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Muito boa tarde. O cabeça de cartaz de hoje é Kezo. O rapper e produtor portuense está na Rádio Observador também para falar desta reedição do disco "O Revolver entre as Flores", mas com Kezo há sempre muitos motivos de conversa. Kezo, muito obrigado por ter vindo à Rádio Observadora, que agora também está na tua cidade, é 98.4 para o grande Porto.
O alcance invicta.
Kezo, vamos começar por olhar esta reedição. Tenho aqui o vinil de "O Revolver entre as Flores". Estávamos até aqui a falarem em off que não é bem o teu primeiro disco, não é?
Não, é oficialmente o meu segundo disco. O meu primeiro disco foi o "Rais de Partum", que foi um disco feito entre os 15 e os 16 anos, que saiu em 2013, e esse "Revolver" é o sucessor de um jovem um pouco mais crescido.
Olha, tu apesar de seres do Porto, durante os anos em que nasceu "O Revolver entre as Flores", estavas em Lisboa. É um disco meio lisboeta?
É um disco lisboeta em boa parte, mas mais do que isso, é um disco que mistura muito Lisboa com o Porto. O disco foi feito durante o período em que eu estive a estudar cá. Eu mudei-me para Lisboa com 18 anos, foi escrito e mesmo os participantes, a maior parte, são daqui, mas foi gravado no Porto. Portanto, é um misto. Tem músicos do Porto, tem músicos de Lisboa misturados.
Estas fotos são dessa altura ou são mais recentes?
Não. Essa sessão fotográfica foi feita uma semana antes deste disco sair, em vinil. É recente.
Da reedição.
Dois mesinhos. Dá para ver que eu estou mais bonito.
Sim. Este disco é de originalmente 2009.
O disco foi composto e gravado entre 2006 e 2009. O disco ia sendo gravado à medida que eu ia passando o fim de semana no Porto. E depois esteve quase dois anos na gaveta. Saiu em dezembro de 2011, por força e vistos dos meus amigos. Não, por força dos meus amigos, ele acabou por sair numa edição de autor e acaba por marcar a fundação da Paga no Quarto, que é a minha label aqui no Porto. Mas sim, o disco supostamente seria o último disco a sair pela Mata-Roa, se ela não tivesse fechado as portas entretanto.
A saudosa Mata-Roa. De alguma forma, este disco está a completar 10 anos, por assim dizer, pelo menos a fase em que foi terminada.
Não gosto muito de falar nisso, porque isso é datar as coisas e depois as pessoas pensam: "Ah, velhote".
O velhote.
"10 anos". Não, eu sou mesmo é muito novo, eu comecei a fazer música muito novo.
Com 15, não é? Tu já estavas. Olha, eu estava a falar dos 10 anos porque, por si só, poderia ser uma data que alguns artistas quereriam comemorar com uma reedição, que é o caso deste disco. Mas lembro-me perfeitamente que quando partilhas e quando partilhavas, e ainda partilhas músicas do teu anterior trabalho do KSX, parecia sempre alguém a perguntar-te alguma coisa sobre este disco em particular.
Sobre o "Revolver", é verdade.
E foi um pouco essa pressão do público, dos teus fãs, que também te fez lançar nesta reedição em vinil.
Sim, sem dúvida. O "Revolver" teve três edições em CD. Foi feita a primeira edição, fez mais duas reedições. Eles aparecem em segundos e é um disco que até há bem pouco tempo, numa daquelas polémicas de Facebook, sabe?
Um bife?
Não. Aqueles canais de vendedores de discos, colecionadores.
Eu lembro de partilhar dessa história.
Chegou a aparecer o "Revolver" com valor de mil euros.
Eu vou acabar com isto. Vou fazer uma reedição.
E eu fui sempre pensando nessa reedição, em mais uma reedição em CD, mas não sei, parece que ia estar a desvirtuar essa continuidade com a edição em CD. E prefiro deixar as que estão feitas.
E pelo visto valem dinheiro.
E quem as tem que as guarde. E passamos para formato, que é um formato que está um pouco na moda. Já dá para se ver que o vinil tem alguma ascensão nos últimos anos. A proposta acabou por ser feita pela Circus, que assina a edição. E sim, é um disco que para mim faz todo sentido tê-lo em vinil, sendo um disco tão querido para tanta gente, e ainda bem, fico feliz.
Há aqui várias participações, o Kwan, o Maze, o Sir Scratch.
DJ Chronic, Nervo.
O Chronic, o Sensei D. Como é que tu olhas para estas canções à distância destes anos? E há alguma que te tenha deixado particularmente mais orgulhoso de a ter composto?
Sem dúvida alguma. Ainda hoje estive com o DJ Chronic, o fundador da Rasca Crew, para lhe dar o disco pessoalmente e a minha faixa com ele, o Last Scratch, o Insólito, Kezone, é provavelmente a faixa que eu mais me orgulho no disco.
Como é que tu olhas também para este disco em relação ao KSX? Há aqui alguns paralelismos que se conseguem fazer?
Não.
São dois capítulos muito diferentes.
São dois capítulos muito distantes. O "Revolver entre as Flores" é feito numa fase da minha vida Eu sou um jovem à descoberta de Lisboa com 18 anos, cheio de espinhas na cara. É um disco que eu consigo olhar para ele e perceber que eu era muito mais livre, tinha muito mais ideias, estava mais solto, não era tão preocupado tecnicamente. Partilhava ainda mais do que aquilo que partilho, porque a KSX também é superpartilhado, mas o Revólver ainda mais. Marca uma fase criativa, uma fase de descoberta que eu acho que dificilmente algum dia voltarei a passar por isso. E o Revólver Entre as Flores acaba por ser isso para mim. É o nascimento do artista.
Onde é que este disco está disponível para quem o quiser comprar?
Se o disco ainda estiver disponível, está na Circus Network. Circus Network é uma loja, uma plataforma e um espaço coworking no Porto. Vende arte e vende discos. Podem encontrar facilmente no Instagram.
Conheci essa malta no Festival Iminente há dois anos.
Sim, somos fixes.
Eles estavam lá.
E as edições de discos do Porto, principalmente, discos importantes e discos novos vão continuar a existir. Sei que vem aí um disco novo do Minos, mais um, eles que editaram o último disco deles, instrumentais, e vem um disco muito especial do Sérgio Alves, que é o teclista que trabalha comigo no projecto Lu-Cargel.
Que bom!
E o Sérgio tem um álbum incrível.
E ele tem trabalhado com tanta gente, a Marta Ren.
Sim, está em todo lado.
Está em todo lado. E ele parece que é muito talentoso. Fiquei curioso agora para saber mais pormenores desse disco do Sérgio Alves. Kezo, dizíamos no início desta conversa, há sempre muitos mais assuntos para falar contigo. E puxando este capítulo do Revólver Entre as Flores, queria falar contigo também sobre a Paga-lhe o Quarto.
Estás sempre a falar em capítulo, porque precisamente o Revólver Entre as Flores é um capítulo do livro do Egip Randell, que é o Um Ninguém Cem Mil. É um livro muito interessante, de 1934.
Uau, isso eu aconselho. Foi aqui que foste buscar o título, então?
Foi lá que eu fui buscar o título.
Boa referência. Queria que me falasses da Paga-lhe o Quarto, que é o teu novo projecto, entre os teus novos projectos. Explica-me bem o que é esta estrutura.
Eu chamaria plataforma de lançamento de novos artistas e não label, porque não é feita uma discriminação dos artistas em função de determinado som ou determinada identidade ou personalidade. O objectivo da Paga-lhe o Quarto, que nasceu com o lançamento do Revólver Entre as Flores. Primeiro, paga-lhe o quarto porque nós somos a geração que andámos a trabalhar para pagar o quarto e deixámos de ser um bocado os rascas, passamos a ser esses trabalhadores meio precários. Acho que é a nossa fundação ou aquilo com o qual nós ficamos catalogados. E a Paga-lhe o Quarto, entretanto, retomou uma actividade mais forte. Esteve sempre marcada nos meus discos, no KSX, assinado pela Paga-lhe o Quarto, mas agora começámos a assinar outros projectos, outros artistas e finalmente a coisa está a andar para a frente. Em que é que se baseia a Paga-lhe o Quarto? De uma forma muito simples. Nós no Porto não temos tanta exposição aos mecanismos de profissionalização da música ou de distribuição, de marketing, o que quer que seja. E havia um gap gigantesco nessa parte tão importante da promoção dos artistas, de fazer os artistas chegar às pessoas. Durante o processo do KSX, como eu fui exposto, e sempre na primeira pessoa, a jornalistas, a marketeers, a todas as plataformas necessárias para se desenvolver música e fazê-la chegar às pessoas, esse know-how que eu, de certa forma, adquiri, eu estou a partilhá-lo livremente com novos artistas da cidade do Porto. E a Paga-lhe o Quarto vai apostar nessa parte, que é miúdos novos a fazer música, miúdos novos a fazer música muito interessante.
Muito para além do hip-hop.
Muito para além do hip-hop. Tenho mil e um projectos que estão aí para vir e tu vais perceber que a coisa vai em todos os aspectos. E a Paga-lhe faz o projecto chega, ou seja, chega à Paga-lhe o Quarto, seja de que forma for. Nós vamos olhar para aquilo que existe e vamos perceber se precisa de ser gravado em condições, se precisa de ser reproduzido, se é preciso adicionar novos elementos, a parte do design, a ideia da produção fotográfica, seja o que for, toda a parte gráfica do assunto. Depois entramos na parte da distribuição, qual é o planeamento, na parte da comunicação, também falamos sobre essa parte, que é muito importante. E chegamos ao fim e conseguimos ter projectos concisos de artistas novos a darem a cara pela primeira vez e a saírem numa plataforma que objectivamente consegue atingir muito mais gente e oxalá continue a crescer e consiga ainda atingir mais. Ou seja, o artista já sai, como eu diria no Porto, bombado.
Exato.
É isso, em vez de estar a fazer um upload musical. "Olá, tenho música nova" e chegar a 10 pessoas, de repente chega a 2 mil. E esse é o grande objectivo da Paga-lhe o Quarto.
Kezo, aqui na Rádio Observador já temos escutado o Apeito Banguela, que é uma música lindíssima que fizeste com o Lu-Cargel. De resto, já há um single que sucede a esse, o Senhor do Bom Feeling.
Era um skit, aquilo é um skit, passagem entre músicas.
Realmente parece um interlúdio.
Decidimos fechar o verão com o Lu-Cargel.
Como é que tem estado a correr esse trabalho? Fiquei muito excitado com essa possibilidade de termos cá fora um disco entre Kezo e Lu-Cargel. Vai acontecer em breve, então?
Ele vai acontecer. O Luca agora está a fazer uma tour no Brasil E o objectivo é até ao final do ano nós conseguirmos ter o disco terminado. Vai existir um disco, não sei se será um EP, será um LP. Tudo vai depender da velocidade com que conseguimos trabalhar e se realmente as músicas justificarem. Tenho a ideia de que o disco até no início, no primeiro trimestre do próximo ano, provavelmente estará cá fora. O objectivo também é sair em vinil. Se calhar em CD também vai ter que sair, mas ser mais uma edição muito especial, muito específica, porque são dois artistas muito diferentes, com imaginários muito diferentes.
Mas o Lu Cargel também é um tipo que tem um certo jogo de cintura, percebe-se que ele vai a vários géneros.
Ele mexe-se muito bem.
Estamos quase no final desta conversa. Queria ainda perguntar se tens andado a fazer alguma coisa na tua vertente mais audiovisual, que no fundo é a tua formação. Sei que estiveste na Palestina algum tempo, porque segui-te nas redes sociais sempre com conteúdos muito interessantes nessa zona do planeta. Esse trabalho teve a ver com esse teu lado mais cinematográfico?
Teve, ou seja, teve a ver mais com o lado de formação. Também acabou por ter um pouco a ver com o facto de eu ser o Kez, fazer música e estar sempre preocupado com algumas questões sociais e políticas. Eu fui para a Palestina como sound guy, ou seja, fui fazer o som de um documentário. Isso foi o que me levou lá. Depois é evidente que acabei por me envolver muito, procurei muito saber sobre o assunto, estar altamente informado acerca da forma como os próprios palestinianos veem o conflito, como é que ele se desenrola dentro do querer ser deles, como é que é a vida deles. O filme só estará pronto, acho que só no próximo ano. É um filme realizado pela Diana Antunes e produzido pela Balolas Carvalho. E quando cheguei também acabei por fazer um EP só com instrumentais sampleados da Palestina, ou seja, fui juntar o útil ao agradável. Se alguma vez sonhei em estar lá, acabou por acontecer. Estive lá um mês e meio e trago grandes recordações. E estou à espera que o filme saia, porque já nos convidaram para fazer algumas palestras e apresentações. Então estou só mesmo à espera que o filme saia para podermos começar a falar um pouco mais desse assunto.
Estou muito curioso.
É um assunto muito interessante.
Estou muito curioso com isso. Kez, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Muito obrigado por este "O Revolver entre as Flores". Belíssima edição em vinil que eu tenho aqui à minha frente com um belíssimo design.
"Go and catch it before it gone".
De facto está aqui a Circus Network, mas não tinha reparado nesta etiqueta. Muitos parabéns por esta reedição. Continuo à espera de músicas tuas novas, seja com Lu Cargel, seja um sucessor de KSX, que está prometido para qualquer dia. Tens feito coisas sozinho, só para terminar?
Sim.
Sempre a produzir.
Sim, vou fazendo. Estou muito concentrado a fazer um disco que vai sair agora no final do ano, com 20 MC's.
A sério? É um projecto Paga-lhe o Quarto?
It's a crazy thing. É um projecto Kez, Paga-lhe o Quarto, claro.
Ficamos à espera dessas novidades. Sigam o Kez nas redes sociais e pode ser que ainda consigam deitar a mão a um destes vinis de "O Revolver entre as Flores", o disco de Kez, que tem agora esta belíssima reedição. Kez, muito obrigado por teres vindo ao Observador e parabéns por estes trabalhos.
Até já.