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Caça ao Voto na Rádio Observador, o nosso podcast especial em tempo de campanha eleitoral, com a ajuda de Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador, e Rui Pedro Antunes, o editor de política. Vamos aferir quem anda a ganhar e a perder votos, isto com uma semana já feita de campanha eleitoral, estamos a uma semana do fim. Eu sou o Ricardo Conceição e vamos começar pelo Miguel Pinheiro. Miguel, bem-vindo. Quem é que andou hoje a perder votos?

Foi um defunto. Às vezes acontece isso.

Já.

Já houve eleições em que, infelizmente, por circunstâncias da vida... Mas aqui é um defunto já mais antigo, é Napoleão Bonaparte, que foi ressuscitado politicamente por Pedro Passos Coelho. Pedro Passos Coelho esteve na Amadora a apoiar a candidatura de Susana Garcia e eu imagino que tenha estado a pensar em qual seria o paralelismo histórico mais evidente quando se fala de Susana Garcia e, como é óbvio, lembrou-se de Napoleão. Ele disse que há coisas que só mudam quando nos pomos ao trabalho e quando acreditamos que elas podem ser diferentes. E depois Passos Coelho deu dois exemplos de uma aplicação prática deste princípio. O primeiro, Napoleão. Ele disse: "Eu não sei se as guerras napoleônicas teriam existido se eu, Napoleão..." Enfim, pelo menos esse nome não teriam tido, porque napoleônicas vem de Napoleão. E depois continuou dizendo que ninguém pode dizer o que é que teria acontecido se o Napoleão não tivesse nascido. De fato, está certo. E depois fez a ligação pra Susana Garcia dizendo que esse tempo propício à mudança pode estar acontecendo na Amadora. Portanto, a Amadora pode estar nas vésperas, para Susana Garcia, espero que não seja de um Waterloo, mas não sei. De qualquer forma, Napoleão ganha aqui uma nova popularidade na política portuguesa e eu acho que é merecida. Enfim, as coisas, de fato, não acabaram bem pra Napoleão. Ele morreu no exílio. Espero que Susana Garcia, caramba, ninguém lhe deseje isso, não é?

E só para os nossos ouvintes mais novos, que não são contemporâneos da Batalha de Waterloo, não é apenas uma música do Zaba, foi uma batalha em que os franceses perderam.

Sim, mas eu estava a me referir à música do Zaba.

Ok, obrigado pela clarificação. Rui Pedro Antunes, quem é que anda a perder votos?

Olha, Ricardo, na verdade, eu creio que, e agora pra preservar esta lógica, não vou conseguir fugir muito de Lisboa e Porto. Assistimos aqui a uma espécie de uma coligação entre o Miguel Corte-Real e o Manuel Pizarro pra dizer que Pedro Duarte está muito nervoso e que andou aqui à volta de prescrições médicas pra dizer que um precisa de Xanax e outro de Memofant. Eu não sei se isto prejudica diretamente Pedro Duarte, mas sei que um Chega forte e Miguel Corte-Real têm feito uma campanha sólida. E os dois a atacarem as fragilidades de Pedro Duarte ajudam a perder, eventualmente, votos. Por outro lado, eu acho que é importante pro governo ter conseguido ter um orçamento, acho que é importante pro governo falar de questões de segurança que tem falado e creio que isso favorece sempre os seus candidatos. Estou a dizer isto porque Pedro Duarte tem insistido muito na matéria da segurança. A minha grande dúvida, e acho que esse é o caminho certo, é se as pessoas vão preferir, no dia 12, a cópia ou a original, porque não cola muito com Pedro Duarte a imagem musculada e securitária. Portanto, isto é um perder votos com algumas dúvidas. Pra mim, acho que esta coligação informal Pizarro-Corte Real, à partida, prejudica Pedro Duarte, porque estão unidos a atacar o mesmo alvo. Enfim, acontece o mesmo em Lisboa, mas que é natural, porque têm interesses comuns. Menos votos no PSD podem ser mais votos no Chega, e mais votos no Chega podem dar a vitória a Manuel Pizarro. E, portanto, eu diria, assim de repente, pelas coisas do dia, que se tivesse que colocar alguém a perder votos, seria Pedro Duarte.

Miguel Pinheiro, vamos tentar perceber quem ganhou votos na tua opinião.

Quem perdeu votos, querias tu dizer, não é? Porque quem ganhou eu já disse, não é?

Exato, agora fiquei confuso.

Mas não, Ricardo, se eu estou aqui é pra te iluminar.

Obrigado, Miguel.

Quem perdeu votos-

Quem perdeu, neste caso, fui só eu e nunca tu.

Não. Ora, muito bem.

Subtil.

Foi muito subtil. Quem perdeu votos hoje foi André Ventura, porque André Ventura e o Chega têm tentado criar a ideia de que houve uma negociação secreta com a AD na Lei dos Estrangeiros. André Ventura diz que não aceita que há reuniões à porta fechada, já disse isto, que só se reunia com os jornalistas a saberem tudo, mas aqui dá-lhe jeito dar a entender que o Chega aprovou a Lei dos Estrangeiros, não conseguiu grande coisa com a Lei dos Estrangeiros, mas que houve uma promessa nos bastidores de alterar as possibilidades de acesso a apoios sociais por parte de imigrantes, que o governo terá feito uma promessa de que iria mexer nisso noutra legislação. E Leitão Amaro hoje foi muito claro Disse que o governo não assumiu nenhum compromisso, nem agora nem no futuro, de proibir o acesso a apoios sociais por imigrantes. Disse que o governo entende que isso seria inconstitucional e que, por isso, isso não vai existir em lado nenhum. Isso deixa André Ventura numa posição de alguma fragilidade. Ele hoje já usou aquilo que é o único argumento que pode usar. Ele disse: "Então, mas preferiam que não houvesse lei de estrangeiros? Nós tivemos que aprovar aquilo, porque senão não havia lei de estrangeiros". É verdade, ele ficou numa situação difícil. Agora, não pode é dizer que teve uma grande vitória. Isso não pode. E por isso, aquele que podia ser um tema de campanha do Chega, foi neutralizado por parte do governo e até, como estamos a ver no Porto, como disse o Rui Pedro, até temos candidatos da AD, que são candidatos de uma direita fofinha, como é Pedro Duarte, a falarem em segurança e a endurecerem o discurso pra tentarem retirar margem de manobra ao Chega.

E agora só pra baralhar as contas, quem ganhou?

Olha, mas vais ver que isto fez sentido e foi de propósito.

Isto está tudo de um lado.

De um lado, naturalmente.

Ninguém aqui está a improvisar.

Pra mim, quem ganhou votos pela mesma razão é o Luís Montenegro, ele vai se voltar a juntar à campanha. Eu tenho dúvidas que ele seja um grande ativo eleitoral, como em 2021 parecia ser António Costa, que andou na estrada com os candidatos todos e ia falar com o PRR no bolso a dizer: "Eu faço esta ponte aqui e aquela viaduto ali". Acho que Luís Montenegro não tem bem esse perfil e se calhar não é um trunfo tão grande como António Costa, mas ele vai pra estrada este fim de semana e pelo menos até segunda-feira volta a ser ele a figura principal, portanto, chama a si a volta. Creio que isso pode dar alguma moral. Por exemplo, falava há pouco Pedro Duarte no Porto, ou vai estar com ele, de certeza que se vai envolver na campanha de Carlos Moedas em Lisboa. E acho que apesar de tudo, não tendo eu a certeza que ele é um ativo eleitoral, o fato do primeiro-ministro estar presente é importante para puxar. E no meio disso, por isso é que ele ganha votos também, consegue ter aqui um orçamento que quer o governo estar a tentar desdramatizá-lo e não fazer grandes casos disto e a querer negociar com todos e falar com todos para que o orçamento seja aprovado e poder seguir em frente. E o mesmo acontece com outras pequenas matérias que vão passando aqui, como por exemplo, nós vimos que entretanto já foi anunciado, foi confirmado o CTO, o governador do Banco de Portugal. Parece que não, mas o país continua a andar. E aquilo que poderá ser melhor pra Luís Montenegro é passar por estas autárquicas e poder continuar sem grandes problemas, porque este governo tem tido tudo, menos estabilidade política. Até já foi a votos uma vez no espaço de um ano e, portanto, Luís Montenegro ganhará com o fato de se envolver nestas autárquicas e depois, claro, tem que as ganhar pra se confirmar este ganhar votos, porque parece-me que é muito imprevisível o desfecho da noite eleitoral. Eu não me recordo nos últimos anos de autárquicas que fossem tão imprevisíveis à partida, porque depois o resultado de Carlos Moedas acabou por ser imprevisível há quatro anos, mas não se esperava que fosse o Moedas.

Foi já madrugada adentro que praticamente se soube nessa noite. E este fim de semana, Rui Pedro, marca um arranque mais intenso da campanha? Vamos assistir uma intensificação das ações de campanha?

Sim, o fim de semana do meio tem essa particularidade, do meio, porque a campanha normalmente começa ou domingo, à segunda, e neste caso começou à terça, de duas semanas antes do dia da votação. E o fim de semana do meio é importante porque são no fundo os últimos cartuchos. Então há um investimento dos líderes no fim de semana. E este vai ser assim, não vai fugir à regra. E por que o fim de semana é importante? Porque as pessoas têm mais disponibilidade pra ir a eventos partidários. Portanto, aquela política antiga da mobilização, de se a sala tá cheia, se tá vazia, ainda conta muito no momento das pessoas de ir votar. As pessoas gostam de estar com quem está em altas, com quem ganha, com quem está bem. Ter uma sala cheia a nível local ainda conta. Claro, conta muito a imagem das pessoas que têm dos candidatos, mas ter salas cheias, ter força, ainda conta nas eleições a nível local. E nesse aspecto, os líderes vão tentar contribuir pra isso, sendo que é sempre importante, como eu dizia há pouco, ter os líderes no local.

E Miguel Pinheiro, pegando nisso que o Rui Pedro estava a dizer, é fundamental ainda as caravanas aparecerem nestes jantares, nestes comícios, ou seja, no tempo das redes sociais, esta parte da campanha continua a ser fundamental para os partidos e para os eleitores?

Por um lado, isso serve. Se houver profissionalismo, serve para depois ir alimentar as redes sociais, que precisam de imagens e de coisas a acontecer. É difícil fazer campanha nas redes sociais quando depois no país real não está a acontecer nada. E especialmente nas eleições autárquicas, nós vemos num país como os Estados Unidos, um país gigantesco, é feita uma campanha porta a porta.

Porta a porta, exato.

De fato. Ou seja, mesmo com todos estes modernismos, nos Estados Unidos, onde a política é muito profissional, os candidatos fazem campanha porta a porta, mais ainda em eleições locais. Aliás, tivemos em Nova York, recentemente, as eleições primárias pra escolher o candidato do Partido Democrata às próximas eleições locais e

O candidato surpresa que acabou por vencer essas primárias fez uma campanha muito porta a porta. Aqui, estranhamente, pelos vistos, isso provoca fastio nos candidatos, temos assistido em Lisboa a Carlos Moedas, que não parece com grande vontade de sair de casa, calçar os sapatos e fazer-se à estrada. Se calhar, já estamos a começar a ver uma mudança nisso. Talvez as sondagens o obriguem a mudar ainda mais nos próximos dias, porque sim, é importante apertar as mãos das pessoas, falar com as pessoas, ouvir as pessoas. Isso na política local é absolutamente fundamental. Por isso, vamos ver como é que nos próximos dias, para onde é que as campanhas vão evoluir.

E depois da análise, avançamos para a estrada, ao encontro dos nossos jornalistas que estão a acompanhar as diversas caravanas. Rumamos a sul, onde o Vasco Maldonado Correia tem estado a acompanhar a caravana de André Ventura e a esta hora está a arrancar uma arruada em Faro. Vasco, o Chega joga bastante nestas eleições. Qual é o grau de confiança?

Alto, Ricardo, muito alto. Há pouco ouvimos aqui o Rui Pedro Antunes dizer que Luís Montenegro pode ou não ser um grande ativo eleitoral nas ruas, mas André Ventura é de certeza, e eu creio que nos próximos momentos, talvez até durante este direto, se possa já fazer sentir esse entusiasmo, porque esta arruada estava marcada para às 17h. Entretanto, atrasou um bocadinho e estão aqui dezenas de pessoas coladas à rua à espera que chegue aqui o presidente do Chega. E essa popularidade, esse boost de confiança que André Ventura dá é incomparável ao que dão os candidatos do Chega, seja a que conselho for, e especialmente aqui, essa diferença é importante, porque em Faro o candidato é o líder parlamentar do partido, ou seja, uma figura também que seria, na teoria, importante para dar essa confiança aos eleitores. Mas como dizia, há muita confiança e arrisco dizer que dos mais novos até aos mais velhos. De manhã estivemos também em Albufeira, onde o Chega também tem fortes possibilidades de conquistar a Câmara Municipal e entre os mais novos, por exemplo, falamos com vários estudantes que diziam que tinham faltado às aulas de propósito para marcar presença nessa ação de campanha para ver André Ventura presencialmente. Quando ele chegou, até lhe perguntavam se o líder do Chega estava disponível para lhes justificar as faltas. Entre os mais velhos, houve uma situação também caricata, mas que creio que ajuda também a exemplificar esse entusiasmo. Já quando André Ventura se estava a despedir da população de Albufeira, houve uma senhora de mais idade que se conseguiu imiscuir no meio daquela luta incessante de microfones entre os jornalistas, tudo para poder tirar uma fotografia com André Ventura e chegou mesmo a tocar no ombro de uma das nossas colegas enquanto ela segurava o microfone e pediu para tirar essa fotografia, um pouco indiferente a todo esse aparato que a rodeava. Ou seja, a presença de André Ventura dá esse grau de confiança, esse grau de entusiasmo, especialmente aqui numa região em que o Chega-

Ou seja, não basta estar nos cartazes, é preciso aparecer também.

Sim, é preciso aparecer também. Claro que acompanhando aqui uma ação de campanha do Chega, e nós temo-lo feito, em que André Ventura não está, também não se sente uma taxa de rejeição. Aliás, as pessoas aceitam bastante bem os candidatos, o contacto com os candidatos, mas entusiasmo só mesmo André Ventura é que consegue dar aqui às ruas do Algarve.

Obrigado, Vasco Maldonado Correia. Vamos ao encontro de outro jornalista da Rádio Observador, que está na estrada. O Miguel Viterbo Dias tem estado a acompanhar Carlos Moedas. E Miguel, podemos dizer que o presidente e candidato finalmente saiu à rua?

Sim, tenho estado na estrada, mas pouco, porque Carlos Moedas não tem proporcionado. Não se pode dizer que saiu pela primeira vez à rua hoje, nesta sexta-feira de campanha, porque Carlos Moedas tem feito ações de rua, só que não as comunica à comunicação social. Dá apenas conta disso junto das estruturas locais. Portanto, cada freguesia tem organizado contactos com a população, conversas com o presidente, mas não são propriamente divulgadas. E hoje Carlos Moedas sentiu necessidade de dar esse sinal. Tudo bem que havia ali um leitmotiv também que era necessário ter para trazer Mariana Leitão, líder da Iniciativa Liberal, à campanha. Juntou-se hoje numa pequena arruada entre o Campo Pequeno e o Saldanha. Digo pequena porque àquela hora, cerca de meio-dia, não havia muitas pessoas para contactar na Avenida da República, muitas ainda em horário de trabalho, muitos também turistas e por isso contacto com população e sobretudo com eleitores foi pouco. Carlos Moedas até foi tentando e ia metendo conversa com quem conseguia, mas depois também se ouviu o presidente da Câmara desabafar com Mariana Leitão, quase como que a justificar o facto de não haver muita população para contactar, que preferia ter este tipo de iniciativas sem a comunicação social, porque cria uma barreira grande no contacto com as pessoas. E daí também essa escolha de não divulgar todas as ações de campanha que tem tido ao longo desta semana, e muitas têm sido na rua, porque depois podemos ver, lá está, nas redes sociais, esse tipo de resumos da campanha. Hoje saiu à rua com Mariana Leitão ao lado. Veremos também se o vai fazer ainda com Nuno Melo, que é o parceiro de coligação mais antigo, e sabemos que existiu aqui um braço de ferro na constituição das listas e no acordo de coligação para ver em que lugar é que é a Iniciativa Liberal e em que lugar é que é o CDS. Fez questão de sair com a Mariana Leitão à rua. Veremos se depois dará também o mesmo palco e o mesmo peso ao outro parceiro, neste caso, os centristas. Depois deste contacto com a população de manhã, para daqui a pouco está marcada uma iniciativa também sempre inovadora e dinâmica, uma festa da juventude, um contacto com jovens. Sexta-feira ao final da tarde, na zona de Belém, em Lisboa. Vai estar presente o antigo deputado da Iniciativa Liberal, Bernardo Blanco, portanto aqui mais uma vez também os liberais a conseguirem algum palco. Também o líder da JSD, João Pedro Louro, e será um momento mais descontraído.

Um drink de fim de tarde.

Um drink de fim de tarde, exatamente. Estava marcado desde o início da semana e que também só foi acrescentado à agenda pública, digamos assim, ontem à tarde, numa atualização da agenda do presidente. Por isso, não sabemos se será pelas sondagens, se será pela necessidade de criar uma dinâmica diferente na campanha, mas o que é certo é que Carlos Moedas acrescentou ações de campanha públicas, está a sair à rua e necessita de mostrar também uma capacidade de mobilização diferente face àquela que teve no início da semana, aquele comício de arranque que teve meia casa. Desta vez, hoje no Campo Pequeno, já foi possível ver muita gente do partido mobilizada, muitas pessoas na rua a acompanhar o presidente e por isso estas sondagens que vão colocando Carlos Moedas com a possibilidade de não ganhar, podem também estar a servir para fazer esse favor à campanha e à candidatura, que é mobilizar aqueles que têm que ir pra rua. E isso vive também muito em Lisboa, que tem muitas freguesias, vive muito dessas pequenas estruturas locais.

Obrigado, Miguel. Miguel Viterbo Dias, a acompanhar a candidatura de Carlos Moedas. Até ao final desta campanha eleitoral, vamos ter aqui na Rádio Observador, de segunda a sexta, entre 17h30 e 18h, o Caça ao Voto. Afinal, quem anda a ganhar e a perder votos?