O candidato presidencial brasileiro derrotado, Flávio Bolsonaro, voltou a questionar esta sexta-feira a legitimidade das eleições, classificando os resultados como “matematicamente impossíveis” e acusando Lula da Silva de ter ganhado de forma ilegítima. “Há muitas coisas sem explicação nessas eleições, matematicamente impossíveis de terem ocorrido no mundo real sem que houvesse algum golo de mão“, afirmou o político de extrema-direita numa transmissão ao vivo nas suas redes sociais.

Sem apresentar provas da alegada fraude na segunda volta das eleições do passado dia 25, que prometeu explicar “muito em breve”, Bolsonaro apelou a que o Congresso se tornasse uma “trincheira” a partir da qual se resistisse para “impedir ou retardar o grande caos que o atual Presidente da República vai instaurar”. Nesse sentido, manifestou ainda o seu apoio a Rogério Marinho para a presidência do Senado federal.

Segundo o senador, de 45 anos, Lula da Silva acabará por ser destituído “antes do que muitos imaginam” devido às medidas económicas “radicais” que tomará, entre outros fatores que não especificou.

O opositor agradeceu o apoio dos quase 60 milhões de eleitores que o apoiaram nas urnas e não descartou disputar o poder antes dos prazos constitucionais habituais, aludindo a uma eventual saída antecipada do presidente reeleito. “Se for necessário, estarei disponível para disputar novamente a Presidência da República. E não estou a falar de 2030, estou a falar de antes disso”, afirmou.

Para Flávio Bolsonaro, que deixou o Brasil com a mulher e as duas filhas para rumar aos Estados Unidos da América logo após as eleições, a saída “não é nenhum sinal de fraqueza”. Denunciou ainda uma “atuação político-partidária” da parte do Supremo Tribunal Federal (STF), que lhe exigiu a apreensão dos passaportes e determinou a proibição de viajar para o estrangeiro na segunda-feira de manhã, face a investigações criminais em curso.

“Eu não saí do Brasil, saí pelo Brasil. Aqui vou poder ter uma voz ativa, vou poder exercer a minha liderança. Eu perdi para o sistema, não perdi para o adversário. Não é nenhum sinal de fraqueza. Posso ser tudo menos burro”, frisou o candidato apoiado pelo Partido Liberal nas últimas eleições, continuando: “Se estivesse no Brasil neste momento, não podia ter este contacto com a família nem estar conseguindo falar com vocês. Daqui de fora vou conseguir manifestar com mais liberdade o pensamento de muita gente.”

Segundo o seu relato, a notificação ocorreu na segunda-feira seguinte à votação e no final de uma visita de trinta minutos ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliária por orquestrar uma tentativa de golpe de Estado depois de perder as eleições contra Lula em 2022. Todavia, o filho reafirmou na transmissão pelas redes sociais que o pai “está preso sem ter feito nada de errado”.

“Avistei os polícias federais, o meu pai abriu o portão e eu sou intimado de uma decisão de Alexandre de Moraes [ministro do STF], que foi tomada minutos após o anúncio do TSE das eleições com o qual eu não concordo. Foram vários golos de mão que o meu adversário fez e que não foram anulados pelo VAR”, reiterou.

“Olhei para o rosto do meu pai e disse-lhe: ‘Começou a perseguição‘”, acrescentou Flávio Bolsonaro. Por isso, afirmou, fugiu para “continuar, pelo menos, a ter uma voz ativa” a partir do estrangeiro, uma vez que, ainda segundo o ex-candidato, no Brasil vive-se um “regime de exceção”, com as instituições “completamente sequestradas”, e apontando um “manto de desconfiança” à realização das eleições.

Flávio Bolsonaro deixou ainda a garantia aos seus apoiantes de que “o jogo não acabou” e que vai continuar a trabalhar para “salvar” o Brasil, ao antecipar o colapso económico com as medidas defendidas pelo Presidente da República.

Lula da Silva foi reeleito com 52% dos votos, contra 48% do candidato do Partido Liberal (PL), uma diferença que se traduziu em mais de quatro milhões de votos. O líder do Partido dos Trabalhadores (PT), que governará nos próximos quatro anos, liderou uma recuperação histórica, depois de ter ficado atrás do candidato de extrema-direita por dois milhões de votos na primeira volta das eleições.

Flávio Bolsonaro não aceitou a derrota, ao contrário da cúpula do PL e do seu próprio candidato a vice-presidente, Alfredo Gaspar, que já o fizeram.

Desde que os resultados foram conhecidos, Bolsonaro pediu a anulação das eleições; depois anunciou que iria denunciar a candidatura de Lula por alegados abusos de poder; e, posteriormente, a partir dos Estados Unidos, divulgou uma carta na qual se auto proclamava o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Essa carta, que mais tarde substituiu por uma versão na qual se autodenomina “líder” do Brasil, suscitou a rejeição dos próprios aliados do partido, que afirmaram não conhecer nem aprovar a missiva.