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"We choose to go to the moon, not because they are easy, but because they are hard."
Roger, roll pitch.
"Cabeça na Lua" está no ar o programa da Rádio Observador dedicado à exploração espacial, com análise diária da missão Artemis 2. Estamos no oitavo dia desta missão, com os quatro astronautas já de regresso ao planeta Terra, já estão nessa viagem de regresso. Uma viagem que vai durar até o próximo sábado, dia 11 de abril. Nesta altura, a nave Orion está a cerca de 300 mil km do planeta Terra. Conseguimos dizer esse numeral certo, 326.137 km do planeta Terra. É esta a distância, à hora que falamos. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou conversar nos próximos minutos com o José Augusto Matos, astrónomo e divulgador da ciência, principalmente quando falamos de exploração espacial. José, muito bem-vindo.
Olá, Miguel. Boa tarde.
Vamos começar por mais um momento histórico desta viagem. Pela primeira vez, uma nave numa missão lunar conversou com outros astronautas que estão no espaço. Os quatro astronautas da missão Artemis 2 conversaram com quatro astronautas da Estação Espacial Internacional. Vamos escutar um pouco.
"Integrity", this is the International Space Station. How do you hear?
We have been waiting for this like you can't imagine.
I wanted to say a couple things to my astro sister, Jessica. I always hoped we would be in space again together, but I never thought it would be like this. It's amazing. And basically every single thing that we learned on ISS is up here. I'm so happy that we are back in space together, even if we are a few miles apart.
So I'm looking around the Integrity spacecraft right now. We're rehydrating some sweet and sour chicken. We've got some Pono with cream. It's all the same food. We want to know what are you eating? And we're going to mirror you today.
Aqui estamos a escutar um momento da conversa em que estão a falar sobre a refeição que estão a ter, porque a comida que está na Estação Espacial e a comida que está na Artemis 2 é muito semelhante. E depois há aqui, num momento da conversa em que cada uma das equipas a dizer aquilo que estão a comer nesse momento. Vamos continuar a escutar mais um pouco.
From the four members of the Spacecraft Integrity, we really want to just say our deepest appreciation to the seven members of the International Space Station. And this has been a true treat. It takes the entire world to do amazing things like this, and to get to come together as this group of people and talk for just a minute at these distances. We are all off the planet Earth right now, and we're all going to go home to that planet, and that is a very special thing. So thank you all for tying in.
E aqui escutámos a parte final desta conversa, em que os quatro astronautas da missão Artemis agradecem todo o trabalho dos astronautas da Estação Espacial, que é um trabalho que ajuda depois também em todas as missões tripuladas, como é o caso desta Artemis 2. Esta é a primeira conexão de rádio entre uma nave lunar e uma estação espacial, uma conversa entre astronautas. José Augusto Matos, aqui só escutámos um pouco, mas foi uma conversa longa e deu, de facto, para falar de muita coisa.
Sim, Miguel, como nós podemos ver pela gravação, estiveram a falar do dia a dia. Eu já agora aproveitava para também aqui comentar um aspecto sobre essa comunicação muito curioso, sobre o qual eu não encontrei explicação, mas que gostaria de partilhar convosco e com os ouvintes, que é: a conversa decorreu apenas com os astronautas americanos que estão na Estação Espacial e com a astronauta francesa que lá está também. Mas ainda há três tripulantes russos dentro da Estação Espacial que não tiveram qualquer interação ou qualquer conversa com a tripulação da Artemis 2. Ou seja, parece que houve aqui uma espécie de discriminação em relação aos russos, que de facto não participaram na conversa. Mas não sei a razão, enfim, realmente não houve uma explicação quanto a isso, mas de facto a conversa foi tida com os americanos e com a francesa que lá está. E falaram do dia a dia.
Sendo que essa astronauta francesa já tinha estado no espaço com a astronauta que está na missão Artemis, já tinham trabalhado juntas precisamente na Estação Espacial Internacional.
Não, Miguel. Esta astronauta que está no espaço, que é a francesa Sophia Arnault, é a primeira vez que ela está no espaço. Ela não tinha estado com a Christina Koch da outra vez.
Fiquei ficado com a cena, porque elas mostram aqui ter uma grande amizade. Mas nesta conversa, falaram de comida, falaram do trabalho e há esta parte final da conversa em que eles dizem que agradecem o trabalho que é feito na Estação Espacial. E de facto, a Estação Espacial já existe há muitos anos e vai alargando a cada momento que passa. Fazem muitos trabalhos, muitas experiências. Experiências que são importantes para depois facilitar este trabalho das missões tripuladas, certo?
Sim, e até é interessante referir que dos quatro tripulantes da Artemis 2, tirando o caso do astronauta canadiano que nunca tinha estado no espaço, os outros três americanos são todos astronautas que já estiveram na Estação Espacial e que tiveram uma experiência longa, nomeadamente a astronauta americana, a Christina, que tem o recorde feminino de permanência no espaço, os 328 dias que foram batidos na Estação Espacial. E de facto, a Estação ao longo do tempo tem sido um laboratório interessante em permanência no espaço e também na realização de experiências e que deu a estes astronautas que estão dentro da Artemis, deu-lhes no fundo a experiência de estar no espaço exterior e de estar até, nesse caso, durante longos períodos, porque a missão Artemis é uma missão de curta duração, são 10 dias. Mas de facto, na Estação Espacial, sim, aí eles tiveram uma experiência longa e são todos, vamos assim a quase dizer, veteranos destas andanças.
Sim. Vamos aqui ao plano para hoje. Este é o oitavo dia. A tripulação tem aqui na agenda hoje uma avaliação da capacidade da nave se proteger de eventos com elevada radiação, como, por exemplo, erupções solares. O que é que vão fazer ao certo os astronautas? Que experiência é esta?
Eu diria, antes de mais nada, que hoje o dia na nave Artemis, estamos a falar da estação espacial e já estava outra vez a ir para a estação espacial.
Na Orion.
Eu diria exatamente que o dia hoje na nave Orion é um dia pacato. Vai ser, de facto, um dia rotineiro. Eles vão fazer várias coisas hoje durante o dia. Essa questão da radiação tem alguma importância, porquê? Porque, de facto, nas futuras viagens à Lua, esse vai ser um risco sempre que os astronautas vão ter. Isto porque o Sol é um astro activo e é também uma fonte constante de partículas que são lançadas pelo espaço fora e que tem os seus dias mais activos e menos activos. Ou seja, numa futura missão, isso não aconteceu desta vez, mas numa futura missão lunar em que o Sol tenha um período de actividade muito significativo, há de facto um risco para essas tripulações de apanharem um excesso de partículas e de radiação também vinda do Sol. Esses aspectos vão sendo trabalhados agora ao longo do tempo e que são aspectos que no futuro vão, com certeza, colocar-se em futuras missões, porque uma coisa é nós estarmos, por exemplo, na estação espacial, em que estamos com a proteção do campo magnético da Terra, mas no caso destas missões lunares, não há proteção nenhuma. Esse é um dos aspectos que começa a ser trabalhado nestas missões e aqui como é uma missão experimental, também há essa preocupação. Haverá também algumas manobras hoje.
Eles vão ter aqui uma pilotagem manual da nave.
Exatamente.
Qual é a importância deste tipo de exercício também?
É importante porque a nave, embora esteja numa trajetória certinha em direção à Terra, ela fez apenas a primeira correção de trajetória mesmo agora há pouco tempo, mas de facto está dentro da trajetória prevista. O que é que acontece? Mesmo assim, eles durante a missão, isso já foi feito quando eles também iam a caminho da Lua, fazem estas pilotagens manuais para testar a capacidade de manobra da nave e como é que a nave se comporta em situações em que é necessário manobrar.
Como é que funcionam esses exercícios? Aquilo é durante pouco tempo, mas eles, pelo que eu percebi, são-lhes colocado algumas distâncias no visor, não é? Têm que manobrar a nave para um local e depois para o outro sem nunca perderem a rota.
Exatamente, ou seja, eles neste tipo de exercício manual estão a operar a nave e a experimentar a nave, vamos assim dizer, e a ver como é que ela se comporta quando está a ser manobrada ou melhor dizendo, quando são necessárias manobras que, por exemplo, não estavam previstas. Porque poderia acontecer uma situação qualquer em que a nave precisava de ser manobrada por uma razão qualquer, e eles testam esses procedimentos. São situações que eles já tinham testado quando foram a caminho da Lua e que agora estão novamente a testar, mas são situações que eu diria que poderão ser necessárias em situações de emergência. Ou seja, a nave na sua trajetória normal, a única coisa que ela faz, e que já fez agora mesmo há poucas horas, são as pequenas correções de trajetória. Mas se houvesse um problema qualquer, uma emergência qualquer na nave, em que fosse preciso passar para manual e que fosse preciso realizar alguma manobra diferente do habitual, eles também fazem esse treino, para quê? Para ver como é que a nave se comporta nessa situação.
E para eles também saberem fazer. É preciso saber fazer, exercitar.
Exatamente.
Estamos então numa situação de cruzeiro, no momento mais pacato desta viagem, foi a expressão utilizada por José Augusto Matos. Para fechar, aqui em 30 segundos, algo que devemos estar atentos nas próximas 24 horas?
Não, de facto não há nada de relevante nas próximas 24 horas. Ou seja, eles irão continuar a aproximar-se cada vez mais da Terra. A Terra agora a sua influência gravitacional está a sentir-se cada vez mais sobre a nave, a nave vai acelerando lentamente, e eles irão continuar com o programa. É claro que eles têm um programa diário previsto de operações e de procedimentos que eles vão fazendo durante o dia, mas irão continuar com esse programa e estamos a aproximar-nos cada vez mais de sexta-feira, que é o dia fundamental. Já agora uma nota curiosa, rapidamente, sobre a parte final. O barco de transporte anfíbio que vai estar depois no resgate já partiu da costa oeste norte-americana e já está no Pacífico, a fazer o seu percurso. Eu diria que neste momento a grande expectativa é de facto já em relação ao regresso, sexta-passado. Nós aqui vamos depois com certeza acompanhar, mas já será muito tarde, será no início da madrugada de sábado, mas de facto, neste momento a expectativa já estamos todos a pensar é na descida e como é que vai ser. No fundo, é isso.
E neste momento em que falámos, a nave avançou quase 500 km em direção à Terra. Continua essa viagem. É isso, vem muito rapidamente. Obrigado, José Augusto Matos.
De nada. Muito bom, Miguel. Até à próxima.
Voltamos a atualizar o andamento desta missão Artemis 2 amanhã. Até lá, acompanhe tudo na Rádio Observador e em observador.pt para não ficar com a cabeça na Lua.
"We choose to go to the Moon, not because they are easy, but because they are hard."