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Olá, bem-vindo ao Brainstorming, o espaço onde a publicidade não interrompe nada, apenas acrescenta. Esta semana surgimos inspirados por notícias que parecem escritas por um argumentista demasiado entusiasmado. Um navio, um surto viral, passageiros em quarentena, voos de repatriamento organizados por nacionalidade e autoridades de saúde a tentar evitar que o medo viajasse mais depressa que o próprio vírus. Estamos, naturalmente, a falar do caso MV Onius, que se tornou um daqueles momentos em que percebemos que gerir uma crise não é apenas resolver um problema, é também controlar a perceção do mesmo, porque entre o pânico e a calma, existe uma coisa muito difícil de fazer. E essa coisa chama-se comunicação. E neste caso, é tão complicada de fazer que chega até a ser uma arte delicada, manter pessoas relativamente tranquilas enquanto ninguém faz ideia do que vai acontecer a seguir. Por falar em estratégias de comunicação para atingir objetivos de uma forma eficaz e estruturada, esta semana temos conosco Vítor Brito, diretor criativo da Agência Nossa. E nas notícias desta semana temos uma marca a regressar às origens do futebol, um banco digital a aproveitar uma polêmica antiga para angariar clientes e ainda uma marca que prova que com a embalagem certa e conversa bonita, até uma simples fruta pode ser um artigo de luxo. Vamos a isto? Enquanto o mundo anda obcecado com ligas milionárias, cláusulas astronômicas e jogadores que parecem patrocinados desde o berço, a Adidas decidiu lembrar uma coisa bastante inconveniente: o futebol nasceu na rua. A marca lançou Backyard Legends. É um filme de cinco minutos que abre oficialmente a campanha para o Mundial 2026. A produção aposta num registro quase cinematográfico para recuperar o imaginário do futebol de bairro. Os jogos improvisados, as balizas feitas com mochilas, os campos inclinados e aquela regra universal segundo a qual quem manda a bola para a estrada, vai buscá-la. E mesmo que esteja nove a zero, quem marcar, ganha. O elenco parece um algoritmo do entretenimento global. Lionel Messi, Bad Bunny, Timothée Chalamet, Lamine Yamal, Jude Bellingham, Pedri, Rafinha, Zidane, Beckham, Del Piero. Basicamente, metade da internet e duas épocas de futebol concentradas neste filme. Curiosamente, apesar do desfile de estrelas, o centro da narrativa nunca são as celebridades. É, sim, o lado cru e emocional do jogo. Com esta campanha criada pela agência Lola, realizada por Mark Molloy e produzida pela Smuggler, a Adidas quer recuperar a autenticidade, numa altura em que o futebol moderno parece cada vez mais uma mistura entre bolsa de valores e reality show emocional. É bom regressar às origens. Lo siento. Me fui. Senti o fim de ciclo, desgaste. E agora, ainda no mundo do futebol e também da grande finança, há campanhas que escolhem o caminho seguro. E depois, há outras campanhas que pegam numa ferida histórica e fazem publicidade com ela. Pois é, faz 25 anos que aconteceu a transferência de Luís Figo do Barcelona para o Real Madrid, e a Revolut transformou agora o episódio numa campanha de aquisição bancária. Sim, pegaram numa guerra civil futebolística e fizeram marketing financeiro. A campanha, criada pela agência Turbo, em parceria com a equipe espanhola do Revolut, começou numa tela gigante de Figo em Madri e prolonga-se agora para o digital e redes sociais. Chega também a Portugal antes do verão. No filme, Luís Figo olha para a conta bancária depois de receber os equivalentes aos famosos 10 mil milhões de pesetas, numa transferência que já aconteceu no ano 2000. Humor, provocação e memória coletiva cuidadosamente misturados. A mensagem é clara: mudar para o Revolut pode parecer polêmico no início, mas talvez seja um excelente negócio. E, por outro lado, hoje em dia, ninguém nos vai chamar peseteros. Mais uma edição do Brainstorming e nesta temos o prazer de conversar com Vítor Brito, é diretor criativo na Nossa. É uma agência de publicidade muito bem conhecida no nosso mercado. Sê muito bem-vindo aqui ao nosso espaço. Tenho que começar por te dar os parabéns pela participação como orador no Cannes Lions International Festival of Creativity. O que significa pra ti, também pra Nossa, já agora, participar neste festival, num fórum que reúne os melhores dos melhores e que é sempre tão relevante para o mundo da publicidade?
Para começar, muito obrigado por me receber aqui.
É um gosto.
Quando eu recebi a confirmação de que eu ia dar um workshop em Cannes Lions, a primeira coisa que eu fiz foi ligar pra minha mãe.
É quase como estar nomeado por um Oscar.
É um pouco. Eu não acreditei. Eu contei, contei essa história. Eu apliquei, era 30 de dezembro do ano passado. Eu falei assim: "Bom, vou aplicar pra receber ou não, e eles me darem alguma noção do por que eles não vão me aceitar e eu trabalhar nisso".
Ok.
Eu não estava esperando.
A perspectiva era só desenvolvimento e construir melhor a tua carreira, por assim dizer.
Exato. Estou curioso, vamos ver. ApliqueiRecebo o e-mail: "Adoramos, queremos conversar mais". Falei: "Ai, meu Deus, vamos conversar mais". Conversei mais.
It's getting real, foi isso que você disse.
E aí quando eu recebi o e-mail de confirmação, eu liguei pra minha mãe e falei: "Nossa, mãe, eu preciso te contar uma coisa, eu vou dar um workshop em Cannes". Nossa, ela ficou tão feliz. Só que ela me falou uma coisa que me marcou muito. Ela falou assim: "Nossa, eu lembro de você com 19 anos, no começo de carreira, me falando de Cannes Lions, o que era isso, tentando me explicar, todo feliz". E ela falou assim: "Leva aquele menino de 19 anos junto com você".
Boa.
Então pra mim é isso, eu estou levando aquele menino sonhador de 19 anos no começo. Quando eu contei pro Nuno, foi a segunda pessoa que eu contei, depois da minha mãe, ele ficou superfeliz, comemorou muito e falou assim: "Poxa, pra nós é como ganhar um Leão". A felicidade de estar num palco desse é imensa, é um espaço exclusivo.
Mas levando esse menino de 19 anos para Cannes, também se sente o peso da responsabilidade de estar a representar uma agência, uma equipa?
Olha, eu não sinto peso.
É um conforto, se calhar, por outro lado.
Eu acho que é uma celebração mais. Pra mim eu estou indo festejar o tempo que eu gastei pesquisando isso, porque eu dei aula de novos métodos criativos, investigando esse tema por seis anos e durante quase quatro anos desses seis anos eu estava na Alemanha, então eu tinha que acordar à 01:00, ficar dando aula até às 03:00, 04:00 e depois ir trabalhar às 09:00. Eu me esforcei pra isso, então essa é a parte dura, isso foi chato, essa foi a pressão. Agora eu vou celebrar, eu vou mostrar tudo que eu pesquisei durante esses últimos 10 anos, mostrar o que eu ensinei.
Vai colher os frutos daquilo que já plantou lá atrás. "Retire the brainstorm to be more creative", é este o nome do workshop que vais passar em Cannes. O objetivo é reformar a ferramenta do brainstorm, do brainstorming, também aqui como se chama o nosso programa, trazer um novo brainstorming para o setor da publicidade? É disso que se trata?
Eu acho que é muita pretensão. Eu estou sendo muito pretensioso com esse título.
É pelo menos dar ideias de como fazer as coisas de uma forma diferente, de uma forma mais atual, é isso?
Eu acho que é isso.
O brainstorming hoje em dia ainda está muito preso ao que se fazia, se calhar, nos anos 90, século passado?
Eu acho que não está nem preso em nenhum lugar. O que acontece? Quando eu comecei a dar aula e eu perguntava pra criativos, eu dava aula já pra jovens criativos, mas que já tinham alguma experiência de mercado, eu também agora dou aula na Brother, aqui em Lisboa, e eu perguntei pra eles, e com muitos criativos que eu trabalhei junto também, se as pessoas sabem as quatro regras do brainstorm. E ninguém sabe. Ninguém foi ensinado, na prática, o que é o brainstorm. Esse é um método que não foi passado devidamente. "Vai ali fazer, se tranca numa sala e tem o brainstorm, tenha ideias".
Então, pra ficar aqui registrado, quais é que são esses quatro pilares?
São quatro pilares: quantidade, sem críticas, construa ou reforme, ou seja, tudo que for falado ali, você vai construir junto e tudo mais.
Ou seja, não são ideias finais, são bases para se poder construir algo a partir dali.
Exato.
Portanto, não há atribuição de culpas, não há apontar de dedos, não há nada que esteja errado, nem certo, são apenas pontos de partida, é isso?
Exato. Então vamos lá. Ideias malucas são bem-vindas.
Ok.
Então essas são as quatro: ideias malucas bem-vindas, quantidade, sem críticas e construa ou reforme. São as quatro ideias básicas do Alex Osborn, lá em 1940. O que acontece é que a gente evoluiu, a gente nunca ensinou, primeiro, essas quatro regras. Muita gente que está ouvindo aqui, provavelmente, nunca ouviu falar dessas quatro regras.
Tomem nota e usem pra futuro.
Não é? E por não ter ensinado, a gente não tem método de criativo.
Ok.
E o que acontece é que nos últimos anos, a gente tem um estudo da Sharon Neimeyer, da Universidade de Berkeley, que ela conta que ela coloca o brainstorm a teste e ela vê que não funciona, por alguns motivos.
Porque falta estrutura, porque falta encaminhamento?
Porque somos humanos, na verdade. A gente tem um grande problema, tem vadiagem social. É sério. "Ah, o cara está pensando muito assim", o outro vai se retrair ou evitar conflito. Então eles vão sempre: "Ah, que ideia legal, eu adorei essa primeira ideia, vamos nessa, acho isso muito bacana", porque ela está evitando conflito. Ela não quer falar que aquela ideia não é boa. Tem nível hierárquico ali, que você tem muito disso, às vezes.
Nunca conseguimos ser totalmente imparciais e totalmente imunes ao peer pressure.
Eu lembro uma vez que eu estava na Almap, eu tinha 22, 23 anos, começo de carreira, eu tinha acabado de ganhar um Leão. Nossa, agora coloca ele ali num brainstorming com os outros dois diretores de arte sênior, era uma sala com quatro, cinco pessoas. Só que eu estava numa época na Almap que os diretores de arte sênior tinham sido vice-presidente de criação de outras agências. Pra você ter uma noção, então o CCO da DM9 saiu e foi ser diretor de arte sênior na Almap.
Ok.
Eu estava na sala com esse cara, com o Rinaldo, era o Julandero, o Rinaldo, eu e mais o Marcelinho.
Portanto, só tubarões.
É, e aí eu fiquei: "Cara, vamos lá no brainstorming, eu não vou ficar quieto aqui, eu não vou falar nada". Só que ele foi muito generoso, ele muito experiente.
Às vezes também acontece isso, não é?
Sim, e o Júlio virou pra mim e falou assim: "Olha, eu estou muito feliz que você está aqui, eu quero aprender muito com você, que eu não percebo nada do digital". Só que ninguém é tão assim, nem todos os lugares as pessoas são tão generosas como o Júlio foi comigo. E a parte do brainstorm, de deixar o brainstorm de lado, é também deixar de ladoUm pouquinho dessa inibição que as pessoas têm. E aí também a gente pode entrar em outros assuntos, que é diversidade, é neurocompatibilidade, às vezes as pessoas são neurodivergentes e têm dificuldade de falar em público, tem um monte de coisas também que esse novo método vai tentar mitigar.
Então, e como é que se desafia este método tradicional do brainstorming, que já se percebeu nem estava assim tão bem consolidado, era apenas uma ideia que cada pessoa, ao fim e ao cabo, interpretava da sua forma. Como é que se melhora o brainstorming na prática? Ou quais são as suas propostas para o fazer?
Eu acho que a gente tem primeiro que ter um momento. O que eu fiz? Comecei a estudar muito sobre isso, porque em 2016, quando eu comecei a estudar, me colocaram numa sala com outras sete pessoas, porque o nosso cliente era um cliente de telecom, estava passando por uma grave crise. Precisamos ter uma saída. Tinha gente de mídia, de estratega, criativo, todo mundo. E eu achei aquilo tão improdutivo. E aquilo foi me dando tanta aflição, falei: "Não, pelo amor de Deus, isso aqui está errado". E foi me dando uma aflição.
Era cada uma tentar puxar pro seu lado, não estava a construir nada.
Era.
Acho que quem trabalha no mundo da publicidade já sentiu algumas vezes isso.
Nossa, e aquilo foi me dando aflição e eu saí indignado. Falei assim: "Isso aqui não vai resultar". "Não, mas tem que fazer." E a primeira coisa que eu fiz foi assim, eu fui lá no Google: "brainstorm não funciona". Só pra mandar um link pra alguém e falar assim: "Olha, está vendo não sei o quê?"
Hoje em dia seria a AI.
É, o ChatGPT me falou que não.
Certo.
E aí eu fui atrás, só que eu comecei a investigar mais. Eu li pela primeira vez o livro do Jake Knapp, que era do Google, que chama "Sprint". E eu comecei a entender um pouco melhor, e foi na mesma época também que eu achei o estudo da Sharon Nehmef, que também tem um livro maravilhoso, que é "O Poder do Não". É muito bom também. E aí eu fui começando a entender um pouco da dinâmica onde fica provado que o indivíduo cria muito mais do que o grupo ou do que um brainstorm, e as pessoas em grupo sem nenhuma instrução, criam muito menos. Ou seja, o que acontece hoje nas agências, a gente tem grupos que criam sem nenhuma instrução, porque ninguém fala do brainstorm pra eles.
E, portanto, foste aqui buscar, segundo o que percebi quando estive aqui a preparar a nossa conversa, foste buscar estratégias ágeis de desenvolvimento de projetos. A agilidade integrada aqui no processo criativo. E assim, apresentas um modelo de creative sprints. Como é que funciona este modelo? Quem está na área mais tecnológica, se calhar, está mais habituado a estes modelos de gestão de projetos, Scrum, etc. Tem tudo a ver com isso, certo?
Tem tudo. Só que então o que a gente faz? A gente adapta esse modelo do design sprint, que é do Jake Knapp. Aí eu fui também estudar inovação aplicada na Hyper Island. Peguei também muita coisa que eu aprendi ali e eu adaptei isso pro dia a dia de uma agência. Qual que é o dia a dia de uma agência? Eu não tenho seis dias pra fazer tudo no papel e depois sair lá.
Metas prontas, não é?
Exato. Só que o que eu fiz? Uma das primeiras coisas quando eu cheguei na nossa, eu implementei alguns SLAs, que é: um KV tem que demorar pelo menos três dias. E por quê? Porque eu institucionalizei que o primeiro dia de um Key Visual, por exemplo, eu preciso que o diretor de arte vá investigar, vá ver coisas. Uma coisa que eu falo muito pra eles, eles até já dão risada, que é: "Vai passear os olhos. Não sai fazendo, vai passear os olhos, vai ver coisa, faz o moodboard, vai ver." E o que é isso? É a individualidade dele fazendo pensamento divergente. Então ele vai sozinho ver caminhos. E aí eu com ele ou eu num grupo maior, a gente vai fazer a convergência disso.
Até porque não se pode criar alguma coisa sem conhecermos nada acerca daquilo que vamos criar.
Exato. Então eu falo: "Vai passear o olho". Então eles divergem. E aí junto com eles, a gente olha tudo que faz sentido, que não faz sentido pra aquele projeto, a gente converge. E aí eu falo: "Ó, baseado no que a gente escolheu aqui de moodboard, dessas coisas, abre caminho, vai fazer primeiros estudos de Key Visual". E aí ele abre de novo sozinho, abre, um monte de caminho pra gente ver, e juntos a gente fala, converge. A gente fala: "Esse aqui é legal, esse aqui funciona e esse daqui". E aí depois ele refina, no terceiro dia. Então isso já é um começo dessa aplicação no dia a dia do creative sprint.
E é assim que se valoriza e que se maximiza o input individual dentro de um grupo criativo?
Também. Outra coisa que a gente faz também é o Crazy Eights, que é oito minutos, oito ideias completamente malucas. Então a cada minuto você tem que escrever uma ideia nova. As primeiras quatro é fácil, porque você já tem um monte de ideia preconcebida sobre aquela coisa, você vai lá e escreve. A quinta, sexta, sétima e oitava, só que você tem a pressão de escrever anyway.
Claro.
Você tem que escrever. Então isso vai te levar pra lugares que você não estava tão claro ou que, por exemplo, o seu pré-julgamento trava.
Ou seja, nesses creative sprints, há fases em que podemos estar mais relaxados, em que podemos estar a explorar o que está lá fora e o que está dentro de nós, mas há fases de maior pressão também, em que temos de fato que produzir. Ou seja, não é como um brainstorming totalmente desestruturado, que tipicamente estávamos a falar, em que as pessoas não sabem muito bem pra onde é que estão a ir, se algumas que estão super motivadas e outras relaxadas. Aqui tenta-se que esteja toda a gente numa fase comum, num momento comum, mais ou menos com o mesmo tipo de produtividade. Este é um modelo que já foi testado em outros países, em outras agências, em outros contextos? Fala-nos um bocadinho acerca disto.
Já.
E é diferente de país pra país?
NãoMas eu vou chegar lá. Eu já testei isso no Brasil, onde eu comecei a testar. Eu fiz um sprint já um pouco de um dia inteiro no iFood, que é a maior entrega de comidas lá do Brasil, onde eu fui supervisor criativo. Depois eu implementei isso na Unilever, também de sprints diários, porque a gente fazia muito in-house e a gente precisava responder às vezes as coisas que eram muito imediatas ou alguma oportunidade, alguma coisa que acontecia, então a gente precisava fazer isso rápido. E essa agilidade eu levei quando eu fui pra Alemanha e surgiu um pitch que a gente ia fazer e eu perguntei pro CCO na época: "Deixa eu fazer o meu método. Só que eu quero três dias, em vez de cinco ou seis, do creative sprint." Ele falou assim: "Três dias?" Eu falei: "Três dias, confia em mim". E a gente ganhou o pitch. Então eu tive um primeiro dia de estratégia, de planejamento, junto com o cliente, onde eles participam pra definir o briefing, o segundo dia de ideias e o terceiro dia de construir as ideias que foram aprovadas em parceria já com o cliente dentro do sprint.
E os dias também são estruturados como os sprints na metodologia agile, ou seja, tens uma daily em que percebes o ponto de situação, ou é um bocadinho diferente ou adaptaste aqui os conceitos?
Ele bebe muito do design sprint do Jake Knapp. Pelo menos nas fases de entender a ideia, de pré-visualizar, de sketch e tudo mais. Ele bebe muito dali. Então eu fiz ali, nesse caso, um dia de planejamento pra gente definir qual que seria o briefing, mas utilizando muitas ferramentas do design sprint kit do Google.
Ok.
O que muda pra mim, muito, é os tempos que se demora. O que ele propõe ali cinco dias, eu consigo adaptar algumas coisas que eu consigo cortar ali, dependendo, pra menos dias. Eu também consigo pegar só ferramentas de dentro desses métodos, desses dias, e adaptar no dia a dia. Nesse caso, eu fiz o primeiro dia estratégia, segundo dia brainstorm, criação no geral e o terceiro dia a gente materializar. Então construir apresentação e apresentar. Só que o interessante nisso é que os meus times criativos eram compostos por um criativo, um cliente que não fosse stakeholder, ou seja, alguém da área de logística ou alguém da área de produto.
Alguém mais hands on.
Yeah. Um estratega e um account.
Ok.
Porque pra mim não existe uma pessoa não ser criativa. Pra mim existe uma pessoa que não tem método.
Não ser criativo?
Não, a gente é humano, o humano é criativo. Faz parte da existência humana ser criativo. Se eu desenhar um bichinho no papel e falar assim: "Dá o nome pra esse bichinho", você vai conseguir dar. Todo mundo é criativo. Só que pra ser criativo de publicidade, a gente precisa de três coisas, que é referência, método, que é o que eu tô falando, e prática. Quanto mais você pratica, mais fácil você vai entender.
Quase como se fosse um desporto.
É, criatividade é um músculo que você treina.
Estamos quase a terminar a nossa conversa. Quero perceber também, do lado dos clientes, como é que veem aquilo que se entrega com este novo modelo de creative sprints. Os clientes ficam satisfeitos também por sentirem um bocadinho mais de estrutura na forma como a agência está a trabalhar?
Eu acho que pra cliente é muito gostoso participar, porque um, que eles saem do escritório deles, eles saem do dia a dia deles.
São envolvidos também no processo.
Eles são envolvidos no processo, eles entendem muito mais, por mais malucas que sejam as ideias, elas têm um fundamento, eles fizeram parte da construção, então deixa de ser uma coisa nós e eles, pra ser apenas uma coisa nós.
E acaba por ser também um bocadinho mais confortável para quem está a dar o input criativo. Não é como aquela reunião de aprovação das ideias das campanhas, em que o cliente vai ser absolutamente surpreendido e depois não percebe, muitas vezes, a base da ideia, de onde é que vai.
De onde veio o pensamento.
Exatamente.
É isso. Então pro cliente, quando o cliente participa disso é muito bom.
Há menos ideias mortas também?
Não, há mais ideias mortas. Porque pensa só, cada pessoa pode criar num crazy eight, oito ideias. Se eu tenho quatro pessoas, eu tenho 32 ideias. Imagina, num brainstorm você não gera 32 ideias.
Mas há menos tristeza por causa das ideias que morrem.
Menos, porque o que acontece? É mais democrático.
Exato.
Porque qual que é a grande ideia? Você cria sozinho e depois decide em grupo. Ou seja, uma das coisas que esse creative sprint me ensinou é que o papel do diretor criativo, que é um grande imperador que diz sim ou não pra uma ideia, morreu. Isso não existe mais. Algumas decisões têm que ser tomadas em grupo e às vezes o meu papel é dirigir a criatividade. Tem um quote que eu gosto muito, que é de um diretor criativo, que era da Wieden, que ele fala: "Quando vem o briefing, eu acho que a resposta praquele briefing é um carro esportivo, mas a dupla me traz uma van, eu vou fazer aquela van ser a melhor van do mundo, mas eu não vou impor pra ela o carro esportivo", porque ele tem que entender, ele tem que se conectar com o que tá vindo dali e a decisão não é só dele. Então o creative sprint também me ensinou a ser um diretor de criativo melhor, que eu, no final de cada feedback, falo: "Faz sentido? Vocês querem defender alguma coisa? Pode trazer."
E assim vamos também ganhando tato para perceber em que é que estamos a mexer e não sermos surpreendidos e estarmos todos confortáveis.
Pois.
Chegamos então ao fim da nossa conversa, sempre da mesma forma aqui no "Brainstorming", faço sempre este desafio aos nossos convidados: escolherdes uma música que tenha a ver com os creative sprints. Tens também que nos explicar por quê, Vitor.
Eu escolhi, mas eu vou me autocensurar.
Então?
Então eu escolhi outra música.
Agora fiquei curioso.
Eu te conto no off. Mas acharam muito pesada a música, que chocaria muito. Eu trouxe uma música um pouco menos pesada, um pouco mais, ainda assim, chocante. Porque é isso, o Creative Sprints é uma coisa que vai incomodar.
Tem que ser de choque.
Ela é nova e ela é rápida. E uma coisa nova, rápida e que pode incomodar, eu acho que pode ser "Dinosaurs Will Die", do NoFX. É uma boa música para contar um pouquinho dessa história de que um pensamento antigo vai deixar de existir.
Muito sucesso para os teus Creative Sprints, para todas as ideias que vêm e, naturalmente, também para este workshop "Retire the Brainstorm to be More Creative" no Cannes Lions International Festival of Creativity. Vitor Britto, diretor criativo da Nossa. Muito obrigado por teres vindo ao Brainstorming. Até breve e muito sucesso.
Muito obrigado por me receber e até mais.
Quase no fim do Brainstorming, temos talvez a campanha mais deliciosamente insolente da semana. The Ordinary decidiu fazer uma pergunta simples: e se o mundo da cosmética de luxo vendesse bananas? A resposta chama-se The Markup Marché. A marca criou supermercados fictícios em cidades como Londres, Paris, Toronto ou São Paulo, onde produtos banais aparecem transformados em artigos pseudoluxuosos, através de packaging sofisticado e descrições absurdamente pomposas. Uma banana passa a ser uma barra energética botânica premium, um abacate transforma-se numa esfera regeneradora de vitalidade e o papel higiênico vira praticamente um dispositivo emocional de limpeza transcendental. Naturalmente, tudo a preços ridículos. A campanha é uma crítica direta à linguagem artificial da indústria de beleza e mostra como o contexto, o design e meia dúzia de palavras conseguem inflacionar valores quase infinitamente. Como dizia o outro: "Vale a pena pensar nisto". Entre surtos geridos com contenção, marcas que transformam emoção em estratégia e campanhas que brincam com a percepção da realidade, fica uma ideia bastante atual. Hoje, comunicar não é apenas informar, é gerir ansiedade, expectativa e confiança. Às vezes, tudo ao mesmo tempo. Foi precisamente isso também que exploramos com o Vitor Britto, da Agência Nossa. Ele já deve estar de malas feitas para Cannes. Godspeed, Vitor, e muito sucesso nessa jornada de agilidade. Quanto ao Brainstorming, vai agilmente, como sempre, para o ar às segundas-feiras, depois das 21h30. Esta semana não, porque há muitos jogos ao mesmo tempo, mas fica sempre disponível em podcast no site do Observador e também nas principais plataformas. Com a ajuda à produção da Inês Neto, eu sou o Hugo Silva e até à próxima edição, lembre-se: entre o pânico e a confiança, quase tudo se decide na forma como a história é contada. Até para a semana.