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Conferência de imprensa da Rádio Observador, altura em que destacamos histórias ou artigos da imprensa nacional e internacional, que vale a pena conhecer. Carla, começamos por ti. Queres dar-nos a conhecer a tua história?

A minha história é do Observador, é de ontem, um artigo da Beatriz Ferreira, com ilustrações de Ana Moreira, cujo título é: "Da recusa a responder à oferta de alfaces e se um dia o INE lhe bater à porta". Basicamente, este artigo tem tudo aquilo que alguma vez quisemos saber sobre os inquéritos do INE e não tivemos coragem de perguntar.

Os bastidores.

Os bastidores.

O INE bate sempre três vezes.

Bate sempre três vezes e insiste, e volta a insistir. É isso mesmo que explica este artigo, conta como são decididos e feitos os inquéritos e por que nos liga a um de nós e não ao nosso vizinho. Basicamente, quando batem à porta, batem três vezes ou mais, porque é obrigatório. Somos obrigados por lei a responder. Se não respondermos, podemos ser multados. E o artigo explica isto, muito embora a prática seja só de insistir com as empresas, só há registro de empresas multadas. Por exemplo, no ano passado, houve 300 processos de empresas que não responderam, deles resultaram 21 coimas, no total cerca de € 10 mil. E, portanto, o objetivo, diz um responsável do INE, neste artigo, que a norma é fazer sensibilização, a ideia não é cobrar multas, ainda que legalmente se possam fazer. Talvez ficássemos a saber isto melhor durante os censos de 2021, por exemplo, onde apenas 0,1% dos inquiridos recusaram responder aos inquéritos. Mas a lei protege o INE. Como é que surgem os inquéritos? A maioria não é por uma ideia de algum iluminado. Há uma obrigação comunitária. Os inquéritos são realizados por todos os Estados-membros, nalguns casos até da OCDE, e são os países que entre si decidem que indicadores estatísticos devem ser acompanhados, até para que se possam fazer comparações entre países ao longo dos anos. Portanto, nada disto surge por acaso. Mas apesar disso, cada instituto nacional de estatística tem autonomia para acrescentar algumas perguntas que considerem mais pertinentes e que tenham mais a ver com aquilo que é a realidade de cada país. Estes inquéritos podem ser mensais, trimestrais ou até anuais. Há um conselho superior de estatística, que define o questionário final e é muito interessante saber quem faz parte deste conselho. É presidido pela ministra da tutela, Mariana Vieira da Silva, o presidente do INE, atualmente Francisco Gonçalves de Lima, é o vice-presidente e depois há uma série de outras entidades que compõem este conselho superior. Por exemplo, entidades sindicais, empresariais, o Banco de Portugal, os Serviços Regionais de Estatística das Regiões Autónomas, os serviços públicos. Há outros ministérios também, consoante os inquéritos em causa, a Comissão Nacional de Proteção de Dados, a Associação Nacional de Municípios, a Associação de Defesa do Consumidor e continua, professores universitários, especialistas em métodos estatísticos e depois cinco personalidades de reconhecido mérito científico e independência. O nosso artigo fala de dois deles, a demógrafa Maria João Valente Rosa ou o politólogo Pedro Magalhães. E por que nos ligam? Por que me ligam a mim e não ao Paulo Ferreira ou ao João Miguel? Se já recebemos uma chamada, talvez tenhamos feito essa pergunta. Na verdade, fomos nós que demos o número e que demos a nossa morada quando preenchemos, por exemplo, os censos e nos identificamos. Idealmente, os censos são online ou por telefone, mas há outros inquéritos que são exclusivamente presenciais, como o recenseamento agrícola. Aí o entrevistador desloca-se diretamente à exploração agrícola. Falamos também neste artigo com uma entrevistadora, tem o nome fictício, Joana. Há muitas histórias e uma delas justifica o título. Há entrevistadores que são, por exemplo, atacados por cães quando tentam entrar em alguma propriedade privada. Há aqueles a quem lhes é oferecido café ou batatas, ou uma alface. E depois há aqui uma questão ética que também é importante. Os entrevistadores são obrigados a sigilo, mesmo quando têm conhecimento de crimes. E, por exemplo, agora está a decorrer um inquérito sobre violência. Os entrevistadores tiveram formação com a APAV para saberem reagir e lidar com estas questões. Há perguntas que são muito sensíveis porque são sobre abusos e esta entrevistadora, Joana, diz que foi o inquérito mais íntimo que fez até agora e pode ter conhecimento de crimes, mas está obrigada ao silêncio. Se tiver conhecimento, durante uma entrevista, de uma situação de violência, não pode fazer queixa à polícia. Tem o dever ético de não revelar qualquer informação, seja ela qual for.

Tudo em nome da estatística e do conhecimento geral sobre nós próprios.

Exatamente.

História riquíssima, essa.

Muito rica, muito interessante.

Muito bem. Olha, eu trago uma história de Barcelona, contada ontem pelo britânico Guardian, sobre uma brigada de prevenção de incêndios na serra de Corcerola, na Catalunha: 290 cabras que pacientemente roem todos os dias todo o mato de uma área de 8 mil hectares. Este programa de gestão de paisagem foi lançado em abril, numa região que enfrenta, em média, cerca de 50 fogos por ano. Os promotores deste projeto, uma fundação catalã, assumem que não estão a inventar nada, estão apenas a recuperar uma técnica usada durante tempos imemoriais e que, podemos dizê-lo, teve durante muitos séculos muito sucesso. Usar cabras é uma estratégia que tem sido usada, cabras e não só, outros animais, em muitos países. Portugal, por exemplo, utiliza já esta técnica há vários anos O The Guardian dá outros exemplos dos animais para gerir a paisagem, Estados Unidos, Canadá e também noutros locais de Espanha. Por exemplo, na região da Andaluzia, há duas décadas que 100 mil animais roem o chamado material lenhoso, do qual ouvimos falar sempre no verão.

O combustível.

Exatamente. E isso tem permitido às autoridades poupar também muito dinheiro. As vantagens em usar animais para evitar fogos rurais são muitas, os animais fertilizam o solo, transportam sementes nos cascos e custam muito menos do que os chamados meios humanos de prevenção ou de combate aos incêndios. Não resolve tudo, diz um especialista citado pelo The Guardian, mas ajuda a tornar a paisagem mais resiliente aos fogos. Voltando a Barcelona, e de acordo com o The Guardian, os animais estão a ter um efeito positivo nas localidades situadas perto dos locais onde foram colocados. Parece que há muita gente a visitar essas localidades para poder ver ao vivo estas cabradas, o que dinamiza, de alguma forma, também a economia local. Chocalhos ou badalos, em vez de sirenes para controlar os fogos rurais, é a história que trago hoje.

Muito bem. Eu tropecei aqui numa história no Politico, na versão europeia do jornal eletrônico americano, que nos leva àquilo que eles chamam de o hotspot de inflação da Europa, a Estónia. Sejam então bem-vindos a este local de maior incidência. Os preços no país báltico estão a aumentar 22,7% este ano. É a mais alta inflação, de longe, da zona euro. E a reportagem começa por nos conduzir pelo mercado central de Tallin, a capital do país. Os consumidores andam por ali, o que é normal, os compradores por ali a comprar para eles frutas e legumes nas várias bancas, e esses preços são cada vez mais altos. E Anna Kordey, que é uma estudante de 19 anos que trabalha ali numa das bancas de frutas, desabafa que os clientes a culpam a ela e aos restantes vendedores, porque são eles, basicamente, que estão ali bem à frente deles. Portanto, são o ponto de contacto que eles têm mais direto com os preços. Mas ela depois também acrescenta: "Bom, mas acho que eles sabem que não há muito que eu possa fazer sobre isso". No meio da tempestade da inflação provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, e a Estónia está mesmo ali ao lado, e ainda os efeitos persistentes da pandemia, a Estónia tem o aumento de inflação, de facto, o mais rápido da zona euro. Os 22,7% que se verificam no país comparam com 8,9% no final de julho em toda a zona euro. Kordey, a tal vendedora de frutas, dá o exemplo, as framboesas que ela vende por ali custavam, há um ano, €7 por quilo e agora custam €11 por quilo. Esta tendência de uma aceleração muito grande dos preços na Estónia pode ser atribuída a uma série de fatores, a guerra, a pandemia e também o aumento dos preços de eletricidade, como na generalidade dos outros países europeus. Mas depois há fatores que em Portugal não conhecemos. Por exemplo, uma recuperação excepcionalmente forte da economia da Estónia após a pandemia, que levou à escassez de mão de obra e a uma pressão muito alta dos salários. Só para termos a ideia, o PIB da Estónia já ficou 7% acima dos níveis que tinha antes da pandemia, já no final do ano passado. Isso é um marco que ainda vamos chegar agora em Portugal no final deste ano. 7% acima. Já no final do ano passado. Nós ainda estamos agora a chegar em Portugal ao nível de PIB que tínhamos antes da pandemia. Para o governo da Estónia, que vai a eleições daqui a seis meses, a pressão está a aumentar para fazer qualquer coisa, mas a primeira-ministra Kaja Kallas mantém-se firme numa linha orçamental muito austera desde que chegou ao poder, diz que não quer distribuir apoios públicos aos cidadãos, porque isso leva a uma maior procura na economia, provocando um novo surto de inflação, a tal espiral inflacionista de que se fala, e ao mesmo tempo diz que essa despesa aumentava o défice público. Do lado das empresas, os preços de produtos e serviços vão aumentando, obviamente, é a forma que as empresas têm para se defender. E do lado dos trabalhadores, as exigências por aumentos salariais têm produzido algum efeito. Para termos uma ideia, os salários na Estónia subiram 8,1% no primeiro trimestre este ano. Ainda estão bem abaixo da inflação, mas mesmo assim é uma subida apreciável. E o Banco Central espera que o crescimento salarial ao longo de todo este ano seja 10%. Portanto, esta será mais uma dor de cabeça também para os bancos centrais na Europa e para o tal receio da espiral inflacionista. É esta a viagem do Politico, então, àquilo que é o foco da maior febre inflacionista na Europa, a Estónia.

A Estónia. Não é fácil a vida desse ministro das Finanças.

Nada fácil.

Foi a conferência de imprensa desta terça-feira com Carlos Jorge Carvalho, também o Paulo Ferreira.