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Ladies and gentlemen.
Cabeça de Cartaz. A agenda e os agentes culturais em conversas a meio da tarde, para ouvir depois das 16:00, no Observador, com Nelson Ferreira.
"Comida Amarga". Eu prometi: quero um adeus, quero um final, mas Deus bem sabe o quanto eu rezei pra ser mortal como anjo. Nem eu disfarce no teu olhar, eu já venci, já não sou mais gostosa. Você causa triste em mim. Eu cato as sobras dos seus sinais. Eu sou a sobra junto com as sobras. Eu não sou mais. Eu prometi que nunca mais, que tanto faz, mas Deus bem sabe o quanto eu vacilo. Eu jogo o sol que é barroco e anti-séptico. Eu jogo o sol que acho um mar e no deserto.
Chama-se "Comida Amarga" e é uma das canções do último disco dos Carne Doce. Meus convidados esta tarde no Cabeça de Cartaz, julgo ter já ao telefone por esta hora o Mac Loes Aquino, guitarrista e um dos fundadores dos Carne Doce. Mac, muito boa tarde, estás conosco?
Sim, estou aqui. Muito obrigado, Nelson. Obrigado, é um prazer participar do programa e estar ao vivo na Rádio Observador. Muito obrigado.
Mac, é um prazer falar contigo. Quero dizer que os Carne Doce são uma das minhas bandas favoritas. Acho que precisam ainda de ser mais divulgados em Portugal, apesar dos últimos concertos em outubro, três passagens por Portugal, Porto, Coimbra e Lisboa. Ainda recordas alguma coisa desses três concertos no nosso país? Não foi há muito tempo.
Não, foi agora recentemente, em outubro passado, mas a gente também tocou em Torres Vedras e Aveiro, foi o último show.
Então ainda foram mais do que eu pensava, ainda bem. Como é que correram? Como é que viste a reação do público português? Esta é uma caminhada que se faz para os Carne Doce, também de uma certa internacionalização do projeto. Acho que 2019, nesse aspecto, terá sido um ano importante para os Carne Doce.
Foi. Acho que nesse sentido, foi o mais importante. Era um projeto antigo e a gente sempre pensou na necessidade de se conectar com Portugal por conta das letras. A gente acredita que as pessoas se filiam ao Carne Doce muito por causa das letras, então houve oportunidades de tocar em outros países que não de língua portuguesa, e não eram interessantes essas propostas, então a gente preferiu ir pra Portugal. E foi por isso que deu certo. As pessoas gostaram, a gente amou, superou muito das nossas expectativas e a gente tem planos de voltar todos os anos, se tudo der certo. É isso, a gente ama, a gente amou, a gente foi muito bem recebido, com muito carinho. A gente conseguiu esgotar algumas dessas casas, sendo a primeira vez que a gente tocou, então são todos sinais muito positivos mesmo.
Mac, queria tentar perceber contigo também para onde será a direção estética e sonora dos Carne Doce. Isto porque a banda está numa altura em que está a trabalhar num novo disco. Foi revelado há dias, "Temporal", já tem vídeo oficial, um belíssimo vídeo que podem ver pelo YouTube e que é a primeira amostra desse novo trabalho. O "Tônus" tinha, diria eu, um aspecto mais lascivo, sensual, até em algumas canções. Que direção é que vão tomar agora? Vai continuar a ser essa uma marca dos Carne Doce ou falamos de assuntos e de toadas completamente diferentes nesse próximo trabalho?
Não, eu acho que o "Tônus", apesar desses sentidos que você aferiu, tem um outro aspecto que é uma certa obscuridade, é um disco com canções mais subterrâneas, ele é um pouco mais escuro nesse sentido. E essas músicas novas, não. As músicas novas estão mais coloridas, mais solares. Elas são do dia, não são da noite, elas estão mais divertidas. A gente está tentando investir mais em ritmos. Essa "Temporal" é uma música mais dançante, imagino que qualquer outra música do "Tônus". Eu acho que a gente está mais por aí. As letras também não estão nesse sentido que você disse. Eu acho que a Salma, como a responsável pelas letras, está muito reflexiva, ela está lendo muito Dostoiévski e outros autores, e outras coisas. Então eu acho que as letras estão mais reflexivas, algumas mais filosóficas, mais diretas e, por outro lado, bem mais simples também, são canções mais curtas. De fato, a gente ainda não entendeu exatamente o que esse disco vai mostrar pra gente. A gente ainda está tateando o disco. Ele está aparecendo pra gente aos poucos.
Mac, esse disco já tem uma data ou uma altura prevista para lançamento? Isto até porque pela tua explicação, poderia ser um disco mais primavera, verão, não?
Será sim. A ideia é lançar em junho. A gente lançou "Temporal" agora, no mês próximo a gente deve lançar mais um single, no seguinte mais um single, e se preparar pro lançamento. E por enquanto, daqui a gente está tentando conversar com os nossos parceiros em Portugal e a ideia é que a gente consiga ir pra algum festival de verão e ampliar, ocupar mais espaços, se mostrar mais, se colocar mais à crítica, porque eu acho que é uma característica que vocês têm que eu sinto muita falta no Brasil. Vocês têm a crítica, pessoas trabalhando o ofício mesmo. É parte da vida, do trabalho em Portugal, você ser crítico de arte, de música. Aqui no Brasil, eu tenho a impressão de que isso se perdeu em algum lugar. Os jornais não estão investindo mais nisso, então a gente sente muita falta de crítica de arte, crítica musical.
Mac, o projeto Carne Doce também, não só no "Tônus", mas até nos outros trabalhos, sempre demonstrou também um certo olhar, uma certa tensão política e até social. No próximo trabalho e numa altura em que o Brasil também vive algumas convulsões a nível social, com uma sociedade um pouco mais dividida. Pelo menos é essa a imagem que passa nos meios de comunicação social. Sei que nem sempre poderão ser os mais realistas ou mais próximos da realidade, mas estas questões como a eleição do Bolsonaro, as divisões sociais, poderão continuar a fazer parte do trabalho de Carne Doce?
Sim. A abordagem política, na verdade, sempre foi pano de fundo. Por mais que a gente tenha algumas letras que coloquem o dedo nessas questões mais objetivas da vida política, o objetivo principal da Salma como letrista e como alguém que escreve, é emocionar, é tocar em outros tipos de sensações humanas, e a política não é o objetivo. Eu digo isso porque aqui no Brasil, você citou, realmente os jornais talvez não estejam dando conta dessa leitura, mas a gente sente que o mundo da arte está, assim como todos os outros espectros da vida familiar, profissional, a escola, a igreja. Acho que todos os aspectos da vida social aqui no Brasil estão muito tomados pela política. Então essas divisões estão tomando conta de tudo. É nesse sentido que a gente sente uma certa pressão de todos os lados pra que a gente assuma um lado, pra que a gente diga qual é a nossa bandeira ou que a gente milite. Existe uma leva de artistas jovens contemporâneos aqui no Brasil, independentes, que fazem música engajada, e a gente não tem problema com isso, a gente não critica isso, mas a gente não é isso. O nosso principal objetivo é manipular emoções e não ideologias. Então é nesse sentido que as coisas realmente estão muito nebulosas, muito confusas, e eu acho que em grande parte, por conta dessa luta, desse embate, um embate ideológico. O debate perdeu lugar pra uma briga de ideologias. A gente não pondera mais aqui.
Sim, um contra o outro. Um antagonismo completo.
É um antagonismo como se fosse torcida de partida de futebol.
Sim.
É assim, a discussão é essa.
Mac, muito obrigado por teres também entrado neste "Cabeça de Cartaz". Estava já há algum tempo para falar com os Carne Doce, também para dizer a todo o auditório da Rádio Observador que é uma das bandas que devem seguir com atenção do Brasil. Mac, pedia-te só uma última questão aqui no final. Assim como eu me deparei com Carne Doce há algum tempo, o Terno e o Tim Bernardes começaram também a vir a Portugal. Há outras bandas que se calhar eu ainda não conheço e que tu me sugiras para ouvir nos próximos tempos e que sejam mais ligadas a este movimento do indie pop rock do Brasil?
Sim, tem muitos artistas interessantes. Bom, eu posso citar quantos? Três?
Três, vá, pra eu apontar aqui.
Olha, tem uma artista que a gente gosta muito de São Paulo, ela se chama Luiza Lian. Lian, L-I-A-N. Luiza Lian. Ela é excelente, incrível. Tem uma outra banda que eu acho absolutamente elegante e superapurado, um som incrível. Eles lançaram um disco em 2018, apoiado pelo mesmo edital que apoiou a gente, que é o edital da Natura, que se chama Catavento. A banda se chama Catavento, é um disco de 2018. É uma banda que infelizmente eu sinto falta de circulação, mas é uma banda muito incrível, vale muito a pena ser ouvida.
Boa!
Enfim, Catavento. Por último, eu descobri um rapaz aqui em Goiânia, que é a nossa cidade, aqui no estado de Goiás, que se chama Adriel Vinícius, que parece um cantor de rádio antigo. Ele me lembra Gonzaguinha, não sei se você conhece Gonzaguinha.
Mas mais para o estilo crooner?
Eu não sei, porque ele é jovem. Então, apesar dele fazer essa leitura de cantores antigos de rádio, ele traz um frescor e eu estou muito atento a esse menino. Eu acho que ele ainda não gravou um disco e ele está merecendo muita atenção, ele é muito pequeno. É de Goiânia, Adriel Vinícius, esse menino.
Muito obrigado por essas sugestões. Uma pergunta rápida, só para terminar, que me lembrei agora. Tens também referências na música nacional? Sei que há muita música que chega do Brasil ao nosso país, em menos quantidade os portugueses penetram no mercado brasileiro, mas segues algum artista ou banda em particular aqui do nosso país que aches mais interessante? Ou com quem até poderias ter uma colaboração um dia, quem sabe?
Nelson, a gente acabou de responder uma outra entrevista para um jornal português, que a pergunta era a mesma, e a gente lamentou, porque não existe esse tipo de incentivo. A música cantada em português no Brasil é exclusivamente brasileira, parece que o mercado está muito tomado pela história. E o mercado é muito pulsante na música brasileira. Tudo que entra de música estrangeira aqui, que não é cantada em português, é em inglês. Realmente a gente tem uma carência muito grande de artistas portugueses e a gente fez essa turnê, a gente tocou com algumas bandas pequenas em Portugal, mas eu ainda não senti a expressão. Eu não consigo citar.
Esse é um trabalho que a música portuguesa tem de fazer, mas eu espero que tu também por ti consigas descobrir alguns dos novos nomes da música nacional. Talvez na próxima vez que cá venhas, e esperemos que seja este ano com as novas canções de Carne Doce, eu próprio te darei algumas sugestões de escuta da nova música nacional. Combinado?
Por favor, combinado. Eu agradeço muito mesmo a oportunidade de estar ao vivo com vocês e muito obrigado mesmo. A gente fica muito honrado. Obrigado, Nelson.
Obrigado. Mac Los Aquino foi meu convidado hoje no "Cabeça de Cartaz" da Rádio Observador. É um dos membros desta banda Carne Doce, tem single novo, com vídeo novo. É a primeira amostra de um novo trabalho que chega em 2020. Aqui fica essa nova "Temporal", no fecho deste "Cabeça de Cartaz". Olá, eu sou o Nelson Ferreira. Obrigado por ouvir. Se gostou, pode subscrever este podcast e se gostou mesmo muito, pode partilhá-lo. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto.