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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado Nuno Luz, jornalista desportivo. Fala Nuno, bom dia, bem-vindo.
Bom dia. Muito bom dia.
Há quanto tempo não entras num estúdio de rádio? Dizia isto ontem.
Há muito tempo mesmo. Saudades.
Saudades. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedires a nossa ajuda, damos-te escolha múltipla, se acertares recebes dois. Ou seja, o máximo são 25 pontos.
Não sei se estou à altura.
Nunca ninguém fez menos de sete.
Vamos tentar.
A fasquia está elevada.
Como se chama a famosa saga de documentários desportivos da Amazon Prime, que mostra os bastidores sem filtros de várias equipas? Já foram aos bastidores do Manchester City, Tottenham, aqui focado na chegada caótica do José Mourinho, Arsenal, Juventus, parece que a próxima temporada será sobre o Manchester United.
Não recordo. Já vi, mas não recordo.
Queres que eu te dê uma ajuda?
Sim.
"All or Nothing", "Missão Impossível" ou "Game of Thrones"?
A primeira.
Nuno, tu tens acesso aos maiores nomes do futebol, como Cristiano Ronaldo ou José Mourinho. Essa proximidade é uma espécie de trunfo para conseguir os furos jornalísticos ou às vezes dificulta o trabalho na hora de fazer críticas mais duras?
Eu acho que já foi mais trunfo. Hoje em dia, para tentares fazer alguma coisa com essas figuras, é muito difícil. Por isso mesmo que falaste anteriormente das Amazons e por aí adiante.
E as Netflix.
Sim, é muito difícil. Eu fui um pioneiro em Portugal em fazer documentários. Fizemos o primeiro documentário com o Cristiano Ronaldo em 2007. Depois fizemos o documentário do Mourinho em 2010 e eu comentei até semana passada com ele, vendo este documentário da Netflix, dá ainda mais valor, e eu até disse "três gatos pingados" fazerem o documentário que fizeram com um enorme valor e que foi vendido para todo o mundo. E ele de fato deu-me razão, porque vendo esta lista de pessoas que participaram neste documentário da Netflix, é uma verdadeira loucura. E o documentário que nós fizemos em 2010, fui eu, o repórter de imagem Paulo Cepa e o editor de imagem Luís Gonçalves.
Literalmente três gatos pingados.
Três gatos pingados. E a qualidade, isto sem estar aqui a colocar-me em mix de pés, eu acho que a qualidade que apresentou este documentário não está muito acima daquilo que fizemos. A grande diferença está, sobretudo, no orçamento, porque este documentário, eu não imagino aquilo que pagaram em termos de imagens, só para vocês terem uma ideia e os ouvintes também. Nós pagámos 10 mil € por um minuto à UEFA pelas imagens da final da Liga dos Campeões no Santiago Bernabéu. E portanto, este documentário do início ao fim tem imagens.
Está cheio de imagens, não é?
Portanto, agora peguem na calculadora e façam conta.
E já não serão 10 mil € por cada minuto.
E de facto, a grande diferença está aí, porque nós tivemos acesso aos melhores jogadores, ao próprio Mourinho.
Neste caso, a proximidade de sermos todos portugueses facilitou.
Facilitou, sobretudo, a relação que tive com o Mourinho, porque o Mourinho dizendo: "Este é um documentário oficial", toda a gente me abriu as portas em todo lado. Agora, eu tive a participação dos melhores jogadores do mundo e, portanto, não está tão diferente deste. Aquilo que eu olho e não olho com inveja, olho com orgulho dizer: nós conseguimos fazer uma coisa-
Há uns anos.
Há muitos anos, que hoje é impossível fazer. Hoje não temos orçamento para fazer isto. E portanto, aquilo que eu digo que hoje é mais difícil, é porque, por exemplo, o Cristiano Ronaldo já me disse a mim que não quis fazer algo que lhe pagavam 3 milhões de euros. E nós não temos dinheiro pra isso. Nós somos do tempo que alguém fazia este tipo de documentários porque era amigo e gostava.
Mas voltando à minha pergunta, a proximidade que tinhas com eles, que tens, que deves manter, mas torna-se difícil na hora de criticar?
Eu acho que não se torna difícil. Acho que tu quando tens uma relação honesta, e quando tu criticas de forma honesta, e neste Campeonato do Mundo de Futebol, houve muita crítica ao Ronaldo e eu tive uma postura do mais frontal possível e pública, dizendo que as pessoas estavam todas a criticar o Ronaldo, mas atenção que o Ronaldo de hoje já não é o Ronaldo de antigamente, e temos que o criticar em diversos pontos, mas para ele jogar na seleção da forma que o Martinez tinha que o colocar, Portugal tinha que chegar de outra forma. E nós criticamos logo no primeiro jogo, todos, o Cristiano Ronaldo, e ninguém criticou o Diogo Costa, que não esteve bem no gol, e também o Tomás Araújo, que também falhou, e o resto da equipe. E portanto, toda a gente aponta as setas ao Ronaldo, e há que perceber a crítica, quando a crítica é de facto verdadeira e tem um ponto onde, pelo lado contrário, toda a gente critica só por criticar. E eu acho que isso aí faz a diferença e que, em termos dos jogadores, eles percebem quando tu tens uma crítica honesta ou quando tu criticas só por criticar.
Muito bem, Nuno Luz, vamos para a segunda pergunta.
Tens dois pontos.
Vamos recuar, agora vais para os sete. Vamos recuar aqui até 1997, num jogo de apuramento para o Mundial de 98, um Alemanha e Portugal.
Certo.
Quem era o árbitro desse jogo?
Battar
Lá está.
E foi Sérgio Conceição que ia entrar em campo, Rui Costa que ia sair. Aconteceu aquilo que nunca aconteceu até hoje, que é mostrar o segundo cartão amarelo a Rui Costa. Sérgio Conceição não entrou, Rui Costa foi expulso, Portugal ganhava por 1 x 0, com gol de Pedro Barbosa e acabou por empatar por 1 x 1.
Acabou por empatar e foi a última vez que não conseguimos o apuramento para o mundial. De então para cá, o que é que mudou? Os árbitros tornaram-se mais simpáticos para a seleção portuguesa ou houve uma grande mudança até nível de estruturas da Federação Portuguesa de Futebol, que explicam que de então para cá Portugal não tenha falhado nenhum mundial?
Eu acho que houve uma grande mudança. Eu tenho o privilégio de, desde 96, estar em todos os campeonatos do mundo e da Europa, inclusive em 98. E só para as pessoas terem uma ideia, em 96, na Inglaterra, cada jogo que Portugal fazia, e portanto estamos a falar de Inglaterra, que é um país que não tem a dimensão dos Estados Unidos, onde estivemos lá agora, Portugal mudou de hotel e mudou de centro de concentração em cada jogo. Isso é uma coisa impensável nos dias de hoje, onde tu tens que mudar tudo, os hábitos, a forma de treinar, os campos de treino, a própria concentração dos jogadores. E, portanto, eu acho que houve uma evolução a partir daí. Tivemos que aprender, obviamente. E eu acho que em 98 Portugal podia ter estado nesse campeonato do mundo de futebol e se tivesse, obviamente, iria repetir-se aquilo que aconteceu em 2016. E a partir daí houve, de facto, uma evolução.
Mesmo ao nível da mentalidade dos jogadores, porque havia também muitas polêmicas à volta dos jogadores, do comportamento dos jogadores, quando estavam na seleção. Isso também mudou?
Eu acho que mudou mais tarde. Acho que mudou a partir de 2004, 2006. Mesmo assim, ainda houve muita coisa que aconteceu e que as pessoas não sabem. Aquela equipa de 2004 e 2006 tinha, entre parêntesis, muita bandidagem. Estes rapazes ao pé daqueles de 2004 e 2006 são meninos de coro. O João Pinto, o Fernando Couto, o Petit, o próprio Maniche faziam coisas e há muito pouco tempo falámos, em privado, e depois eu até contei essa história e a pessoa até ficou bem incomodada, mas a história já é pública. O Petit, no meio de um jogo de 2006, no jogo contra a Holanda, fumou dois cigarros. E entrou ao intervalo.
Era para os pulmões ficarem mais finos.
Eram de mentol.
E portanto, aquilo que aconteceu, por exemplo, até comigo, ali perto de 96, quando foi o caso Paula.
O famoso caso.
Sim, me atiraram uma série de coisas da janela, aquilo não foi contra mim, obviamente, foi contra a SIC, que tinha revelado essa história, e houve ali muita palhaçada pelo meio. Hoje é impossível acontecer isso.
Mas isso mudou? Ou seja, mudaram os comportamentos ou também mudou a blindagem da Federação Portuguesa de Futebol a não deixar sair essas notícias cá para fora?
Não, hoje não acontece isso. Eu acho que há uma responsabilidade muito maior de cada jogador que vai à seleção nacional, do que havia naquela altura. Havia muita brincadeira e muita coisa que aconteciam no interior. Hoje há um tipo de segurança e eu acho que há um tipo de responsabilização enorme por parte dos jogadores da seleção nacional. E eu acho que o Cristiano Ronaldo também tem muita responsabilidade em ter passado essa imagem aos outros jogadores todos, porque vai da nutrição, vai do descanso, vai de tudo. E eu dou um pequeno exemplo, agora na época Martinez. O Martinez tinha o hábito, em determinados momentos, de fazer um treino livre depois de cada jogo e nas primeiras vezes foi o Ronaldo e pouco mais. E na segunda vez, tudo o que era miúdo destes jovens, o António Silva, o João Neves, uma série destes miúdos, sem estar a precisar exatamente todos. Na segunda vez-
Já foram.
Foram todos. E portanto, o Martinez até me contou que, de facto, foi o exemplo. Se ele está lá, o melhor jogador de todos vai, então nós não vamos? Atenção, temos que ir também.
Portanto, mudou isso tudo ao longo destes anos.
Mudou.
E mudou mais, é que hoje em dia o desporto não se joga só em campo, também há aquela parte que se passa nas redes sociais. Como é que se chama o fenômeno da internet em que uma imagem, um vídeo ou uma frase se espalha rapidamente de forma bem-humorada pelas redes sociais?
Viral?
Não.
Uma coisa mais específica.
Uma coisa mais específica. É um...
É um. Isto que é um, aquela imagenzinha com uma frase.
Eu já fizero. Teu. Já fizero.
Não estou.
Espera.
Não estou a ver.
Eu vou dar-te uma ajuda. Emoji, GIF ou meme?
Explica-me só outra vez a pergunta.
Como é que se chama o fenômeno da internet em que uma imagem, um vídeo ou uma frase se espalha rapidamente de forma bem-humorada pelas redes sociais?
É o meme.
Exatamente.
Tu já foste várias vezes viralizado.
Muitas.
Muitas, não é? Levas isso quando se conta a ação?
Não, é assim, toda a gente erra e toda a gente faz asneiras Só que eu acho que a minha imagem vende e eu acho que muita gente se aproveita, de facto, da minha imagem.
O público foca-se mais na personagem do que no trabalho, é isso?
Eu acho que se foca mais, porque eu já não ligo a isso, mas tantas coisas que eu fiz boas e não têm a mesma proporção que tem uma coisa feita de forma negativa, um engano. E há coisas até que fomos nós que colocamos a andar na internet. Por exemplo, eu engoli uma mosca. Quer dizer, não engoli porque ela veio até à garganta e eu cuspi. Ninguém deu por isso. E fomos nós próprios que colocamos isso no ar e foi uma brincadeira. Por exemplo, em 96, para irmos outra vez à diferença que há hoje, os jornalistas estão ali 15 minutos e acabou. Naquela altura, os jogadores estavam a trabalhar numa baliza e nós estávamos a gravar um vivo, quer dizer, a parte final de uma reportagem onde o jornalista aparece. E eu queria marcar um golo ao ângulo, e eu sou muito mau a jogar futebol. E então falhei para aí umas seis ou sete vezes. O câmera ouvia-se a dizer: "Eu não acredito nisto, este gajo está a brincar comigo". E fomos nós que colocamos isso, porque isso foi gravado, não foi em direto. Esse tipo de brincadeiras, eu gosto de brincar e eu próprio rio-me com coisas que acontecem comigo. Agora, acho que há muita gente que se aproveita.
Mas há limites, não é, Nuno?
Não, eu já não ligo a isso. Acho é que há muita gente que se aproveita e que quando há alguma coisa errada da minha parte, obviamente ganha uma dimensão muito maior. Eu sei conviver com isso. E se ninguém falasse de ti, como diz um amigo meu, ninguém sabia quem tu eras.
Acaba por valorizar a tua imagem, porque para muitas pessoas tu és o jornalista desportivo.
Eu sou, sobretudo, alguém que está em permanência na televisão há 32 anos. Temos o Gabriel Alves.
Já estão 10.
Temos o Gabriel Alves, que durante muito tempo-
Está aqui conosco
...sim, foi uma figura da minha infância. O Tovar, que já não está cá. O próprio Ribeiro Cristóvão. Eu acho que já faço parte um pouquinho de uma geração para os miúdos agora, como essas figuras fizeram para mim. Eu estou há 32 anos. Eu tenho, neste momento, não parece, mas tenho 56 anos.
Pois não parece.
Mas eu comecei muito jovem mesmo. Comecei na rádio e depois na própria SIC comecei muito miúdo. Éramos todos miúdos, solteiros.
Bons rapazes.
Bons rapazes e conseguimos transformar uma televisão que não era nada, em muito pouco tempo, na televisão líder em Portugal. E foi muito difícil, sobretudo na área do desporto, para as pessoas terem uma ideia. A RTP comprou tudo o que podia comprar. Não havia Sport TV na altura. Queriam nos proibir entrar nos campos de futebol, que era uma coisa que nós não tínhamos acesso, e nós conseguimos lutar muito. Eu recordo-me, por exemplo-
E furar essa exclusividade.
Sim, tínhamos um grande líder. O Emídio Rangel era, de facto, um líder fantástico. Era uma pessoa com uma força enorme, que dava força aos jornalistas e quando ia para a guerra, era para a guerra. E eu posso contar aqui muito rapidamente. Quando o Sporting foi campeão, provavelmente em 2002, por aí, o Sporting tinha que ser campeão em Setúbal, no Vitória. E nós, naquela altura, tínhamos acesso ao estádio com as nossas câmeras e a RTP dizia que nós não podíamos ter acesso ao relvado. E a SIC meteu uma providência cautelar e eu tive que ficar no relvado de manhã até à noite, porque o jogo foi às 8:00 da noite. Agora imagina, eu tive que almoçar no relvado, jantar no relvado.
E só não marcaste golos.
Não, mas muito aflito, muito mesmo aflito de ir à casa de banho e não podia.
E não podias. Vamos então, Nuno, voltar um pouquinho atrás no tempo. Estás com nove pontos. Esta é a quarta pergunta, já só faltam duas. Em que ano se calaram todas as rádios piratas que existiam em Portugal ainda antes da regulamentação do setor?
Eu acho que foi em 87. 88, por aí.
Exato, é isso mesmo. 88, exatamente. Começaste, como dizias, nas rádios piratas, no Correio da Manhã Rádio também.
Eu sou do Montijo, comecei na Rádio do Montijo, passei por uma rádio em Alcochete, que era muito engraçado, a rádio chamava-se Eco e tinha um spot que era Eco, Eco, Eco.
E já fazias desporto nessa altura, não é?
Já fazia desporto. E depois entrei para o Correio da Manhã Rádio.
E o gostinho da rádio não ficou?
Ficou muito.
Ou foram circunstâncias da vida que te levaram para a televisão?
Ficou muito. Eu trabalho muito com Espanha. Eu sempre fui correspondente. Eu trabalhei com o José Maria Garcia, que era a maior figura do jornalismo espanhol, que tinha um programa à meia-noite, que era a verdadeira loucura. Chegou a ter sete milhões de audiência e era um tempo de rádio ser um espetáculo em Espanha. E eu agora, por exemplo, durante este Campeonato do Mundo, acompanhei muito os espanhóis até à final, e eu acho que a rádio em Espanha conseguiu evoluir e adaptar-se. A rádio passou a ser rádio e televisão, passou a transmitir no Twitch, passou a transmitir também no YouTube. Eles conseguiram evoluir muito e a rádio em Espanha é, de facto, o meio de comunicação social top. E eu acho que em Portugal parámos um pouquinho no tempo. Deixou de haver rádio como na moda antiga, quando eu ia para casa, se calhar muitos de vocês também iam ouvir o Rockantsu Rock, ouvir Rádio Comercial, que era um espetáculo que tinha a rádio, ou o próprio Rádio Renascença, com o António Salva e Olga Cardoso, rádio de autor, para haver uma rádio que ligas a qualquer hora e é sempre a mesma Eu acho que entrámos todas as rádios nesse caminho. Acho que "O Observador" foi aqui um ar fresco no tipo de rádio, mas faz falta a rádio de autor.
Mas de certa forma, o desporto e o futebol em particular traz um bocadinho disso à rádio ou não? Com os relatos, com tudo aquilo que tem saído nos últimos anos, até tem havido um olhar diferente para a rádio, sobretudo por via do futebol e dos relatos.
Tem, mas eu acho que a rádio, por exemplo, tínhamos o grande ex-libris em Portugal, que era a Bola Branca, e a Bola Branca morreu. Deixaram a Bola Branca morrer. Eu acho é que houve aqui um tempo que as pessoas entraram nesta fase da rádio ser computador. E portanto, o jornalista ou o locutor só vai lá de vez em quando dizer umas palavras. Eu acho que a rádio é algo que aproxima as pessoas. E uma boa conversa na rádio, como estamos aqui a ter.
Como esta.
Como esta. Eu acho que agarra. Por que o podcast agarra? E eu fui uma das primeiras pessoas a fazer um podcast em Portugal. Estamos a falar ali em 2008. Eu gosto muito de tecnologia e comecei a fazer um podcast sobre a Apple e uma coisa de entusiasmo. Ainda hoje faço um podcast, é um hobby que tenho. E por que o podcast agarra? Porque o podcast agarra a pessoa. Eu ouço muito os vossos podcasts, os prêmios.
Os Plus.
Eu vou ali ouvir.
É viciante.
E também porque ouves quando queres.
Claro, e não é só isso. Ou seja, eu estou agarrado àquilo. E uma música, posso gostar da música, depois aparece alguém a falar. Eu acho que faz falta a rádio de autor e, portanto, a rádio que conversa conosco. Eu acho que faz falta isso.
Muito bem, Nuno Luz, vamos para a última pergunta e vamos voltar à televisão. Em que ano foi suspenso o programa da SIC, histórico, "Os Donos da Bola"?
1999. Eu tinha ido a Barcelona, ter com o Mourinho. Para vocês perceberem a diferença que estamos de 99 pra hoje. O Mourinho seria o próximo convidado dos Donos da Bola. Eu fui fazer uma reportagem com ele, de resto, uma série de imagens que os filhos aparecem neste documentário. Foi feito por Humberto Candeias.
Conhecemos perfeitamente. E a Carla também conhece bem.
A Carla também conhece bem essas imagens. E quando eu e Humberto Candeias chegamos ao avião, ainda estamos na altura que te entregam o jornal à porta do avião, e eu leio no jornal que os Donos da Bola tinham acabado.
Estavas a pensar: "Volto para trás ou sigo viagem?"
Esse foi um programa que contribuiu para aquilo que disseste, para afirmar a SIC também como estação líder e também uma referência na área do desporto. Mas esse tipo de programas, como os Donos da Bola, também contribuíram para um ambiente mais tóxico no futebol?
Eu acho que não. Acho que os Donos da Bola foram históricos. Este pessoal novo que agora se agarra à internet, não faço ideia, mas eu vou aqui recuperar. Os Donos da Bola aparecem primeiro. O primeiro Donos da Bola é em 92, quando a SIC começa, e um programa que durou um programa, que tinha o Pinto da Costa, o Sousa Cintra, e era para ter o presidente do Benfica na altura, que eu penso que seja o Jorge Brito. Que não foi o Jorge Brito, era o diretor desportivo.
Gaspar Ramos.
Gaspar Ramos. E só teve um episódio. E depois desistiram e não se conseguiu fazer. E há aquelas loucuras, se fosse preciso ir buscar alguém, ia de helicóptero e vinha. E depois, os Donos da Bola passaram a ser um nome da SIC para um programa desportivo. Até que chegamos a um ponto onde nos fecharam as portas de todo lado e nós não tínhamos acesso a nada. E os Donos da Bola nascem numa necessidade de fazeres um programa semanal, sem imagens, mas sobretudo, os Donos da Bola têm uma coisa fantástica. Os Donos da Bola tiveram reportagens de investigação que ficarão para sempre. Nós comprámos doping. Eu tinha, ainda agora, quer dizer, há uns anos, mudamos de Carnaxide para Passe de Arcos, eu abri uma gaveta que tinha um jornal de 92, tinha o Futre na capa, e tinha um molho grande de folhas de pagamentos de viagens a árbitros. Isso foi uma reportagem que marca. Não aconteceu nada, ninguém foi preso, mas a verdade é que o Futebol Clube do Porto pagou viagens a árbitros durante muito tempo. E isso foi provado, ou seja, nenhuma reportagem ia para o ar sem essa confirmação. Foi provado, tudo provado por árbitros, com documentos, tudo. Nós fomos comprar doping. Foi contado que uma prostituta esteve no hotel da Seleção Nacional, com provas. Isto ao longo de muito tempo, foram feitas inúmeras reportagens.
Era um trabalho jornalístico sério e de profundidade. Mas deixa-me ir só a uma coisa que temos aqui. A chegar ao fim do nosso tempo, conta-nos um bocadinho daquela conferência de imprensa com o Paulo Futre.
Essa conferência de imprensa. Eu tenho uma relação com ele quase como irmão, somos os dois de Montijo. Eu andava na escola, ele também andava na mesma escola porque já tinha chumbado várias vezes. Ele é mais velho que eu. E eu vinha ver os treinos do Sporting com ele e temos uma relação de amigos. E ele começa a falar sobre aquilo e eu ponho-me atrás de uma parede a rir, porque não aguentava.
E deu azo àquela reação histórica do Paulo Futre na conferência de imprensa.
Qual foi a reação? Para quem não se está a lembrar.
A reação de dirigir-se diretamente. Eu aconselho a todos os que não se estão a lembrar de voltarem ao YouTube, porque vão ter ali uns bons minutos de gargalhadas.
Foi dos chineses?
Dos chineses, dos charters.
Vão vir os charters. Nuno Luz, obrigada por teres vindo à Rádio Observador.
Obrigado eu e vim aqui matar saudades.
Foi muito bom ter-te cá. São nove pontos. Obrigada.
Muito obrigado