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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões, a análise é do Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Fala, Francisco, bom dia. Bem-vindo ao estúdio. Trump prometeu dar o golpe final ao Irão depois das eleições intercalares que são hoje, mas, entretanto, os Estados Unidos atacaram a ilha de Qeshm, no sul do país, mas parece que este é só um de vários ataques que têm ocorrido em segredo nas últimas semanas. Pelo menos, é o que revelam fontes governamentais ao Wall Street Journal. Francisco, estes bombardeamentos em segredo servem para paralisar as defesas iranianas antes do tal golpe final, ou são apenas uma forma de desgastar Teerão sem assumir publicamente o conflito com receio do impacto nestas eleições?

Eu acho que é aquilo que os israelitas costumavam dizer e continuam a fazer, que fazem em Gaza. Eles chamam em inglês, mowndalone, ou seja, cortar a relva. A relva vai crescendo e de vez em quando é preciso ir aparando. E exatamente foi isso que os americanos fizeram ali na ilha de Qeshm, atacando, aparentemente, instalações militares do Irão, a partir das quais atacavam os navios no Golfo. Nós não temos falado tanto sobre isso, mas continua um bloqueio naval americano no Golfo, que é um ato de agressão, uma violação grossa do direito internacional. E, por outro lado, o Irão continua a violar o direito internacional, atacando navios que passam pelo Golfo. Que navios é que têm passado pelo Golfo? Eu acho que isto é interessante, porque tem havido uma retomada das passagens de petroleiros pelo Golfo. Mas que navios são estes? São navios da própria Arábia Saudita, daqueles estados, porque nenhuma seguradora está a segurar navios que por ali passam. Portanto, têm que ser os próprios estados a ter os seus próprios navios, que fazem uma transféga mais à frente. O que significa que o estreito não está aberto, porque continua muito condicionada a circulação e essa circulação só ocorre com escoltas americanas. Portanto, a Marinha de Guerra americana continua no Golfo. O que isso significa? Significa que estamos perante uma situação absolutamente insustentável. Insustentável para o Irão, que não consegue exportar, tem ali um grande garrote econômico, insustentável para os outros países, que só conseguem exportar com custos enormes, porque o custo de passagem estima-se que possa levar a um encarecimento do petróleo em 20, 30 dólares só para conseguir passar. Não tenho a certeza destes números, devo dizê-lo. E, por outro lado, insustentável para os próprios Estados Unidos, porque manter a Marinha de Guerra americana como está ali.

Em constante alerta.

Já estamos em novembro, praticamente um ano inteiro. Depois há aqui questões logísticas muitíssimo complicadas, porque as bases americanas que serviam de apoio a estes porta-aviões norte-americanos e outras bases de guerra foram destruídas pelo Irão, no Bahrein, etc. Portanto, estão a ser reabastecidos a partir de Diego Garcia, que é uma base no meio do Índico. Portanto, isto tem um custo colossal. E hoje vamos ter eleições, já vamos falar sobre isso daqui a bocado, nos Estados Unidos, e a partir daqui vamos ter um Congresso que vai começar a fazer perguntas à administração, quanto é que isto está mesmo a custar. E tudo isso vai levar a seguir estas eleições, muito provavelmente.

E também por isso algum secretismo nestas ações que têm acontecido em Qeshm.

Estas ações, aparentemente, hoje soube-se desta, mas tem havido outras. Nós temos estado com o foco midiático noutros locais e isto acaba por ser, como eu referi há bocado, como vemos em Gaza, o exército de Israel continua a atacar o Hamas constantemente com este tipo de ações. Não são ações de grande visibilidade, nem têm um impacto assim tão grande, por exemplo, sobre os preços do petróleo, mas a situação não está resolvida. Claro que houve aqui algumas movimentações nos últimos dias para eventuais negociações, uma carta de Vance a um alto responsável iraniano, aliás, da linha dura, e portanto, a possibilidade das negociações está sempre em aberto. O próprio Trump deixou em aberto, mas tudo indica que haverá muita pressão para um grande ataque, que se espera que seja o ataque final.

O golpe final, a situação.

Mas isso é uma ilusão. É uma ilusão, mas é uma ilusão perigosa neste momento, especialmente por duas razões. Em primeiro lugar, porque se espera, vamos ver o que é que acontece hoje à noite, uma grande derrota do presidente americano, que entrará no fim do seu mandato, nos últimos dois anos, como aquilo que um jornalista da Economist chamou de um gorila em fim de vida, que é um gorila muito perigoso. E, por outro lado, temos Netanyahu em Israel, que é um primeiro-ministro que está a lutar neste momento pela vida, e que tem muito interesse em criar uma grande crise institucional para um governo de unidade nacional ou do Gema. Portanto, está a ser muito pressionado, porque não sabe muito bem como é que vai conseguir manter-se em funções, tendo perdido também as próprias eleições. E portanto, por todas estas razões, a partir de hoje, possivelmente entraremos aqui numa espiral que poderá levar ao regressar do conflito, porque não há, neste momento, nenhuma perspectiva de chegarmos a um acordo, porque isso significaria concessões aos iranianos que eu não vejo os Estados Unidos a fazerem neste momento.

Então vamos às intercalares norte-americanas. No Brasil, também achávamos que Bolsonaro sairia vencedor. Em Israel, várias sondagens apontavam para a vitória de Eisenkot. Acha que vamos ter surpresas no Congresso norte-americano? Trump já disse que só aceita resultados de umas eleições honestas. Já está aqui a preparar o tom.

Não, isso já sabemos, as eleições honestas é quando ele ganha. Quando ele não ganha, elas são desonestas. Por acaso, uma lição que nós temos dado aqui na Europa aos americanos e também aos brasileiros, e isso devemos dizê-lo e saudá-lo, é que mesmo pequenos mini Trumps que nós temos aqui na Europa, como Orbán ou Vučić, agora na Sérvia, saíram do poder sem questionarem o ato eleitoral. É verdade, tiveram derrotas estrondosas, é certo, mas isso não aconteceu nem com Bolsonaro, nem com Trump. E, portanto, é natural. Claro, Trump Pode dizer outra coisa, se de fato os resultados forem péssimos, que é dizer: estão a ver, quando não sou eu que estou no boletim de voto, os resultados são terríveis. Isso só funciona quando sou eu. Quando não sou eu e são outros sucedâneos, o resultado é sempre pior. Mas enfim, são eleições intercalares, são eleições para o Congresso, para a Câmara dos Representantes. Vamos renovar também uma parte do Senado, temos eleições para o governo de vários estados, ou seja, estamos a falar de um país continente, milhares de eleições. Aquilo que interessa saber, acima de tudo, é quem tem o controle das Câmaras. E os democratas seguramente vão conquistar a Câmara dos Representantes. Agora resta saber se conseguem conquistar o Senado, e isso não é certo ainda.

Claro, sim.

Porque depende muito dos candidatos. É verdade, isso também é preciso dizer, qualquer presidente, geralmente, nas intercalares, tem um resultado fraco. Agora, interessa saber a dimensão da derrota. Isso depois acaba por ser muito importante. Agora, para aquilo que nos interessa para este programa, designadamente, a dimensão da derrota pode ser problemática para toda a gente. Porque pode deixar um Donald Trump com vontade novamente de se vingar agora do seu próprio eleitorado. E o problema é que o Congresso americano não tem qualquer tipo de intervenção em política externa, com uma pequena exceção, que é o poder da carteira. Ou seja, a única coisa que pode fazer é limitar a ação do presidente, não financiando esse tipo de expedições militares que ele tem tido nos últimos anos. E eu acho que por aí poderemos ter algumas limitações. Agora, de resto, não. O presidente americano tem o poder constitucional de dirigir a política externa sem qualquer tipo de entrave.

Sobre a guerra na Ucrânia, o último ataque russo em Zaporizhzhia já fez 26 mortos, ao mesmo tempo que os Estados Unidos confirmam as reuniões diplomáticas em Abu Dhabi na próxima semana. Moscou está a usar o terror nas cidades para chegar com mais força à mesa das negociações, Francisco? Estou com a sensação que no passado já lhe fiz esta pergunta.

Sim, eu vi os números que o Instituto da Guerra publicou ontem e que mostram que no mês de outubro, isso é muito significativo, a Ucrânia ganhou território. E o mês de outubro foi aquele mês em que nós estivemos a discutir as limitações à utilização dos sistemas Starshield e Starlink por parte do governo ucraniano. Portanto, mesmo com este tipo de condicionantes feitas por um suposto aliado, a Rússia recuou. E isso é muito surpreendente, porque ao fim de dois anos de presidência Trump, desta hostilidade sobre os ucranianos, a situação na guerra propriamente dita, que é aquilo que nós geralmente podemos aferir, mostra a Ucrânia com alguma iniciativa. Agora, a Rússia continua a ter algumas vantagens, designadamente nessa capacidade que tem de infligir danos sobre a população civil ucraniana. O exemplo que deu agora é um exemplo que vamos ver repetido, provavelmente, durante o inverno inteiro. Isso, obviamente, cria aqui uma grande pressão sobre as lideranças políticas ucranianas e eu imagino a dificuldade que o Zelenskyy tem todos os dias de ver mísseis a sobrevoarem seu território e não ter mísseis interceptores e, portanto, ver este tipo de ataques e pessoas a morrerem e não ter essa capacidade de contrariar esse tipo de ataques. Os ucranianos conseguiram contrariar os russos na frente de batalha, neste momento não conseguem fazer com a mesma eficácia na retaguarda. E como é que reagem? Reagem como estão a fazer agora nos últimos dias, atacando as refinarias russas.

Exatamente, sim.

E tudo aquilo que pode levar Putin a repensar os seus objetivos neste conflito.

O que é que devemos esperar da próxima semana, da reunião a três?

Acho que não podemos esperar grande coisa. Não há nenhuma indicação de que venha aí algo de novo. Aliás, nós vimos aquele telefonema que foi feito muito recentemente pelo presidente finlandês e o primeiro-ministro norueguês falaram directamente com o Putin. Putin voltou a fazer aquilo que faz sempre, que é dizer-lhes: "Olha, mas vocês têm que perceber que os ucranianos são russos, somos todos descendentes de vikings e, portanto, isto só acaba quando a Rússia tiver um controle sobre a Ucrânia, têm que perceber isso. Portanto, isto é uma questão identitária, não é uma questão de território, não é uma questão financeira, portanto, não vale a pena continuarmos com este tipo de discussão".

Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela análise. Boa semana.

Boa semana, obrigado.

Obrigada.