino deixou aqui todas as dicas para tomar a decisão. Pedro, bom fim de semana, voltamos para a semana.
Obrigado, bom fim de semana.