Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Com o Cabeça de Cartaz, vamos conhecer melhor o João Borges. "Boca Cheia" para João Borges. É nosso convidado hoje no Cabeça de Cartaz. Muito bem-vindo. Boa tarde, João.

Olá, muito obrigado pelo convite.

Um prazer, João. O João é um músico madeirense, vive agora em Lisboa, editou em janeiro este disco de estreia, que tem um título espetacular: "Uma Noite Romântica com o João Borges". Deixou-me muito curioso, até porque este single, "Boca Cheia", esteve em destaque há algumas semanas num programa que faço aqui na Rádio Observador, que é o Isto Não Passa na Rádio. Foi o Diogo Lopes que o trouxe e eu, desde então, que tenho andado a ouvir com alguma insistência este disco de estreia do João Borges. Disco que, olhando para o título, João, poderia ser um álbum de baladas, mas não é, pois não?

Sim, é um pouco esse o objetivo, de certa forma. Da mesma forma que a própria música faz isso, cria a expectativa e a seguir subverte-a, era o próprio título e a capa também transmitirem essa ideia, que depois descamba completamente. E foi muito influenciada por outro disco, que eu também gosto muito, de uma banda de música industrial, que são os Throbbing Gristle, que é música pesadíssima, e eles têm um disco chamado "20 Jazz Funk Greats" e não tem nada a ver com isso. Basicamente, queria transmitir essa mesma ideia, essa mesma mensagem.

João, este disco saiu em janeiro, mas não é um disco filho da pandemia?

Não, de todo. Este disco já estava a ser feito desde 2018, por isso atravessou a pandemia e a pandemia de certeza que afetou o disco e em grande medida, mas não foi de todo um produto dela.

João, no alinhamento, para além do "Boca Cheia", há uma canção chamada "Douradinhos". Este disco nasceu à mesa? Há aqui muitas alusões à comida e a refeições.

De facto, sim. No início, eu comecei a reparar nisso nos elementos recorrentes, principalmente na comida. E no que toca a este disco, houve muitas músicas que ficaram de fora. Houve umas 20.

Tinhas uma chamada "Costeletas de Borrego", que ficou de fora.

Exato. Por acaso tinha uma que se chamava "Salsicha". E é muito nesse sentido. Foi a partir desse momento em que eu tinha essa canção que eu percebi.

Parece tudo comida de estudante. Só faltava ter uma massa com atum.

Pois, exato. E, na verdade, faz todo sentido, sendo que eu sou estudante, deve ser a primeira coisa que me vem à cabeça.

Olha, não é muito fácil classificar este disco em termos de gênero. Ele toca tantos estilos. É isso um resultado também do teu próprio gosto musical?

Sim, sem dúvida. Eu acho que, em geral, a linguagem musical com que eu me identifico mais é a do pop. E, nesse sentido, eu vejo muito no pop essa abertura, porque o pop significa muitas coisas e mesmo dentro do chamado mainstream, o pop significa muitas coisas. E sim, de facto, o meu percurso musical começou logo no metal, por isso desde aí os meus ouvidos ficaram abertos para possibilidades mais pesadas e ao longo do tempo comecei, de facto, a ouvir coisas diferentes. E sempre tive esse interesse, nunca tive grande preconceito a esse nível. E deixei sempre que as coisas me afetassem e afetassem a forma como eu trabalho. Por isso, saiu não com uma intenção propositada de ser variado, mas sim como uma resposta natural ao que eu queria fazer.

Como é que nasce uma canção, João? Contigo sozinho à guitarra, ao piano, escreves primeiras letras?

Regra geral, eu gosto de começar com um conceito ou até a própria estrutura, pensar arquitetonicamente na canção, pensar no que ela concretiza na mensagem em geral, no aftertaste, de certa forma, e construir à volta disso, do gênero, só arranjar os acordes, uma melodia à volta disso. E na verdade, isso ajuda-me bastante a pensar qual vai ser o ambiente da canção. Muitas vezes é desta forma, de uma forma mais conceptual, mas também como qualquer outro compositor, também há muitas vezes em que eu me sento, de facto, ao piano ou à guitarra e vem uma ideia e daí parte uma canção. Regra geral, as letras são a última coisa que eu faço. Eu começo com uma estrutura geral, com os acordes, com a melodia e a partir daí escrevo a letra.

João, percebi que estudas em Lisboa, estudas jazz e música moderna nessa licenciatura. Estes estudos passam de alguma forma para a tua música ou são duas áreas bem distintas na tua vida?

Eu sinto que passam, mas não da forma mais óbvia, no sentido do som, do que nós associamos, por exemplo, a jazz, mas mais na abordagem. O que os meus estudos me permitiram, os estudos a nível da música, foi perceber diferentes abordagens, diferentes formas de pensar de diferentes compositores e músicos. Basicamente, permitiu-me retirar ideias do que eu gostava e de pensamentos de composição e, acima de tudo, de fazer decisões, tomar decisões, que é a parte que mais me fascina, porque há imensas decisões que nós podemos tomar em todos os processos, na composição, na produção, na própria mistura. Essa parte fascina-me e todos os meus estudos deram-me imensas perspectivas de como mesmo o próprio jazz e o pensamento jazz pode ser inserido em todas essas fases ou o pensamento mais, por exemplo, de compositores que joguem mais com elementos mais absurdos, como por exemplo, o Satie ou coisa do gênero, que me influenciaram muito, ou Debussy, mais no ramo do clássico, ou mesmo Bach, a nível de todas as vozes que eu ponho. Isso foi uma enorme influência para mim. Por isso os estudos foram bastante importantes e eu acho que a parte mais importante foi, de facto, na parte conceptual e na parte de ter as ideias bem fundamentadas.

Uma grande abrangência musical, João. O país está lentamente a desconfinar, vamos ter concertos para breve?

Espero que sim, estamos a trabalhar nisso e eu ainda estou incrivelmente para dar um concerto em Lisboa, onde eu estou a viver neste momento. Estamos a trabalhar para fazer a apresentação. E vai acontecer, de certeza, nos próximos tempos, por isso é estar atento para isso.

João, como é que isto acontece ao vivo? Com muitos músicos em palco contigo ou num formato até mais contido?

Ao vivo, eu tenho uma banda e nós somos cinco, dois guitarristas, um teclista, baixista e eu toco bateria e canto. Se bem que ao longo do concerto eu posso mudar de posição, posso ir para o piano, posso só cantar, mas sim, a minha posição base é tocar bateria e cantar. Regra geral, eu gosto de pensar nos meus concertos de uma forma um pouco de DJ set. Eu gosto da abordagem de um DJ set de ser ininterrupto e das pessoas estarem sempre a dançar e não haver pausas e não haver tempo para falar, sequer. Até porque a partir do momento em que comecei a experimentar fazer sets, comecei mesmo o DJing, é que essa abordagem fascinou-me. E tentei transpor isso para o contexto de concerto ao vivo.

João, ficamos à espera desses anúncios, dessas datas e desses locais. Gostava muito de te ver ao vivo. Tenho gostado de descobrir as tuas canções. Muitos parabéns por este disco de estreia. "Uma Noite Romântica com João Borges" é o primeiro longa deste músico madeirense que está agora a viver em Lisboa. Tenho andado aqui pelo bandcamp do João a escutar este disco. Belíssimo disco com belíssimas melodias, grandes backing vocals que tens ali, por exemplo, na boca cheia. Belíssimo trabalho e é um novo artista que vamos continuar também de ouvido nele aqui na Rádio Observador. João, muitos parabéns e até breve.

Muito obrigado de novo. Muito obrigado.

Olá, eu sou o Nelson Ferreira. Obrigado por ouvir. Se gostou, pode subscrever este podcast e se gostou mesmo muito, pode partilhá-lo. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM. 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto.