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Caça ao Voto na Rádio Observador, o último destas presidenciais. Foi uma maratona de mais de um ano que vai terminar neste domingo nas eleições. Impõe-se, por isso, um episódio de balanço no Caça ao Voto. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E conosco estão, como sempre, o Miguel Pinheiro e o Rui Pedro Antunes. Bem-vindos. Miguel Pinheiro, quem ganhou votos na campanha eleitoral?
Acho que se formos olhar dessa maneira, quem foi ganhando votos foi André Ventura. Mas não muitos, poucos. Olhando para as sondagens, que é aquilo que nós temos, aqui há um elemento de indefinição nas sondagens que tem a ver com a distribuição de indecisos. Algumas sondagens fazem distribuição de indecisos, outras não fazem, com o argumento de que não há um histórico que nos permita prever com o mínimo de segurança por onde é que os indecisos vão. E, portanto, os valores vão variando consoante a casa de sondagens que consultamos. Agora, André Ventura, em princípio, conseguirá uma votação melhor do que na primeira volta. Com certeza, António José Seguro também. Aqui estamos a falar de percepções. Mas aqui a grande dúvida é se fica, em termos de percentagem, alinhado ou acima do valor da AD nas últimas legislativas. António José Seguro tem tido alguma dificuldade em segurar os votos com que partiu para esta segunda volta. As sondagens mostram que tem havido, de forma consistente, eleitores a saírem de António José Seguro para irem engrossar os votos nulos ou em branco. As sondagens dão a entender que poderemos ter um número muito substancial de votos nulos e em branco, o que será também uma expressão de descontentamento, de pessoas que não se veem em nenhum dos dois candidatos.
Rui Pedro.
Concordo em absoluto com a ideia de que se alguém ganhou votos, foi André Ventura. Agora, há sempre uma perspectiva de aqui nas presidenciais, em particular numa segunda volta, "the winner takes it all". Ou seja, o André Ventura não vai eleger senadores para um Senado ou lugares para a Casa Civil. Portanto, na verdade, a votação que ele terá é para aproveitar em eleições futuras, e nem sequer são presidenciais, porque daqui a cinco anos já não será essa a ideia dele e vamos ver se não é na altura, daqui a cinco anos, o primeiro-ministro, que é algo que não é um cenário distópico, mas é um cenário bem real, olhando de forma fria para aquilo que tem sido o crescimento do Chega, em particular todo o processo de afirmação de André Ventura no espaço público e no espaço político. Dito isto, olhando para o nosso Radar das Sondagens, que não só tem a tal sondagem diária, como foi tendo outras sondagens que têm outro tipo de metodologia, nós à partida, logo a seguir nos três dias seguintes, desde a primeira sondagem estávamos a falar de 71,3, porque nós no Radar das Sondagens distribuímos os indecisos, e de 29,5. Esses 71,3 passaram a 67,4 e os 29,5, neste momento estão em 32,6. O que significa que, sensivelmente, António José Seguro perdeu três a quatro pontos e André Ventura ganhou três a quatro pontos. Estou a arredondar por alto, mas a ideia é que efetivamente um subiu e outro desceu. Claro que não chega, claro que António José Seguro partia de uma base muito segura e foi perdendo votos, mas também é certo que começou a campanha a falar de uma legitimidade reforçada, como se estivesse numa espécie de altar. Ele que é um bocadinho da discussão e da intelectualidade, podemos até chamar de uma torre de marfim, e foi forçado a descer dessa torre de marfim nesta segunda volta, porque de facto as coisas não acontecem só por si. E nesse sentido, eu acho que neste momento António José Seguro só quer vencer a eleição para depois então mostrar o seu modelo de presidente e tentar a reeleição de uma forma mais contundente. Agora, André Ventura está a fazer o caminho dele e ir subindo em percentagem é o que mais lhe pode convir para aquilo que eu acho que é o grande objetivo dele, e que nem sequer é assim escondido, que é ser primeiro-ministro de Portugal.
Mas recuando aqui, talvez ao início dos tempos destas presidenciais, ao tempo em que André Ventura não queria ser candidato e ao tempo em que Pedro Nunes Santos atirou com uma série de nomes para o ar, incluindo António José Seguro, António José Seguro não é o grande vencedor destas eleições.
Sim, foi um bocadinho Mário Soares, nesse sentido. Mário Soares em 86 começou com sondagens absurdamente baixas e depois a pouco e pouco foi conquistando a esquerda. E António José Seguro realmente também começou no início Acho que as pessoas olhavam pra candidatura dele como sendo uma espécie de capricho de alguém que tinha traçado um plano de se candidatar a presidente nesta altura e que estava simplesmente a cumprir burocraticamente o plano. E a verdade é que dia após dia, semana após semana, mês após mês, os adversários foram caindo. Acho que eu vali, acho que António José Seguro, houve um momento que foi decisivo para ele chegar até aqui, que foi o momento em que o almirante Covilhã e Melo, ou alguém por ele, o almirante Covilhã e Melo se convenceu, ou alguém o convenceu, de que o grande objetivo que o Covilhã e Melo tinha nesta campanha não era vencer, era derrotar Marques Mendes. Houve ali um momento qualquer em que ele meteu na cabeça que não sei.
Pensava que o caminho era por aí.
Não faço ideia. Ele, de fato, estava rodeado de ex-PSDs e PSDs que odeiam Marques Mendes, mas ele meteu na cabeça que a sua missão era não permitir que Marques Mendes chegasse a Belém, em vez de ter como missão ele próprio chegar a Belém. E ele não se importou de ir ao fundo, desde que levasse atrás Marques Mendes. E esse momento, essa decisão foi muito importante pra que António José Seguro ficasse com o caminho livre para ir buscar aquele eleitorado que estava à procura, um eleitorado do PS, um eleitorado à esquerda, que estava à procura de um presidente mais previsível e depois a partir daí, o caminho fez com a mais natural Rei Pedro.
Sim, na verdade, olhando há um ano, António José Seguro era quase uma personagem secundária, era todo o PS a querer outra personagem qualquer pra o apoiar. Fosse até um independente, fosse Sampaio da Nova, fosse Mário Centeno, que saiu cedo da corrida, mesmo parecendo andar a mexer cordelinhos pra isso. Se calhar, só mexeu pra depois o governo lhe dar apoio pra o BCE ou pra tentar alguma coisa desse gênero. Uma coisa boa das personagens políticas é que estão sempre à nossa frente, porque eles sabem efetivamente aquilo que pensam e nós só tentamos adivinhar. Depois outras figuras que tinham dificuldades até ganhar na própria freguesia, como Augusto Santos Silva, etc. Isto a julgar pelas sondagens, não estou fazendo nenhum juízo com base no que está na cabeça das pessoas, mas que não tinham uma relevância pra serem candidatos, ou pelo menos as sondagens não lhes davam isso. E António José Seguro, de fato, fazendo esse caminho, olhando a toda a campanha, a forma como ele arrumou o almirante Covilhã e Melo, o Marques Mendes, arruma no sentido em que a alternativa à Ventura começou a ser muito ele pra muita gente. Claro que também teve contributos. Como é que seria a eleição sem o Cotrim avançar? Será que Marques Mendes chegaria lá e teria mais votação do que teve, por exemplo, André Ventura e agora estamos a falar de uma segunda volta completamente diferente, em que a bipolarização esquerda-direita favorecia muito mais Marques Mendes do que propriamente António José Seguro, e mais do que favorecesse André Ventura nesta segunda volta.
Aos mesmo Cotrim e Seguro, não é?
Ao Cotrim e Seguro, exatamente. Mas olhando a tudo, obviamente que António José Seguro é o vencedor, porque chega como o mais bem posicionado a vencer a eleição domingo. Mas esta campanha da segunda volta, e sendo o final do caso ao voto desta segunda volta, não podemos deixar de dizer que António José Seguro, tudo que podia acontecer de imprevisível, não vou dizer que é de mal, não foi a lei de Murphy, porque não foi direcionado a ele, não lhe aconteceu nada especificamente a ele, mas à volta dele, tudo que podia ser imprevisível aconteceu. Grandes desastres naturais ou grandes tempestades que afetaram o país, a ideia até da eleição ser adiada em determinados locais, a maneira como teve que readquar totalmente a agenda de campanha, quando ele era o principal beneficiado, caso as coisas tivessem seguido o seu rumo normal. Podemos dizer que ele poderia ter contrariado isso. Se calhar era impossível, mas que podia ter feito mais do que efetivamente fez, isso sem dúvida. E as sondagens, apesar da perda não ser significativa, nem o ganho do adversário ser significativo, mostra que António José Seguro se calhar devia ter encarado esta segunda volta de outra forma, principalmente se queria ganhar com a tal maioria reforçada, que se calhar pode vir alguém dizer, sei lá, o presidente do Conselho Europeu ou alguém assim, dizer que a vitória ainda é poucochinho, mesmo que o próprio presidente do Conselho Europeu já tenha dito que vai tentar contribuir pra essa vitória.
E agora quem perdeu, Miguel? Agora já é difícil fazeres essa contabilidade depois de já teres dado o que ganhou e perdeu, não é? Sim, mas acho que António José Seguro mostrou dificuldade em mobilizar com grande entusiasmo os votos de que precisa pra ganhar. Claro, teve manifestos de figuras da área não socialista a apoiá-lo, teve uma procissão de figuras importantes do PSD, do CDS, da Iniciativa Liberal também a declarar apoio com maior ou menor dificuldade, teve isso tudo, mas está muito longe de ser alguém que entusiasmou essa área política. Acho que ele, de fato, não pode confundir as coisas. É evidente que na segunda volta há sempre uma escolha do mal menor Mas aqui essa escolha de mal menor é muito mais acentuada. Vai ser interessante perceber que interpretação ele vai fazer dos votos que tiver no domingo. Se ele vai sentir que tem força para se impor, seja ao governo, seja a outros actores políticos, ou se ele vai ter noção que tem alguma fragilidade. E nestes cinco anos vai ser muito interessante perceber se esta pode ser a primeira vez na história, não me querendo adiantar demasiado, em que temos um presidente que cumpra apenas um mandato. Porque a forma como estão dispostas as forças políticas neste momento não o beneficiam para conseguir um segundo mandato. Seria preciso, de facto, que acontecesse uma coisa à Mário Soares, em que o PSD decidisse apoiá-lo numa segunda volta. Pode acontecer. Pode dar-se o caso.
Isso se o PSD ainda tiver força daqui a cinco anos.
Como já vimos, se em cinco semanas tudo acontece, quanto mais em cinco anos.
Deixa-me só uma pergunta muito rápida: qual é a percentagem que tu achas que António José Seguro sai desta eleição com menos poder?
Abaixo de 60%. Acho que a barreira psicológica é dos 60%. Abaixo de 60% acho que seria uma pequena desgraça.
Fica feita a análise sobre quem andou a ganhar e a perder votos, com o Rui Pedro Antunes e o Miguel Pinheiro, aqui no Caça ao Voto. E como sempre, também vamos para a estrada. Vamos encerrar aqui a campanha eleitoral ao encontro dos jornalistas que estão a acompanhar as caravanas dos candidatos.
E vamos começar pela campanha de André Ventura, que está a ser acompanhada pela Inês André Figueiredo. Inês, olá, onde é que estás agora?
Estou neste momento num grande armazém em Alcácer do Sal, um ponto de recolha de bens essenciais onde a comitiva de André Ventura está a entregar bens para as vítimas da tempestade e das cheias aqui na região.
Ora, aqui chegados na caravana de Ventura, como é que se responde à pergunta: valeu a pena?
É difícil responder à pergunta, mas diria que valeu a pena, desde já porque André Ventura teve a possibilidade de fazer esta campanha eleitoral, porque estas duas semanas significaram uma passagem histórica à segunda volta e porque permitiu colocar-se como o representante da direita frente a um ex-líder do PS. E essa foi a estratégia montada para toda a segunda volta, posicionar-se como o líder da direita, mostrar que só há uma alternativa ao socialismo e mais tarde usar a narrativa das elites contra o povo e posicionando-se como representante desse povo contra as castas. Tudo isso que estava previsto e que funcionou entre a primeira volta e a segunda, foi completamente cancelado pela realidade, pelas tempestades que têm devastado várias zonas do país e que levaram a um André Ventura com outra postura, que até chegou a pedir o adiamento das eleições, justificando esse pedido com o sofrimento das pessoas, e que na verdade, nesta fase final da campanha, é exatamente com esse trunfo que tenta atacar António José Seguro, colocando o único oponente nesta segunda volta como alguém que além de não ter ideias para o país, e foi repetindo inúmeras vezes esta narrativa de que António José Seguro não tem essas ideias, mas também que não tem empatia pelas pessoas. Só uma nota final para dizer que André Ventura acabou por se descair esta manhã antecipando uma derrota, quando disse que as atitudes de António José Seguro mostravam bem o tipo de presidente que Portugal vai ter. As sondagens já o dizem, mas parece que André Ventura também está consciente de que esse resultado pode mesmo acontecer no domingo.
E onde é que vai ser o encerramento, Inês?
Tal como foi toda a campanha, este não é um encerramento nada tradicional. André Ventura termina a campanha nos Bombeiros Voluntários de Camarate. Há a informação de que vai acompanhar a prevenção das tempestades na zona da Grande Lisboa.
Obrigado, Inês. Inês André Figueiredo, que tem estado a acompanhar a caravana de André Ventura. Vamos para a outra campanha, a de António José Seguro.
Onde está o Vasco Maldonado Correia. Vasco, olá, por onde andas agora?
Eu estou em Santo Tirso, Judite. Acabou há pouco uma conversa com as mulheres de António José Seguro. É já também uma iniciativa bastante tradicional das campanhas.
Se puderes, ainda como um jesuíta, está bem?
Ainda vou a tempo.
E pode trazer, que com este frio não se estragam.
Exatamente.
Até segunda-feira.
Na caravana de Seguro já se sente que está quase a acabar?
Quase, mas não quase o suficiente, diria, Judite. Diria que acima de tudo a caravana de António José Seguro já só quer é que a campanha acabe, porque acabando deixa de haver espaço para imprevistos, deixa de haver reviravoltas que o candidato é obrigado a comentar. Isto porque a segunda volta se adivinhava bastante mais calma, um passeio bastante mais tranquilo nas últimas semanas do que acabou por se revelar. Assim não foi, tendo em conta a realidade, a situação do mau tempo, toda esta campanha improvisada, esta não campanha improvisada. Também ontem, a história do adiamento ou não, que foi trazida para a campanha por André Ventura. Tudo isto tem apresentado desafios a António José Seguro e sempre que um candidato numa segunda volta enfrenta um desafio, pode sair a perder. Daí eu dizer não quase o suficiente, porque acabando a campanha, chegando à meia-noite, António José Seguro já não vai ter que lidar com essas situações, já não vai ter que responder a polémicas e só vai ter que ir a votos. De resto, acaba a sublinhar a dicotomia entre democratas e não democratas, a dramatizar a necessidade da rejeição de André Ventura. Já disse muitas vezes que o país não quer ir dormir e acordar num pesadelo e que por isso tem que ir votar. E essa necessidade de ir votar é também a mensagem principal desta campanha de António José Seguro, que já mais do que uma vez apresentou a abstenção como o grande obstáculo para a vitória que quer ter no domingo.
E como é que vai ser o encerramento?
Não é tão pouco tradicional como o da campanha de André Ventura. É só um comício no Porto, em Leça do Balio. Não vai haver as tradicionais arruadas, não houve ontem no Chiado, não há hoje na Rua de Santa Catarina, é só um comício.
Obrigado, Vasco, e boa viagem. O Caça ao Voto fica por aqui na tarde política, porque acaba a campanha eleitoral.