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Este é Conquistar o Futuro, um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada, onde olhamos para a forma como estamos a preparar a próxima geração e as lideranças do futuro. Do direito à arquitetura, da economia às artes ou às relações internacionais, vamos saber como os professores de hoje preparam os profissionais de amanhã. Hoje falamos com Samuel Moreira, professor auxiliar da Faculdade de Direito da Universidade Lusíada, no Porto. Leciona em todos os ciclos de estudo da Criminologia, área onde é doutorado. Samuel Moreira, bem-vindo. É um gosto tê-lo aqui neste podcast. Nós tendemos a olhar para a Criminologia como sendo um ramo do Direito. Será que é correto pensarmos desta forma?

Antes de mais, muito boa tarde. Agradeço o convite e é também um grande gosto para mim poder participar neste conjunto de podcasts que está a ser organizado em parceria entre o Observador e a Universidade Lusíada. Relativamente à sua questão, não acho que seja totalmente correto, embora seja compreensível que se possa pensar dessa forma, porque, de facto, a Criminologia tem uma relação muito próxima com o Direito, sobretudo com o Direito Penal, porque ambos lidam com o fenómeno do crime e o Direito define legalmente o que é crime num espaço e tempo, que é um dos mais importantes objetos de estudo da Criminologia. Este é um dos motivos e também porque os cursos de Criminologia e de Direito em Portugal e noutros países, por norma, estão integrados numa mesma faculdade.

Digamos que a Criminologia atravessa outras áreas de saber além do Direito. Quais são essas outras áreas que são importantes para esta ciência?

A Criminologia cruza-se com diferentes áreas. Vou destacar aquelas que eu considero as principais. Cruza-se, sobretudo, com a Sociologia, a Psicologia e a Biologia. O ser humano atualmente é concebido como biopsicossocial, ou seja, o seu comportamento resulta da interação sobretudo de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Para compreendermos o crime ou o desvio de forma mais holística precisamos de congregar ou juntar o conhecimento que vem destas diferentes áreas. Só reunindo estes saberes é que conseguimos ter uma visão mais holística e completa do comportamento humano e do crime, que é um comportamento humano.

Presumo que todas essas áreas estejam presentes num plano de estudos de Criminologia.

Sim, o plano de estudos contempla diferentes unidades curriculares e temos unidades curriculares que abarcam os conhecimentos destas diferentes áreas e integram, no âmbito do crime, do desvio, da reação social. Temos unidades curriculares que se debruçam sobre cada uma destas vertentes do conhecimento.

Nós sabemos por experiência social que o crime, de alguma maneira, vai acompanhando aquilo que é a evolução das sociedades, tanto em termos sociais, dos usos, costumes, como em termos tecnológicos também. Como é que o ensino desta área vai refletindo essa evolução? Os programas não podem ser estáticos, de alguma maneira.

Exatamente. Pelo menos deve refletir. De facto, o crime vai mudando com a evolução da sociedade. Talvez o exemplo mais paradigmático disso atualmente seja o cibercrime.

Claro.

Com grande relevância na atualidade, com o aparecimento da internet surgiram novos crimes, como o hacking e crimes tradicionais que começaram também a ser praticados no ciberespaço. Por exemplo, diferentes tipos de burlas online ou cyberstalking. Efetivamente, este é um exemplo de como o crime vai evoluindo e o ensino deve acompanhar para estar atualizado. Para além deste, posso falar também dos crimes ambientais.

Claro, que têm um peso hoje que não tinham no passado.

Exatamente. As universidades têm vindo a adaptar os programas curriculares, incorporando também estes temas mais atuais, como o cibercrime ou os crimes ambientais. Mas é uma atualização que é um desafio constante, até porque, não raras vezes, o crime e as tecnologias costumam mudar mais depressa que os programas acadêmicos.

Claro. Se olharmos para um plano de estudos hoje, ele é diferente, não sei se muito se pouco, mas diferente daquilo que era esse plano de estudos há 20 anos, por exemplo.

É bastante diferente, porque existe esta preocupação também de atualizar, como disse há pouco, os programas das unidades curriculares à sociedade contemporânea, aos problemas da sociedade contemporânea, nomeadamente os problemas criminais. Há essa consciência de que também devemos Ir atualizando estes programas curriculares em função também da evolução, nomeadamente do fenómeno criminal.

Claro. Há pouco falou da tecnologia e de uma série de crimes que, de alguma forma, são praticados numa base tecnológica. Samuel Moreira, qual é o papel da tecnologia, neste caso, no ensino da Criminologia?

No seguimento do que falamos anteriormente, no caso da Criminologia, a tecnologia tem hoje um papel duplo. Por um lado, é um objeto de estudo, porque, por exemplo, o crime digital é, de facto, um tema central na Criminologia contemporânea. O ciberespaço é muito relevante na atualidade para diversos fenómenos, como para a desinformação, para a radicalização, para os discursos de ódio ou, como disse há pouco, para o cometimento de diversos outros crimes. E, portanto, nesse sentido, é um importante objeto de estudo, mas também há outros objetos de estudos relacionados com a tecnologia ou inerentes à tecnologia, como novos modos de vigilância, algoritmos preditivos do policiamento, que também são outros objetos de estudos da Criminologia que estão associados à tecnologia. E, por outro lado, também a tecnologia como uma ferramenta pedagógica. Cada vez também usamos mais a tecnologia como uma ferramenta pedagógica. Usamos plataformas digitais para, por exemplo, disponibilizar diferentes conteúdos aos estudantes. Usamos softwares de análise estatística para analisar dados.

E tendências.

Exatamente. Usamos tecnologias como o eye tracking ou a realidade virtual para realizar a investigação. Portanto, a tecnologia, de facto, tem um papel muito importante na Criminologia e podemos destacar estas duas vertentes enquanto objeto de estudo e enquanto ferramenta pedagógica e ferramenta também-

Ferramenta de ensino

...e de investigação. Exatamente.

Samuel Moreira, esta área do crime é uma área muito representada na ficção, no cinema, nas séries. Aliás, é das áreas com mais consumo até das plataformas de streaming, se quiser. Como pessoa que estuda esta área, acha que há um excesso de romantização do crime ou do combate ao crime, se quiser?

Muitas vezes, sim. As séries e os filmes sobre este tema abundam, são, de facto, muitos e tendem a abordar, sobretudo, a vertente da investigação criminal. E às vezes é inclusive necessário desmistificar-se, sobretudo junto dos estudantes do primeiro ano da licenciatura, que a Criminologia é muito mais abrangente que isso. Porque eles muitas vezes entram no curso com esta expectativa muito ligada à investigação criminal.

Que vêm para um CSI qualquer coisa, não é?

Exatamente. Muitas vezes vêm com esta expectativa distorcida, porque, de facto, a Criminologia é muito mais abrangente do que a investigação criminal, embora incorpore unidades curriculares focadas na investigação criminal, nas ciências forenses, na criminalística, mas vai muito para além disto. E para além disso, também porque as séries e os filmes tendem a retratar a realidade, como disse, de uma forma algo romantizada e simplificada. O crime muitas vezes é mostrado como algo muito intelectual, o investigador criminal como uma figura heroica, infalível.

Às vezes até o criminoso é apresentado dessa forma.

Também.

Com alguma inteligência, não é, com que cometem crimes.

Sobretudo quando falamos de psicopatas, por exemplo, há muito esta tendência de associar o psicopata a alguém brilhante, muito inteligente.

Ou alguns crimes de roubo e de assalto mais sofisticados, não é?

Exatamente.

Estou-me a lembrar da "Casa de Papel", por exemplo, que eu acho que quase toda a gente viu. Claro.

Exatamente. Só que, na realidade, por exemplo, a investigação criminal é muitas vezes demorada, é baseada em equipas multidisciplinares, muitas vezes com várias incertezas e, por vezes, sem sucesso. E, portanto, neste sentido, tende a haver esta simplificação do crime.

Trazer um bocadinho a realidade.

Exatamente.

Claro.

E depois também um aspeto que muitas vezes é esquecido neste tipo de conteúdo, é que muitas vezes há um esquecimento das vítimas, ou seja, centram-se muito no criminoso e no investigadores criminais e muitas vezes a vertente da vítima é muitas vezes negligenciada e pouco abordada.

É um curso também, por isso, pela presença na ficção, é um curso com muita procura?

Sim, a Criminologia tem vindo a despertar muito interesse, especialmente entre jovens que se interessam por temas como a segurança, a justiça, o comportamento humano. E em Portugal é dos cursos das ciências sociais com maior procura. E, de facto, tem despertado muito interesse nos jovens e é um curso com elevada procura. Sem dúvida. Às vezes é necessário ajustar estas expectativas. Ou seja, é um curso não apenas sobre investigação criminal, como nas séries e nos filmes, mas abarca muito mais do que isso.

Claro, o tal cruzamento de saberes que falámos há pouco. Quais são as saídas profissionais mais comuns para um licenciado em Criminologia?

As saídas são bastante variadas. Muitas vezes as saídas profissionais são escolhidas em função dos interesses ou da especialização de cada um. Entre as saídas profissionais mais comuns encontram-se as várias forças de segurança, sobretudo a PJ. Muitos estudantes têm a ambição de ingressar na Polícia Judiciária. Também a segurança privada, as comissões de proteção de crianças e jovens, estabelecimentos prisionais, centros educativos, na área da reinserção social, mas também associações de apoio à vítima, ONGs, projetos comunitários para a prevenção do crime. Atualmente, eu destaco também as muitas oportunidades em empresas nas áreas financeira e de consultoria. Temos centenas.

Por causa da cibersegurança.

Temos centenas de alumni a trabalhar nestas empresas, sobretudo nos departamentos de compliance e análise de risco. E também há oportunidades crescentes na área da cibersegurança.

Tem uma ideia, Samuel Moreira, de como está a empregabilidade dos licenciados?

Atualmente, de um modo geral, está bem. A empregabilidade tem vindo a melhorar substancialmente ao longo dos últimos anos. A Criminologia é uma área relativamente recente em Portugal, tem cerca de 20 anos e sofreu dores de crescimento. Durante alguns anos após a criação do curso, de fato, houve bastantes dificuldades de inserção profissional dos criminólogos, até porque a profissão não estava reconhecida, as instituições não conheciam as valências de um criminólogo, mas felizmente as coisas mudaram bastante e atualmente a realidade é outra. No entanto, ainda é comum publicamente circular a ideia de que é um curso sem saída profissional devido ao que aconteceu nos anos após o curso ter sido criado em Portugal.

O que foi que aconteceu?

No período pós-criação do curso de Criminologia em Portugal.

Há 20 anos, comecei.

Há cerca de 20 anos, exatamente. Noutros países é um curso que já existe há muitos mais anos. nesses primeiros períodos após a criação do curso, a profissão de criminólogo ainda não estava reconhecida.

Claro, o que fechava portas.

Exatamente. E as próprias instituições não sabiam muito bem o que é que fazia um criminólogo, quais eram as competências de um criminólogo e, portanto, o mercado ainda estava fechado, por assim dizer, para os criminólogos, ou estava muito restrito. Só à medida que os anos foram passando, que houve este reconhecimento da profissão.

E isso foi ultrapassado.

Exatamente. As instituições começaram a perceber as mais-valias e as valências de um criminólogo e as portas foram se abrindo e atualmente, de um modo geral, a empregabilidade está bem.

O que é que faz, de características, de uma pessoa um bom criminologista em potencial ou em potência?

Eu diria que as mais importantes são a curiosidade, o espírito crítico e também a capacidade de pensar de uma forma multidisciplinar, também devido à natureza da Criminologia, que é interdisciplinar ou multidisciplinar em essência. Para além disso, um bom criminólogo deve também ser alguém com capacidade analítica, mas também com empatia, capaz de compreender tanto o crime como as experiências das vítimas. E é preciso também ter gosto pela investigação científica. A Criminologia fundamenta-se no conhecimento científico e também na atenção ao detalhe, na capacidade para lidar com temas sensíveis. Eu destacaria estas.

E quase a fecharmos esta nossa conversa, Samuel Moreira, que conselho é que daria a um aluno do primeiro ano que queira de facto vir a fazer carreira nesta área?

O meu conselho seria para explorar ao máximo a diversidade da Criminologia. Para além das aulas, também procurar participar em projetos, fazer voluntariado, ter contacto com o terreno, ter experiências reais em áreas relacionadas com justiça, direitos humanos ou segurança. Acho que isto é muito importante na formação, quer enquanto profissionais, quer enquanto pessoas. E acima de tudo, manter curiosidade e espírito crítico. A Criminologia não dá respostas simples, mas ajuda-nos a fazer boas perguntas sobre o crime e a sociedade que de facto nos permite aumentar cada vez mais o conhecimento e dar cada vez mais respostas adequadas também.

Muito bem, Samuel Moreira, obrigado pela disponibilidade para esta conversa, onde falámos aqui do ensino e da carreira de Criminologia. Este foi mais um episódio de "Conquistar o Futuro", podcast do Observador, em parceria com a Universidade Lusíada. Vamos voltar proximamente com outra área de saber e outros convidados. Até lá.