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Este é o Quaça ou Voto da Rádio Observador. A campanha para a segunda volta das presidenciais fica marcada neste arranque pelo mau tempo e pelas severas consequências na região Centro, em Leiria, em particular. Os candidatos alteraram a agenda, adaptaram o discurso para fazer face ao momento. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E conosco estão o Miguel Pinheiro e o Rui Pedro Antunes. Bem-vindos. Miguel Pinheiro, quem anda a ganhar votos?
Quem anda a ganhar votos, não querendo ganhar votos com isto, é António José Seguro, que de facto está a ter um comportamento exemplar em relação a esta tragédia da tempestade que atingiu várias zonas do país. Eu ontem dizia que estava a ponderar a hipótese de ir a alguns dos locais atingidos. Hoje ficamos a saber que não estava apenas a ponderar, foi efetivamente, sem alarido, ou seja, sem levar jornalistas atrás, e admite voltar também sozinho, ainda hoje, a outros locais e usou uma frase muito bem cunhada em que diz: "Eu não vou usar este momento para qualquer aproveitamento político". Estavam a lhe a perguntar pelo contraste com André Ventura e ele recusou-se a criticar André Ventura, sendo que queria só estabelecer aqui uma diferença entre o comportamento de um candidato a presidente, que eu percebo que queira ir aos locais sem jornalistas porque não quer de maneira nenhuma ser acusado de estar a fazer um aproveitamento, isso é uma coisa. Outra coisa é o comportamento de um presidente. Ontem nós ficamos a saber, ao fim do dia, através de um comunicado no site da Presidência da República, que Marcelo Rebelo de Sousa tinha ido, penso que à Proteção Civil, de forma clandestina. Os jornalistas devem documentar aquilo que os presidentes fazem, e os presidentes, em princípio, não andam por aí a fugir de jornalistas. Os jornalistas estão a seguir os presidentes da República por uma razão, por um motivo. Não é por vaierismo, não é por isso. Não é por estarem a fazer jornalixo. É porque é suposto os eleitores, os cidadãos saberem o que é que os presidentes andam a fazer. Uma coisa é António José Seguro, neste momento em que é candidato, a partir do momento em que ele for presidente, de repente não se pode criar a ideia de que a presença de um jornalista é imediatamente sinal de aproveitamento. Não, os jornalistas têm um trabalho a fazer em nome dos cidadãos. Mas enfim, no caso de António José Seguro.
Deixa-me dizer uma coisa, Miguel.
Perfeitamente.
Deixa-me fazer aqui de advogado do diabo, neste caso advogado do presidente da República, que pode ter, não sabemos se foi isso que pensou, mas na altura dos incêndios de Pedrógão, houve uma recomendação feita aos titulares de cargos políticos para não estarem nos chamados teatros de operações.
E ele não foi a um teatro de operação.
Não, na altura quando foi.
Não, agora.
Agora não foi, exatamente. Por isso é que eu digo, pode ter aqui feito alguma confusão.
Sim, repara, eu acho que um presidente afeta o teatro de operações mesmo que não esteja com os jornalistas, porque a mera presença de um presidente da República numa-
E de um primeiro-ministro
...exato, numa zona de fogos faz com que seja preciso desviar atenções para o manter longe do perigo, tenha jornalistas ou não. Exato, tenha jornalistas ou não tenha. Neste caso, eu acho muito esquisito, de repente, só se saber o que o presidente da República anda a fazer através de um comunicado na presidência. Um presidente é o símbolo da unidade nacional e é em momentos como este que deve ser visível, deve aparecer. Eu percebo que estamos num momento de campanha e Marcelo Rebelo de Sousa não quer interferir na campanha, pode ter sido isso. Enfim, há aqui muitas possíveis atenuantes. De qualquer forma, o que se retira é António José Seguro está a ser muito cauteloso, muito discreto e faz bem.
Rui Pedro, quem é que anda a ganhar?
Olha, vou dizer que é António José Seguro, as mesmas razões do Miguel não as vou repetir pra não maçar quem nos está a ouvir, mas concordo em absoluto. Também o cancelamento do comício à noite em Almeirim também faz sentido, porque não fazia sentido estar ali num estilo de comício a dizer coisas pro ar no momento que ainda é de luto e que a Proteção Civil ainda está a intervir. Nota positiva também pra não haver um aproveitamento mediático das visitas que ele fez. Devemos querer saber que tipo de visitas foram essas, se calhar, porque os candidatos também têm que ser escrutinados. Não sabemos se passou de carro, se foi ter com pessoas, se abraçou pessoas, se foi ter com presidentes de junta que conhece. Podemos ainda tentar descobrir isso, mas é bom não ter levado as câmeras, porque atrapalha sempre o teatro de operações. E a esse propósito, o presidente da República criticou também o primeiro-ministro e acabou por criticar também André Ventura, que o fez, de forma velada, quando diz o seguinte: "Passada a fase em curso", em curso agora, isto há uma hora ou duas quando ele mandou isto de intervenção da Proteção Civil, o presidente visitará as áreas afetadas. O que ele está a dizer é: isto não é o tempo dos políticos estarem lá no terreno. E o primeiro-ministro foi lá. Portanto, o presidente da República está aqui de cima do bitola, porque aprendeu, está escaldado, como o Ricardo dizia, ele próprio ia pro terreno, andou a saltar árvores em Pedrógão com um carro de bombas à frente, que era preciso ir no outro lado, e foi ultracriticado com isso. E agora, pelos vistos, aprendeu. Vamos ver quanto tempo é que ele se aguenta em Belém sem lá ir. Entretanto, já deu uma entrevista ao jornal "A Renascença" a dizer que vai nos próximos dias, vamos ver quantos dias é que ele aguenta.
Mas sabe que Luís Montenegro já disse que tem um entendimento diferente, já quando foi a questão no Douro, em que ele foi filmado e fotografado dentro de um bote quando houve a queda do helicóptero. Já na altura, ele explicou que tinha um entendimento diferente, que achava que o primeiro-ministro devia estar nos locais. Portanto, existe aqui, de facto, uma divergência de visões, sendo que, como tu dizes com toda a razão, este novo comportamento de Marcelo decorre de um relatório que foi feito na altura do Pedrógão a explicar por que era prejudicial as autoridades políticas estarem nestes lugares.
Isto agora é sobre o Presidente, não é sobre o primeiro-ministro, mas sendo que no caso do verão, ainda passaram vários dias até ele ir ao terreno. Portanto, o entendimento no verão, quando estava de férias, foi outro. Também já disse que o primeiro-ministro tem que ir tirando férias e tem que ir avaliando a gravidade das situações, mas esse entendimento também tem sido uma montanha-russa do primeiro-ministro. Ia dar o outro argumento muito rapidamente, que tem a ver com o apoio de António Ramalho Eanes, porque não só coloca António José Seguro a ganhar votos, como depois também coloca André Ventura, de alguma forma, a perder. Foi uma coisa discreta, apenas a Agência Lusa foi convocada, mas acaba por chegar a toda a gente. E a 30 de novembro de 2025, André Ventura deu uma entrevista, também à Agência Lusa, a dizer que os seus modelos de liderança eram Giorgia Meloni e António Ramalho Eanes. Portanto, quando o modelo dele de presidente prefere outro presidente para exercer essas funções, eu creio que não só António José Seguro ganha votos, como, antecipando-nos já à tua próxima pergunta, Judite, também por isso o André Ventura perde votos.
E por acaso ia deixar essa pergunta primeiro para o Miguel Pinheiro, quem é que anda a perder?
É, sem dúvida, este é mais um grande problema pra candidatura de André Ventura. É o homem do 25 de novembro que está a apoiar António José Seguro. E ainda por cima, Ramalho Eanes usa dois argumentos para apoiar António José Seguro. Numa, ele fala da identificação no pensamento democrático, portanto, um pouquinho dentro desta narrativa de que está em causa uma luta pela democracia, mas depois fala de um entendimento partilhado sobre as competências e o exercício da função de Presidente da República. Ou seja, aquilo que Ramalho Eanes diz é: eu identifico-me com a forma como António José Seguro olha para aquilo que deve ser a função do Presidente da República.
Não digas que o Seguro vai criar um partido.
E não pra forma como André Ventura olha. André Ventura acha que a função do Presidente da República pode ser muito mais interventiva, muito mais assertiva, e Ramalho Eanes diz que prefere a visão mais tradicional de António José Seguro. É engraçado, porque quando foi da revisão de 82, Ramalho Eanes pensava o contrário. Mas tudo bem, não nos vamos deixar prender agora pelos nevoeiros da história. Mas realmente sobra pouco caminho pra André Ventura. Ramalho Eanes também faz parte da casta? Ramalho Eanes também faz parte da elite que andou a roubar o povo? Ramalho Eanes também andou a favorecer os amigos? É isto que André Ventura vai dizer? Duvido que tenha coragem pra dizer isso. Portanto, as coisas não estão a correr nada bem, realmente.
Despacho feito em 30 segundos, só acrescentaria, além do que já tinha dito, também esta questão do Ramalho Eanes, porque de facto não dá pra dizer que é taxista ou que não tem princípios como outros, ou que é de uma elite que está desconectada da realidade. E acrescentaria só apenas mais uma coisa, que tem a ver com o mau tempo também vai atrasar ainda mais a campanha da segunda volta. Por isso, quando ela começar, avisem, por favor. E quem prejudica é quem está atrás, porque quem precisa de algo diferente, de as coisas mexerem, é quem está atrás nas sondagens. E por isso também este adiamento da agenda da segunda volta, que nunca mais arranca a sério, prejudica essencialmente André Ventura.
Obrigado, Rui Pedro. Vamos avançar, entretanto, para a estrada, ao encontro dos jornalistas que estão a acompanhar as caravanas eleitorais e a acompanhar o candidato António José Seguro está o jornalista Vasco Maldonado Correia. Vasco, onde é que andas?
Ricardo, eu estou numa pequena paragem por Lisboa, porque daqui a pouco vou seguir pra Aveiro.
E António José Seguro hoje admitia regressar a Leiria novamente sem jornalistas.
Exatamente, eu ouvi há pouco o Rui Pedro e o Miguel Pinheiro e creio que faz sentido dizer que a campanha não está só a ser alterada pelo mau tempo, acima de tudo está a ser quase que negada, é quase como que uma não campanha, no mínimo no que vai chegar às pessoas, porque António José Seguro hoje esteve em três sítios, no mínimo com jornalistas, com a caravana que o vai acompanhando. Com a caravana que o vai acompanhando e pouco disso se vai ver nas reportagens que forem feitas nas televisões, nos jornais, também aqui no Observador, porque a atualidade se vai impondo, a atualidade do mau tempo acaba por ser a única coisa que dá para destacar no discurso de Seguro e o próprio candidato sabe disso mesmo. Ele hoje irá provavelmente voltar a estas regiões mais afetadas, provavelmente a esta hora já lá estará. Falava-se há pouco da questão do aproveitamento político. Diria também que é a única maneira que António José Seguro tem de fazer política nestes dias em que ainda não há campanha, porque claro que pode dizer que não quer fazer aproveitamento político, mas quando lhe estão a perguntar por André Ventura e a resposta é essa, também há uma crítica implícita a André Ventura. Ou seja, se António José Seguro hoje vai mais uma vez a Leiria sozinho ou a qualquer uma das regiões mais afetadas do país, e André Ventura vai acompanhado por uma forte caravana que traz essa força mediática, quando António José Seguro diz que não quer fazer aproveitamento político, está claramente a deixar também essa crítica a André Ventura.
E o que é que está previsto para as próximas horas ou amanhã?
Para hoje nada, foi cancelado o comício em Almeirim, precisamente por causa do mau tempo. Amanhã começa a campanha em São João da Madeira.
Obrigado, Vasco Maldonado Correia, a acompanhar António José Seguro e a esta hora André Ventura estará na região de Leiria, onde ainda não há energia e as comunicações estão muito complicadas.
E por isso mesmo vamos tentar falar com o jornalista Miguel Viterbo Dias. Miguel, estás aí?
Sim, para já sim.
Ok.
Até ver.
E por onde andas exatamente?
Já não estamos bem em Leiria, porque a visita de André Ventura terminou há pouco. Estamos ainda aqui na região e também há pouco lia-se na imprensa que as dificuldades de comunicações estendiam-se não só em Leiria, mas também Pombal, que é uma região que estamos a passar agora. Mas André Ventura escolheu vir aqui publicamente com a caravana da campanha para assinalar essa presença no local junto das populações.
André Ventura quis ir ao terreno, como dizias, mas ao contrário de António José Seguro, optou por levar os jornalistas. O discurso também é diferente?
Sim, há aqui se calhar uma exigência maior por parte de André Ventura, na medida em que vai lançando críticas ao presidente da República e ao primeiro-ministro. Chega mesmo a vestir o fato de líder da oposição nalguns momentos, porque as exigências que faz a Luís Montenegro são exigências que poderia fazer, por exemplo, no Parlamento e que dependem apenas do governo e não tanto do presidente da República ou da pressão do presidente da República. Mas o que é certo é que esta visita fica marcada por duas questões que não correram tão bem a André Ventura. Uma é que à chegada ao centro de Leiria, que foi o local escolhido para verificar os danos causados pelo mau tempo, muitas pessoas lhe disseram que as situações mais gravosas estavam em localidades mais pequenas à volta do centro da cidade e que aí sim, no centro da cidade, as coisas já estavam a ser resolvidas e, portanto, não pôde ver as situações mais graves. Outra, a questão daquilo que exige a Luís Montenegro, porque deixa críticas ao primeiro-ministro, diz que devia ter agido mais cedo, mas o que é certo é que não consegue apontar em específico onde é que Luís Montenegro podia ter estado melhor aqui ou acolá. Pede o estado de calamidade, que já foi decretado esta manhã por parte do governo, pede ao primeiro-ministro para estar presente, o que já aconteceu. Diz apenas que devia ter sido ligeiramente mais cedo, que já ontem devia ter dado esse sinal. Isto depois de Luís Montenegro ontem ter estado na sede da Autoridade Nacional de Proteção Civil e ter falado aos jornalistas. Portanto, há aqui uma crítica à ação do governo. Hoje não referiu ainda António José Seguro, e foi muitas vezes interpelado sobre esta diferença de estar publicamente nos locais, mas vestiu esse fato de líder da oposição para atirar, sobretudo a Luís Montenegro, e deixar também umas bicadas a Marcelo Rebelo de Sousa, sabendo-se que Marcelo Rebelo de Sousa tem já no histórico também atitudes como esta, que é a de vir logo aos locais, mesmo que isso não seja aquilo que é recomendado por parte das autoridades, porque por vezes pode ter o efeito contrário de atrapalhar as operações.
E Miguel, e a agenda para as próximas horas?
Por hoje está concluída. André Ventura tem de base um calendário mais curto do que António José Seguro. Hoje tem apenas duas ações de campanha. Nos próximos dias será assim. Portanto, logo de origem o número de iniciativas são menores. Há aqui dois objetivos muito claros: uma de ter uma presença no jornal da 13h, outra no jornal das 20h. É com esse foco também na presença televisiva que André Ventura trabalha, sem se desmultiplicar em muitas ações durante o dia.
Obrigado, Miguel Viterbo Dias e boa viagem. O Caça ao Voto regressa amanhã, na Tarde Política.