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"Quente e Frio" com Filomena Martins hoje, quarta-feira, dia 4 de novembro. Filomena, muito boa tarde.

Olá.

Temos uma Bruna a chegar?

Temos uma Bruna a chegar.

Depressões atlânticas e possível rio atmosférico podem trazer vários dias de chuva intensa. A chuva vai voltar. Voltar, quase nem a vimos ainda.

Pois, mas agora vais ver. E vais ver sério, porque a chuva vai regressar já esta sexta-feira. E a primeira novidade é que não será apenas uma frente de chuva a atravessar o país, serão várias e vão passar ao longo de toda a próxima semana. Portanto, a partir de sexta, depois fim de semana e a outra semana toda, chuva. E a segunda é que os vários modelos meteorológicos já estão todos de acordo e mostram uma região de baixas pressões no Atlântico, com uma tempestade profunda que se aproxima de Portugal, e ela é alimentada por um grande rio atmosférico e pode trazer chuva intensa e vento forte. E se ganhar nome, que é o mais provável, vai chamar-se Bruna.

Bruna. Por quê? Não sabemos, não é?

Não, porque os nomes já estão todos definidos. Fizemos um programa sobre isso e o primeiro foi o Adam, foi aquele que levou aquela chuva toda ali a Barcelona e a Catalunha, e o nome a seguir é a Bruna, portanto, se ela vier pra Portugal, será o IPMA a nomear. Da outra vez foi a AEMET, que é o Instituto de Meteorologia espanhol, e chamou-lhe o Adam, que era o primeiro nome da lista. Vamos pro segundo nome da lista, que é Bruna. E há várias depressões que estão a aproximar da península, podem até interagir umas com as outras e vão manter este tempo instável muitos dias. Portanto, a mudança começa já esta sexta-feira, 6 de novembro. Há chuva prevista para grande parte do país, sobretudo norte e centro. A partir de sábado, 7, e sobretudo entre domingo e terça, 8 e 10, esta tempestade, esta Bruna, se tiver esse nome, vai merecer grande atenção.

E por causa dessas depressões no Atlântico?

Sim, os mapas do modelo europeu mostram vários centros de baixas pressões, que são as tempestades, e evoluir relativamente perto uns dos outros. Alguns aprofundam-se, e quando eles se aprofundam, têm eventos fortes e mais chuva. Outros deslocam-se, mas esses enquanto andam por ali juntos, alguns podem unir-se, interagir e trazerem ainda mais chuva.

E há um possível rio atmosférico.

Sim, os mapas, todos eles, já o americano, o europeu, o alemão, mostram uma extensa faixa de transporte de vapor d'água de origem subtropical, que se dirige para o Atlântico, muito próximo da península Ibérica. Este rio atmosférico, como eu já contei aqui, é na verdade, um corredor de umidade na atmosfera. Não é água líquida, mas é uma corrente de ar que transporta enormes quantidades de vapor d'água. Muitas vezes são milhares de quilômetros que os rios atmosféricos percorrem, e quando essa umidade encontra uma frente, ou é obrigada a subir sobre as montanhas, ou pode fazer com que haja precipitação muito intensa. E esta combinação de pressões atlânticas, frentes sucessivas, esta alimentação subtropical do rio, pode tornar este período de 7 a 10 de novembro muito chuvoso. Há algumas simulações que já apontam para acumulação de precipitação de 100 milímetros em certas regiões ao longo destes dias. São ainda cenários, precisam de confirmação, os valores nunca vamos conseguir, mas estes valores vão ocorrer em todo o país, são previstos pra todo o país e isto quer dizer muita coisa, muita chuva.

E a Bruna?

A Bruna é o nome que será atribuído se a depressão que se aproxima se aprofundar perto da nossa costa e se o IPMA considerar que os seus ventos e as suas chuvas terão grande impacto. É certo que a chuva regressa na sexta-feira, que os dias seguintes deverão continuar muito instáveis, com chuva. O que falta esclarecer é onde, quando, com que intensidade vão ocorrer os episódios mais fortes e se a trajetória da Bruna se vai manter e se ela vai ser mesmo mázinha pra ter direito a batismo.

E não sabemos qual é o pior dia, não é? Se será a sexta-feira ou sábado.

Não, o pior dia, com a aproxima dela, será sempre entre domingo à noite e segunda-feira.

Ah, OK. E antes disso, ainda temos duas manhãs frias.

Sim, não sei se percebeste, que esta manhã já estava muito frio. A descida das temperaturas já se faz sentir hoje, e vai prolongar-se até quinta-feira. Em Bragança, as mínimas são de 1 grau na quarta-feira e zero na quinta. Na Guarda, os termômetros também estão nos zeros na quarta. Em Braga, por exemplo, vamos passar dos 5 graus na quarta pra apenas 2 na quinta. Vão andar por estes 8 graus, 7 graus, Lisboa terá 9. O frio, obviamente, será muito intenso na serra da Estrela, estão previstos 4 graus negativos na quarta-feira e a sensação térmica é de -7.

-7? Jesus.

Sim. Há condições pra formação de geada em vários locais do interior, sobretudo naquelas zonas mais abrigadas. E depois, quando começar a chuva, na sexta-feira, as temperaturas mínimas sobem em muitas regiões, porque a entrada do ar mais marítimo, mais úmido, e o aumento das nuvens, da nublosidade, faz com que a circulação atmosférica reduza esse arrefecimento durante a noite. Aliás, pra semana vai haver temperaturas durante o dia que são quase iguais durante a noite. E é precisamente depois destas manhãs frias que vamos encontrar um fenômeno curioso, que vamos falar a seguir.

Ah, é? Vamos então falar deste fenômeno, que é como pode aparecer gelo ou geada no carro quando o termômetro marca 2 graus positivos.

Sim, acho que toda a gente sabe que a água congela aos 0 graus. É uma daquelas da escola primária. Mas imagina que acordas, olhas para o termômetro do telemóvel e de vez em quando Temperaturas positivas, 2°C, 3°C, mas tens o carro coberto deste gelo, desta geada, e vês aquelas ervas todas branquinhas à frente de casa. Se a água congela aos 0°C, como é que isto é possível? A explicação está numa diferença muito importante e muito simples. A temperatura do ar, que vemos nos termômetros e que vemos nas simulações, nas previsões, não é necessariamente a temperatura que está à superfície.

É como o calor também. Quando está muito calor e nós achamos: "Não, no meio da cidade ainda é mais quente."

É, mas neste caso-

Por causa do alcatrão.

Por acaso, neste caso, quando ouvimos dizer que estão 2°C, estamos a falar da temperatura do ar medida em condições normais, cerca de dois metros do solo.

Ah, ok.

Mas o tejadilho e os vidros do carro devem estar muito mais frios. Portanto, durante uma noite de céu limpo, as superfícies perdem energias sob a forma de radiação infravermelha e quando há pouco vento, o ar não consegue compensar esta perda de calor. E o resultado é que o vidro pode atingir uma temperatura negativa, mesmo quando o ar à volta continua acima dos 0°C. E se houver umidade suficiente, o vapor de água vai depositar-se diretamente sob uma forma de pequenos cristais de gelo, que é a geada. E também pode acontecer que o orvalho se forme primeiro e depois a seguir congele e fica aquela geada branquinha por cima das plantas. É por isso que podemos encontrar gelo no carro e, ao mesmo tempo, não ter uma temperatura de ar negativa.

E é possível que o carro esteja ainda mais frio do que aquilo que aponta?

É possível.

É, não é? E por que isso acontece sobretudo nas noites limpas?

Porque as nuvens, por isso é que eu disse que iam subir as temperaturas quando começasse a chover, funcionam em certa medida como uma espécie de uma cobertura que reduz o arrefecimento radiativo das superfícies. Sem nuvens, a perda de energia para a atmosfera e para o espaço é normalmente maior. As nuvens fazem uma espécie de uma tampa. Chega ali e o calor não foge mais. Há ainda outra curiosidade: um carro estacionado, por exemplo, debaixo de uma árvore ou de uma cobertura, pode apresentar menos gelo do que outro estacionado completamente ao ar livre. Portanto, da próxima vez que encontrares o carro congelado e o termômetro marcado 2°C ou 3°C positivos, já sabes, não há contradição nenhuma, o ar está acima de zero, o vidro pode estar abaixo.

É por isso que às vezes há pessoas que metem uma capinha até por cima do carro para combater precisamente esse fenômeno.

Também podes pôr debaixo da árvore.

Sim, escusamos estar a cobrir aquilo tudo. Bom, vamos agora à curiosidade. Por que algumas vacas resistem melhor ao calor, Filomena? Adoro este fenômeno.

Olha, com o aumento das temperaturas, há uma pergunta que interessa cada vez mais aos cientistas: por que alguns animais conseguem suportar melhor o calor do que outros?

Porque nascem no verão, não é?

Não. Nem no Alentejo. É preciso fazer essas simulações, porque cada vez as temperaturas estão mais altas e uma das últimas que foram feitas foi com o gado brangus, que é uma raça resultante do cruzamento dos angus com os brahman. Estes são conhecidos pela adaptação a condições relativamente quentes. Os investigadores estudaram as diferenças na atividade dos genes dessas vaquinhas pra compreender como respondem ao calor, e há um resultado importante: não existe um só gene que torna a vaca resistente a temperaturas mais elevadas. A tolerância ao calor, como eu tenho, envolve vários mecanismos do organismo, desde a regulação da temperatura corporal, até a resposta das células ao chamado estresse térmico.

Estresse térmico. Eu entro em estresse térmico quando está muito calor.

Eu não entro.

Eu sei.

O calor excessivo pode afetar a alimentação, a reprodução, a produção de leite e a saúde das vaquinhas. Por isso, compreender estas diferenças pode ajudar a desenvolver estratégias pra criação das vacas, pra seleção das vacas e para as adaptar melhor a um clima que está em aquecimento constante agora. E há uma distinção importante: resistir melhor ao calor não significa ser imune aos seus efeitos. Portanto, isto vai depois ser as vaquinhas todas com modificações genéticas. E temos que ter em atenção, porque isto recorda-nos que estas alterações climáticas não afetam apenas as temperaturas que sentimos, afetam também as dos bichinhos, todos os animais, e todos aqueles animais que também produzem os nossos alimentos, e os próprios alimentos que não são animais, portanto, também alteram tudo isso. Tudo isto tendo de mudar, ou então temos de parar o aquecimento.

Pois é. Então vamos resumir aqui. Muito frio é relativo. Nos próximos dois dias. Sexta-feira, chuva com força, não sabemos ainda muito bem a sua intensidade, se lhe vamos dar o nome de Bruna ou não.

Bruna só chegará na domingo à noite, segunda-feira.

Ah, ok.

Primeiro vêm as frentes.

Portanto, vamos ter chuva seguramente a partir de sexta-feira.

Vamos.

São essas as notícias de Filomena Martins, em mais um "Quente e Frio", já disponível em podcast. Filomena, até amanhã.

Até amanhã.