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É época de férias para os portugueses. O Algarve sempre foi o destino de eleição, mas este ano parece estar a perder popularidade junto de alguns destinos no estrangeiro. Falamos de férias de verão no "Causa Própria" com o Pedro Costa Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Agências de Viagem e Turismo, e também com Hélder Martins, presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, aqui para uma conversa com o Diogo Teixeira Pereira.
Bem-vindos, Pedro Costa Ferreira e Hélder Martins. Pedro Costa Ferreira, propunha começar por si, porque recentemente a Associação Portuguesa de Agências de Viagens dava conta de que os voos charter estavam em níveis record. Isto acontece porque é mais barato viajar para o estrangeiro do que passar férias em Portugal?
Olá, bom dia, Diogo. Bom dia, Hélder. É um prazer juntar-me convosco nesta conversa. Não, eu não creio que os portugueses que ultimamente, muito recentemente, parecem estar a faltar no Algarve, estejam nas Caraíbas, ou em Marrocos, ou noutro qualquer outro sítio do mundo, infelizmente. Indo ao fim da resposta, eu penso que é muito maior o problema da degradação geral do poder de compra, sobretudo dos mais baixos, do que propriamente o Algarve em coisa turística.
Pedro, nós não estamos a conseguir ouvi-lo nas melhores condições. Eu não sei se é este ruído.
Não, o ruído não é meu.
Creio que será do Hélder Martins. Vamos tentar recuperar a ligação do Hélder Martins para que fique em melhores condições.
O Hélder há de estar no Algarve à beira do mar e, portanto, se calhar com este ruído bom. Mas vamos lá ver.
Mas pode continuar, Pedro.
Quem está a faltar no Algarve não é quem está nas Caraíbas. Vamos lá ver. O Algarve é uma operação de êxito, é preciso dizer isto. É uma operação de êxito com mais turistas, com um preço médio mais alto, com mais receitas, com taxas de ocupação robustas. E é uma operação de êxito com uma pequena constipação de verão. Por acaso, é uma pequena constipação de verão que acontece agora em julho e admite-se que possa continuar aqui um bocadinho pra agosto. Mas o problema não é os portugueses terem fugido para o outro lado, infelizmente para os portugueses. O problema é que a inflação tem feito o seu percurso, as consequências da inflação não são imediatas, o quebra do poder de compra não é imediato, as taxas de juro têm que subir, temos que ter as mensalidades dos empréstimos à habitação a crescer e depois começamos a ver o nosso peso de compra degradar. E acontece que a inflação sujeita, sobretudo, os mais desfavorecidos. É um problema, sobretudo, dos mais desfavorecidos e é por isso que é tão importante debalá-la. E por ser um problema dos mais desfavorecidos, é aqui que está o problema recente no Algarve. É no segmento médio-baixo. Se perguntarmos ao Hélder, ele vai nos responder que é sobretudo no médio-baixo que o Algarve tem alguns problemas de taxa de ocupação. E, portanto, sendo no segmento médio-baixo, uma vez mais, infelizmente, não é nas Caraíbas que os portugueses, infelizmente, é em casa. Dito tudo isto, é bem verdade que também em sentido inverso, a operação das férias dos portugueses, e concretamente a operação charter, tem sido um grande êxito. Tivemos crescimentos grandes das reservas antecipadas, tivemos uma dinâmica de reservas muito boa, tivemos também aumento dos preços, eu diria que à volta dos 15% em média, nuns sítios menos, noutros sítios mais. Mas também é verdade que sentimos hoje alguma menor dinâmica nas reservas, que tem acento no êxito das reservas antecipadas, mas também tem acento nalguns segmentos da procura que, infelizmente, veem hoje o poder de compra significativamente degradado e, portanto, tirarão férias, se calhar, mais em família, mais em casa, mais perto de casa e com menos segmento de viagem, vamos dizer desta maneira.
Deixe-me juntar à conversa o Hélder Martins pra lhe perguntar se comparativamente com destinos como Cuba, México, República Dominicana, é caro passar férias no Algarve ou não?
Bom dia a todos. O Pedro já fez uma análise muito exaustiva da questão. O Algarve tem o seu preço e não é possível comparar o Algarve com destinos fora do espaço Schengen, por exemplo, porque as realidades que as empresas e as pessoas têm nesse sítio é completamente diferente de Portugal. Repare que o ano passado até um destes destinos chegou a oferecer-se pra pagar o combustível aos aviões da Ryanair. Portanto, algo que Portugal nunca fará. A questão de Marrocos, a questão de outros sítios. São realidades diferentes e sempre houve portugueses nesses sítios e noutros. O problema que está aqui é que estamos a tentar imputar uma crise ao Algarve com esta questão dos portugueses. O Pedro já disse melhor do que eu diria, mas o Algarve tem um aumento nos primeiros 12 dias de agosto de 16% no movimento do aeroporto. Tivemos uma taxa de ocupação em julho de 84%, superior àquilo que foi em 2019. E de facto, o que há a notar, e isso muito bem vamos discutir, é que há uma redução não de 7%, como dissemos inicialmente, mas de 4% dos portugueses. E pese embora, as unidades de duas e três estrelas em julho terem tido um aumento de ocupação de 13%. O que falta aqui são, de facto, as famílias que estão estranguladas pela questão do crédito à habitação ou outras questões fiscais e que não conseguem fazer férias. Portanto, não é o problema. Há quem faça férias do lado de lá do rio Guadiana, sempre houve. Esse é um problema que há 30, 40 anos discutimos. Há pessoas que compram lá porque é mais barato, estão no seu direito de o fazer. O que o Algarve tem é, de facto, que procurar ter uma oferta com mais qualidade. As mesmas pessoas que criticavam o Algarve porque o ano passado não tinham espaço pra pôr uma toalha na praia, agora criticam que há menos portugueses. Portanto, esta é uma realidade, o turismo é uma atividade democrática aberta a todos
O Algarve tem o seu preço, o que nós queremos é que as pessoas quando saiam do Algarve levem uma percepção que o dinheiro que gastaram nas suas férias foi bem empregado e que possam voltar, porque felizmente o Algarve tem um número de repetentes muito satisfatório.
Mas e se não falarmos desses destinos fora do espaço Schengen, podemos precisamente, e creio que era disso que estava a falar também, podemos comparar com Espanha. Há, de facto, também muitas famílias que optam, ainda hoje, por exemplo, o jornal Público traz uma reportagem sobre isso, que mostra que algumas famílias que antes optavam pelo Algarve, agora optam pelo sul de Espanha.
Sim, mas sempre optaram, essa é uma realidade. Há uma questão que hoje se discute também, o movimento do aeroporto de Faro para Espanha sempre passou, sempre houve cerca de 10% do movimento turístico no aeroporto de Faro que passaram a fronteira. Espanha, há uns meses, estava com uma situação muito grave de reservas ou de falta de reservas, fez uma redução drástica nos preços. O Algarve não fez. As pessoas passam férias do lado de lá porque é mais barato. Há outras que passam do lado de cá. O mercado português continua a ser o principal mercado para o Algarve e a análise que o Público faz, para a qual nós demos o nosso contributo, é muito baseada numa determinada gama de clientes que vai para lá porque consegue preços mais baratos lá e compara com outros espaços cá que têm menos ocupação. Repare que o haver mais turistas ou mais ocupação, às vezes traduz-se em menos ocupação nos restaurantes, porque as pessoas como têm menos poder económico vão tentar cortar em alguns sítios. Creio que vamos ter um bom verão.
A questão dos restaurantes também é levantada e alguns proprietários de restaurantes falam da dificuldade que é passar férias no Algarve, não por causa do preço das refeições nos restaurantes, mas por causa do preço dos hotéis.
Da parte dos hotéis poderíamos dizer a mesma coisa. Não creio que seja muito fácil analisar uma questão pondo o ônus simplesmente do outro lado. Todos nós aumentámos preços porque tudo aquilo que nós compramos para preparar um produto turístico, seja ele de restauração, seja ele de alojamento, aumentou bastante o preço. Nós contratámos muito mais cedo este ano. Repare que os primeiros cinco meses no Algarve foram taxas de ocupação as melhores dos últimos 20 anos e quando nós construímos o preço de um pacote turístico é normalmente com um ano de antecedência. E a expectativa que havia o ano passado não tinha em conta estes aumentos brutais que houve, nomeadamente nas taxas de juro. Por isso, houve empresas que fizeram ajustes. Há oferta no Algarve para preços mais baixos, para bolsas com menos poder, mas o que é facto é que essas pessoas muitas ficam em casa. Eu recordo que oiço todos os dias uma análise feita nos rádios em que se diz que continua a haver filas em Lisboa. E haver filas em Lisboa é porque há pessoas que não saíram como nos anos anteriores. Este é um problema conjuntural que se tem que olhar num aspecto muito mais alargado. O que é importante é que esses preços correspondam ao serviço que nós prestamos aos clientes, que nós temos que cada ano ter sempre a preocupação de melhorar.
Mas se a vida está tão difícil, Pedro Costa Ferreira, por causa das prestações da casa, o aumento dos preços muito motivados pela guerra, por que há tantos voos charter a sair de Portugal?
Vamos lá ver, o mundo é diverso e há diferentes segmentos de procura, começamos por aí. Por outro lado, temos que pensar que ainda há um ano, no primeiro trimestre, estávamos fechados. Ainda houve aqui um comportamento de vingança do consumo, bem como ainda havia algumas poupanças. Sabe-se que houve poupança forçada na altura da pandemia, mais de 21 milhões de euros, como nos lembramos. Houve todo um conjunto de circunstâncias que fez com que no início de ano as reservas antecipadas fossem de um nível absolutamente recorde. Isto em primeiro lugar. Por outro lado, uma vez mais, há vários segmentos e a inflação não afeta os segmentos de igual maneira. O médio alto continua com comportamento muito positivo e não tanto estrangulado pela quebra do poder de compra. E depois ainda temos algumas circunstâncias particulares. Eu vou dar o exemplo das Caraíbas. Neste momento e há cerca de dois anos, existe uma guerra comercial muito grande entre players de grande dimensão para as Caraíbas, com operações verticalizadas, isto é, com operações em que as unidades econômicas têm não apenas a distribuição, como têm também a companhia aérea e têm os hotéis. Ora, esta guerra comercial, de facto, fez baixar um pouco o preço das Caraíbas e fez com que as Caraíbas ficassem mais acessíveis a uma classe média. E isso também terá influenciado. Agora, de um modo geral, a operação está muito boa, como de um modo geral, a operação está muito boa para o Algarve. O que há é, recentemente, uma quebra da dinâmica das reservas, uma quebra da dinâmica das vendas, e isso é o efeito que não podemos esconder, de degradação do poder de compra. Eu lembro-me de falar convosco e com outros colegas vossos sobre a operação turística na Páscoa, em maio, e dizer que a única coisa que estava a correr bem era a realidade. Eu dizia: há aumento da taxa de juro, há aumento das mensalidades das compras da habitação, há uma série de aspectos negativos e que nos trazem receio para o futuro. No entanto, até agora, a coisa está a correr muito bem, dizia eu. Não é inesperado o que está a acontecer. Aconteceu num timing onde já existiam muitas reservas e isso concorre para que o dia de hoje não seja extraordinariamente positivo, mas a operação desde o início do ano seja uma operação muito positiva. Sai daqui que temos que olhar todos com cuidado Para o próximo ano, a economia europeia não está a crescer. A inflação está a descer, mas não de uma forma muito nítida, rápida ou com muita dinâmica. Como sabemos, enquanto a inflação não descer, as taxas de juro vão continuar a aumentar e a degradação do consumo vai se manter. De um modo geral, a operação turística e o turismo em Portugal correram muito bem e são responsáveis pelo crescimento do país acima da média europeia. Mas não há como não dizer que a inflação é um papão destruidor, é o maior destruidor de valor que conheço e é altamente injusto. É um imposto escondido que afeta sobretudo as famílias mais fracas. É isso que estamos hoje a enfrentar, nas reservas pro Algarve, Marrocos ou Espanha. É muito engraçado que há muitos artigos recentes espanhóis que falam da crise das taxas de ocupação espanholas. Portanto, ninguém está fora.
É um problema transversal às várias áreas.
É isso. Para terminar, quando nos queixamos que o Algarve pode ter um bocadinho menos de gente, porque toda mundo fugiu para preços mais baratos, o que não estaríamos a dizer se o Algarve tivesse muito menos de gente, porque os preços eram muito baratos, e estaríamos a dizer que em Espanha é que se estava bem, porque era a qualidade do turismo que estava a atrair pessoas, e não preços baratos. Ainda bem que o Algarve atrai pela qualidade do turismo e que Portugal está a atrair pela qualidade do seu turismo.
Helder Martins, pegando no que o Pedro Costa Ferreira estava a falar há pouco, na questão dos grandes operadores que operam, por exemplo, nas Caraíbas, o Algarve tem sabido concorrer com eles?
Sim, mas às vezes há concorrências que não se põem sequer em cima da mesa, são produtos completamente diferentes, são épocas de utilização diferente. Quando nós construímos um produto turístico, temos que ter em cima da mesa todas as premissas que cada empresa enfrenta. Como sabe, nós preparamos uma empresa, temos que pagar os nossos custos, impostos e responsabilidades para que a empresa possa sobreviver. Não conseguimos competir em algumas áreas, como já disse há pouco, a fiscalidade, uma série de outras ações. Eu já fiz uma visita à Turquia para ver produtos turísticos que poderiam ser competitivos com o Algarve e nesse sítio onde estive, que era Antália, o sítio mais turístico de sol e praia, o terreno para construir um hotel é oferecido pelo governo durante 45 anos e uma parte dos empregados não têm salários. São realidades com as quais o Algarve não pode competir. O Algarve tem que competir valorizando o seu produto e dando a entender ao cliente que o nosso produto é melhor para o preço que o cliente paga. Há, com certeza, muitas zonas onde esses produtos têm concorrência, nomeadamente na bacia do Mediterrâneo. O Pedro citou, e muito bem, uma questão que se passa nomeadamente com a Espanha. Temos que estar orgulhosos que depois de uma crise tão grande, nós registamos uma excelente taxa de ocupação, registamos preços que permitem às empresas sobreviver e quem está a vir para o Algarve está a usufruir de umas excelentes férias, que espero que possa regressar. Eu não me preocuparia tanto com a competição com as Caraíbas, Saíre ou outras zonas do gênero, que são zonas que foram criadas exatamente para competir em várias áreas com o Algarve, mas o Algarve não pode competir com elas.
A ideia que têm é que os clientes conseguem perceber as diferenças e que elas existem?
Sim, claro, conseguem. Repare que no artigo do Público que citou hoje, é citada uma questão, nomeadamente o aumento de preços em unidades hoteleiras. Nós temos discutido isso com os nossos associados e há, de fato, unidades hoteleiras que aumentaram esse preço, mas por exemplo, registaram 95% de ocupação em julho, o que quer dizer que se o preço é mais caro e tem uma taxa de ocupação excelente, é porque o cliente percebe o value for money de utilizar aquele produto e não um outro que seja. Mas como sabe, o Algarve, desde o alojamento local, que tem milhares de camas, desde as unidades de duas e três estrelas, tem uma oferta até às cinco estrelas ou cinco estrelas superiores. Essa oferta molda-se a cada tipo de cliente. Mas nessa mesma reportagem do Público, faz-se uma análise começando pelo momento em que sai de casa, em que atesta o carro, em que paga a portagem, em que chega ao destino, e isso aí começa logo a ser custos brutais, que são custos fora do contexto das empresas que prestam o serviço diretamente de turismo. Está mais caro. A inflação tem sido um papão brutal nesta questão e se continua a haver tanta gente no Algarve, é sinal que as pessoas têm uma fidelização ao Algarve pela qualidade do Algarve e não apenas pelo preço.
Helder Martins, presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, Pedro Costa Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo, obrigado pela vossa disponibilidade para falarmos sobre as férias. É sempre um assunto agradável para conversarmos na rádio. Obrigado pela vossa disponibilidade.
Obrigado.
O "Causa Própria" está de regresso no próximo sábado.
Obrigado, Diogo. Obrigado.