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Este é o "Tratar da Saúde" da Rádio Observador com o doutor João Marques Santos, médico de família da CUF. Falá, doutor, bom dia.

Olá, bom dia, Marijoy.

Quem nunca acordou com uma dor terrível no pescoço, quase sem conseguir virar a cabeça pro lado, que levanta a mão no ar. Doutor, o que se pode fazer em casa para aliviar este sofrimento?

Sim, os torcicolos são, de facto, uma queixa frequente. Eu próprio às vezes acordo assim. A boa notícia é que na grande maioria dos casos, o torcicolo é perfeitamente benigno e resolve-se em poucos dias. E que o segredo principal é não ficar completamente rígido.

É tentar não ficar.

Exatamente. Contrariamente ao que se possa pensar, mantermo-nos ativos e fazer alguns movimentos suaves com o pescoço costuma acelerar bastante a recuperação.

Porque eu tinha a ideia de que devia ficar quieta, sem mexer. E em relação a medicamentos ou aplicar frio e calor, o que ajuda mais?

Ficar parado é um erro relativamente comum, sendo que o ideal é irmos mexendo devagarinho e ajuda a melhorar a contratura muscular. No fundo, esticar um pouco este músculo que está contraído. Quanto ao resto, se não houver contraindicações, analgésicos simples, como por exemplo, um paracetamol ou anti-inflamatórios como o ibuprofeno, ajudam bastante a reduzir a dor e este espasmo muscular. Em relação ao frio e ao calor, pode aplicar calor local ou gel, o que lhe trouxer mais alívio. O calor tem uma ação relaxante e o frio com efeito anti-inflamatório. Se a isto juntarmos a tal mobilidade suave, portanto, com o calor e movendo devagarinho, ajuda a alongar este pescoço que está contraído. A todo o custo, evitar os colares cervicais, precisamente para não termos a tal rigidez que queremos contrariar.

E na hora de dormir ou de estar a trabalhar ao computador, há algum cuidado especial que devamos ter?

Sim, sobretudo à noite, tentar manter uma posição neutra, portanto, dormir com a altura do travesseiro para que a coluna fique o mais retificada e alinhada possível. Durante o dia de trabalho, evitar estar muito tempo na mesma posição e fazer pequenas pausas para alongar ligeiramente e suavemente o pescoço.

Ficou claríssimo. Mas diga-me, doutor João, há alguma situação em que este torcicolo possa ser sinal de algo mais grave que exija uma consulta médica ou até uma urgência?

Sim, há sempre alguns sinais de alarme que temos que procurar. Primeiro, se o torcicolo surgir após um trauma ou acidente. Pode haver ali alguma coisa que não esteja correta. Se vier acompanhado de febre, vômitos ou uma dor de cabeça recente, muito forte, com uma rigidez tão intensa que não se consegue encostar, sobretudo o queixo ao peito. Isto pode significar que existe algum quadro infeccioso de base. E se houver uma sensação de dormência ou formigamento, fraqueza ou se a dor descer pelos braços ou pelas pernas, vai sugerir que pode haver algum comprometimento do nervo e tem que ser investigado. Nas crianças, febre, dor ao engolir, dor de cabeça, é algo que nos deixa logo um pouco em alerta se tiver também alguma alteração da mobilidade do pescoço.

Então, e se não houver nenhum desses sinais graves, mas a dor simplesmente não passar?

Sim. Se a dor persistir mais do que sete dias ou se notar que está a piorar continuamente ao longo desses sete dias, deve ser avaliado pelo médico. E na consulta vamos avaliar as várias possíveis causas. Se houver a suspeita de alguma coisa um pouco mais complexa, eventualmente pedir algum exame de imagem, um raio-X, um TAC ou uma ressonância, e ajustar a medicação conforme necessário.

Ou seja, na grande maioria das vezes é só ter um pouco de paciência, tomar a medicação certa e não parar de mexer o pescoço. Movimentos lentos, não é?

Isso mesmo, Marijoy. É uma situação muito chata, que habitualmente não é um motivo pra alarme. Impacta muito no nosso dia a dia, mas estas medidas simples vão resolver a esmagadora maioria dos problemas e ajudar as pessoas a melhorar sozinhas.

Muito obrigada, doutor João. Até amanhã.

Até amanhã. Obrigado.