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Olá, professor Carlos Silves.
Olá, João Miguel. Está bom?
Tudo bem, professor. Tenho aqui uma citação que gostava de partilhar consigo: "O universo é tudo o que existe, incluindo a matéria, energia, espaço e tempo". Professor, esta definição de universo está correta?
Sim, está correta, mas também não tem grande novidade. Está na Wikipédia, uma coisa mais ou menos como essa. E além disso, antes disso, o Carl Sagan escreveu no livro "Cosmos" uma frase lapidar, que é: "O universo é tudo o que existe, existiu e existirá". O que dá uma dimensão temporal muito importante. Não é só o atual, o universo é também o que está para trás e o que existirá para frente.
Muito bem.
É muito curioso.
Esta definição de universo foi-me dada pelo ChatGPT.
O João Miguel anda a usar isso.
Ando. Ando fascinado com esta tecnologia. Já usou o ChatGPT, professor Carlos Silves?
Não, eu pessoalmente não. Tenho visto cá em casa, a minha mulher usa e mostra-me. E diz que é útil e eu vejo que é útil, mas não me deu ainda vontade de experimentar a coisa. Eu consigo dar uma definição do universo sem recorrer ao ChatGPT.
Ainda bem. Mal fora também. Bom, mas é incrível como esta tecnologia está a entrar nas nossas vidas. Professor Carlos Silves, primeiro que tudo, o que é isso de inteligência artificial?
O ChatGPT é um instrumento, uma ferramenta de inteligência artificial, agora parece uma grande novidade, mas a inteligência artificial é uma coisa muito antiga. Aliás, é tão antiga como eu. Eu nasci no ano de 1956 e o nome inteligência artificial é desse ano. Portanto, tem a minha idade, inteligência artificial. É uma conferência que foi feita em Dartmouth, nos Estados Unidos, em que juntou engenheiros, físicos e uma série de pessoas, alguns nomes conhecidos, um deles Marvin Minsky, ao outro Herbert Simon. Nomes muito conhecidos na altura e a questão que eles colocavam, é a questão que estamos ainda hoje confrontados, que é: será possível imitar essa capacidade ou esse conjunto de capacidades humanas que se chamam inteligência? E desde então para cá, tem sido feito uma procura, com progressos evidentes. Há certas faculdades humanas que parecem ser possíveis de imitar. Há outras que não, mas a primeira pergunta antes dessa é: o que é inteligência? O que é inteligência?
Diga.
A inteligência tem várias componentes. Por um lado, ao lado da interação. É preciso falar, ver, mover-se, agarrar, manipulação. Portanto, tudo isso é uma faculdade da inteligência. É preciso haver a interação com o mundo. A inteligência precisa a interação. Segundo, um sistema inteligente não tem necessariamente que ser um humano, mas tem de ser capaz de fazer modelação. Quer dizer, tem de ser capaz de fazer representações do mundo. Representações do mundo com lógica, porque o mundo tem lógica. Terceiro, a questão da aprendizagem, e esta é muito importante. Um sistema de inteligência artificial tem de, tal como os humanos, ser capaz de aprender. Isso é uma parte essencial da nossa adaptação ao ambiente. Ora bem, em todos estes componentes, teve progressos espetaculares. Por exemplo, a gente sabe que há robôs que veem, com sensores, que falam, que agarram. A gente sabe, por exemplo, modelos do mundo. O jogo do xadrez, em 1997, o campeão do mundo, Garry Kasparov, foi derrotado por uma máquina, a máquina Deep Blue da IBM. E, portanto, por uma razão muito simples, é que o computador, os 500 e tal processadores conseguiam fazer representações do tabuleiro de jogo, conseguiam fazer modelos do jogo muito mais rapidamente do que conseguia fazer o humano. E hoje, o campeão do mundo de xadrez atual, acho que é um norueguês, perde contra uma máquina e não é preciso ser uma máquina muito sofisticada. Por quê? Porque, de fato, para o jogo do xadrez, e já agora para o jogo de damas, para o jogo do Go, que é um jogo oriental, para outro tipo de atividades, as máquinas já nos batem. Agora, também conseguem aprender, a outra componente também consegue aprender. Agora, a questão é: será que nos batem em tudo? É uma boa questão, que podemos discutir no programa, se é que as máquinas são capazes de nos bater.
Será que são, professor?
Sim, podemos já ir por aí. Ora bem, eu vou dar a minha posição pessoal, que é controversa. Mas apresento como posição pessoal, não é apenas minha. Eu estou convencido que há características humanas Que parecem, pelo menos no estado atual, intrinsecamente humanas. Por exemplo, nós temos, de facto, um cérebro e a inteligência artificial, logo desde o início, tentou imitar o cérebro, por isso que começou a fazer chamada redes neuronais, para imitar o funcionamento dos neurônios. Portanto, o modelo era o cérebro, mas temos o nosso cérebro ligado ao corpo e, portanto, nós precisamos e funcionamos com emoções. E com sentimentos e tudo isto está ligado, não se pode desligar uma coisa da outra. Ora bem, é muito difícil. Eu sei que o robô já tem, de algum modo, corpos, mas não tem um corpo tão desenvolvido e tão capaz como o nosso e acima de tudo, tão bem ligado ao cérebro. O que significa que parece-nos que há certos fenômenos que o nosso cérebro é capaz, sei lá, certas experiências. Eu vou dar exemplos pra não ficarem abstrato.
A intuição, por exemplo.
A intuição, a experiência amorosa, o que é isso da paixão, a experiência religiosa, o que é isso de acreditar. Tudo isso são coisas muito humanas, são fenômenos intrinsecamente humanos, mas que nós não estamos a ver que uma máquina, neste momento, pelo menos, seja capaz de fazer isso. E outras coisas, sei lá, o próprio fenômeno da consciência, a ideia do eu, saber que eu sou eu e que tenho responsabilidades por ser eu. A questão da ética, etc. É uma coisa muito humana e nós estamos ainda nos primórdios de sequer de perceber bem o que é a consciência. Enfim, é um caminho que se tem feito na inteligência artificial, que é um caminho progressivo, com grandes progressos, com resultados práticos, como é o ChatGPT, mas que me parece que não está, nem perto nem de longe, capaz de substituir aquilo tudo que somos capazes, capaz de substituir o ser humano.
Portanto, estamos longe de perder o exclusivo da inteligência, nós, humanos.
Eu estou convencido sim. Eu sei que há a ficção científica e que há todas essas histórias dos robôs que vão contra o homem. Aliás, este é o mito já do Frankenstein. O criador fazer uma criatura que se escapa e vai ter vida própria e as coisas vão correr mal. E no filme "2001: Uma Odisseia no Espaço", também há aquele computador que toma conta da nave, etc. De algum modo, essas histórias são histórias educativas, porque ensinam-nos a ter cuidado e devemos ter cuidado com tudo aquilo que fazemos. Não há dúvida nenhuma, é a tal ética que estava há pouco a referir. É evidente que temos que ter cuidado. Agora, daí até pensar, como alguns dizem, que há uma altura em que as máquinas vão ser capazes de fazer tudo aquilo que o homem faz, o ser humano faz, e ainda melhor. E nessa altura, os seres humanos não são precisos pra nada, porque até são perecíveis, eles têm uma mortalidade, são feitos de carne e osso, e uma máquina poderá fazer as coisas e ainda por cima, ser imortal ou pelo menos durar mais tempo. Então fala-se do transumanismo, fala-se de um ponto que alguns chamam de singularidade, em que acabam os seres humanos, é uma espécie de ponto óbvio da evolução, em que a certa altura somos substituídos por máquinas. Eu não acredito nisso. Eu sei que há quem tenha medo disso, eu não tenho medo.
Sim.
Mas há quem ache que há uma ameaça e até anunciou isso para daqui a 30 anos.
Ou seja, o risco da inteligência artificial se autonomizar.
E tomar conta disto tudo, ser a dona disto tudo. Ora bem, eu acho que temos capacidades e podemos saber usar, e esses instrumentos são muito úteis. Há muitos exemplos hoje, não é só o ChatGPT, que podemos usar. O João Miguel conhece, com certeza, alguns exemplos que usa no seu dia a dia, além do ChatGPT, outros exemplos de inteligência artificial.
Sim, sei lá. Quando circulo por aí, pelas várias cidades, sei lá, lembram, por exemplo, dos semáforos. Já há sistemas para gerir os semáforos.
Sim, é verdade. Eu não sei se funciona em todos os semáforos, porque eu vejo que cada um, aquilo parece que não tem nada inteligente, parece estúpido. Não está ninguém a passar e aquilo está bloqueado. Mas há sistemas que podem adquirir e aprender. São sistemas adaptativos e há certas cidades do mundo que usam sistemas de inteligência artificial. Mas nós usamos isso em coisas comozinhas, a procurar na internet, no Google, por exemplo. Há já alguma inteligência artificial, ele já conhece o utilizador, conhece o sítio. Olha, quando se procura um filme na Netflix, passa publicidade, isso tudo. Quando se procura, eles já, de algum modo, conhecem os nossos gostos, sabem as pessoas que têm gostos semelhantes e são sistemas de inteligência artificial que fazem isso. Reconhecimento de imagens, eles são muito bons a reconhecer imagens. Neste momento, houve um grande progresso no reconhecimento de imagens.
E até produção.
Exato. E produção de imagens, pode-se fazer Fake imagens e filmes fake. E coisas muito curiosas.
E até com muita qualidade gráfica, diga-se.
Sim. Isso é útil, vou dar um domínio, na própria saúde. Hoje, os médicos, sempre radiologistas, não é que estejam verdadeiramente ameaçados, mas podem lucrar muito de usarem sistemas de processamento artificial para ver as imagens, porque os sistemas podem processar um grande número de imagens. Claro que a intuição humana, o dedo clínico, aquilo que se chama dedo clínico. O dedo clínico é a cabeça, não é o dedo clínico. É a tal intuição que há bocado estava a falar. Mas é útil.
A experiência adquirida.
A experiência adquirida. É útil. Sabe-se hoje que mais útil que um só humano e mais útil que um sistema artificial de imagens, é ter um humano com a possibilidade de ter um sistema desses de auxiliar. E, portanto, a inteligência artificial está aí para nos auxiliar, oxalá saibamos fazer bom uso dela, porque como qualquer instrumento humano, pode ser usado para melhorar a vida e pode ser com certeza mal usado para piorar a vida. Vai depender de quem usa. É como qualquer coisa na vida. Eu já uso, como toda a gente, sistemas de inteligência artificial. Embora tenho sempre que ter cuidado. Por exemplo, a Amazon, outra marca, que está à procura de livros, ela já sabe os livros que eu quero, eu fico um pouquinho assustado dela me conhecer tão bem como eu. Como é que ela sabe que eu quero isto? Está-me aqui a por coisas que eu vou mesmo comprar. E, portanto, com certeza há problemas de ética e de proteção de dados, que podem cair em sítios onde eu não quero que tenha essa informação. Mas repara, a maior parte das pessoas estão dispostas em favor de alguma qualidade, não sei qual é.
Conforto.
De algum conforto. Estão dispostas a dar os seus dados. E muita gente dá os seus dados. Esses dados são usados por grandes sistemas de processamento de dados, nos quais muitas vezes usam inteligência artificial, e isso pode servir para melhorar a vida ou pode servir para tirar lucros para uma empresa qualquer.
Professor, que efeitos é que poderá ter em nós, seres humanos, a inteligência artificial? Há muito tempo que se fala da perda de capacidade de escrever por causa dos telemóveis, até da memorização. De escrever por causa dos teclados e de memorização, por causa do uso dos telemóveis e de sistemas de armazenamento portáteis. Com sistemas de inteligência artificial, podemos correr o risco de perder parte até da nossa capacidade de processamento intelectual?
Essa questão, João Miguel, é muito interessante. Eu estou dividido sobre essa questão, porque não sei bem responder-lhe. Porque por um lado, como é evidente, é um instrumento útil, as pessoas usam, não tenho dúvidas nenhumas sobre isso. As pessoas usam instrumentos que lhes deem o tal conforto, que lhes facilitem a vida.
É aquela máxima "technology makes your life easier", não é?
Exatamente. E as pessoas fazem isso e toda a gente vai fazer. Eu estou convencido que vai ser muito difícil. Por exemplo, o ChatGPT agora proibiram em Itália, mas vai ser muito difícil fazer proibições globais disso. Claro que é preciso ter atenção. A UNESCO tem declarações sobre isso, os governos dos países estão atentos, mas não é por se proibir uma coisa, o fruto proibido é o mais apetecido. Por outro lado, eu percebo alguns perigos. Por exemplo, na altura em que estão a formar-se capacidades humanas, como na escola, estar a substituir a aprendizagem. Uma pessoa adquirir certas capacidades treinando, adquirir certos conhecimentos encadeando-os, e substituir isso por uma ferramenta que faz uma parte, senão mesmo, uma boa parte ou mesmo tudo daquilo que às vezes é pedido na escola. Há universidades, há escolas que estão a proibir, pura e simplesmente, o uso do ChatGPT e se calhar até fazem bem. Tal como se calhar fazem bem proibir os telemóveis. Por quê?
Aliás, deixe-me só fazer aqui um parêntesis, porque não pode haver ciência sem processo científico.
Claro. E vai haver certa altura, eu estou a imaginar, eu não sou escritor de ficção científica, um mundo em que há as pessoas que têm capacidades que tiveram na escola, na boa escola, e que desenvolveram as suas capacidades e vai haver os outros que são apenas dependentes, sempre estiveram dependentes de máquinas e que não conseguem fazer raciocínios. Ora bem, o que é o ChatGPT? O ChatGPT é uma linguagem. A informação vai buscar à internet, a uma parte da internet. Aquilo não vai buscar tudo, vai buscar partes e depois até cola coisas que às vezes não tem lá, mas tenta tapar os buracos. É uma espécie de condensado de internet. E, como é evidente, pode ter erros, até se chama a erros óbvios que o ChatGPT tem. Claro que aquilo está ainda a desenvolver-se, mas tem erros que chamam-se alucinações.
Aliás, é muito divertido, professor, ir para o ChatGPT e confrontar com erros.
Agora, imagine as pessoas a acreditarem naquilo. Tem lá erros. Eu, que tenho a internet e sei que escolher na internet também não é fácil, mas sei que tem lá a verdadeira coisa. Pode ser útil, eu não digo que não. Pode ser útil, porque aquilo pode vir a substituir o procurador do Google, no sentido em que uma pessoa normalmente no Google quer responder uma pergunta. Então se colocar a pergunta ao ChatGPT, ele vai lá ao conhecimento que tem acumulado, aprendeu, de facto, a processar aquilo e exprime uma resposta em linguagem natural. Isso não há dúvida que é útil. Mas eu tenho visto textos do ChatGPT, e deixe-me dizer-lhe uma coisa: aquilo parece-me bem escrito, não direi, com uns erros, de vez em quando se engana. Mas aquilo é chato, porque não tem ali uma ponta de humor, não tem uma anedota, não tem uma criatividade para transpor. Falta-lhe ali a centelha humana. Outro dia vi até um jornal que foi todo feito com o ChatGPT e a certa altura, aquilo estava monótono, parecia-me tudo igual. E os humanos não é isso, os humanos são capazes de surpresas, fazem grandes jogadores de futebol. Que de vez em quando lembram-se de uma jogada, que tiram uma jogada que ninguém sabe como é que eles foram buscar aquilo, ninguém estava à espera. E isso é uma característica muito humana, que se treina, que se adquire, e que nós não podemos perder se apenas nos confiarmos nas ferramentas que estão acessíveis.
Enquanto o professor estava aqui a falar, eu perguntei ao ChatGPT: "Conta-me uma anedota curta." E ele Respondeu ao desafio, aqui está. Sem saber, vou dizer: dois amigos estavam conversando. Está um bocado abrasileirado, português do Brasil.
Aquilo é para nós, é piada a nós.
Amiga um: "A minha mulher disse que eu deveria fazer mais elogios, então comecei a chamá-la de 'a razão pela qual eu respiro'. 'Uau, que romântico! E o que ela disse?' 'Ela disse: tu precisas de parar de ressonar.'" Pronto, foi isto.
Não sei se tem muita piada.
Não tem. Não tem muita piada.
Mas há um problema também que é a questão de que nós evidentemente temos ideologias, temos certos condicionamentos. E a questão, por exemplo, de certas ideologias ou certos condicionamentos que nós temos, até que ponto a máquina se pode apropriar disso. Por exemplo, há atitudes machistas na sociedade. Será que uma máquina também tem atitudes machistas? É fácil pôr e tirar essas coisas. Por outras palavras, isso presta-se à manipulação de pessoas e portanto nós temos que ter algum cuidado com o uso. Eu estou convencido de que a marcha dessas coisas é um pouco imparável, mas nós dantes não tínhamos o mundo sem internet, agora temos internet e os problemas todos disso. Amanhã vamos ter internet e vamos ter inteligência artificial, com os problemas todos disso. Temos que estar bem preparados e para estar bem preparados precisamos ainda da escola que aperfeiçoa as capacidades humanas e que treina as capacidades humanas e daquilo que um bom professor faz, que é o serviço das emoções. Lembrar-se o professor de uma anedota, e eu acho que às vezes os professores lembem-se de anedotas que são melhores do que essa.
Eu espero que sim.
Histórias de vida, experiência acumulada.
Muito bem.
A vida do ChatGPT, eu sei que vai à internet, mas é uma vida apesar de tudo algo limitada. Não tem a experiência de vida de pele e osso, de carne e osso que todos nós temos.
É verdade.
E isso define quem nós somos. E é uma definição que nos torna únicos.
Bela maneira de fechar o programa desta semana. Professor Carlos Silhás, foi um gosto uma vez mais. Até para a semana.
O prazer foi meu, João Miguel. Adeus, até à próxima.