Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

K7 60.

Que os campos tenham mais área, mais cultivo, mais ação. Só com a reforma agrária é que todos terão pão.

Estávamos no início de fevereiro de 1975 e algumas terras abandonadas nas herdades do Picote, em Montemor-o-Novo, e da Defesa, em Évora, são ocupadas por trabalhadores rurais. O processo da reforma agrária tinha começado em finais de 1974, com a ocupação do Monte do Outeiro, em Beja, mas só em 75. Depois da tomada destas herdades, o ministro da Economia apresentou os diplomas que regulavam o novo plano económico.

Logo no dia 2 de fevereiro, o jornal "A Capital" publicava a notícia de que no Conselho de Serpa, camponeses armados tinham defendido terras ocupadas. No dia seguinte, saía uma nota que dava conta de que os homens que estavam a trabalhar naquela exploração agrícola tinham sido colocados por uma comissão ministerial de nomeação governamental, mas que o proprietário os tinha ameaçado de morte e nessa altura, os trabalhadores pegaram em caçadeiras para se defenderem. O momento de tensão foi resolvido por um militar das Forças Armadas e por um representante sindical que serenou os ânimos.

Mas como este momento, houve outras situações de confronto com os proprietários das terras. O problema no Alentejo e no sul do país foi resolvido mais rapidamente com contratos coletivos de trabalho. Contudo, no resto do território, a realidade era diferente e seria o plano do governo a regular os vínculos contratuais.

Previsto neste plano económico estava também a nacionalização da indústria, além da dos terrenos. No caso das explorações agrícolas, a intervenção do Estado podia ir do arrendamento compulsivo à expropriação e as terras ficariam a cabo dos trabalhadores e dos pequenos agricultores.

Camponeses, a terra é nossa, façamos a revolução pra ser de quem a trabalha. Camponeses, a terra é nossa.

E enquanto saíam informações nos jornais sobre o programa do governo e a reforma agrária, quase todos os dias era notícia de que agricultores tinham ocupado herdades. Os trabalhadores alegavam que as terras estavam abandonadas, mal exploradas ou pouco aproveitadas por seus proprietários.

Nessa altura, foram criadas centenas de unidades coletivas de produção, com nomes revolucionários como Muralha de Aço ou A Terra a Quem a Trabalha, o que estávamos a ouvir, aliás, agora de fundo. Se as primeiras ocupações não tinham enquadramento jurídico, nos meses seguintes foram legalizadas e a reforma agrária ganha, em 76, direito a ser inscrita na Constituição.

Algumas das ocupações ficaram para a história. A primeira, claro, da Herdade do Outeiro, em Beja, mas também a da Herdade da Torre Bela, que ficou imortalizada em filme. O realizador alemão Thomas Harlan fez um documentário sobre a ocupação da propriedade rural e registou um diálogo entre o porta-voz de uma cooperativa de trabalhadores e um agricultor que se tornou famoso.

Isto era cooperativa, tudo isto era cooperativa. Não é tua, nem é deste, nem é minha, era cooperativa. Essa daqui era cooperativa. E os outros que não trouxeram ferramenta nenhuma, a ferramenta deles é da casa deles e a minha fica da cooperativa. A minha fica da cooperativa e a deles que não trouxeram nenhuma para outros cá trabalharem, nem querem trazê-las, que é para não levarem caminho e dão caminho às outras e ficam com elas as duas outras.

Discutem sobre uma enxada, a dita ferramenta, que o agricultor não quer que seja da cooperativa, mas quer mantê-la, porque foi ele que a comprou e precisa dela para trabalhar. O processo da reforma agrária não foi claramente pacífico nem entre os trabalhadores agrícolas e muito menos entre os proprietários. Mas as péssimas condições de trabalho dos agricultores, que viviam com salários baixos, fez com que a adesão ao movimento fosse relativamente fácil.

E a 2 de fevereiro, 50 mil manifestantes juntaram-se num comício em Beja, onde foi aprovada uma declaração que veio ditar o fim do latifúndio. No final de 75, tinha sido ocupada quase 25% da superfície arável de Portugal, praticamente 1,2 milhões de hectares. Tinha saudades da história da enxada e do senhor da enxada.

E da cooperativa.

Da cooperativa.

E da ferramenta.

O senhor é famoso, não é? Aquele senhor da cooperativa.

O senhor que é o representante da unidade e da cooperativa. Não o agricultor, o agricultor não é famoso.

Não, mas o outro é famoso. Muito bem, fechamos assim o K7 60. Hoje fizemos uma viagem a 1975, numa altura em que estamos já a falar também de protestos de agricultores. Fomos aqui a outras revoluções agrícolas.

K7 60.