Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Olá, seja bem-vindo ao "Claro como Água", o podcast da iniciativa "Vimeiro Explica" em parceria com a Rádio Observador. Eu sou a Maria João Simões e hoje vou conversar com o cardiologista Pedro Rio sobre a relação entre a ingestão de água e as doenças cardiovasculares. Bem-vindo, doutor. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Muito obrigado.

Começo pela pergunta que é o mote desta nossa conversa: de que forma é que uma boa hidratação contribui para a saúde do coração? Até rima.

Exatamente. É fundamental. Nós sabemos, desde há muito tempo, que o nosso corpo tem uma porcentagem de água entre 60% a 70%, um bocadinho mais nas crianças e bebês, um bocadinho menos nas pessoas idosas, mas temos essa porcentagem de água. Portanto, é fundamental que nos mantemos hidratados para que as funções vitais dos nossos órgãos, tecidos e células se mantenham estáveis. E também é um veículo preferencial de eliminação de certas toxinas a partir da urina, do suor, das fezes. E por isso o nosso sistema precisa estar bem hidratado. Claro, quando também pensamos que o nosso coração bombeia cinco litros de sangue por minuto e o sangue sendo a maior parte do seu constitui o plasma, que uma grande porcentagem é água. Mais de 90% do plasma é água. Ficamos com essa sensação de que 7 a 8000 mililitros de sangue têm que passar todos os dias pelo nosso coração e convém que ele esteja hidratado para que depois não haja outro tipo de estresses que possam ocorrer.

E existe uma quantidade ideal de água que devemos consumir diariamente para nos proteger das doenças do coração?

Sim, grosso modo, está definido que uma mulher tenha que consumir cerca de 2,5 litros de água por dia, o homem um bocadinho mais, cerca de três litros. E isto é o total conteúdo de água, sendo água e alimentos. Em termos de hidratação pura e dura, será cerca de 1,5 a dois litros de água para a mulher e cerca de dois litros de água para o homem. Claro que pode ser água, chás, outras bebidas, mas fundamentalmente temos essas recomendações que andam perto dos seis a oito copos de água por dia.

Assim é melhor para nós termos uma ideia do que é que estamos a falar. O doutor Pedro Rio consegue identificar os problemas de saúde mais comuns e que podem ser minimizados se bebermos mais água?

Sim, claro. O nosso sistema cardiovascular precisa desta hidratação, porque senão podemos colocá-lo em risco e podemos colocar aqui algum estresse. Se pensarmos numa desidratação, a quantidade de volume de sangue pode diminuir e isso pode acarretar alguns problemas, nomeadamente, agravar questões de insuficiência cardíaca. O sangue, obviamente, ficando mais viscoso, menos hidratado, pode levar a um esforço maior do coração, isto pode também provocar, em algumas pessoas, eventos cardiovasculares, nomeadamente isquemia, até mesmo precipitar enfartes, porque obviamente o sangue fica um bocadinho mais aglomerado e o risco de trombos é maior. E por causa disto também, e estamos aqui a falar em termos arteriais, mas do lado do campo venoso, das veias, também esta viscosidade aumentada aumenta o risco de trombos, de trombo flebites, principalmente nas pernas, nos membros inferiores, mas também se algum desses trombos se soltar, pode aumentar o risco de tromboembolia pulmonar, que é uma doença bastante ameaçadora de vida e que requer um tratamento urgente.

No caso da água mineral, os minerais presentes podem ter impacto direto na função cardíaca. Por exemplo, o magnésio ajuda a prevenir ou a tratar arritmias cardíacas, ou o cálcio é essencial para um bom funcionamento da contração muscular do coração.

Exatamente. É verdade. Nós usamos todos os dias na cardiologia alguns fármacos que tentam, por um lado e por outro, fazer isso que disse. Ou seja, temos fármacos sensibilizadores do cálcio para pessoas que têm insuficiência cardíaca e que precisam é aumentar essa contratilidade cardíaca. Portanto, o cálcio é fundamental para que as batidas do coração sejam fortes e saudáveis. E por outro, o magnésio também está implicado na pressão arterial. É um constituinte do relaxamento das artérias e com a falta dele também poderá vir muitas vezes questões relacionadas com a hipertensão arterial. E como muitas vezes, e principalmente o magnésio, e nós também em termos do magnésio, trabalhamos muito na cardiologia pelas questões também do ritmo cardíaco. Ainda hoje, antes de vir para cá, aconselhei a suplementação de magnésio a um doente que tinha extrassístoles assintomáticas, tinha palpitações. Nós sabemos que existem carências em nível alimentar que podem aumentar o risco destas doenças, destes sintomas. E se a água mineral for um veículo para a ingestão desses minerais, será uma ótima opção também para as pessoas.

Ainda no seguimento desta questão, o doutor tem conhecimento de investigações que analisem o papel da dureza da água e o impacto nas doenças cardiovasculares?

É curioso que exista essa relação e esses estudos feitos noutros países, nomeadamente na Suécia, em que relacionaram e foram estudar as regiões onde havia mais dureza da água. E há essa relação, essa associação entre a dureza, que é diretamente proporcional à quantidade de cálcio e magnésio que a água tem, com a diminuição, neste caso Do risco cardiovascular e dos eventos cardiovasculares. É uma associação, mesmo quando é ponderada por outros fatores de risco cardiovasculares clássicos, como tabagismo, dislipidemia, hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo, essa associação manteve-se e, portanto, também acreditamos nós que possa estar implicado no risco de doenças cardiovasculares, como o infarto agudo do miocárdio.

Não podemos passar sem falar do sódio, um mineral que, pela saúde do coração, e não só, tem que ser controlado, mas como muitas vezes fica difícil quantificar o que é consumido através dos alimentos, a água mineral pode ser uma forma de garantir a ingestão da quantia certa? Isto é, doutor, na água mineral, através dos rótulos, sabemos exatamente quanto estamos a ingerir de sódio, ao contrário do que acontece, por exemplo, quando cozinhamos ou comemos alimentos que não possuem rotulagem e nesses casos perdemos um bocadinho a noção dos valores.

Sim, é verdade. Embora o sódio, e o sódio é muito querido em termos de cardiologia e de hipertensão arterial, mas é no sentido inverso. Ou seja, nós temos excesso de sódio na nossa alimentação, mas é normalmente o sódio adicionado. O sódio que está presente naturalmente nos alimentos e naturalmente na água potável, na água doce, não acresce o risco e não aumenta em relação ao que está estabelecido, essa quota. O que está estabelecido é 2 g ou 2000 mg de sódio por dia, o que dá, grosso modo, 5 g de sal por dia, tal colher de chá, e a água potável tem cerca de 50 mg, mais ou menos, de sódio por cada litro. Ora, se nós temos que ingerir à volta até 2 L, dará 100 mg. Se soubermos, se não soubermos, nunca é um componente perigoso e que nós tenhamos que saber realmente qual é a verdadeira quantidade de sódio. Porque o sódio, volto a dizer, o que nós consumimos a mais é o sódio adicionado.

Àquele que pedimos nos restaurantes ainda antes de provar a comida.

Pois, exatamente.

Contra mim fala.

É o grande perigo. Portanto, aqui a recomendação é sempre para reduzir o consumo de sódio e de sal adicionado aos alimentos.

E as águas minerais com baixo teor de sódio são recomendadas para pessoas com hipertensão ou, pelo contrário, são recomendadas por facilitar o controle da quantidade de sódio? Um eletrólito essencial à vida e ao bom funcionamento do corpo.

Claro, será mais por aí. Claro que pessoas que tenham insuficiência cardíaca, tenham insuficiência renal, hipertensão arterial, devem fazer uma boa gestão da sua ingestão de sal e nesse sentido, águas mais hipossalinas serão mais recomendadas.

E há alguma recomendação, já que fala em recomendações, alguma recomendação especial sobre o consumo de água mineral para pessoas que já têm problemas cardíacos?

Sim. Estamos a falar de pessoas com doença cardíaca, principalmente de insuficiência cardíaca. E se for uma insuficiência cardíaca avançada, com função cardíaca reduzida, função cardíaca de bomba, devemos mencionar que estas recomendações, que referimos logo no início desta entrevista, devam ser um bocadinho reduzidas. À volta de dois copos a menos, ficamos entre quatro a seis copos de água por dia por causa disso, porque o coração não tem a mesma capacidade de bombear como se fosse um coração normal e o acrescento de água vai fazer com que ele tenha que trabalhar um bocadinho mais.

Vai forçar.

Exatamente. Portanto, devemos dividir essas ingestões ao longo do dia para não sobrecarregarmos muito a parte cardíaca, mas grosso modo, um bocadinho a menos do que está recomendado.

E para quem faz exercício físico, o consumo de água mineral pode ajudar a repor eletrólitos importantes?

Claro. Para esses, obviamente, aqui a recomendação é o contrário. Devem ingerir mais água do que pessoas sedentárias, obviamente pelo efeito da transpiração, da respiração, tal e qual como outras pessoas, climas quentes, grávidas, as mulheres que estão a amamentar. Todas essas obviamente aumentam as necessidades hídricas. E claro, quem faz muito esporte perde normalmente água através do suor. No suor perdem-se eletrólitos, nomeadamente o sódio e outros minerais, e portanto, devem ser repostos antes, durante e depois de exercícios físicos intensos e por isso recomendam-se bebidas mais isoelétricas, capazes de repor esses gastos inerentes ao exercício físico.

E os mais velhos, os idosos ou as pessoas com insuficiência cardíaca devem controlar a ingestão de líquidos de forma diferente?

Especialmente há recomendações um bocadinho menores do que a população em geral e pessoas mais ativas, mas aí temos o inverso de que essas pessoas normalmente não têm aquele estímulo da sede e, portanto, já por elas próprias e por essa característica, já vão ingerir menos líquidos se não tiverem regras bem estabelecidas de ingestão de água. Se não tiverem regras de que aquela garrafa que enchem ao início de um dia, deve ser ingerida e deve ser consumida. Mas normalmente também os indivíduos mais idosos têm umas necessidades hídricas um bocadinho abaixo da população em geral.

Beber água mineral com gás tem algum impacto na saúde do coração?

Não terá impacto, não se conhecem nem benefícios, nem malefícios acerca disso, é um bocadinho preferência natural da pessoa. Se isso faz com que a pessoa beba mais água, então sim, pode carbonar a água. Estamos a falar de dióxido de carbono que está presente na água naturalmente ou adicionado. A única questão será mesmo questões gástricas como refluxo, como úlceras, como isso aumenta um bocadinho a acidez do estômago, portanto, reduz um bocadinho o pH, pode haver essa consequência. Mas do ponto de vista cardiovascular, não se conhece impacto negativo.

Doutor, estamos a chegar ao fim. Que conselhos sobre o consumo de água gostaria de deixar a quem se quer proteger de doenças cardiovasculares?

Devemos consumir o que está recomendado, cerca de 2 L de água por dia, grosso modo, 18 copos de água por dia, para mantermos uma boa saúde cardiovascular, para que o nosso coração funcione da melhor maneira e também para outro tipo de órgãos, nomeadamente os rins, uma boa função renal, não termos risco aumentado de pedras nos rins, mantermos a saúde da nossa pele, a saúde do nosso cérebro, que precisa obviamente estar bastante hidratado, mantermos a nossa temperatura corporal, as nossas articulações também em bom funcionamento. Todos os nossos tecidos vão requerer uma boa ingestão de água e portanto mantenham-se hidratados para evitar complicações.

Doutor Pedro Rio, cardiologista, muito obrigada por ter estado conosco em mais um episódio de "Claro como Água". Foi um gosto conversar consigo. Muito obrigada.

Obrigado, é um grande prazer.

Obrigada. E agora a habitual curiosidade: cada fonte de água mineral tem uma composição química única, que depende, entre outras coisas, do tipo de solo e rochas que a água atravessa. É por essa razão que não existem águas minerais iguais. Podem até ter gostos distintos, mesmo sendo todas água. Obrigada por nos ter feito companhia em mais um episódio do podcast "Claro como Água" da iniciativa Vimeiro Explica. Como sempre, disponível em podcast, nas várias plataformas digitais e claro, no site do Observador. Eu sou a Maria João Simões. Até daqui a 15 dias. Até lá, já sabe, pela sua saúde, beba água todos os dias.