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E na comissão de inquérito de hoje recebemos o ator Carlos Areia. Olá, Carlos, bem-vindo.

Está com ar preocupado.

Bem-vindo.

Apreensivo.

Não, isto é tão mágico pra mim. Acreditem. Sempre foi. Eu ainda sou do tempo que faço ideia como é que seriam as cabines.

Ainda foi e ainda é.

Não, isto é uma coisa. É lindo.

Muito bem. Carlos, vem para responder a perguntas, esta não é para pontos.

Vocês falam em inquérito, eu fico a pensar em comissões de inquérito.

Comissão de inquérito. Isto é uma coisa séria.

É muito sério, é mais sério do que pensa.

Intimida. Não, livre.

Vamos às regras?

Embora.

Vamos fazer-lhe cinco perguntas.

Não, não tem regras.

Há mínimos a cumprir.

Isto é rigoroso.

É assim: vamos fazer cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Pode pedir ajuda a estes quatro gabaritos.

Damos três alternativas.

Três alternativas. Se acertar, recebe dois pontos.

Se não acertar?

Não recebe nada.

Pensei que era aquela história do eletrodoméstico: se acertar, leva o eletrodoméstico.

Não, aqui não é eletrodoméstico.

Pronto, ok.

Vamos começar? Vamos a isso?

Está pronto.

Vamos lá. Luís, começas tu.

Então começo eu, porque o Carlos participou numa série muito emblemática da televisão portuguesa, os "Malucos do Riso". Certo? A pergunta é: quantas temporadas teve a série "Malucos do Riso" na Sic?

Ui!

Não tem conta.

Tem conta. Se calhar, tem.

Mas é por aí.

Para mim, não, porque ainda hoje se fala nisso e eu já saí disso há não sei quantos anos. Portanto, não tem conta.

Quer uma ajuda?

Quero.

Então, 29, 30 ou 31?

Também não foste de uma grande ajuda.

Olha, diz no meio, pique nas 30.

Não, eram 29. Foi menos uma, 29.

Mas é impressionante, 29 temporadas.

São 29 temporadas. E é uma série que marcou muito uma época. Ainda fazia sentido uma série destas hoje na televisão? Este humor ainda faz sentido na televisão dos dias de hoje? E na sociedade dos dias de hoje?

O humor é um lugar que faz sentido em qualquer altura. Depende das alturas, porque também o humor apresenta-se de outra maneira. Já não se vai apresentar os "Malucos do Riso" como se apresentou. Hoje seriam de outra maneira, diferente mesmo. Nem é preciso procurar fórmulas. Ia nascer de outra forma, de certeza absoluta, mas faz muito sentido. Mas isso significa que hoje olhamos para o humor de maneira diferente daquilo que olhávamos há 20, 25 anos?

Olhamos e fazemos de outra maneira também.

E fazemos menos, por exemplo, na televisão. Antigamente, eu lembro-me, nos anos 80, 90, havia espaços de humor, desde o Nicolau Breyner, o Hermano José, Marina Mota. Isso foi-se perdendo.

Foi-se perdendo

Mesmo. Não sei por quê, não me perguntem por quê, porque eles é que têm os livros, eles é que estudam, eles é que sabem, eles é que decidem e decidiram assim.

Talvez tinha passado para outras plataformas, digo eu, não sei.

Sim, também.

Muito na internet hoje em dia.

Há plataformas novas, umas ótimas, outras menos boas e algumas más.

E algumas más. Carlos, e os bonecos, entre aspas, que apareciam nos "Malucos do Riso" nos anos 90, eles caberiam nos "Malucos do Riso" de hoje ou não?

Eu agora dizia um disparate.

Então?

Cabrão. De outra forma, tudo muda.

É que hoje vivemos numa época muito politicamente correta. Não seria estranho? Não sei.

É assustador.

O que é que é assustador?

Mas sabes, é assustador a maneira como as coisas se alteram. Eu tenho uma visão: eu aprendi numa escola muito boa, que hoje se calhar não serve pra nada, mas na altura, o caso dos Malucos. Os Malucos foi uma escola extraordinária, não só de representação como de escrita. Eu escrevi muito nessa altura, escrevi durante os primeiros anos e realmente foi um grande exercício de escrita, de aprendizagem. Hoje, não sei como é que seria. Aliás, eu sei como é que é hoje e não funciona tão bem, por quê? Eu lembro-me quando escrevia os Malucos, éramos seis malucos a escrever ali para os lados de Madragoa.

Éramos seis malucos, isso já era uma grande frase.

Éramos seis malucos. Íamos pra uma mesa. Já agora, Carlos, quem é que eram esses malucos? Para ficar registado. Estamos numa comissão de inquérito.

O Zica está fora do mercado, ninguém conhece. O outro, o gordo, o meu amigo. Epa!

O Guilherme Leite?

O Guilherme Leite, obrigado, vocês ajudem.

Essa referência ao gordo, hoje em dia, já era body shaming.

Era. E era o Zica, era eu. Para mais umas figuras. Por vezes aparecia o Camacho.

Camacho Costa.

A meter lenha, como se costuma dizer. E era um processo de trabalho ótimo. Por quê? Porque éramos mesmo malucos. Nós levávamos, cada um levava o nosso trabalho e havia um que dizia: "Lê lá, o que é que traz aí?" E a gente lia, ou líamos e: "Esquece lá. Não, emenda isso". E passávamos assim um dia a emendar uns aos outros e a fazer um trabalho de escrita que hoje não. Hoje vão à net.

Pois.

Fazem print.

Ou está cada um em sua casa a partilhar um documento online.

Vão à net e não trabalham aquilo.

Carlos, e num dia produziam quantos episódios?

Era numa altura que hoje conta-se por minutagem, como nas novelas, tem que se fazer não sei quantos minutos. Não era nossa preocupação Sabíamos que tínhamos que gravar naquela semana N episódios e era por aí que íamos, não ia por minutagem. Hoje é tudo muito mais específico. Tem que se fazer 45 minutos, 50 minutos. Naquela altura era um bocado a olho. Trabalhávamos um bocado a olho, que era engraçado.

Nós aqui somos mais rigorosos e vamos avançar para a segunda pergunta. Vamos ver o que sai daqui. Qual o ator que ganhou mais Oscars na categoria de melhor ator?

Portanto, mais Oscars não tem a ver com atores portugueses.

Não tem. Lamento. Eu posso lhe dizer que ganhou três. Ganhou três Oscars este ator.

Na categoria de melhor ator.

Na categoria de melhor ator.

E um ator secundário.

Há outros que ganharam três, mas um deles era de ator secundário.

Vocês estão mesmo a pôr à prova.

Uma ajudinha?

Sim.

Ele é até relativamente jovem. Robert De Niro, Al Pacino ou Daniel Day-Lewis.

Eça, três monstros.

Atenção à dica do Bruno.

Não. São três monstros.

O Bruno disse que era relativamente jovem.

Era relativamente jovem.

Não é o Al Pacino.

Não é o Al Pacino.

Não, o Day-Lewis.

É o Day-Lewis. Daniel Day-Lewis. Está certo.

Eu lembro-me dele. Muito bom. Aliás, os três muito bons.

Ele disse que se tinha reformado, mas agora regressou para protagonizar um filme realizado pelo filho. Já lhe vamos falar com mais detalhe deste filme que vai estrear.

Achas?

"O Lugar dos Sonhos". Como é esta experiência de ser protagonista?

Olha, eu nunca fui protagonista de nada.

Daí a pergunta.

Nem na minha vida particular.

Às vezes interessa mais ser um bom secundário do que um mau protagonista.

Eu ia dizer isso, vou-me repetir. Eu preferi toda a minha vida, na minha profissão, ser um razoável segundo do que um mau primeiro. Sempre primei por essa postura. O primeiro assusta-me muito. Ser protagonista é um ato de grande responsabilidade. Eu não sei se há colegas que encaram isso assim. Eu encaro isso como uma grande responsabilidade.

E foi com essa responsabilidade que encarou este desafio?

Exatamente. Assustadoramente. Eu quando li aquilo, não me apercebi que era protagonista. Era mais um trabalho. Minha mulher é que me chamou a atenção: "Mas tu és o protagonista". E eu: "Sou o quê?" "És o protagonista, lê lá isso outra vez."

E aí assustou-se.

Se bem que aquilo era chamado, como nós dizemos no teatro, eu estou mais ligado ao teatro, a carapuça. Eu olhei para aquilo e disse: "Isto sou eu. Este homem, este Júlio, sou eu. Tenho esta idade, já passei por isto, já pensei nisto. Poderia muito bem ter esta loja de vídeo, poderia muito bem ter esta família, este sou eu. Eu vou ganhar isto?" E a minha mulher disse: "Não, vais, isto é teu". E fiz um casting até bastante rigoroso, diga-se de passagem, e grande.

Não foi um convite de quem escreveu o filme?

É assim, o Diogo Morgado escolheu-me, disse: "Eu quero, este está fora".

Mas ainda passou por um processo.

Mas como ele tinha um contrato ou um acordo com a Cinemate, a Cinemate tinha uma palavra a dizer. Eu já tinha trabalhado com a Cinemate, mas eles pediram ao Diogo: "Não, vamos fazer um casting", e fizeram todos casting. E eu acabei por fazer o casting e fiquei.

Tenho alguma curiosidade em perceber como é que um ator com a experiência do Carlos realiza um casting.

Como é que se realiza? Primeiro, há que aceitar como método de trabalho. Eu tive que aprender isso. Até aqui era aquele velho que trabalhava: "Ora fazer casting. Coitado que eu tenho. Eles não me veem, não sei o quê". Não, é um processo de trabalho natural e normal, que vai ter que acontecer.

Mas teve que se apresentar frente a um painel de figuras?

Não.

Ler partes do guião.

Mandaram o texto, eu penso que mesmo do próprio filme, que eu tive o cuidado de, na minha sala, montar um décor, mais ou menos com aquilo que era pedido. A minha mulher ajudou-me, o meu vizinho também fez de meu neto, e eu acabei de fazer a cena na sala. A cena que eles pediam, que era passada no videoclube.

Portanto, aí já é um casting à medida.

Aceitei o processo. Eu a princípio ainda fiquei um bocado: "Epa, ter que fazer isto? Está bem, vou fazer. É para mim, ok". E acabei por fazer.

Ainda bem.

Muito bem, vamos seguir para a próxima questão, Carlos Areia.

Já com dois pontos.

Mas continuamos a falar do "O Lugar dos Sonhos".

Que é ótimo.

A pergunta é: quem foi o realizador do famoso "Cinema Paraíso"?

Épa, vocês são tramados. Não me interessa. Eu sei que vocês dão-me uma hipótese.

Vamos lá, três hipóteses, então. Nanni Moretti, Paolo Sorrentino ou Giuseppe Tornatore.

Épa, eu conheço Paolo Sorrentino

Que fez o famoso, não sei como é o filme, não é "Mão de Deus", mas é lá próximo, não é?

É "Mão de Deus".

É "Mão de Deus" que se chama?

"The Pope", talvez. Não?

Sim, também.

Este também? Tu tens umas coisas.

Sim.

Então e o "Cinema Paraíso"?

E o "Cinema Paraíso", o que é?

Eu diria que não é muito o estilo do Sorrentino.

Não, mas eu tive uma aventura com o Paolo Sorrentino. Não se esqueçam.

Opa!

Pois.

Vamos lá.

Queremos saber.

Continua, Paulo, querem saber.

Queremos saber.

Não, eu vou pro perdão. Podes repetir, importa?

Nanni Moretti, Paolo Sorrentino ou Giuseppe Tornatore.

Ele até se engasgou, o Paulo.

O Paulo ficou nervoso.

Exato.

Giuseppe Tornatore.

Paolo, eu diria que não é muito o estilo dele.

Não, o Paolo diria o "Cinema Paraíso".

O último, como é que se chama?

Giuseppe Tornatore.

Está certo.

Mais dois pontos.

Eu sabia que não era o Sorrentino.

Nem o Moretti.

Vou dizer porque tive uma grande aventura.

Em 30 segundos, consegue contar?

Não sei se foi o Sorrentino que pediu o casting, exatamente. Uma coisa que eu não acreditava.

O Carlos está a falar pra fora do estúdio, a perguntar.

Sim, a minha mulher que está por dentro.

E está a confirmar.

Confirmar que o Paolo Sorrentino, ouve alguém através dele, que me fez um convite pra fazer uma figura que eu disse: "Eu? Mas por que eu?" Mas como esse Paolo Sorrentino vê muito à frente, muito mais do que eu, e se calhar é mais novo do que eu. Mas em termos de cinema, ui. Olhou pra mim e disse: "Não, você é que é capaz de fazer isso". E então ia fazer de quem?

De quê?

Do nosso colega, grande escritor, Prêmio Nobel.

Saramago?

Saramago.

Uau!

Que olha, eu, o Saramago. E eu consegui fazer o Saramago. Arranjei, fui pedir uma calote.

Claro.

Fiz a figura toda. Estudei o texto em italiano e em português. Engraçadíssimo o texto. Tirado de entrevistas do Saramago, a chamar a rata ao Berlusconi. E quando a coisa estava encaminhada pra eu fazer o papel, o Berlusconi cortou as pernas ao Sorrentino.

Pronto.

Quando o filme era pra ser feito, a história do Saramago.

Claro. Aí é política que entra pra dentro.

Convidou-me pra fazer "The Pope", mas eu disse: "Epá, o meu inglês não chega aí". Não chega mesmo. É inglês de bairro e mau. Se bem que se calhar eu era capaz de estudar um texto, mas não me estava a ver a fazer o "The Pope". Agora, o Saramago, deu-me um gozo de fazer aquilo, e eu depois fui ver aquilo que fiz e fiquei espantado comigo.

Com a sua própria representação. Boa!

Foi muito bom.

Uma bela história.

E foi uma grande experiência, vou te dizer. Não deu em nada.

Mas, de qualquer maneira.

Foi uma experiência espetacular.

Mas agora temos aí o "Lugar de Sonhos", vai estrear agora.

Espetáculo.

O filme de Carlos Araia. É dita na descrição do filme que é uma carta de amor ao cinema e às histórias que nos definem.

Olha, que é mesmo.

Daí também, obviamente, a ligação, a referência do "Cinema Paraíso".

Exato, porque aquilo realmente remete-nos pra esse espírito. Houve alguém que disse, eu não encontrava as palavras certas, que era ressalvar. Não era ressalvar, falta-me o termo.

Resgatar.

Obrigado. É pra isso que ele está aqui.

Está aqui. Não está aqui à toa.

Resgatar novas formas que se perderam ao longo do tempo e no mundo atual, que está tão agressivo, tão grosso, tão com falta de gosto e falta de valores. Perderam-se muitos valores.

Claro. Mas Carlos, o cinema está a deixar de ser a fábrica de sonhos. Sempre foi uma fábrica de sonhos, de alguma maneira.

Sempre.

Continua a ser.

Só que há alguns sonhos que nós olhamos pra aquilo e diz: "Ah, não, ele não tava a sonhar, ele tava bêbado, se calhar". Há um cinema português que eu gosto, mas que às vezes parece-me que não é português. Às vezes parece-me que as histórias não têm a ver com a nossa realidade, conosco. Não sei se isto terá que ser mesmo assim pra se dizer que é cinema português, mas que muitas vezes não nos diz nada. Não nos diz nada como portugueses. Às vezes são estrangeiríssimos os filmes que andam ali a navegar numa área, em problemas que não são muito nossos, não nos ajudam.

E mesmo os atores portugueses, acha que têm sido desaproveitados pelo cinema português?

Temos atores no cinema brilhantes. Brilhantes atores portugueses, a quem eu tiro o chapéu, como se costuma dizer. Agora, as histórias.

Por quê?

Pra já, acho que não temos ainda, ou perdemos, não sei se tivemos alguma vez, uma linha de cinema.

Uma indústria.

Não é só indústria.

Indústria no sentido de um processo. Argumentistas.

Olha, o cinema italiano, o cinema francês.

Sim, é bem diferente. Claro.

Perdeu-se ao longo dos anos.

Tivemos, talvez, durante o Estado Novo.

Tivemos no Estado. Exato. Se era aquela linha, não sei se seria, que era as comédias.

Pois, a apologia dos valores portugueses.

E não temos. Hoje temos cinema de realizador. Cada realizador tem a sua ideia.

Tem o seu universo.

Exatamente. O Diogo Morgado foi buscar uma coisa que a mim me tocou bastante: os tais valores que se perderam e que eu disse sempre: "Tenho receio disto, porque são valores que caíram em desuso, infelizmente." Família, amizade, cuidado com o outro, viver em sociedade, coisas tão estranhas. Caiu em desuso, infelizmente.

Vamos passar para a quarta pergunta.

Embora.

Vamos lá. Vamos ver se isto também caiu em desuso ou se está a regressar em força. Na primeira telenovela brasileira exibida em Portugal, "Gabriela", quem interpretava o papel de Mundinho Falcão?

Eu não ia dizer que era o Armand Bógus.

Não era. Esse era o Nacib.

Esse era o protagonista, de alguma maneira.

Esse senhor já faleceu.

Já.

Eu sei, já faleceu. Sei quem ele é, estou a ver a cara dele.

Ele é bom rapaz.

E vais me ajudar.

Ele também fez o Roque Santeiro.

Pois fez.

Não, este, o Mundinho, é que fez o Roque Santeiro.

Exatamente. Mas ele morreu há pouco tempo. Há pouco tempo, não, mas para aí há três anos.

Sim, há uns anos.

Três, quatro anos. Eu sei quem é ele.

De uma cardíaca. Então vai saber.

O Armand Bógus não é?

Não é o Armand Bógus. Não, que até já morreu há mais anos. Então, Lima Duarte, Tarcísio Meira ou José Wilker?

Foi o José Wilker.

José Wilker. Olha agora.

Foi o grande José Wilker.

Está com seis pontos. Eu falei aqui da primeira telenovela brasileira exibida em Portugal, a "Gabriela".

Não sei se foi "O Casarão" ou não.

"O Casarão" foi depois.

Foi "Gabriela".

O Carlos Areia chegou a participar na primeira telenovela portuguesa.

Vocês acreditam numa coisa? Toda a gente diz isso. Está no meu currículo e eu não me lembro nada.

Eu ia perguntar como é que foi a experiência.

Não me lembro.

Em branco.

Completamente.

E hoje as telenovelas que se produzem em Portugal já são de uma qualidade comparável à das brasileiras?

Ele quer me deixar mal.

Sem medos. Vamos embora, Carlos.

Não, claro. Achas que eu agora tenho algum medo de alguma coisa? Diz-se que sim, mas ainda falta muito pra lá chegarmos.

O que é que falta?

Falta dinheiro, como falta em tudo. Os brasileiros têm um poder econômico. Estão a fazer as novelas, elas já estão vendidas pra não sei quantos países. Já lá têm, como se costuma dizer, o guito. Portanto, andam muito à frente.

É um produto de exportação brasileiro.

Exatamente. E isso mexe muito com a qualidade, infelizmente.

E as condições de trabalho numa telenovela em Portugal para um ator são boas?

Já são comparáveis às do Brasil, porque eu já fui ao Brasil. Estive lá uma vez e fui à Projac visitar.

Aos estúdios da Globo.

Estive na Projac, fiz essa visita. E nós cá já estamos a aproximar-nos. Temos muita qualidade. Dão-nos condições.

E isso tem impacto na altura de decidir se vai fazer uma novela ou um filme? Essas condições.

Eu agora decidi-me por filme. Fiquei apaixonado por cinema. Não percebo nada. Mas eu gostei do processo. Tive a sorte de apanhar este guião, se calhar não terei noutras ocasiões, mas gostei muito de fazer este projeto. De tal maneira que eu agora optava, se me dessem a escolher entre novela e cinema.

E um filme idêntico.

Quando é que estreia?

Dia 28. Amanhã vou ver pela primeira vez.

A montagem final?

Aquilo que eu fiz.

Muito bem.

Nunca vi nada.

E vai estar. Olha, última pergunta, tens seis pontos: onde é que nasceu a tradição de atirar arroz sobre os noivos depois da cerimônia de casamento?

Eu arriscava a dizer um disparate, como o arroz, dizia que era na China.

Está certíssimo.

Está certo? Está certo! Está me a correr bem.

Muito bem. Olha, eu estou a olhar aí pra tua mão, tens aí uma aliança bem brilhante.

Casei agora aos 80 anos.

Foi notícia.

Foi, pois foi.

Houve lua de mel ou não?

Ainda não.

Há que trabalhar.

A promover "O Lugar dos Sonhos" e então comprometi-me a isso e não posso. Só pra ir pra setembro é que sou capaz.

Já está quase.

Está quase. Isso é espetacular, dizias, 80 anos, não é?

Faço 82 agora no fim do ano.

Incrível, espetacular.

Eu estou bem, tenho saúde, pra Deus, que haja saúde. Estou ótimo.

Olha aí, Carlos, e o amor não tem idade, pois não?

Algumas coisas têm. Não, mas não tem idade mesmo. Isso é um lugar comum. Se bem que isso depois incomoda muita gente. Toda a gente diz: "Muito bem, não, não tem idade", mas depois já ouvi tanto disparate. Claro que não tem idade. Não há hipótese. Eu casei e já estava casado há 16 anos com a minha mulher.

Sim, já estão juntos há muito tempo.

Vai fazer 17.

Nós somos um país envelhecido, ainda assim há muito preconceito em relação à idade, não é?

Muito.

Isso nota-se muito nos atores ou não?

Não. Os atores são muito mais abertos, têm umas mentes muito mais arejadas.

Mas em relação aos atores?

Em relação à profissão, ao exercício da profissão?

Isso.

Eu vou contar-lhes um segredo Eu acabei o filme em setembro. Vai fazer agora um ano, não foi? Nunca mais fiz mais nada até hoje.

E por alguma razão?

Tem a ver com a idade? Eu olho para os elencos e vejo velhos.

E encontras lá pessoas.

Velhos a fazer de novos, novos a fazer de velhos, filhos a fazer de pais que não têm cara nem para ser mães. Não sei se tem a ver com a idade, mas sinto que as pessoas mais velhas não têm cabimento em muitos elencos.

Uma última pergunta, Carlos. Um papel que ainda gostasse de fazer?

Isso é um lugar comum. Mais do que a resposta inteligente, é uma pergunta inteligente. Gostava de fazer um advogado com uma grande escola de advocacia, mas com problema de alcoolismo.

Por quê?

Porque vi uma vez qualquer coisa nisto. Aquele advogado que ninguém acredita nele porque ele tem um problema de alcoolismo. E ele, com o problema de alcoolismo, consegue ir à barra do tribunal e embrulhar aqueles gajos todos que não bebiam. E ele era o único que bebia e consegue resolver um problema com a visão que ele tinha, se calhar, conturbado pelo álcool.

A clarividência do álcool.

Do álcool. Conseguiu resolver um problema.

A turva clarividência do álcool.

Um gajo bem vestido, mas mal arrumado. E aquilo marcou-me. O ator não me lembro quem era, mas também uma coisa que me marcou, gostaria de fazer uma coisa desse género.

Quem sabe?

Carlos Areia, sai daqui com 11 pontos. Nada mal.

Muito bem.

Espetacular. Boa estreia, que é daqui a 10 dias.

10 dias. "O Lugar dos Sonhos".

E "Voo de Mel". Muito obrigado e até à próxima.

Obrigado eu. Para mim foi ótimo estar aqui.

Boa sorte.

Muito obrigado.

Obrigado eu. Muito obrigado.