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Começa agora o Explicador das manhãs 360, esta sexta-feira sobre o ranking das escolas. Os colégios privados continuam a ocupar os lugares de topo. São nossos convidados Pedro Freitas, investigador na área da educação, e Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas. Muito bom dia, bem-vindos a este Explicador. Obrigada por terem aceitado o nosso convite. Pedro Freitas, começando por si, olhando para este ranking que se refere aos resultados de 2025, quais são as principais conclusões que podemos tirar?
Olá, bom dia. Bom dia ao professor Filinto Lima. Eu diria três ou quatro pontos. Em primeiro lugar, infelizmente, infelizmente não, é uma circunstância, as escolas privadas continuam a estar nos principais lugares, ou seja, nos 50 primeiros lugares. E isso não tem que ser assim, e isso não era assim quando os rankings começaram. Portanto, eu acho que é um desígnio de política pública que nós tenhamos mais escolas públicas no topo dos lugares dos rankings. Eu acho isso muito importante, até para tornar a escola pública claramente atrativa para todos os alunos e para todas as famílias. Em segundo lugar, nós temos pela primeira vez os rankings das escolas pelas provas moda, ou seja, pelas provas feitas no quarto e no sexto ano. Isto é bastante útil porque as provas moda de quarto, sexto ano e também de nono, mas em particular no quarto e sexto ano, que é aqui a novidade, têm uma grande comparabilidade ou têm uma maior comparabilidade ao longo do tempo. Portanto, as escolas poderão perceber a sua trajetória de evolução ao longo do tempo, de forma melhor e de forma mais comparável. Depois, terceiro, para as pessoas que estão a ver os rankings, eu acho que isto é sempre um ponto importante, não interessa muito a diferença entre o primeiro, o segundo ou o terceiro lugar, quer dizer, uma diferença de uma média de 15,8 para 15,7 para 15,6, do ponto de vista estatístico e do ponto de vista de informação, não quer dizer nada. O que interessa é perceber quem é que são as escolas que estão nos blocos mais acima e mais abaixo e, sobretudo, a estabilidade dos resultados das escolas. Ou seja, nós temos escolas que estão sistematicamente nos lugares abaixo ou temos escolas que estão sistematicamente nos lugares acima. Eu acrescentaria aqui dois pontos que me parecem também relevantes. Há já alguns anos, e ainda bem, que é possível fazer não só um ranking, que é no fundo uma ordenação das médias das escolas, mas é possível fazer um ranking de superação ou um ranking ajustado ao contexto. Ou seja, em que as escolas são ordenadas não só consoante os seus resultados, mas os seus resultados dada a composição socioeconômica das escolas, nomeadamente pela formação acadêmica dos pais, pelo acesso à ação social escolar, pela idade dos alunos. Infelizmente, este ranking de superação, que é muito importante, porque significa não só os resultados das escolas, mas o que é que as escolas estão a fazer dado os alunos que têm, não é possível fazer, em primeiro lugar, para as regiões autónomas, porque as regiões autónomas não libertam estes dados. Eu acho isso grave, uma vez que nós precisamos de perceber para estas regiões, no ensino público, qual é que é o contexto em que as escolas estão a operar. E também não é possível fazer para as escolas privadas, porque também não há essa libertação de dados. E eu acho esta desigualdade no acesso à informação incompreensível, porque o que significa é que nós não podemos ter informação mais rica para dois tipos de escolas, que são parte dos rankings e que têm, nomeadamente no caso das escolas privadas, lugares elevados nos rankings. Segundo, em relação ao ensino profissional, nós estamos sempre a olhar para as aprendizagens dos alunos nos cursos científico-humanísticos quando olhamos para os rankings, no fundo, porque são aqueles alunos que fazem exames, que vão para o que se querem candidatar à universidade. Mas eu acho que é preciso termos consciência que nós estamos a olhar para entre 70% a 60% do sistema. Falta o resto, que está no ensino profissional. Já há algumas publicações que fazem um ranking para o ensino profissional, mas que é baseado apenas na taxa de conclusão, ou seja, nos alunos que terminam no tempo esperado. Mas a verdade é que nós não temos, neste momento, para estes alunos, que representam entre 30% a 40% dos alunos no ensino secundário, qualquer medida de aprendizagem a seguir ao nono ano. Ou seja, nós não temos nenhuma medida que nos diga quanto é que os alunos no ensino profissional estão a aprender ao longo do ensino secundário. Isto é particularmente importante porque estes alunos, terminado o 12º ano, vão muitas vezes para o mercado de trabalho. E vão para o mercado de trabalho e nós precisamos de saber como é que eles estão a ir para o mercado de trabalho. E não sabemos neste momento. Eu acho que isso não é uma questão dos rankings em si, é uma questão de falta de informação que nós precisaríamos também para perceber melhor como é que está a evoluir o ensino secundário, não só nos cursos científico-humanísticos, que são aqueles que são cobertos maioritariamente pelos rankings, mas também para os outros alunos.
E, portanto, o retrato ainda está um pouco desfocado. Falou aqui de vários casos em que os dados ainda não lhes permitem traçar esse retrato. Filinto Lima, muito bom dia, muito bem-vindo a este Explicador. Sabemos que não gosta nada dos rankings, nem sequer com este, e como o professor Pedro Freitas agora aqui recordou, nem quando eles tentam de facto mostrar o contexto das escolas, não há ainda assim a possibilidade deste retrato nos mostrar como é que as escolas públicas estão a funcionar e a trabalhar.
Bom dia e obrigado pelo convite, também um abraço ao Dr. Pedro Freitas. Eu gosto dos rankings que falou o Dr. Pedro Freitas, os rankings da superação. Aliás, o Dr. Pedro Freitas foi muito claro. E nos rankings da superação, nós percebemos, porque quando há rankings tendemos sempre a comparar o público com o privado. Por que nós não comparamos o norte com o sul, por exemplo?
Também é possível.
Eu acho que devemos ter cautela, porque neste momento percebe-se claramente que são as escolas do norte públicas e privadas que tiveram melhores resultados nos exames, portanto, em relação às escolas do sul. Se calhar, o país deve se preocupar um pouco com isto.
O que isso nos diz, Filinto Lima?
Olhe, pode dizer-nos, por exemplo, que de fato, no sul há escassez de professores, que é um fenômeno que está a atacar as escolas públicas, mas ao qual não está imune as escolas privadas. Aliás, eu acho que está a atacar até mais as escolas privadas que as escolas públicas. Portanto, o ranking da superação, na minha opinião, é um ranking justo. Repare, este ranking que hoje temos conhecimento e que a maior parte dos jornais que tratam deste assunto graduam as escolas, tendo em conta somente os pênaltis. Os pênaltis são os exames, não têm em conta, por exemplo, o número de alunos estrangeiros que as escolas têm. Não têm em conta, por exemplo, que na escola pública, como sabemos, nós recebemos todos os alunos. A escola privada, que eu saiba, não recebe todos os alunos, desde logo há uma seleção para critério de matrícula. Por exemplo, outro critério que está aqui a faltar, e eu acho que era muito importante existir, se queremos comparar as escolas públicas e privadas, é a motivação dos nossos alunos e das suas famílias. Ou seja, há aqui uma série de critérios que não me levam a desprezar este trabalho. Não posso desprezá-lo, tem que ser de facto aprendido por cada comunidade educativa, mas com certeza que eu irei relativizar muitíssimo este critério, dizendo que a escola que ficou em primeiro lugar é a melhor escola do país. Isto é falso. Isto é uma falsa tabela classificativa. Portanto, se quisermos de fato graduar as escolas de melhor pra pior, que ao fim e ao cabo, é isso que se pretende nestes rankings, então usemos, por exemplo, a avaliação externa isenta, que é feita pela Inspeção Geral de Educação. Penso que saberão. A Inspeção Geral de Educação faz uma avaliação externa, tem um programa, que vai às escolas de X em X tempo, também às privadas que se candidatarem. Tenho dúvidas que muitas privadas se candidatem, onde vai ver quatro domínios: a autoavaliação, a liderança e gestão, a prestação do serviço educativo e, com certeza, os resultados acadêmicos e sociais.
Filinto Lima, mas não nos dizendo quais são as escolas que trabalham melhor ou pior, em função, claro, dos contextos socioeconômicos e do nível e do estrato socioeconômico a que pertencem os alunos, os rankings permitem-nos também identificar, mesmo os absolutos, onde é que há problemas e onde é que eles se repetem, como dizia há pouco o professor Pedro Freitas, essa estabilidade, olhando pra estabilidade dos resultados das escolas.
Sim, é verdade. Eu disse também no início que não iria desprezar estes rankings, este instrumento de trabalho. Ora, é um instrumento de trabalho que ainda é muito deficitário, embora tenha 25 anos, penso que saberão. Este ano faz 25 anos que, na verdade, nós conhecemos estes resultados, que de fato tiveram alguma variação, até em termos de critérios, é um instrumento que está a ser aperfeiçoado, mas ainda muito longe, na minha opinião, ao ponto de nós não podermos comparar uma escola com outra tendo em conta só estes critérios. Há outros critérios. Por exemplo, era importante também saber quais são as escolas públicas e privadas, não me interessa, mas quais são as escolas que preparam melhor os alunos para a faculdade, pra eles fazerem o ensino superior em menos tempo e com melhores notas. E quero dizer-vos que há um estudo da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto, um estudo que tem algum tempo, que diz que são as escolas públicas que preparam melhor os alunos para a faculdade, tendo em conta o número de anos em que eles lá estão e as classificações que obtêm.
Portanto, aquilo que é necessário, Filinto Lima, são mais rankings, mais informação, mais avaliação também do que fazem as escolas.
Se quisermos comparar as escolas, eu acho que são necessários mais critérios. Eu reconheço que este ranking das escolas, o nome falso, pra mim não é o ranking das escolas, mas este ranking que se diz que é das escolas, tem sido aperfeiçoado, reconheço isso perfeitamente, está muito diferente de há 25 anos pra cá, melhorou com certeza, mas ainda há critérios que eu acho que se quisermos comparar as escolas, que devem ser tidos em conta. Eu atrás enumerei dois ou três critérios que não foram tidos em conta, mas que deviam ser. Outros dos quais, que eu penso que não disse, que é o efeito de explicações e também no público. Há muitos alunos do privado e do público, diga-se, mas mais do privado, que para além das aulas nas escolas respectivas, têm cá fora explicações, digo os mais. E eu conheço alunos que têm cá fora dois explicadores para a mesma disciplina. E nem sequer estou aqui a posicionar privado e público. Claro que o efeito de explicações notar-se-á mais, com certeza, nos alunos das escolas privadas, alunos majoritariamente com capacidade econômica que não têm os alunos das escolas públicas. Mas esse efeito de explicações, pra mim, é uma pedra, é um critério importante que não é tido em conta nesta falsa tabela classificativa.
Pedro Freitas, estamos aqui a ver que os rankings podem ser muito aperfeiçoados com a entrada de outros fatores aqui sugeridos, mas isto, no global, diz-nos que as desigualdades estão cada vez mais acentuadas, é isso que podemos concluir, até por outros fatores que não são considerados nos rankings?
Sim, eu acho que haver a informação e haver a divulgação desta informação é sempre importante e relevante, e nós sabemos que os pais reagem a esta informação, há evidência sobre isso. Portanto, nós temos é que trabalhar para os rankings se irem aperfeiçoando e esse aperfeiçoamento foi acontecendo ao longo do tempo. Agora, estas desigualdades claramente estão lá. Volto ao meu ponto inicial, eu acho que nós temos nos 50 primeiros lugares dos rankings, três escolas públicas. Eu acho que tem que ser um desígnio de política pública, nós termos mais densidade de escolas públicas no topo dos rankings, por uma questão de que isto cria uma perceção sobre a escola pública. E eu acho essencial reverter esta perceção sobre a escola pública, que muitas vezes até pode estar errada, mas que cria fatores de procura de determinadas famílias pela escola pública, ou seja, de menor procura pela escola pública em determinadas famílias, que é indesejável. Depois, há uma desigualdade que neste momento já é falada há alguns anos e cada vez que os rankings saem, todos os anos, eu vou sendo perguntado porque é a desigualdade entre norte e sul, porque é sempre muito evidente. Ou seja, o país está um bocadinho dividido a metade em termos de resultados. Há resultados muito melhores no norte do que no sul, não só do ponto de vista absoluto, mas do ponto de vista relativo. Isso vê-se não só nos rankings, nós aqui há quatro anos, na Nova SBF, fizemos um trabalho em que vimos exatamente isto mesmo. Se nós olharmos para dois alunos da mesma origem social, ou seja, com pais com a mesma escolaridade, com níveis semelhantes de rendimento, etc. Estes dois alunos que são muito semelhantes nas suas famílias, se um for do norte e outro for do sul, o do norte tem muito melhores resultados.
E o que é que explica essa diferença de resultados? E para concluirmos, Pedro Freitas, estamos a ficar sem tempo.
Vou ser breve. Eu acho que há três fatores: a questão da falta de professores a sul, como o professor Filinto Lima disse, até porque muita da formação inicial de professores está concentrada a norte. Eu acho que há uma discussão a ter sobre a descentralização de algumas responsabilidades na educação, porque houve alguma descentralização para as autarquias, e eu acho que nem todas as autarquias assumiram esta responsabilidade da mesma forma. E aqui eu acho que é preciso olhar para mais dados, mas, por exemplo, a norte eu vejo muitas autarquias a tomarem esta responsabilidade de forma mais intensa do que a sul. E terceiro fator, isso, por exemplo, a professora Luísa Loura do Parlato aponta muitas vezes, se nós olharmos para as vagas do ensino superior, do ponto de vista de proporcionalidade em relação ao número de alunos, o norte tem menos vagas proporcionalmente em função do número de alunos. Ou seja, o norte tem menos vagas no ensino superior em relação ao número de alunos que estão a estudar no ensino secundário. E o que é que isto cria? Isto cria uma pressão para ter melhores notas para poder entrar na universidade a norte.
E podem ser explicações.
E isso pode ser um dos fatores para este resultado.
Filinto Lima, também mesmo em cima da hora, esta ideia de que apesar de todas as falhas ou deficiências destes rankings, a ideia de haver um desígnio nacional de ter mais escolas públicas neste tipo de tabelas, seria importante? Seria uma forma de abordar o problema?
Poderia ser importante, mas a mim interessava-me mais que a escola pública, que funciona como um elevador social, ascendesse, subisse mais rapidamente. Isso a mim importava-me bastante. Eu penso que carece de alguma reparação, algum conserto, este elevador social. Parece-me que ao nível do investimento na escola pública, sobretudo nos anos mais precoces, no primeiro ciclo, é bastante importante. Termos mais professores de apoio para atacar, no bom sentido, as dificuldades dos nossos alunos logo nos primeiros anos de estudo, isso seria bastante importante. Gostaria que, de facto, este elevador social, que é a escola pública, que muito nos orgulha e que nos deve orgulhar, devia ser reparado e é esse investimento que eu acho que está a faltar. E como estamos em sede de discussão do orçamento na especialidade, faço aqui um apelo ao nosso ministro das Finanças para que cuide, de facto, da nossa educação, da escola pública, porque poderia estar a funcionar muito melhor se, na verdade, os nossos políticos olhassem para a escola pública e para a educação com outros olhos.
Filinto Lima, Pedro Freitas, muito obrigada por terem estado neste "Explicador". Bom dia, bom fim de semana.
Obrigado, bom dia.
Obrigado, bom dia.