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Olá, seja bem-vindo ao "Claro como Água", o podcast da iniciativa "Vimeiro Explica" em parceria com a Rádio Observador. Eu sou a Maria João Simões e hoje vou conversar com Mariana Paim Carvalho, médica hidrologista. Doutora, bem-vinda, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Obrigada, é um gosto.
Este vai ser um episódio inteiramente dedicado à água termal, o que é, o que a distingue das outras águas, que benefícios para a nossa saúde. São só algumas das várias curiosidades que vamos abordar. E doutora, talvez importe começarmos precisamente por explicar o que é o termalismo e qual o impacto na nossa saúde e bem-estar.
O termalismo é o uso da água mineral natural e de outros meios complementares para prevenção, para tratamento, para reabilitação e para bem-estar. Esta é a descrição que está no decreto de lei. Mas para podermos compreender um pouco melhor, explico alguns conceitos.
Exato, é importante.
E é inevitável começar pelo ciclo da água, para explicarmos o que é uma água mineral natural e como é que a podemos utilizar. Nós temos a reabsorção da água, quer pelos oceanos, quer pela superfície terrestre. Há uma condensação e há um transporte nas nuvens desta água e depois seguida de uma precipitação, quer seja em chuva, em gelo, quer seja em granizo. E depois esta água será utilizada pelos seres vivos, será absorvida pelas plantas e será infiltrada no solo. E depois volta à terra através das fontes ou escoar nos rios ou no mar. É esta água que ao infiltrar no solo, passa por algumas rochas e vai adquirir as características destas rochas à medida que passa por estas zonas. E este processo pode demorar cerca de milhares de anos, desde a sua infiltração até à acumulação no aquífero. E são estas as águas minerais naturais, as águas que nós utilizamos no termalismo. Ou seja, são águas bacteriologicamente próprias, são de circulação profunda, têm características físico-químicas específicas e estáveis na sua origem e que têm como um propósito o uso terapêutico e o bem-estar do termalista. E só para terminar, um último conceito é termas em si. O que é que são as termas? São o local onde emergem uma ou mais águas minerais naturais que podem ser utilizadas.
É interessante ver as coisas explicadas dessa forma. Então e o que é que distingue a água termal da água mineral natural engarrafada que encontramos à venda?
Nas estâncias termais, utilizamos a água mineral natural, que como expliquei anteriormente, é uma água bacteriologicamente própria, ou seja, tem umas bactérias específicas, é de circulação profunda, tem umas particularidades físico-químicas estáveis na sua origem, ou seja, tem uma determinada concentração de minerais. Há uma associação de determinados minerais entre si e que tem como um fim o propósito terapêutico ou o bem-estar. As águas engarrafadas, por sua vez, podem ser de três tipos: água mineral natural, água de nascente ou a água mineral artificial, que é o que nós vulgarmente chamamos de água com sabores. As águas de nascente são águas superficiais e que não têm as mesmas características que as águas minerais naturais, não obedecem às mesmas regras, desde que na sua origem sejam próprias para consumo. Ao contrário das outras águas, as águas minerais naturais não podem ser tratadas, não podem sofrer qualquer transformação.
E toda a água termal pode ser ingerida, consumida? E eu pergunto-lhe isto, porque, por exemplo, a água das termas do Vimeiro só pode ser ingerida sob prescrição médica, por causa da elevada concentração de minerais por litro, mais de 4 mil miligramas por litro.
De uma forma geral, as águas minerais naturais podem ser todas ingeridas, umas com maior adesão do que outras, sobretudo pelo seu sabor. Mas temos que ter atenção a algumas situações em particular, sobretudo pelos efeitos adversos que estas águas podem trazer. Nomeadamente o caso do Vimeiro. Quer as águas engarrafadas, quer as águas utilizadas nas estâncias termais, são águas minerais naturais. Só que são de fontes diferentes, com características diferentes e com concentrações diferentes. E isto pode haver alguns efeitos adversos. Ou seja, em casos particulares.
Até é bom sabermos aquilo que estamos a ingerir, não é?
Exatamente. Por isso é que os rótulos são fundamentais. Quanto às características particulares, como eu estava a dizer, são os termalistas com insuficiências cardíacas, insuficiências renais, que podem precisar de alguma retenção, de alguma restrição destes minerais, ou até mesmo na população em geral. Se beber uma água com alta concentração de magnésio, por exemplo, de uma forma abrupta, pelo efeito laxante do magnésio, pode ter uma diarreia, uma enxaqueca, uma cefaleia ou até mesmo náuseas. Por isso é fundamental que a água seja realmente prescrita pelo médico.
Atualmente, a maioria das pessoas procura as termas para que finalidade? Para spa. E para que deveriam ser realmente procuradas? Presumo que para promoção da saúde e prevenção de doenças, não é, doutora?
Atualmente, as termas são procuradas por duas finalidades: pelo bem-estar, que é o chamado termalismo de bem-estar, e pelo tratamento, o chamado termalismo terapêutico ou clássico. Sendo o termalismo terapêutico aquele que corresponde a uma estadia de mais ou menos 14, 21 dias numa estadia termal, e que é sobretudo com a finalidade de tratamento, de reabilitação e de prevenção. Ao passo que o termalismo de bem-estar é um termalismo de curta duração, um quatro dias, normalmente no fim de semana, não há uma requisição médica e é sobretudo para bem-estar. Infelizmente, verificou-se uma diminuição do termalismo terapêutico, que é sobretudo à custa de uma população mais velha, e houve um aumento do termalismo de bem-estar Por uma população mais jovem. São inúmeros os motivos que podem levar a este desfecho. Eu julgo que entre eles poderá ser o facto da dificuldade da população ativa conseguir despender de 14 dias consecutivos para um tratamento e optam por férias mais curtas. O facto de haver uma fraca comparticipação do tratamento termal e também por haver um desconhecimento e uma desvalorização.
Das vantagens, dos benefícios.
Exatamente, dos benefícios do termalismo, quer pelos nossos pares na comunidade científica, quer também na população em geral. Mas as termas deveriam ser procuradas por todos nós, não só para tratamento, claro, há espaço para isso, para tratamento de doenças crônicas, e aí pensamos numa população já mais avançada.
Eu tenho vários familiares que procuram as termas por causa de tratamentos de asma, de rinite alérgica.
Exato, mas não só. Também para promoção de saúde, para prevenção de doença. Sobretudo tendo em conta a situação atual em que nós vivemos, os estímulos que nós temos, as exigências e o ambiente em que nós estamos envolvidos, é crucial darmos importância à nossa saúde mental e ao nosso bem-estar.
Claro.
Por isso torna-se fundamental não só para o tratamento ou só exclusivamente para o bem-estar.
Doutora Mariana Paim Carvalho, e quais são os minerais que compõem as águas termais e quais são os benefícios que trazem à nossa saúde e ao tal bem-estar que falava?
As águas contêm os elementos essenciais, que são aqueles que estão em maiores concentrações, o cálcio, o sódio, o potássio, o magnésio, o enxofre, o bicarbonato, por exemplo, e oligoelementos, que são os que estão em menor concentração, como por exemplo, o silício. É muito difícil eu associar um determinado elemento a um determinado efeito na saúde, mas de uma forma muito geral, poderei dizer que o cálcio é importante para a atividade neuromuscular, para a síntese de hormonas e para a coagulação. Por exemplo, o sódio é fundamental para o equilíbrio hídrico do nosso corpo, ou seja, para o volume, assim como o cloro, que além desta função, também é importante nas secreções gastrointestinais e na motilidade. O bicarbonato é conhecido como um antiácido importante e o ferro, por exemplo, que é para a síntese da hemoglobina e para o oxigênio. E claro, o magnésio, que é muito falado.
É muito falado ultimamente.
Exatamente. Ele atua no metabolismo das proteínas, das gorduras, do açúcar e também tem um efeito no sistema imunitário e na massa óssea. Eu não vou alongar, porque estes temas já foram explicados pelas minhas colegas e são muitos os minerais, são muitos os efeitos, e não são individuais, sobretudo pela associação entre eles. E se me permitir, eu vou fazer só uma nota, que além da mineralização das águas, também é muito importante o genoma da água. E o que é o genoma? O genoma inclui um perfil microbiológico e genético da água, que é único, ou seja, inclui os micro-organismos que lá estão e a interação entre estes micro-organismos e os minerais. E por que é um tema importante? Porque alguma das águas minerais naturais contêm bactérias probióticas e outras espécies que são importantes, por exemplo, para a nossa pele, para o intestino ou até para o sistema imunitário.
Então foi muito bom essa nota, essa parte. E de um modo geral, que tipo de serviços estão disponíveis nas termas em Portugal? E já agora, na maioria dos casos, estes serviços tratam que patologias?
As termas dispõem de vários serviços, de várias técnicas termais. E o que é que são as técnicas termais? Não são mais do que o modo de utilização de um conjunto de meios que usa a água mineral natural. Ou seja, temos, por exemplo, a hidropinia, que não é mais do que a ingestão oral da água mineral, e ela é muito importante, sobretudo para a patologia digestiva, mas também temos chegado à conclusão que a longo prazo tem um efeito a nível de todos os sistemas, não só digestivo. Existem as técnicas internas, como por exemplo, os clisteres ou a hidrocolonoterapia com água termal, que é sobretudo para a parte digestiva, e que os novos estudos dizem que não só a parte digestiva, se nós alterarmos a nossa flora intestinal, nós também podemos influenciar o nosso humor, a nossa pele e a parte hormonal, por isso está tudo ligado.
Sim, o intestino, sim.
E temos as técnicas externas, como as técnicas de imersão, as banheiras, que podem ser totais ou parciais, como o pedilúvio, o manilúvio, ou os duchas, como por exemplo, os duchas vichys ou o banho com duchas subaquáticos, vários jatos. Podem ser com mais ou com menos pressão, que têm alguns nomes engraçados, como o ducha escocês ou o ducha da guilhotina. São muitas as técnicas que nós podemos utilizar. E estas técnicas são sobretudo para a patologia muscular, por exemplo, para a musculoesquelética, para as artroses, para a osteoporose, para as doenças reumáticas, as artrites reumatóides. Também são importantes para a parte digestiva, são importantes para a pele, a psoríase, os eczemas, ou até mesmo para a parte circulatória, que é muito comum e que nós muitas vezes desvalorizamos, como as varizes ou as hemorroidas. Além destas técnicas, também é possível outras técnicas complementares, e aí, por exemplo, a fisioterapia e tudo o que está inerente à fisioterapia, as massagens. E uma parte também muito engraçada, que são as técnicas de bem-estar, ou seja, técnicas de relaxamento, como o pilates, a yoga, as consultas de nutrição, com ou sem suplementação. Já há planos alimentares prescritos e executados nas próprias termas, claro, planos de saúde mental, planos de qualidade do sono.
Estou a precisar, doutora. Agora, depois de ouvir isto, ainda estou a precisar mais.
Eu espero que sim.
E o que difere umas termas das outras? Como é que sabemos qual escolher?
As termas diferem entre si pelas características da água. Como eu disse anteriormente, a água mineral natural é uma água única e ela difere pela sua mineralização, ou seja, pela concentração total de minerais, difere pela presença de um determinado mineral em si, o seu pH, a sua temperatura, condutividade. São vários os pontos que nós podemos utilizar para as caracterizar. Mas quanto à sua composição química, que é aquele que nós achamos que é mais importante, as águas são classificadas tendo em conta a presença do elemento principal, ou seja, o que está em maior concentração ou a presença específica de um. Por exemplo, as águas bicarbonatadas significam que a sua maior concentração é de bicarbonato, ou as cloretadas têm o maior Concentração em cloro. E elas próprias podem ser ou sódicas, ou cálcicas, ou magnesianas, se têm ou não a presença deste específico mineral. De uma forma muito reduzida, posso dizer que as águas bicarbonatadas são importantes para a patologia digestiva, para a patologia genitourinária, por exemplo, a litíase renal, que já foi falada.
Os cálculos ou as pedras nos rins.
Pedras nos rins, como se costuma dizer. As cloretadas para a patologia respiratória, para a patologia muscular, circulatória. São vários os sistemas em que elas afetam. As sulfúreas, que também são transversais a patologias da pele, respiratória, até mesmo ginecológica. E o mais encraustado é que algumas das águas, nomeadamente as hipermineralizadas, como têm altas concentrações destes minerais, vão beneficiar das várias vantagens, pois conseguem usufruir de um ou de outro mineral.
Doutora, então imagine que eu quero fazer termas. Como é que tudo isto se processa? Agendo a ida e começo a fazer sem ter uma consulta ou tenho sempre que ter uma consulta com o médico hidrologista? E depois, como é que é, ainda há pouco falava disto, doutora, apoios, comparticipações do Estado neste tipo de serviços médicos.
Uma pessoa pode recorrer às termas por iniciativa própria ou por uma indicação de um médico. Se for por indicação do médico, pode usufruir da comparticipação do Sistema Nacional de Saúde, se for prescrito por um médico de família. E esta comparticipação é uma comparticipação de 12 dias consecutivos, pelo menos 12 dias, pode ser prescrita uma apenas por ano e tem uma validade de 30 dias até à data da consulta. E esta comparticipação é de 35% num total de 90 €. Se não for prescrita pelo médico de família, também pode usufruir de uma comparticipação de outro subsistema. Por exemplo, ADSE, FAMS, são vários. Se mesmo assim não tiver uma requisição médica, pode usufruir do reembolso por parte das seguradoras se houver contratualização de tratamentos termais com a seguradora. E independentemente de ter uma requisição ou não de um médico, qualquer pessoa pode entrar em contato com uma estância termal ou apresentar-se na estância e agendar uma consulta. Uma consulta de hidrologia. E será nessa consulta que se faz o plano de tratamentos e é definido a duração do mesmo, tendo em conta as necessidades do termalista e a disponibilidade do mesmo.
A ideia que acredito que muitas pessoas tenham de que as termas são frequentadas apenas por pessoas mais velhas, porque a doutora explicou há pouco, já percebi que não, mas é um mito, de facto. Hoje em dia é um mito, se calhar em tempos foi sempre assim.
Não foi sempre assim, não. E a ideia não está errada, mas também não está totalmente correta. Nós estamos habituados a ouvir o binômio de saúde-doença. E a abordagem normalmente desta dicotomia é preferencial para a doença. Nós ainda hoje medimos a saúde pela doença. Índice de mortalidade, prevalências, incidências e estilo de vida. Estilo de vida, não. Esperança média de vida. Nós não valorizamos a saúde pela saúde em si, que a Organização Mundial de Saúde define saúde como bem-estar físico, psíquico e social. Nós estamos focados na doença. E é verdade que as termas estão indicadas para tratamento de doenças crônicas, sim. Estão para a reabilitação também. E pensamos logo numa população mais velha, nas artroses, na osteoporose ou até numa reabilitação após um AVC. Sim, há indicação para isto tudo, mas as doenças crônicas não se limitam a esta faixa etária. Também são comuns nos jovens adultos, nas doenças de pele como a psoríase, as doenças autoimunes ou até nas crianças, na rinite, na sinusite e na asma. Há em algumas termas, o termalismo infantil, se assim o poderei chamar, é responsável por uma grande adesão às termas, sobretudo nas férias escolares. Por isso, as termas são para as várias faixas etárias. E ainda pensando em relação à dicotomia anterior, o termalismo é um modelo de promoção da saúde, através da salutogênese. O que isto quer dizer? Nas termas nós ensinamos as pessoas a melhorarem as suas características internas, a prevenirem a doença e a manterem-se saudáveis. As termas são o local ideal para a promoção da saúde. Que hoje em dia, promoção e educação para a saúde.
Educação, exatamente.
Que hoje em dia a educação para a saúde é muito difícil no Sistema Nacional de Saúde. Não há tempo e não há possibilidade. Por isso, deveremos ver as termas como um local que permite uma abordagem holística e sustentável para a saúde em todas as faixas etárias. Porque está descrito recorrer ao termalismo, há uma diminuição do uso de medicação, há uma diminuição da frequência aos serviços de urgência, de recorrer aos médicos de família, há uma diminuição do absentismo escolar e laboral, e uma melhoria da qualidade de vida.
Por conseguinte, não é claro.
Exato.
Doutora, para terminar, que recomendações gostaria de deixar aos nossos ouvintes para que se mantenham sempre hidratados, tanto por dentro como por fora?
Bebam água mineral natural. E agora que já sabem que é uma água que é rica em minerais, não tenham medo da água hipermineralizada. As águas com muitos minerais não têm uma associação direta com hipertensão. Não caiam no mito do pH da água e, por favor, não se esqueçam do efeito do termalismo como um aliado natural para a nossa saúde.
Doutora Mariana Paim Carvalho, muito obrigada por ter estado conosco no "Claro como Água". Foi um gosto recebê-la e ficar a saber mais, muito mais sobre a água termal. Obrigada. E agora a habitual curiosidade. Sabia que algumas fontes termais podem atingir temperaturas superiores a 100 graus? Apesar disso, existem locais específicos onde a água é resfriada para banhos terapêuticos. Esperamos que tenha gostado de mais um episódio do podcast "Claro como Água", da iniciativa "Vimeiro Explica". Os episódios estão todos disponíveis em podcast, nas várias plataformas digitais e no site do Observador. Eu sou a Maria João Simões, marcamos encontro daqui a 15 dias. Até lá, não se esqueça: beba água todos os dias e de preferência mineral. A sua saúde agradece.