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Bem-vindo ao "Brainstorming", o magazine de criatividade da Rádio Observadores, onde esta semana o futebol nos volta a servir de ponto de partida, mas não de destino. Porque o que nos inspirou desta vez não foi apenas uma Taça de Portugal entregue ao Torreense— já agora, parabéns, Torreense —foi sim a prova de que no desporto, como na comunicação, há histórias que valem precisamente por mostrarem que o improvável também sabe ganhar. E é isso que nos fascina nesta vitória: a magia de ver um sonho ganhar forma, a força de quem acredita quando quase ninguém aposta e aquela sensação rara de que, por uma vez, o enredo decidiu ser generoso com o atrevimento. Por falar em atrevimento, hoje recebemos José Barreiros, diretor e fundador do Primavera Sound Porto. Vamos falar de criação, identidade cultural e da arte de construir eventos que, tal como as grandes histórias, precisam de visão, coragem e capacidade para surpreender. Para além da conversa, vamos olhar para as campanhas e as notícias da semana. Há por aqui marcas que transformam ingredientes em argumento, humor em estratégia e memória em coleção. Vamos a isto?

Tiramos o E de Terra Nostra, porque o nosso queijo é feito só com quatro ingredientes.

Começamos pela Terra Nostra, que lança a campanha "Levamos o Sabor à Letra", com criatividade da VML, planeamento de meios da Spark, comunicação da Lift e marketing de influência da Public e da Elephant. O vídeo mostra o ator açoriano Miguel Damião num universo visual em que a marca remove literalmente a letra E do nome, numa expressão gráfica de ausência de aditivos e de componentes artificiais. Não tem És, a Terra Nostra. A ideia é simples e eficaz. A marca explica que o queijo é feito apenas com quatro ingredientes, com leite de vacas em pastagem nos Açores durante todo o ano, e reforça assim o compromisso com a naturalidade e transparência. O vídeo que acompanha esta mensagem tem um gesto visual muito direto, quase pedagógico, que diz ao consumidor: "Aqui não há truques, só o essencial". É, de resto, uma abordagem muito ao espírito desta semana, em que a vitória também nasce da simplicidade de quem acredita no que faz.

Chegou o novo mocktail Freez Botânicos. São dois mocktails desses. Depois daquilo que se passou.

E agora olhamos para a Freez, que apresenta uma nova campanha omnicanal com criatividade da Barrow Gilvie, produção da Playground, realização de Martim Condeixa e sonoplastia do Som de Lisboa. É uma campanha que volta a apostar no humor como assinatura da marca. O vídeo coloca desta vez Nelson e Sérgio Rosado, exatamente, os Anjos, num cenário de bares em que pedem um mocktail e são confrontados com uma referência direta à polémica pública que os envolveu, por opção própria, diga-se de passagem. Bom, os Anjos respondem ao barman cantando uma nova versão de "Perdoa". A piada está construída de forma inteligente. A marca assume a ideia de que os novos sabores são só para bem-dispostos, e os Anjos não terão sido propriamente bem-dispostos no que diz respeito às marcas. Assim, a Freez usa o momento midiático desta banda portuguesa para fazer deles protagonistas de uma recuperação bem-humorada, sem agressividade, mas com aquela boa malícia publicitária. No fundo, essa é uma daquelas campanhas que prova que, no espírito da semana, também o marketing pode transformar um desafio em vitória quando sabe cantar a favor da maré. Mais uma edição do "Brainstorming" e nesta temos o prazer de conversar com José Barreiros, diretor e fundador do Primavera Sound Porto. Seja muito bem-vindo aqui ao "Brainstorming" para nos falares acerca do Primavera Sound Porto, que vai já para a 13ª edição. Eu não diria, parece que foi ontem.

É verdade, parece que foi ontem, mas já é tanto tempo.

O que estes 13 anos dizem sobre o festival, sobre o público português, sobre o ambiente que conseguiram criar? Fala-nos um bocadinho destes primeiros 13 anos.

Acho que foram 13 anos muito desafiantes. Quando começámos em 2012, tínhamos alguns objetivos definidos, porque nós também já fazíamos o Festival Paredes de Coura, portanto também já tínhamos experiência na organização de festivais. Queríamos trazer para o Porto um festival mais adulto, ou seja, criar um festival diferente, que as pessoas que, por um motivo ou por outro, na altura tinham deixado de ir a festivais, pudessem regressar aos festivais. E para isso tínhamos que criar condições, fazer um festival para gente adulta, mas que também a gente mais jovem se sinta bem, obviamente. Portanto, foram 13 anos muito desafiantes. Começámos com anos muito difíceis por causa de chuvas e por causa de intempéries, e isso marcou muito o festival, mas ao mesmo tempo também acho que trouxe

Trouxe mística.

Mística, exatamente. A palavra que define melhor é esta. A mística de concertos que noutras circunstâncias, se calhar, seriam banais ou normais. E ali criar uma aura especial. Acho que esta história não se apaga.

Mesmo com essa chuva, com as intempéries e com as dificuldades, o público não arredou pé, mesmo nessas edições. E isso tornou ainda mais especial.

É impressionante. Nós, na primeira edição, em 2012, mal lançámos, quando anunciámos que o Primavera Sound saía pela primeira vez de Barcelona e a primeira cidade que iam fazer internacionalmente seria o Porto, foi logo um hype internacional muito grande. Nós tivemos, percentualmente, estrangeiros, eram quase 70% das pessoas. O público português não era ainda muito familiarizado com o que era o Primavera Sound, o que é que o Primavera Sound tinha diferente de outros festivais. E acho que também houve esta evolução do público português, este conhecimento de um festival diferente, de um festival que, se calhar, em termos de headliners é comum a muitos, mas que aposta muito numa diversidade programática, digamos assim, abrangendo quase todos os estilos musicais. E acima de tudo, marca uma tendência anual. Ou seja, quem não está no Primavera Sound é porque, se calhar, não é assim tão especial como muita gente faz. Isto demora anos a criar.

O próprio espaço onde acontece o Primavera Sound também tem algo de especial, não é?

Muito especial. Acho que isso é o principal fator que nos motiva a fazer cada vez melhor, porque ocupar a cidade é um privilégio, poder fazer um festival com grandes características.

Quem não conhece e, por exemplo, há muitas pessoas de Lisboa que não conhecem o Parque da Cidade do Porto e é um espaço único. Eu não conheço uma cidade, pelo menos em Portugal, que tenha um espaço semelhante ao Parque da Cidade do Porto, mesmo em altura de não Primavera Sound.

É incrível.

É um espaço incrível.

Um espaço incrível, que depois permite que os concertos decorram em anfiteatros, em relva. E, portanto, a nossa função ali é quase estragar o menos possível, porque está tão bonito.

Também para preservar para os próximos anos.

Exatamente, preservar e que as pessoas tenham uma experiência muito positiva.

José, olhando aqui para o mundo da música, ao longo destes anos, muito mudou nesta indústria, muito mudou em todo o mundo. O que é que não existia quando começaram e que agora faz totalmente a diferença no Primavera Sound?

Acho que aí, acima de tudo, é mais a nível tecnológico. As plataformas de vendas de bilhetes, sabemos sempre, diariamente, à hora que quisermos, sabemos quantos bilhetes temos vendidos, para onde foram vendidos. Digamos que há um acompanhamento muito maior nesta relação entre o festival e o seu público.

Isso também vos ajuda a receber melhor os visitantes?

Ajuda-nos a receber melhor, ajuda-nos a comunicar melhor internacionalmente, ajuda-nos a ter uma perspetiva de quais são os países que devemos apostar, onde devemos meter mais foco, porque por um motivo ou por outro, num ano há Itália, noutro ano, se calhar, Irlanda, noutro ano. E este lado tecnológico das plataformas de venda de bilhetes permitem uma comunicação muito mais direta entre quem organiza e o seu público.

E dentro do próprio recinto também houve evoluções, nomeadamente tecnológicas, que vos ajudam a ter um festival melhor, mais confortável, mais próximo do público.

Por acaso, já existem, mas gostava que tivéssemos mais, honestamente, nomeadamente no controlo de fluxos. Mas mesmo assim já estamos fazendo algumas coisas. Mas há dois fatores que ainda são muito caros de fazer bem feito, que é a tecnologia e sermos sustentáveis ecologicamente.

Ok, mas será um foco, certamente, para o futuro.

É um foco para o futuro e é uma-

Uma preocupação do presente.

Ainda é uma das maiores motivações que temos em continuar a querer melhorar o festival.

José, já sabemos aqui que o Primavera Sound Porto foi a primeira internacionalização do Primavera Sound. Como é que nasceu esta vontade de trazer o festival para o Porto? Como é que tudo começou?

O Primavera Sound já tinha começado em Barcelona no princípio de 2000. Eu começo a ir como fã de música ao festival a partir de 2002, 2003, acho eu, 2003.

E a ideia foi replicar o que já se fazia em Barcelona ou foi fazeres um Primavera Sound adaptado ao Porto?

Digamos que é o Primavera Sound da origem, aquele Primavera Sound de 2003, 2004, 2005, os meus primeiros Primavera Sound em Barcelona, era isto que eu queria trazer para o Porto, porque o Primavera Sound depois transformou-se numa coisa enorme, com demasiados palcos, demasiadas pessoas, demasiado impacto visual, demasiada confusão. E acho que nós, como tínhamos como objetivo inicialmente fazer um festival mais adulto, mais tranquilo, em que as pessoas se sentem bem.

Mais cool

Masculino, neste momento é quase incompatível com o Primavera Sound de Barcelona. Mas este original que eu conheci, o início do Primavera Sound, era esse era a inspiração para fazermos aqui no Porto.

Passado estas edições todas, como é que se gere essa identidade que se construiu, essa mística de que já falámos? É possível ter consistência? É difícil ter essa consistência?

É difícil ter essa consistência, mas é essencialmente não querer fazer as coisas só por fazer. Barcelona tem 200 bandas. Nós sabemos que para termos um festival equilibrado, temos que ter entre 60 a 70 projetos musicais anualmente. Temos que fazer uma seleção cuidada. A música ainda nos dá prazer fazer também, ainda ouvimos música. Já passámos os 50 anos, mas ainda temos muito gozo em conhecer novas bandas, em poder trazê-las a um evento nosso. E portanto, essa pica continua, essa vontade de fazer. E depois, continuar nesta senda de tentar que o festival não perca essa identidade por muito que cresça. Nós começámos o festival com 18 a 20 mil pessoas, já tivemos edições com mais de 40 mil. Este ano vamos andar nas 40 mil outra vez.

A responsabilidade cresce com o número a crescer também.

Claro, e o desafio é maior, porque como é que vamos manter o conforto e a qualidade para 40, quando as pessoas gostavam disso quando éramos só 18 mil. E estes são os desafios anuais que nós continuamos a desafiar-nos a nós próprios para que essa qualidade se mantenha e esses princípios se mantenham.

E mantendo essa qualidade e essa consistência, como é que ainda se consegue surpreender o público? É mais difícil? Tem a ver com as escolhas de artistas, o equilíbrio entre artistas mais conhecidos e novos artistas, é assim?

A estrutura da Primavera Sound, que neste momento volta a São Paulo, volta a Buenos Aires, é uma estrutura grande já de si. E depois tem uma vantagem grande, que é uma renovação imensa de gerações. Claro que o festival do Porto, a organização do Porto, nomeadamente eu e os meus sócios, temos sempre a opinião de que bandas é que vamos contratar e que bandas é que estão. Mas temos que ouvir as novidades, temos que ouvir a gente jovem, porque quando nós começámos a programar música, também tínhamos 22, 23 e 24 anos. Com 55 é diferente, portanto temos que saber também abrir as portas às novas gerações.

Para não perder o comboio também.

Para não perder o comboio. Para trazer Massive Attack, eu não preciso de alguém de 23 anos.

Exato.

Mas para trazer Sudan Archives ou Melt Banana ou Óclou, já preciso destas novas opiniões, para saber que música é esta, onde era enquadrada quando eu tinha 23 e 25 anos. Portanto, este desafio é constante e acho que temos conseguido sempre apresentar propostas musicais emergentes, interessantes.

E falando nessas propostas, o que é que há a destacar na edição 2026? Ou o que é que vai distinguir esta edição das anteriores?

Eu acho que é um festival bastante mais consistente em termos tradicionais e se calhar, mais fiel ao espírito do Primavera Sound. Ter o regresso de XS, que abriram o festival em 2012, foi uma das bandas que esteve em 2012. O regresso dos Gorillaz, Massive Attack, os Idles, os Nick Cave. Depois esta nova geração com o que já falei do Sudan Archives, Melt Banana, noise rock japonês, a Óclou, o Rosofsky. Ou seja, é sempre este confronto geracional que permite que o festival seja sempre frequentado por pais e por filhos, mesmo assim. As pessoas de 50 anos sentem-se bem e as pessoas de 25 sentem-se bem. Curiosamente, nós temos uma média de idades este ano, até ao momento, pode ser que mude à última hora, mas 38 anos. Não é nenhum festival, em Portugal muito menos, mas se calhar até em termos europeus, consiga ter uma média de idades de 38 anos. Ou seja, estamos a fazer alguma coisa bem feita.

É um público mais qualificado. Ia dizer que aposto que por esta altura já tem pessoas que começaram a ir ao Primavera Sound como filhos e hoje já são pais e continuam a ir ao Primavera Sound.

Muito provavelmente, ao fim de 13 anos. Mas o padrão médio é o pai e a filha, a mãe e o filho, virem os quatro, cada vez mais também muitas crianças no Parque da Cidade. As famílias vêm, trazem os miúdos, depois os avós estão à porta para ir buscá-los às 9:00 da noite para os pais continuarem a curtir o festival.

Muito bom. É uma dinâmica familiar.

É uma cidade.

Muito orgânica.

É muito orgânica, é um festival que me dá grande gozo fazer ainda hoje, por causa destes pormenores todos.

Estamos quase a terminar a nossa conversa, José. Estás a falar nesses pormenores todos que também trazem encanto para ti, enquanto organizador do festival. O que é que te continua a entusiasmar ao final destas 13 edições, para além de tudo isto que já falámos?

Sim, acima de tudo, é a vontade de fazer melhorPonto um. E continuar a gostar muito de música. São estes dois pontos que me continuam a motivar fazer o festival, porque sei que é um festival que vai sempre surpreender-me. Até a mim próprio me surpreende. É um festival que continua a dar-me grande gozo fazer.

Boa. José, no Brainstorming fechamos sempre as nossas conversas da mesma forma, vou lançar-te um desafio: se pudesses escolher uma música que fizesse feat com o Primavera Sound Porto, que música seria essa e porquê? Sei que é difícil.

É muito difícil, mas para mim teria que ter Blur. Mas acho que a marca do festival tem sido esta dificuldade ligada à chuva, ligada ao crescimento do festival sempre com receio das tempestades com nome. Já tivemos o Óscar, já tivemos o Miguel, já tivemos depressões, coisas horríveis. E o facto é que quando o festival está sem chuva, é um festival inacreditável. As edições de 2022 e a do ano passado, de 2025, foram uma vibe incrível. Resolvi escolher, neste caso, a chuva ser a bitch, escolher a música do Kendrick Lamar "Bitch, Don't Kill My Vibe", porque é uma daquelas coisas que nós não podemos controlar, mas tem sido uma bitch que nos tem tirado muita vibe.

Escolha perfeita para o final desta nossa conversa com o José Barreiro, diretor e fundador do Primavera Sound Porto. Com receio, mas acima de tudo com coragem e com ambição. José, obrigado por teres vindo ao Brainstorming. Muito sucesso para esta e para as próximas edições do Primavera Sound Porto e até breve.

Ok, leve.

Quase no final do Brainstorming, olhamos para os CTT, Correios de Portugal, e também para o Canal Panda. Juntos, assinalam os 30 anos do canal com a coleção Selos Personalizados 30 Anos Canal Panda. É uma edição comemorativa que junta filatelia, memória e universo infantil. O lançamento celebra três décadas de personagens e valores como a amizade, aprendizagem e partilha através de 18 selos personalizados, uma caderneta comemorativa e também vouchers Panda Mais, reforçando o lado colecionável e afetivo desta iniciativa. 30 Anos de Panda. Bolas, não vemos nós a estar velhos. Bom, no universo visual da ação, a mascote panda surge como centro de uma pequena celebração intergeracional e é uma celebração pensada para ligar a nostalgia dos adultos à curiosidade das crianças. Afinal de contas, o panda faz parte de todas as nossas vidas. É também uma campanha que, sem precisar de grandes efeitos, transforma um objeto tão tradicional como o selo numa peça de cultura pop afetiva. E de resto, isso encaixa bem com o tema desta semana, porque também há aqui uma verdadeira vitória em acreditar que o pequeno pode ter um impacto gigante. Não é, Torrence? E assim chegamos ao fim do Brainstorming, em que hoje falámos de uma marca que aposta na simplicidade como valor, de outra que usa o humor para se manter na conversa e de uma parceria que transforma nostalgia em coleção. Falámos também com o José Barreiro, do Primavera Sound Porto, sobre o que é criar experiências com identidade, visão e capacidade de surpreender. No fundo, esta edição do Brainstorming lembra-nos que as histórias mais marcantes nem sempre são as mais óbvias. Por outro lado, o que é óbvio é que o Brainstorming volta a ir para o ar já na próxima segunda-feira, depois das 21:30. É um programa que está sempre também disponível em podcast para ouvir, repetir e partilhar. Com ajuda à produção da Inês Neto e a sonoplastia surpreendente do Rafael Pego, eu sou o Hugo Silva e até à próxima edição do Brainstorming lembre-se: no marketing e na vida, quem transforma ideias em ação, às vezes acaba por mudar o resultado do jogo. Até para a semana.