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Começa agora mais uma comissão de inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado Miguel Coutinho, administrador e diretor-geral da Fundação EDP e do MAAT. Bom dia, bem-vindo.

Bom dia.

Obrigada por ter aceitado o nosso convite.

É um prazer.

Sabe ao que vem?

Não sei muito bem.

Não vem com os óculos do eclipse.

Não venho com os óculos.

Portanto, consegue ver. Saber ao que vem é que já é outra coisa.

Sim, e devo dizer, para começo de conversa, que tenho uma grande memória para esquecer aquilo que não é essencial.

Oi.

Portanto, temos este privilégio.

Esse disclaimer, que é exatamente o nosso tema preferido.

E hoje é um dia importante, ainda por cima.

São cinco perguntas, cinco pontos por cada resposta certa. Se pedir a nossa ajuda, damos-lhe escolha múltipla. Se acertar, recebe dois pontos. Portanto, o máximo são 25.

E há risco de descer de divisão se não tiver os pontos suficientes?

Pois, corre o risco, sim.

Vai para a divisão .

Hoje muitos vão escolher Belém e o MAAT para ver o eclipse. Estamos a falar de um acontecimento astronômico raríssimo em Portugal. Este é muito simples: em que ano ocorreu o último eclipse solar total visível no nosso país?

1912.

Certíssimo.

Certíssimo.

Acabei de ouvir a Carla referir, portanto.

Não, mas como essa memória é muito seletiva, nunca sabemos, Miguel.

Há 114 anos, éramos umas crianças. Já tem os seus óculos, Miguel?

Claro. Eu acho que hoje vamos ser todos Devol. Não sei se lembram dos Devol nos anos 80, que usavam uns óculos muito parecidos com estes óculos.

Futuristas da altura. Exatamente.

Eram futuristas.

O que o MAAT tem previsto para esta tarde, além de receber a equipa da Tarde Política, que a partir das 17h vai estar em direto do vosso telhado, da vossa cobertura, a acompanhar todo o eclipse.

O MAAT tem a sua programação aberta ao público e, portanto, com grandes exposições, com Ana Maria Maiolino, com o Manuel João Vieira, com o Céleste Boursier. Temos uma série de exposições, podemos falar sobre isso mais tarde, que são muito interessantes, mas sobretudo vai ter o prazer de receber o observador para termos uma emissão sobre este fenômeno, que está a ser muito popular, do eclipse total, que pelos vistos dura só 26 segundos.

26 segundos.

Mas como estamos numa sociedade da velocidade e da rapidez, acho que são 26 segundos que convém celebrar.

Claro.

Mas há muitos locais que estão a cobrar entradas para assistir a este fenômeno. É o caso do MAAT. Da cobertura, estamos a falar, não é do MAAT lá dentro.

Não, a cobertura é um espaço público. A cobertura do MAAT é um espaço público.

Não vão hoje abrir essa chance de parceria.

Nunca abrimos e não vamos abrir hoje.

E que está naquele local privilegiado. Para quem não conhece, aquilo está mesmo coladinho ao rio Tejo, tem uma vista belíssima.

É verdade.

Não se cansa. Sim, é uma sorte trabalhar naquele local.

É. Eu estou na fundação desde 2015. Tenho o privilégio de ter um gabinete em que vejo o rio Tejo, mas vou muitas vezes ao topo do MAAT, porque é uma vista absolutamente extraordinária, não apenas do rio, mas também da própria cidade de Lisboa, porque tem uma vista maravilhosa para a cidade.

E a própria integração da obra arquitetônica é muito suave.

Sim, a arquitetura está no nome do MAAT, e não é por acaso. E de fato tem dois edifícios extraordinários. Tem o edifício que é a Central Tejo, o antigo Museu da Eletricidade, que é um edifício que hoje é MAAT também, faz parte do conceito do MAAT, e que é um edifício do início do século XX. É um exemplo de boa preservação do patrimônio industrial. E depois o MAAT, que é um edifício contemporâneo, de arquitetura absolutamente contemporânea.

E o Miguel falava há pouco do que se podia ver no museu, mas o certo é que o MAAT gasta meses, senão anos, não sei, em alguns casos, a preparar grandes exposições de arte e tecnologia. E depois a natureza se dar assim um espetáculo destes de graça em cima do vosso telhado. Não dá uma certa inveja aos artistas da casa?

Não, temos que respeitar e celebrar a natureza, portanto acho que é ótimo. O MAAT, de fato, leva muito tempo a preparar uma exposição. Acho que às vezes o público não tem essa noção de quanto tempo e os meios que estão envolvidos na preparação de uma exposição, sobretudo quando é uma exposição internacional, que obriga a negociar o feed do artista, os seguros, o transporte das obras, depois a montagem e a desmontagem, é um processo complexo, mas o resultado final é muito gratificante. Ter a possibilidade de ter grandes artistas internacionais como o MAAT tem tido, grandes artistas portugueses, é muito gratificante.

Muito bem. Miguel, vamos aproveitar aqui a bolha para falar sobre energia, a bolha do eclipse, e saber também até que ponto é que vais estando atento a essa atualidade. A REN estima que o eclipse faça reduzir a produção de energia solar que ocorreria naquele horário, em relação àquilo que é o padrão para essa altura do ano. Essa redução será de quanto, em porcentagem? A REN diz que a produção solar logo vai ser reduzida em X%.

Eu pertenço à Fundação EDP, eu não trabalho aí.

Eu sei.

Eu não sou um técnico especialista, não sei dizer exatamente. Já li nos jornais que se prevê uma redução da produção de energia renovável.

Não consegues quantar.

Não sei quantificar.

Vamos dar-te então três hipóteses: 20%, 35% ou 45%.

Eu diria 20%.

São 45%.

É o máximo das três hipóteses.

É bastante.

É bastante. Surpreende-me, não tinha visto ainda esse dado, é bastante surpreendente.

É verdade. Fala-se muito da transição energética justa. Isto como cidadão. Já deixaste claro que não estás na parte da produção de eletricidade. Achas que estamos a conseguir essa transição justa?

Acho que estamos a dar passos muito firmes nessa transição justa, que é absolutamente essencial para a sustentabilidade do planeta e para a nossa vida futura. Acho que sim, acho que o que tem sido feito em termos de energia solar, de energia eólica, de todas as energias renováveis, tem sido extraordinário. A EDP, aliás, lidera muito esse caminho, tem um papel fundamental na promoção destas energias renováveis Já agora, também referir que a própria Fundação EDP mobilizou muitos dos seus recursos da área da inovação social para apoiar projetos de eficiência energética e de promoção de energia renovável junto às comunidades mais vulneráveis. Essa também é uma preocupação da própria fundação, de acompanhar essa passava que a EDP claramente tem, e essa liderança que a EDP tem tido em Portugal, e não apenas em Portugal, porque a EDP está presente em 30 países. Hoje é uma grande multinacional.

E há projetos famosos em África, nomeadamente campos de refugiados dotados de eletricidade. Cá esse papel da fundação é muito importante, da inovação social nesta questão de energia, o não deixar ficar ninguém para trás.

Exatamente. E permitir que, sobretudo IPSS, que a economia social tenha a possibilidade de ter acesso à energia renovável e, sobretudo, tenha uma maior consciência da eficiência energética, da limitação de energia no planeta, dos recursos que não são infinitos. Temos feito muita pedagogia e muitos projetos para mobilizar, no fundo, todas as comunidades, todos os públicos sobre este tema.

Muito bem.

Muito bem.

Vamos para a terceira?

Para a terceira pergunta. É uma também, Miguel, é uma de cinco pontos. Qual foi o museu de Lisboa mais visitado em 2025?

O Museu dos Jerónimos, obviamente.

Não gostar de errar. Mais de 1 milhão de visitantes.

Mais de 1 milhão de visitantes. É um edifício extraordinário, histórico, e eu sou testemunha das enormes filas que estão sempre à frente dos Jerónimos e tenho alguma inveja.

Falando de inveja, falando disso, o MAAT também não está nada mal. Está quase a fazer 10 anos. Outubro?

O MAAT faz 10 anos em outubro. Tem sido um percurso muito desafiante, muito interessante, porque é muito interessante que uma empresa como a EDP tenha decidido integrar na sua responsabilidade social a criação de um museu. E isto tem muito a ver com o conceito de que cultura não é um luxo, que a cultura é essencial para que a sociedade tenha mais pensamento crítico, tenha mais informação, tenha outra visão sobre a realidade, sobre o mundo. E os museus, hoje em dia, são exatamente espaços de confluência, de diálogo entre várias disciplinas, entre os artistas e o público. Entre várias disciplinas, refiro e sublinho, porque o MAAT também não é só apenas um museu de arte, é um museu de arquitetura e tecnologia, mas também está aberto à moda, está aberto ao design. Portanto, tudo isto faz sentido e fez sentido na decisão da EDP de criar um museu com uma ambição internacional. Não é muito comum, mas eu me sinto muito orgulhoso de ter acompanhado esse caminho e esse projeto desde o início.

Mas agora fazendo este desafio que nós fazemos, por exemplo, nas reuniões para emprego, como é que vê o MAAT daqui a 10 anos?

Eu nunca fiz grandes planos, devo dizer, na minha vida. Não sei o que vai acontecer em 10 anos, não sei o que o mundo se vai tornar. Mas a minha esperança é que o museu, o MAAT, neste caso, continue a percorrer o caminho que tem feito, que é no fundo de ser um espaço de encontro, de ser um espaço de diálogo entre várias disciplinas, de ser um espaço inclusivo no sentido de ter uma programação para vários públicos, de continuar a ter um programa educativo e um programa público que ajude a formar as pessoas, que ajude a criar consciência sobre os grandes temas da atualidade e não só. E, portanto, é essa a minha expectativa, mas não sabemos. Este mundo está demasiado imprevisível.

Mas às vezes é preciso piscar o olho a um público mais alargado, indo buscar nomes mais conhecidos. Falaste há pouco do Manuel Joviera. É preciso piscar o olho e abrir portas a outro tipo de público?

Eu comparo muito o museu a um jornal. Eu venho deste meio, eu fui diretor de jornais, trabalhei nos jornais durante mais de 20 anos, e um princípio fundamental dos jornais era a liberdade editorial. Um princípio fundamental dos museus e das suas direções é a liberdade curatorial, é a liberdade de decidir qual é o programa curatorial, quais são as linhas desse programa curatorial. Dito isto, obviamente, há sempre um diálogo entre a administração, no meu caso, eu estou na administração do MAAT, e a direção do museu para tentar encontrar uma programação que responda a todos os públicos. E quando responde a todos os públicos, não pode apenas trazer exposições de nicho. Tem que trazer também exposições que chamem, que apelem ao grande público. E nós temos que fazer um equilíbrio, temos que ter permanentemente esse equilíbrio de saber que podemos ter uma exposição da Joana Vasconcelos com o Valentino, como vamos inaugurar em outubro, uma exposição em que a Joana Vasconcelos, a obra dela vai interagir com as obras de arte do Valentino, os vestidos do Valentino, uma exposição que vem de Roma, mas também temos a capacidade de trazer artistas extraordinários como a Miriam Cahn, o Jeff Wall, o Ernesto Neto, que já passaram pelo museu. Portanto, temos que ser equilibrados.

E tal como os jornais precisam de público.

Precisamos de público.

Tal como os jornais também precisam de leitores.

E o posicionamento internacional. Vocês conseguem saber quantas pessoas é que são turistas, no fundo?

Nós temos uma percentagem muito surpreendente de público internacional versus público nacional. Hoje em dia, o MAAT é visitado, 70% do seu público é internacional.

É impressionante.

É impressionante. E 30% é nacional. Isto tem a ver também muito com o posicionamento que o MAAT assumiu desde o início, como referi, com uma ambição internacional da sua programação, de ter muitos artistas internacionais, mas também ser um espaço onde se pode compreender o que aconteceu na arte contemporânea portuguesa nos últimos 40 anos, 30 anos. Eu acho que um estrangeiro que chega a Portugal e quer escolher um museu, se calhar escolhe o MAAT pela localização, pela arquitetura, mas também por esta dimensão do seu programa, que de facto junta, acho que de uma forma muito feliz, aquilo que são os artistas internacionais com os artistas portugueses.

Claro, e numa lógica de vanguarda sempre.

Sempre numa lógica. Sim, podemos dizer que sim.

E já que falamos de artistas nacionais, vamos à próxima.

Vamos.

Nos anos 90, os Lunáticos

Lançaram uma música que foi um êxito de verão. Começava assim: "Estou na lua, não me chateies." O que é que vinha depois?

Eu tenho uma péssima memória para estas.

A Jo ajudou muito a cantar.

"Estou na lua", mas eu canto pessimamente.

"Não me chateies que eu agora..."

Vou pra rua?

Eu vou dar três hipóteses: "Estou na lua, não me chateies que eu agora estou na lua e em breve vou chegar ao Sol", ou então, "e em breve vou chegar a Marte", ou "e a seguir vou comprar tabaco."

É a primeira. Santíssima.

Não, foi um bom momento pra ouvir a música.

Não, canta maravilhosa a música.

Não ouvi bem. É possível repetir, outra vez? Hoje será mais: "Não me chateies que eu quero ver o eclipse."

Exatamente.

E é de fato impressionante como um fenômeno de minutos, de segundos, na verdade, vai fazer parar o país. Falávamos do público do MAAT: é mais português ou contam, sobretudo, com os turistas?

Não, como disse há pouco, é sobretudo internacional o público do MAAT, mas obviamente há muitos portugueses. O MAAT é um museu muito visitado. Há uma grande polêmica nos museus sobre como é que se contabilizam as entradas. Há museus que contabilizam assim: se tu entrares no museu e existirem cinco exposições, contas como cinco visitantes. O MAAT conta como um visitante. Desde o seu início, o visitante entra, podem estar quatro exposições, podem estar oito exposições, é um visitante. E nós temos cerca de 400 mil visitantes por ano, o que é muito bom. É um número muito interessante e que mostra realmente-

Mas é um número que tem vindo a crescer.

É um número que tem vindo a crescer.

Eu lembro muito bem, provavelmente lembramo-nos todos, do dia da inauguração. Foi um sucesso em termos populares, se quisermos simplificar. Estava cheio de gente que se calhar não ia a um museu há muito tempo. Como é que se agarra depois este público? É difícil, é desafiante, sobretudo com-

Sim, nós temos tido números no aniversário do MAAT, porque abrimos as portas e este ano vamos fazer o mesmo. Portanto, dia quatro e dia cinco, o museu estará aberto, será gratuito, com grandes exposições. Joana Vasconcelos e Valentino, já referi. Uma grande exposição do Pedro Cabrita Reis, com quase 200 trabalhos novos, inéditos. E temos uma grande expectativa para o segundo semestre do MAAT. Mas sim, agarrar o público é estar sempre atento, é saber ouvir, é saber perceber quais são as tendências, é estar muito atento também ao que se faz lá fora, é dialogar muito com os artistas, conhecer o trabalho deles e ir tentando construir uma programação que responda aos interesses de vários públicos, porque há vários públicos. Há vários públicos nos museus, também. Portanto, é essa permanente busca de como é que nós chegamos a todos os públicos. E isso é muito importante.

O público mais jovem também? Isto é, o próprio espírito de MAAT levará a uma tendência de captar público mais jovem, que provavelmente não irá tanto a outro tipo de museus.

Sim, sem dúvida. Nós fizemos um estudo de mercado há pouco tempo e o MAAT é visto como newcomer, como um museu jovem e pra jovens. Portanto, tem esta ideia de frescura, de novidade, de juventude. E de fato, nós tentamos que o museu tenha essa postura. Por exemplo, nós, nas nossas inaugurações, não fazemos discursos. Não há discursos.

Essa coisa chata do velho discurso.

Não há discursos. Obviamente, o artista pode dizer umas palavras, mas não há aquela coisa de discursos. Senhor presidente, senhor diretor do museu. Temos muito esta postura e temos sempre inaugurações com DJs, com música, com ambiente muito descontraído. Essa é a imagem do MAAT, é a cara do MAAT. Portanto, nós procuramos que seja assim. O museu é visitado por muitos jovens e tem a preocupação de trazer também muitos jovens pra sua programação.

Muito bem. Miguel, vamos seguir aqui. Miguel Coutinho.

Está com 12 pontos, neste momento. Ainda faltam cinco.

Podia estar melhor.

Faltam cinco.

Mas o Sporting também pontuou na primeira jornada e nada está perdido.

Vamos aqui tentar mais cinco. E como disseste há pouco, uma boa parte da tua carreira foi passada em jornais. A fechar jornais. Fechar e abrir, e a dirigir jornais. E esta pergunta leva-nos aí. A pergunta é: o Facebook foi criado em 2004 por Mark Zuckerberg, como sabemos, e os seus colegas do quarto, que estudavam numa universidade norte-americana. A questão é precisamente essa, qual era a universidade? Tens ideia onde eles estudavam? Viste o filme "Redes Sociais", não é?

"Redes Sociais", sim.

Columbia?

Uma assim mais-

Mais.

Aquela que se calhar nos vem mais à memória. Ali pros lados de Boston.

Eu gosto imenso de redes sociais. Gosto imenso do Instagram. Acho uma plataforma muito interessante.

Sobretudo pra um diretor de museu.

Não frequento muito o Facebook e, de fato, não frequentei a mesma universidade do Mark Zuckerberg. Se tivesse sido colega dele, acho que responderia acertadamente. Em princípio, responderia acertadamente à tua pergunta.

Então vamos às três hipóteses?

Quer as três hipóteses? Então Princeton, Stanford ou Harvard.

Stanford.

Era Harvard. As redes sociais vieram, de fato, mudar completamente as regras do jogo dos mídia, da imprensa em particular. O Facebook foi a primeira rede social onde se começaram a partilhar conteúdos. Tu sentes que já estão mais ou menos encontrados e assetalhados os caminhos que vão levar à sobrevivência da imprensa ou ainda não batemos no fundo?

Eu acho desde sempre que não é o modelo de negócio que salva o jornalismo. Acho que é o bom jornalismo que salva o modelo de negócio. Penso isto desde há muito tempo e continuo a pensar isto. Dito isto, acho que há obviamente grandes desafios. Houve sempre grandes desafios ao jornalismo. Talvez hoje sejam mais críticos, sobretudo o tema da inteligência artificial é um tema realmente preocupante, no sentido da forma como as plataformas e empresas de inteligência artificial capturam conteúdos E mais uma vez, qual é a resposta que há para isto? Vou falar deste tema, porque acho que é o tema mais na ordem do dia.

Sem dúvida.

Eu acho que a resposta para isto é, por um lado, a necessidade que os mídia têm de fazer pressão sobre o regulador, sobre o legislador, para regularem esta atividade, sobretudo da inteligência artificial, da forma como desporadamente se apropriam de conteúdos e os transformam e ficam intermediários entre o leitor e os mídia. Eu acho que a única resposta que os mídia podem dar é pressionar o regulador, pressionar o legislador, ter a capacidade de continuar a fazer o jornalismo, a investigar, a procurar a notícia, a falar com as pessoas e de fato fazer valer os seus direitos, a propriedade intelectual, porque é disso que estamos a falar. E eu acho que esse é o grande tema de futuro. Eu acho que a inteligência artificial é um instrumento muito interessante para o jornalismo também. É um instrumento interessante para todas as áreas da atividade. Acho que o jornalismo também tem que aprender a viver com a inteligência artificial, mas tem que haver regras. Eu acho que essas regras não são observadas neste momento.

Ainda é preciso trabalho da regulação aí.

Eu acho, sem dúvida.

Dos legisladores.

Sem dúvida. Isto acontece no momento em que o jornalismo está fragilizado, quer dizer, as redações são cada vez mais pequenas. Eu comparo as redações com o que foram. Eu saí do jornalismo em 2005 e lembro-me de como eram as redações, tinham outra escala. Eu li há pouco um texto do New York Times que dizia que desapareceram 75% dos jornalistas nos Estados Unidos nos últimos 20 anos e 3 mil títulos desapareceram também, faliram. Quer dizer, há de fato, estamos num processo de transformação, mas eu acho que a única forma de salvar o jornalismo, se é que o jornalismo precisa de ser salvo, é de fato exercer bem o jornalismo, fazer bem o jornalismo. Acho que esse é o primeiro passo que tem que ser dado.

E achas que, no fundo, o panorama hoje das fake news e toda a manipulação de informação que pode haver nas redes sociais são um problema que tu identificas como grave para a nossa sociedade?

São, eu acho que tem a ver muito com os tempos que vivemos. Quer dizer, esta era da grande polarização, em que todo o debate público e político se faz na rejeição do outro e numa certa erosão daquilo que é um espaço comum, um espaço de diálogo, leva a isso, leva a esse fenômeno. O que me choca muitas vezes não é as pessoas acreditarem em notícias falsas, é as pessoas já começarem a duvidar das notícias verdadeiras. Eu acho que esse é que é o drama.

Mas depois acrescenta-se também a isso um certo desprestígio da profissão de jornalista, que quando tu saíste o jornalismo não acontecia ainda, é um fenómeno mais recente.

Já havia muita pressão, já havia muita pressão das receitas, já havia muito o tema da publicidade, da forma como se conseguia captar a publicidade, como ela estava a ser transferida para outras plataformas. Portanto, acho que o jornalismo viveu sempre tempos difíceis. Acho que estes tempos são particularmente difíceis, porque a inteligência artificial, de fato, é um animal de dimensões gigantescas. E perigoso.

Miguel Couto, não pude deixar de reparar nesses auxiliares de memória que trouxe aí. O que é que achava que íamos perguntar? Conta lá, partilhe lá.

Pensei que iam fazer perguntas com datas, eu sou péssimo em datas.

Só fizemos a primeira e era muito fácil.

Sim.

Era de caras.

Pois, é que soam uns papéis na mesa com umas cábulas. Tem umas cábulas, mas são coisas que eu gostaria de falar, mas acho que não vou conseguir falar de todas.

Hoje não vai haver faltas no Mat e na Fundação EDP para quem trocar o trabalho por uns minutos a ver a lua tapar o sol.

Não, já está numa hora em que as pessoas já estão.

Já, já, já. E as que não saíram, está tudo seguro.

Agora o museu ainda está aberto.

Pois, lá está.

E tem que funcionar bem.

Precisamente. Miguel Couto, sai daqui com 12 pontos, tem de cá voltar.

12 pontos não é brilhante, mas está acima das minhas expectativas.

Com este tipo de quiz.

Obrigada por ter aceitado vir à "Canção no Ponto".

Um prazer ouvi-los. Obrigado.

Obrigada, o gosto foi nosso.