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Caça ao Voto na Rádio Observador. António José Seguro mostra-se preocupado com as consequências do nível de abstenção no próximo domingo e insiste também na dicotomia entre a estabilidade e a instabilidade, sendo que ele representa a estabilidade e André Ventura a instabilidade. A campanha eleitoral está em segundo plano, sobretudo agora com a ameaça de mais uma tempestade. Já estamos a sentir os efeitos em Portugal continental, depois da passagem pelos Açores. Eu sou o Ricardo Conceição e neste Caça ao Voto está comigo hoje Edite França e mais quem, Edite?
Estão conosco Miguel Pinheiro e o Rui Pedro Antunes. Bem-vindos. Vou começar por ti, Miguel. Quem ganhou votos?
Acho que quem ganhou votos e credibilidade foi André Ventura, que agora vê Marcelo Rebelo de Sousa juntar-se a ele numa sucessão de críticas interminável àquilo que correu mal com a tempestade. Ontem Marcelo disse que a comunicação do governo correu mal. Hoje disse que as operadoras de comunicações portaram-se mal, porque de repente não havia forma de falar com ninguém. Disse também que é preciso uma ligação automática pra uma intervenção instantânea das Forças Armadas em altura de catástrofe, em vez do braço direito ficar à espera que o braço esquerdo faça alguma coisa. E por isso, subitamente, parece que há muitas críticas a fazer. Durante estes dias, André Ventura ficou relativamente isolado a fazer essas críticas e por isso acho que isso cria nas pessoas uma ideia de que afinal o André Ventura tinha razão. Afinal, mais uma vez, ele era o único que estava a apontar o que estava errado neste país. Isso ajudou.
Rui Pedro, quem ganhou votos?
Ricardo, concordo por duas razões. Desde logo, porque André Ventura não só vê validade, como o Miguel dizia, pelo presidente da República alguma das críticas, como de alguma forma ele acaba por capitalizar esse descontentamento. Nós já tínhamos dito isso aí várias vezes, ou seja, certamente a quem não vai ser imputado um descontrole ou uma deficiência estrutural do sistema, a alguém que nunca governou, nem nunca fez parte de nenhum dos partidos que são do chamado eixo da governação, se bem que isso também mudou muito nos últimos anos. E não só vê essas críticas validadas por Marcelo Rebelo de Sousa, como vê o próprio adversário, António José Seguro, preocupado com a abstenção. Isso é porque há mais ou menos uma ideia uniformizada de que uma tempestade que se intensifica ou condições climatéricas más aumentam a abstenção e neste momento a mobilização do voto, ou se quisermos, o voto é muito mais convicto, embora aparentemente seja do menor número de eleitores, porque as sondagens assim o dizem, é André Ventura. O que eu quero dizer com isto é que pelo menos aqueles 1.300.000, 1.400.000 votos que André Ventura tem mais ou menos, quase como uma espécie de tifosi, são mesmo eleitores de Ventura, nem que estejam a encher picaretas, provavelmente vão votar. E se no dia oito a situação estiver muito mal, também por isso André Ventura pode ser favorecido. Portanto, as perspectivas são que se agrave. Ao mesmo tempo, a crítica do Presidente da República é permanente ao governo, ainda sugere que o sistema está preparado para reagir ao que aí vem, se for aquilo que se prevê. Portanto, se não for aquilo que se prevê, como aconteceu em Leiria, porque foi mais do que estava previsto, isso pode ter consequências maiores e o dispositivo não está preparado. E isso também permite a André Ventura uma outra coisa que ele sempre quis, que é ter um debate direto com o governo, porque mais uma vez, o André Ventura não está nesta eleição para ser presidente da República, está nesta eleição para dar mais um passo em frente, para ser primeiro-ministro. E quanto maior a abstenção, quanto maior o desencanto dos eleitores, quanto maior o cansaço, quanto piores as condições climatéricas, tudo isso vai aumentar a abstenção e a percentagem, mesmo que não aumente o número global e o número de votos absolutos de André Ventura, e isso vai permitir-lhe crescer mais um passo, mais uma percentagem nova, não sei se vão ser 30%, 32%, 35%, mas tudo isso vai no sentido de ele ganhar votos para aquilo que ele efetivamente quer, que é para umas futuras legislativas, sejam elas quando forem. Além disso, essas legislativas estarão sempre mais perto, quanto mais desgastado estiver o governo. E tudo isto, escusado será dizer, que desgasta grandemente o governo de Luís Montenegro e portanto tudo isso favorece de alguma forma André Ventura.
E Miguel, quem é que anda a perder votos?
Quem anda literalmente a perder votos, e já se deu conta disso, é António José Seguro. A tracking poll de ontem da TVI/CNM mostrou que a distância entre Seguro e Ventura reduziu-se 10 pontos numa semana, com Seguro a cair de uma forma permanente e consistente. A sondagem da RTP também mostra a mesma coisa. E de facto a responsabilidade é de António José Seguro, é de quem lhe dá conselhos. No começo da campanha, ele achou que não precisava dar entrevistas, não precisava falar com ninguém, bastava estar fechado numa sala A falar com dirigentes de associações, agora de repente entrou aqui numa corrida a dar uma entrevista por dia. As pessoas queixavam-se muito que André Ventura estava todos os dias nas televisões. Bem, agora é António José Seguro. Está todos os dias numa televisão diferente a ser entrevistado. É preciso perceber que convém pedir o voto das pessoas, convém dar uma razão às pessoas para irem votar. As pessoas não vão votar só porque se decidiu que no dia oito estão abertas ali umas urnas para se ir pôr um papel lá dentro. É preciso convencê-las da necessidade de ir votar. E António José Seguro achou que já estava eleito na primeira volta, convenceu-se que já era presidente da República. Aliás, nós aqui no Observador escrevemos um artigo sobre isso, que a campanha dele ia ser uma campanha como presidente da República, como pré-presidente da República. Não é assim que as coisas funcionam. E por isso António José Seguro pensou que bastava ficar de pernas estendidas sobre uma secretária a segurar a cabeça com as mãos, calmamente a relaxar, bastava-lhe isso para vencer. E começa a perceber que não. E hoje é, salvo erro, quarta-feira, ainda falta quinta, ainda falta sexta, ainda falta sábado e só no domingo é que as pessoas vão votar. E a este ritmo de perda de eleitores, eu não diria que se arrisca a ter uma surpresa, no sentido de perder as eleições.
Mas pode vencer por poucochinho, Rui Pedro?
Sim, esse é um risco efetivo, ainda por cima para aquilo que era o plano inicial de António José Seguro, porque embora tivesse esta estratégia de fingir-se de morto, falava muito numa legitimidade reforçada, numa votação maciça, de alguma forma por achar que isso também lhe daria um mandato com mais autoridade política, principalmente para fazer frente ao governo, embora ele diga que não quer ser oposição, e nós já dissemos aqui que ele provavelmente, se for eleito presidente, dará a mão ao governo. De alguma forma, António José Seguro procurava isso, ou seja, não procurava apenas uma vitória por poucochinho, mas uma vitória alargada e tendo em conta todos os apoios, toda aquilo que foi a perceção pública desses apoios, as sondagens que continuam a ser altamente favoráveis, apesar desta quebra toda que o Miguel estava a constatar, esperava-se que António José Seguro conseguisse uma vitória tranquila. E nenhum de nós sabe, porque não me lembro que tenha existido umas eleições sobre um contexto climatérico tão adverso. Já houve com chuva, certamente, em situações complexas, mas o eleitorado está tão diferente do que era há 10, 20 anos, colocando-lhe em cima uma situação de contínua tempestade, contínuas condições adversas do ponto de vista climatérico, que ninguém sabe que tipo de efeitos é que isto pode ter. E portanto, quanto mais confortável fosse a vantagem de António José Seguro, mais fácil era ele garantir essa vitória. E eu creio que ele já foi forçado a baixar a fasquia. Antes queria ganhar por muitos e agora quer apenas ganhar, até porque na vida dele já lhe aconteceu ser quase primeiro-ministro e ficou-se pelo quase. E portanto, desta vez que tinha uma vitória quase cantada, é bom que não aconteça, senão isto parece mesmo a história da lebre e da tartaruga. Não é que André Ventura tenha sido sempre lebre, mas conseguiu ser lebre quando mais interessava e António José Seguro agora começou a tentar dar ao pedal, mas não é fácil ser tartaruga e de repente começar a acelerar.
Miguel, numa segunda volta que está a mobilizar muito pouco, está a ser quase fastidioso isto.
Sim, acho que juntou-se aqui o plano inicial de António José Seguro, mais uma vez, era esse: era não fazer campanha, porque estava aterrorizado com a possibilidade de cometer um erro. Depois, naturalmente, deu-se esta tragédia da tempestade e era absolutamente inevitável que isso levasse a campanha para um segundo plano. Mas, mais uma vez, houve aqui uma diferença: é que André Ventura teve um plano imediato para o que é que haveria de fazer. Podemos dizer que era o plano fácil, com certeza, mas ele teve um plano imediato. Temos de dizer que fez tristes figuras como com aquele vídeo a carregar paletes de água, mas ele tinha um plano. O plano encaixava na narrativa que ele vinha construindo. Ele já tinha passado da narrativa da esquerda-direita para a narrativa nós contra eles. E portanto, o plano dele foi: eu represento o povo sofredor e vejam estes políticos que não saem dos gabinetes e não se mexem para ajudar. E aplicou esse plano. António José Seguro, com a mudança de circunstâncias, não teve plano nenhum. Ele não sabia o que fazer. E foram muitos dias. Se a tempestade tivesse acontecido poucos dias antes das eleições, talvez bastasse ele dizer: "Não quero politizar esta questão". Mas passaram-se demasiados dias para isso ser sustentável. A dada altura, ele tinha que tomar uma decisão, tinha que optar por um lado. Vai ser mais crítico ou menos crítico do governo? Vai aparecer no terreno, não vai aparecer no terreno? Vai fazer propostas adicionais àquelas que foram apresentadas pelo governo ou não vai? Ele tinha que tomar uma decisão e tinha que ter uma posição coerente e compreensível pelos eleitores no que diz respeito à tragédia. E não fez isso. Andou um bocadinho de cabeça perdida de um lado para o outro, mais uma vez à espera que o tempo passasse. E isso é problemático. De facto, António José Seguro Tem este problema. E eu, no fim disto tudo, fiquei sem perceber como é que ele se comportaria se fosse presidente. Eu percebi como é que André Ventura se comportaria, e não gostei, mas com António José Seguro, eu não percebi como é que ele se comportaria. E isso é problemático quando ele já tem esta imagem.
Rui Pedro, isto é ponderado na campanha?
Sim, a campanha foi toda planeada quase em cima do joelho. Já havia uma grande incerteza, mas eu às vezes gostava que as pessoas pudessem ver os dois grupos do WhatsApp, eu já falei deles no Caça ao Voto, para perceberem o descontrole e a falta de planeamento total e pelo menos a maneira como é comunicado aos jornalistas, que são um ponto importante para essa estratégia de comunicação, porque se eles não estiverem nos locais e não estiverem preparados, a mensagem não chega a tanta gente. E tem sido um descontrole total, ações marcadas duas ou três horas antes, localização enviada pouco tempo antes, não se saber se no dia a seguir vai haver campanha ou não vai, se vai haver ação ou não vai. E, portanto, eu creio que a campanha foi toda feita no improviso. E eu sei que é difícil, como o mau tempo obrigou a algum planeamento, mas parece-me que nunca tinha existido uma segunda volta, as pessoas não estão preparadas para isso, mas de alguma forma andou sempre tudo a navegar à vista e acho que isso nota-se. Claro que isso acaba por prejudicar mais quem à partida favorecia ou saía favorecido por tudo ser by the book, que era o caso de António José Seguro, quanto menos coisas extraordinárias e inopinadas acontecessem, mais facilmente ele conseguiria esse caminho que se previa fácil de vitória na segunda volta.
E vamos dar também um salto às campanhas eleitorais neste Caça ao Voto. Também vamos para a estrada.
Ao encontro dos jornalistas da Rádio Observador que estão no terreno a acompanhar os candidatos. E começamos pela campanha de André Ventura, que tem sido acompanhada pela Inês André Figueiredo. Inês, boa tarde. Por onde andas agora?
Boa tarde. Estamos em Beja. André Ventura passou aqui o dia, fez uma visita a uma esquadra da GNR durante a manhã, bastante curta, porque não havia condições para falar com jornalistas. Foi uma declaração mesmo muito curta. Depois lá dentro, como sabemos, não é possível entrarem jornalistas e acabou agora uma visita a uma empresa de vinho que foi afetada pelo mau tempo nos últimos dias.
E entretanto disparou contra Marcelo Rebelo de Sousa, por quê?
Sim, André Ventura continua a criticar a viagem de Marcelo Rebelo de Sousa ao Vaticano e voltou a fazê-lo esta tarde e também à boleia da viagem a Madrid. Estas críticas surgiram já a olhar para o futuro e para essa viagem, ainda que, como sabemos, Marcelo Rebelo de Sousa vá ter uma agenda reduzida relativamente àquilo que estava agendado. Mas para o candidato presidencial não há nenhuma razão válida para que Marcelo Rebelo de Sousa vá fazer uma viagem num momento destes. Por outro lado, também nessa questão das críticas, André Ventura tem feito muitas ao governo, tem atacado bastante, tanto acusando o governo de lentidão nas questões mais logísticas, como na distribuição de telhas, de materiais de construção, mas também nos apoios. E nesse caso, há aqui um recuo esta tarde, porque elogiou os valores que foram esclarecidos pelo governo e acabou, de alguma forma, por chamar a si alguns dos louros. Ou seja, não sugere que houve mudanças pelo que disse, mas dá a entender que o facto de ter estado no terreno a mostrar aquilo que se tem passado com os agricultores, com as pessoas, as vítimas desta tempestade, ajudou a que o governo e também o presidente da República tenham mudado a sua atitude. Só dizer também que, já agora, André Ventura disse nestas declarações que, a seu ver, as portagens devem estar isentas até ao fim do período de reconstrução.
E há programa para as próximas horas?
Para as próximas horas, não, mas há para amanhã. Durante a manhã, André Ventura vai estar em São Bartolomeu de Messines, em Silves. Ainda não sabemos a fazer o quê.
Obrigado, Inês André Figueiredo.
Ora, na outra campanha está a Rita Tavares com António José Seguro. Rita, boa tarde. Por onde andas agora?
Neste momento, a caminho de Albufeira.
Neste momento, portanto, estás em movimento.
Sim, fizemos só aqui uma pequena paragem para isto poder correr melhor.
Um pit stop.
Exato. António José Seguro está a fazer alguma coisa de diferente nestes dias que restam?
António José Seguro nestes últimos dias tem um bocadinho mais de iniciativas de campanha. Hoje, por exemplo, tem três ações ao longo do dia, que é uma coisa que já vai sendo rara, porque normalmente tudo que tem acontecido são alguma coisa ali por volta da hora de almoço e depois os comícios de final de dia, é o máximo que tem feito nestas semanas de campanha, que foi sempre mais contida por causa da situação na região Centro. Agora, nesta reta final, já nos tínhamos sido avisados de que haveria alguma intensidade. É uma intensidade reduzida ainda assim, mas o candidato tem estado sempre nesta medição de esforço e também para não criar grandes ondas, não parecer mal estar no ambiente mais festivo, que é o ambiente normal das campanhas eleitorais, num momento como aquele que o país está a viver.
E Rita, o que é que traz as próximas horas, hoje e amanhã?
Nestes dois últimos dias tem estado sobretudo em zonas onde André Ventura conta e tem contado mais. Esteve em Portalegre, agora estamos no Algarve, vai acabar a noite em Albufeira, que é uma das câmaras do Chega no país. Esta é a região onde André Ventura venceu nestas presidenciais e, portanto, parece que António José Seguro anda aqui a fazer uma espécie de marcação no território ao seu adversário de forma mais direta e está a ser uma marcação tanto no terreno como na mensagem, com André Ventura a ser o alvo principal destas intervenções desta reta final. Foi assim hoje à hora de almoço, quando esteve em Castro Verde, um bocadinho mais acima, e chamou a atenção para o facto de ele, António José Seguro, querer mudar o regime quando o seu adversário quer mudar de regime, por exemplo, e também disse a dada altura que André Ventura quer ir para Belém fazer oposição ao primeiro-ministro a partir da Presidência da República, o que é uma agitação, um elemento agitador que António José Seguro tem usado nesta fase para contrapor a questão da estabilidade que diz que ele pode promover contra a divisão que André Ventura fará e conseguirá do país se chegar a Belém.
Obrigado, Rita, e boa viagem para sul.
Obrigada.
Cuidado com o mau tempo que vai chover muito, sobretudo a sul. O Caça ao Voto regressa amanhã, na tarde política.