Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E hoje na Comissão de Inquérito recebemos o médico e presidente da SEDES, Álvaro Beleza. Álvaro, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Como está?

Bem-vindo, bom dia. Sabe ao que vem?

Sei. Também não esquivo. Já estou habituado.

Muito bem, então conhece as regras deste jogo.

Cinco questões.

Cinco questões. Se acertar corretamente na pergunta, recebe cinco pontos. Se errar, não pontua. Se pedir ajuda e acertar, recebe dois pontos.

Certo. E depois? Tenho um prêmio no fim?

O prêmio é a pontuação.

É a honra de ter participado.

O brio.

A glória eterna por ter estado aqui.

Até agora, ninguém fez 25 pontos. Por exemplo, é esse o objetivo.

Quem sabe? Vamos começar então. Paulo.

Vamos lá, Álvaro Beleza. É presidente da SEDES, a Associação para o Desenvolvimento Econômico e Social. Aliás, foi reeleito presidente para mais um mandato agora há cerca de um mês. A SEDES foi fundada em 1970 e a pergunta é: quantos foram os sócios-fundadores? Isto de acordo com a listinha que está no próprio site da SEDES.

Não sei de cor.

Na casa dos... Podemos dar aqui três hipóteses. É melhor darmos três hipóteses.

É melhor.

Recorre à ajuda?

Duzentos.

Não. Não quer aceitar uma ajuda? É melhor aceitar uma ajuda. Não vale ir ao telemóvel.

Não, a ajuda é nossa.

A ajuda é nossa. Produção, mandem retirar o telemóvel.

Então vá: 98, 146 ou 175. 98, 146 ou 115.

165, talvez. Ou 146.

Acertou.

146.

146. Dois pontos.

146 era o meu número no colégio, na estação primária.

Nós sabíamos isso.

É engraçado.

Não é um número redondo. São 146.

Era meu número no São João de Brito.

Ainda por cima, tem essa referência pessoal para estes números. A partir de agora não começa a facilitar.

Não me preocupei tanto em contá-los, mas sim ver a qualidade deles. Estavam lá nomes que deram muito ao país, em termos cívicos, acadêmicos, médicos. Aliás, o sócio número um era um professor de Santa Maria. Porque eles escolheram o médico pra ser número um pra não serem só economistas, engenheiros e advogados.

São as disciplinas mais técnicas.

Mais a política e da economia.

Mas apesar desses contributos todos que a SEDES dá ao país desde 1970, não sente que esses contributos dados ao longo de tanto tempo e também os mais recentes acabam por ir em saco roto?

Não. Para já, na fundação, eles foram fundamentais, porque da SEDES nasceu o PPD, o PSD, o Sá Carneiro, o Magalhães Mota, que eram da SEDES. Só o Francisco Salgado que não era, mas o Expresso era em frente, onde é a SEDES ainda hoje, na Duque de Loulé.

O Expresso é que já saiu de lá.

Hã?

O Expresso é que já saiu de lá.

O Expresso é que já saiu de lá. Está um banco chinês.

Sinais dos tempos.

E pegaram numa mesa que ainda lá está e fizeram a conferência de imprensa, e da SEDES saiu o PPD e depois o PSD. E partes do Partido Socialista, o Partido Socialista do António Guterres, Vítor Constâncio, da ala mais católica progressista, porque a SEDES tem a ver com os católicos progressistas, com o cardeal patriarca de Lisboa e com o bispo do Porto, de quem o Sá Carneiro era muito amigo e tem uma ligação ao reformismo da Igreja Católica na altura. Esses jovens que fizeram a SEDES, o João Salgueiro, o Emílio Rui Vilar, que aliás escreveu uma entrevista que lhe fizeram as memórias dele, que é quase toda a história das SEDES. Da SEDES saíram os dois principais partidos ou partes do Partido Socialista. Na altura, a fundação do PS não foi daí, mas Mário Soares escreveu livros da SEDES.

Havia ali uma ala, não é?

Sim. E depois eles atingiram os objetivos deles. Portugal passou a ser uma democracia, não era em 1970, era uma ditadura, eu vou lembrar. Portugal entrou na União Europeia, estávamos na EFTA, e eles queriam uma aproximação a Bruxelas. Portugal, o nome diz mesmo Sociedade de Estudos para o Desenvolvimento Econômico e Social. Portugal hoje é mais desenvolvido economicamente e socialmente, é mais equilibrado. Portanto, os objetivos daquelas gerações foram objetivos, foram atingidos.

Foram atingidos, mas falamos sempre da fraca sociedade cívica.

Não, a sociedade civil. Portugal tem um défice de sociedade civil.

Civil, exatamente.

Certo. Porque temos excesso de Estado, porque somos um país pobre. Isso tem a ver com a pobreza, com o pequeno PIB que ainda temos, que aliás, o último livro da SEDES, que a gente fez na comemoração dos 50 anos, o título é Duplicar o PIB em 20 Anos. Por quê?

Mas isso depois entra-se na questão do ovo ou da galinha, se somos uma sociedade pobre.

Não, não é o ovo e a galinha. Primeiro é o ovo e depois é que vem a galinha. Portanto, sem PIB, sem economia, não há Estado Social de qualidade. Tudo anda à volta da economia. E Portugal pertence ao Clube MED, apesar de nós não sermos mediterrâneos, que infelizmente não tem a economia da Dinamarca, da Suíça. Dinamarca, um bom exemplo. Vocês estavam falando das creches. Há quantos anos a Dinamarca apostou nas creches gratuitas? Há 100 anos. Ouviram bem o que eu disse. 100 anos. Ora bem, porque perceberam que para o desenvolvimento e para o elevador social, começa exatamente aos três anos Não é na educação primária. Já agora, as creches deviam estar no Ministério da Educação. As creches não são apoio social, as creches são o princípio da educação. E aqueles que são os filhos dos que têm mais possibilidades, como nós que estamos aqui à mesa, os nossos filhos, esses porque tiveram creches melhores, depois as notas são melhores na educação primária. Começa ali a diferença. Agora dito isto, saúde, que é o tema que só se fala em Portugal de saúde, eu acho que até em excesso. Nós temos uma taxa de longevidade da população, que é a terceira mais alta da Europa. A Espanha é a mais alta da Europa. A Espanha vai ter a maior taxa de longevidade, isto é, onde as pessoas vivem mais, vai ultrapassar o Japão dentro de dois anos.

Mas não em qualidade de vida.

Não. Mas temos uma taxa de longevidade. E esse é um resultado também do SNS e da saúde. Isto é, foi pela melhoria dos cuidados de saúde, da medicina, da oncologia. Hoje morre-se, felizmente, menos de câncer, morre-se menos de doenças, isso também prolongou a vida das pessoas. A Dinamarca, já agora, que é este país, tem o dobro do PIB português, que gasta em saúde o mesmo que nós gastamos. Gastamos 9,5% do PIB, só que os nossos 9,5 são 15 mil milhões, deles são 30 bi, porque têm o dobro do PIB. Mesmo com o dobro do PIB, a taxa de longevidade deles não é maior que a nossa.

Há limites, a ciência também tem limites.

Certo, mas quero dizer-

Se gastarmos o dobro.

Mas os anos de vida saudável não estão tão altos. Nós fizemos muito com muito pouco. É isto que também não se tem falado. Nós fizemos imenso com muito pouco. Agora, podemos fazer mais e só poderemos fazer mais se tivermos crescimento económico. E portanto, a CEDES, há 50 anos percebeu que isto tinha que ser mais igual e tinha que distribuir mais a riqueza, porque a década de 60, do João Salgueiro, é a década de maior crescimento econômico em Portugal desde a Segunda Guerra Mundial, o Paulo sabe isso melhor que eu. Só que não havia distribuição da riqueza e não havia democracia, portanto, isto era pra muito poucos. O que chegamos hoje, 50 anos depois, a perceber? Isto está mais igual, o país está mais equilibrado, há menos pobreza, há mais acesso a bens essenciais, à saúde, à educação, mas os jovens saem de Portugal porque ganham menos. Os do futebol também saem do Benfica ou do Porto e vão pro Chelsea. É o problema da União Europeia, isto é, quem paga mais, tem os melhores. E pra cativarmos os jovens, isto não vai lá com o IRS jovem, isso só vai lá com crescimento econômico, com mais economia haverá melhores salários.

E, portanto, agora é esse o enfoque da sede.

Mas continue lá com as perguntas.

Vamos pra pergunta, pra aquela que o Álvaro Belleza está a dizer que se fala demais, mas vai ter que ser. Quantos serviços de urgência e de obstetrícia e ginecologia estão hoje fechados de acordo com o mapa do SNS?

Eu penso que são seis, mas nós temos serviços de urgência de obstetrícia a mais em Portugal.

Ok, mas a resposta é seis.

A resposta está correta, estão a mais. Funcionaríamos bem com aqueles que estão abertos agora?

Não, o problema aqui é que nós temos um problema em Portugal, apesar do 25 de Abril e da CEDES, o país continua muito o Estado corporativo do doutor Salazar. A Constituição de 1933 era sobre o Estado corporativo. E Portugal, infelizmente, continua muito dependente das corporações. Ainda por cima, algumas têm poderes delegados do Estado que mais nenhum país europeu tem. Que, aliás, agora, pro PRR, uma das coisas que lá estava é que era preciso tirar alguns desses poderes delegados. Isto tem a ver com a obstetrícia. Onde? Quem define os critérios de quantos médicos devem estar na urgência de um hospital em determinada especialidade, bem, pra já não falar quantos é que vão ser novos especialistas em cada especialidade, quantos é que vão entrar em cada hospital, isso está tudo delegado em Portugal. Em nenhum outro país europeu está. Nenhum outro. Está tudo delegado à Ordem dos Médicos.

Mas o poder político é que tem as rédeas na mão para tirar esse poder da Ordem.

Certo, mas a questão é: o Colégio da Especialidade de Obstetrícia em Portugal definiu critérios que estão em Diário da República desde 2022, não estavam. Antigamente, os hospitais ainda tinham capacidade pra fazer, em que em Portugal vai de dois a seis médicos, tem que estar na urgência. Por exemplo, em França é de um a dois.

Portanto, revogando esse texto, resolve-se o problema das urgências de obstetrícia.

É que há aqui outro problema. Nós temos em Portugal um rácio entre médicos e enfermeiros no SNS muito equilibrado, isto é, temos um médico pra um enfermeiro e meio, ou dois no máximo. Na Alemanha é um pra três. O rácio normal devia ser um pra três. Há funções que antes eram feitas por médicos, podem ser por enfermeiros. Portanto, dois assuntos.

Portanto, há urgências que poderiam estar a funcionar.

Exatamente. Na MAC, metade dos partos já são feitos por enfermeiros, com tutela médica, mas podiam ser mais. E não é só na MAC, a MAC é referência. Isto devia ser generalizado. Mais partos feitos por enfermagem. Por outro lado, não é preciso tantos médicos. Eu pergunto: os franceses valem por três? Os médicos franceses são melhores que os portugueses?

No fundo, está a dizer que nós estamos a pagar o custo também do peso corporativo dos médicos.

Estamos a pagar, e não é só dos médicos, nós estamos muito dependentes das corporações, dos professores, é em todo lado. Aliás, o país está muito em autogestão. Se a gente reparar, grande parte dos problemas que temos é que não há hierarquia, não há voz de comando. Aliás, fala-se isso, é tudo o Ministério da Saúde.

O ministro da Saúde criticou a falta de autonomia dos administradores hospitalares.

Não, é geral. Nós temos um problema em geral, que é não se pode governar em autogestão o Estado. Você governa em autogestão a Autoropa, ou governa em autogestão. Isto é, são os que estão cá que vão decidir tudo como é que é. A democracia parlamentar é democracia indireta, não é a democracia direta. O sistema de autogestão é o sistema do Do socialismo joojouavo, para já não dizer outras coisas. Nós temos que ter um sistema em que você tem que ter responsabilização, lideranças, voz de comando, hierarquias e isto vale para tudo. Eu acho que isto é um problema nacional.

Mas não dá a ideia que a governação socialista destes últimos oito anos foi um pouco essa autogestão ou permitir essa autogestão?

Sim, porque os socialistas, o PS tem uma vertente que é importante, e eu sou socialista com muito orgulho, da solidariedade, de estar sempre a pensar em defender os mais fracos, os que não têm. E isso é muito virtuoso e é muito generoso e só fica bem ao PS. Agora, o PS nos últimos anos, sim, mas não é só o PS. Isto vem desde praticamente todos os 50 anos da democracia. Isto é, nós melhoramos muitas coisas, democratizamos muito o país, mas dependemos muito e mantivemos as dependências das corporações. Isto vale para quase tudo. Se nós formos ver quase todas as áreas, temos um problema aqui de dependência dos próprios. Por exemplo, a regulação. Tem que haver equilíbrio. Vamos lá ver, as ordens são importantes e é importante a autorregulação, mas a verdadeira regulação faz-se por exterior. Eu sou diretor de um serviço, é auditado todos os anos e tem auditorias de qualidade, de empresas, de certificação de qualidade para o sistema ISO, é auditado pela DGS e é inspecionado, porque o sangue é uma área que teve que ser muito auditada, com certificados internacionais de qualidade. O juiz em causa própria é sempre mau avaliador. Se não houvesse exames, acha que os alunos estudavam? Mas, por exemplo, essa coisa de acabar com exames nacionais, tem que haver exame. Se não houver exames, eu vou para Carcavelos. Só um jovem de 10 anos burro é que não vai para Carcavelos.

Para Carcavelos .

É a minha terceira opção.

Não é para a nova expo, exatamente.

Nós temos que ter essa-

Temos que avançar. Vamos avançar.

Vamos continuar o exame.

Álvaro Beleza, mais uma questão: foi indicado como cabeça de lista por Vila Real, acabou por desistir depois de críticas às estruturas locais do PS. A pergunta é: mesmo não estando à frente desta corrida, quantos deputados acabou por eleger o PS neste distrito?

O PS elegeu dois.

Certíssimo.

Eu não queria ser deputado, nunca quis. O Pedro Nuno insistiu muito e o meu avô era de Vila Real, meu bisavô republicano.

Portanto, tem lá raízes, não era um paraquedista.

Só que eu defendo o sistema de eleições primárias, círculos uninominais e, portanto, essa também era uma razão que eu não queria ser deputado. Mas ainda por cima, tendo lá uma conselheira que achava que eu não devia ser.

Claro, ia dizer aproveitou, mas esse foi o argumento para-

Se não tinha sido, faria o meu melhor.

Mas mesmo de fora continua a apoiar. Aliás, foi um apoiante de Pedro Nuno Santos na corrida interna do PS. Como é que avalia este seis meses de oposição?

Há dois lugares em Portugal, os dois lugares mais difíceis na política portuguesa são o Ministério da Saúde, ministro da Saúde ou ministra, neste caso, como se percebe, como todos os outros que a antecederam, e o líder da oposição, quando está na oposição até ser primeiro-ministro. Depois quando é primeiro-ministro já é o maior, já toda a gente consegue.

Isso aconteceu com o Montenegro?

Sim. Hoje à noite no Pontal vai ter mais gente do que teve, vai ter melhor imprensa, vai levar menos pancada, porque já é primeiro-ministro. Não tenho qualquer dúvida, faz parte. E portanto, o líder da oposição é difícil, mesmo numa situação em que não há maioria absoluta, como é o caso, como é uma maioria relativa, mas há uma maioria de direita enorme. A gente esquece que é um governo minoritário, mas a direita é amplamente majoritária.

E isso condiciona o líder da oposição.

Então, claro que condiciona, porque o PS tornou-se o maior partido da esquerda portuguesa. Isso é bom, eu acho que até é bom para o sistema e para a estrutura da democracia. Só acontece é que somando os da esquerda, são menos que os da direita.

Se fossem mais, formava governo.

Ou havia a expectativa de ser primeiro-ministro mais cedo. E, portanto, vai ter que gerir com equilíbrio, e eu acho que ele até está a fazer, que é, por exemplo, a questão do orçamento de Estado, que toda mundo anda bem a falar. Falam demais, aliás. É simples, o PS só pode aprovar ou abster-se num orçamento que não vá contra os seus princípios fundamentais, as suas ideias fundamentais. Eu, por acaso, aí tinha defendido uma coisa diferente. Eu deixava passar este orçamento, dizia logo à partida, mas não negociava nada, porque eu acho que é mau.

O PS devia fazer isso, aprovar sem negociar. Isto é, para não se vincular a este orçamento.

Eu estou sempre a dizer isso. Os portugueses são um bocadinho de "segura-me que eu bato", mas depois ninguém bate. Muita conversa. Ter um orçamento a meias entre o PSD e o PS não é nada. Se o PSD está no governo e se a direita é maioritária, então que façam o seu orçamento. Se defendem mais diminuição dos impostos, diminuição da carga fiscal, então façam as reformas que têm que fazer.

Um orçamento de medidas do PS vai responsabilizar também o PS?

Claro, se o orçamento tiver lá parte das propostas do PS.

Já terá algumas.

Está lá sem estar no governo.

Já terá algumas que o PS já tem apresentado e aprovado no Parlamento, nomeadamente o fim das portagens de algumas SCUT.

Exatamente.

Mas acha então que o PS deve, obviamente, viabilizar este orçamento?

Não, eu acho que deve viabilizar por uma questão da democracia. Não faz sentido haver eleições, o governo ainda nem um ano tem e o primeiro orçamento devia haver um gentleman agreement. Não é acordo de regime, como falou agora o Presidente da República na saúde. Devia haver um gentleman agreement entre os dois principais partidos. No primeiro ano, deixar passar o orçamento daquele que ganhou as eleições e que é governo.

E Pedro Nuno Santos partilha essa visão?

Já disse isso a Pedro Nuno Santos.

Não sei se partilha, não me perguntou a opinião. Só quando ele me pede a opinião é que eu dou. Eu não estou na direção do PS.

E pede-lhe muitas vezes.

Não, ultimamente não me tem pedido, mas também não precisa, porque ele é um jovem. Eu quando o apoiei não foi para ele andar-me a pedir opiniões, nem quero dar muitas opiniões. Ele sabe bem o que é que há de fazer e tem que seguir o seu caminho. Eu sou mais velho, como imagino, ele é um jovem e nós temos que deixar os jovens voar. Ele tem que fazer o seu caminho.

Já estamos com 12 pontos.

12 pontos.

12 pontos.

12 pontos.

O Mota deixa a juventude.

A juventude. Vamos para a próxima.

Ainda tem 10 possíveis.

É verdade. Vamos para a próxima pergunta: em toda a história de Portugal, quem foi o mais jovem Presidente da República?

Ramalho Eanes.

Ramalho Eanes, muito bem, está certo.

Grande figura do país.

E eleito com 41 anos.

E eleito com 41 anos, exatamente. Que, aliás, teve o problema aqui para nós, quando se chega muito jovem ao topo da pirâmide, depois a seguir já não há mais nada. Que é o que está a acontecer agora na reforma, porque nós estamos a viver cada vez mais anos e as pessoas esquecem-se que quando se reformarem aos 66, não vão ter a longevidade dos 86 que têm hoje, vão ter 96 ou 106. Portanto, vão viver mais 30 anos a fazer o quê? A jogar às cartas na Alameda?

Mas isso tem que haver uma série de alterações sociais e laborais, nomeadamente económicas, para que as pessoas tenham uma vida ativa mais prolongada.

Depois da reforma, que as pessoas façam outras coisas, se quiserem, e as pessoas vão querer. E vocês também, jornalistas.

Sim, sim. Eu vou-me dar muito bem porque-

Um jornalista com 90 anos, se estiver lúcido, não pode fazer umas coisas giríssimas? Pode. Mas para um Presidente da República muito jovem teve esse problema, mas é muito bonito e acho que é muito grato a maneira como os países o tratam.

Não aproveitamos as capacidades de alguém como Ramalho Eanes por causa disso?

Acho que não. Acho que o país hoje é muito grato a Ramalho Eanes e todos, independentemente daqueles que tiveram opiniões contra ele. Eu tive algumas na altura, porque eu estava com Sá Carneiro. Isto é uma coisa antiga, mas o que é facto é que é a grande referência da ética na política, como se pode ser decente, ético, boa pessoa e um bom político e fazer um bom préstimo ao país. Agora, como é que podiam prestar serviço? Podiam, se é de se defendesse, se houvesse um Senado, uma Câmara alta, como todos os países europeus, exceto três. Só há três que não têm Senado: Portugal, o Luxemburgo e o terceiro confesso que não me lembro, mas é ou a Letónia ou a Estónia.

Mas temos senadores.

Temos senadores. Temos. E a questão era ter, por exemplo, o Conselho.

Só que por não estar na televisão.

Exercem o magistério.

Já agora, o Conselho de Gestão faz as vezes do Senado, mas não devia, porque não é eleito. E um Senado eleito equilibrava o país e as regiões. Era a melhor maneira de equilibrar, como é os Estados Unidos.

E tem outra legitimidade.

Nos Estados Unidos é o Senado, com dois senadores pela Califórnia ou dois pelo Kentucky, que equilibra o Kentucky com a Califórnia.

Independentemente da população.

Exatamente. E aproveita-se os mais velhos, como se vê nos Senados, têm pessoas mais velhas. Devíamos sentar aqui os ex-presidentes, ex-primeiros-ministros.

Estamos a ficar curtos de tempo. Ainda há mais uma pergunta, o Bruno tem uma pergunta e eu tenho aqui uma para lhe fazer. No ano passado sugeriu um limite de idade para a candidatura a cargos executivos ou presidenciais. Porquê esta ideia? O que é que seria uma idade razoável? E estaria a pensar em alguém em particular?

Eu sempre defendi que Portugal precisava de mais mulheres na liderança. Há muitas mulheres em cargos, mas líderes, muito poucas.

É o que é que tem de líder.

Mais mulheres na liderança e Portugal é muito grisalho. Bastava olhar para os líderes. O António Costa agora foi para Bruxelas, mas o primeiro-ministro, o presidente, todos grisalhos, olhe para Espanha, olhe para França, tudo gente muito mais nova. Então as mulheres no norte, primeiras-ministras, presidentes e tal. E para darmos também espaço aos mais jovens, acho que devia haver limites para órgãos executivos. Atenção, exemplo, eu vou-me reformar daqui a uns anos, Santa Maria, deixo de ser diretor de serviço, mas gostava de continuar a trabalhar. Claro que poderei continuar excepcionalmente, há uma permissão para que as pessoas com mais de 70 anos possam, mas devia haver uma coisa fácil de que as pessoas a partir dos 66 ou 70 pudessem continuar a contribuir, mas não em lugares de liderança. Nós temos que dar as lideranças aos mais novos. O primeiro-ministro francês tem 30 e tal anos. Já agora, os que fizeram o 25 de Abril, a geração, o Eanes, aqueles, o João Salgueiro, na altura, o Rui Vila, essa gente tinha 30 e tal anos e foram ótimos. Nós estamos também a envelhecer um bocadinho. O país envelheceu, é natural que os líderes envelhecessem. Mas a minha geração, eu costumava brincar nisto com a malta mais nova lá no PS. A minha geração, que é do António Costa e de outros, não largamos o poder, porque somos a geração que quando veio o 25 de Abril, tínhamos 16 anos, 18 anos e tal. E que somos muito políticos e gostamos muito da política. Temos que deixar isto para a malta.

Mas já agora, concretamente e muito rapidamente, o que é que seria um bom limite? 65, 70 anos?

Era o limite da reforma.

Os 65 anos.

Era esse o limite, mas só para lugares executivos.

Portanto, Marcelo Rebelo de Sousa não seria presidente.

Sim, mas ao mesmo tempo permitir que os mais velhos possam trabalhar. Nós temos que ter espaço para todos. É como o Cristiano Ronaldo na seleção, não podemos estar é todos a jogar eternamente.

Boa deixa.

Boa para o futebol, porque no Sporting dominam os grisalhos, há juventude na direção e no banco. E o Álvaro Beleza é adepto do Sporting.

Não, sou do Benfica.

É do Benfica. Caramba.

Mas admiro a juventude do Sporting. Aliás, é um colega meu, o presidente do Sporting, e acho que o Sporting tem que ter feito uma boa evolução e reforma no futebol português, que o Porto agora acompanhou, com gente nova na liderança, novos hábitos, nova atitude também.

Então vamos ver se sabe aqui um bocadinho da história do Sporting. Quando é que o Sporting ganhou pela última vez dois campeonatos de forma consecutiva? Ou seja, foi bicampeão? Eu posso lhe dar as três hipóteses.

Diz.

1953/54, 81/82 ou 2001/2002.

Espera, isso para mim é difícil. 80, não? Falhei. Pronto. Também tinha que errar alguma vez.

53/54, aliás-

Eram os três violinos.

Eram os cinco violinos e ganharam o tetracampeonato, o primeiro clube a ganhar.

Foi antes de eu nascer, nasci em 58, é por isso que eu não me lembro.

Não sabia esta.

Tudo bem, pronto.

Falhou uma, acertou três e pediu ajuda numa. 17 pontos. É fantástico.

Pronto. Obrigado. Foi um gosto estar aqui a trabalhar.

Ia-se a dizer, Bruno?

Ia só uma pergunta e era em relação ao Sporting, mas também a toda a nossa sociedade. O Sporting é um clube eclético, os outros grandes clubes também o são, mas continuamos a dar atenção excessiva ao futebol?

Sim, 50 anos depois do 25 de Abril, Portugal era Fátima, futebol e fado.

Até agora, pelos resultados nos Jogos Olímpicos.

Fátima continua e o futebol continua, e mais até. O fado menos.

É mais funk que fado agora, talvez.

Apesar que ontem o Barack Obama pôs uma música da Carminho, grande fadista. O fado continua a ser a nossa música. Eu tive agora férias em Espanha, isto por causa do flamenco. Nós temos que cultivar as nossas raízes, a nossa música. E o fado é uma música notável, nós tivemos e temos cantoras e cantores notáveis e devemos nos orgulhar disso e ouvir mais. Ontem uma televisão fez essa notícia e ouviu-se a música da Carminho. E eu pensei: "É preciso um ex-presidente dos Estados Unidos pôr na playlist para se ouvir fado?" Temos que nos ouvir a nós próprios mais.

Muito bem, Álvaro Beleza, muito obrigado por ter vindo ao Correio Brasil Inquérito. Obrigado.

Obrigado.

Obrigado