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Olá, sejam muito bem-vindos à consulta informal do projeto Arterial, uma iniciativa do Observador dedicada às doenças cérebro cardiovasculares. Eu sou a Cláudia Pinto e nesta conversa que está a ser gravada em vídeo e vai para o ar na Rádio Observador e ficará também disponível em podcast, vamos falar com uma médica e um doente sobre a aterosclerose, uma doença que resulta de muitos fatores e que tem o colesterol como papel principal e que está também na base da maioria dos problemas cardiovasculares, como o AVC, o enfarte e a doença arterial periférica. Temos hoje conosco Patrícia Vasconcelos, internista da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra, e Rui Nascimento, doente coronário, a quem agradeço a disponibilidade para participarem nesta conversa. Vou começar pela Patrícia Vasconcelos e perguntar-lhe o que é isto da aterosclerose, que eu acho que em casa muitas pessoas não sabem bem o que significa. Olá.
É uma doença. A aterosclerose é uma doença dos médios e dos grandes vasos. É uma doença multifatorial, como a Cláudia disse, há muitos fatores que contribuem para esta doença das artérias. Sendo que aquele que é o fator causal, que tem um papel primordial, quer no início da doença, quer na progressão da doença, é, de facto, o colesterol. É uma doença que sendo multifatorial, evolui num contínuo e começa no dia zero. Começa no dia em que nós nascemos, porque todos nós vamos ser sujeitos a fatores que vão lesando as artérias. As artérias são uns tubos que têm uma camada protetora no seu interior, e essa camada protetora é mais ou menos sensível à passagem do colesterol. Quando esta camada está pouco funcional ou quando é estragada por vários fatores, quer seja por excesso de colesterol, quer seja por pressão arterial alta, quer seja por fatores ambientais, quer seja o fumo do tabaco, quando essa camada protetora se torna menos funcional, ela fica muito permeável à entrada de colesterol para dentro da própria artéria. Isto é o início da aterosclerose. No fundo, é uma doença dos médios e dos grandes vasos, que sendo influenciada por múltiplos fatores, começando desde muito cedo na nossa vida, pode ser influenciada por outros fatores, é um contínuo e tem um grande problema, porque durante muitos anos é uma doença que é silenciosa, não dá sintomas. E depois, só quando dá sintomas, e isso depende do território vascular arterial que é afetado, que é mais afetado, pode ser o cérebro e temos um AVC, pode ser o coração e temos um enfarte, pode ser as artérias dos membros inferiores e temos a doença arterial periférica. Ou então, uma mistura destas coisas todas, quando há vários territórios que são afetados.
Então temos aqui logo duas más notícias, que é: todos vamos ter, porque basta estarmos vivos e termos nascido para termos aterosclerose, e o fato de os sinais serem silenciosos, podem então levar a episódios agudos, ou a que não nos apercebamos que temos esta doença. Como é que se pode fazer o controle do colesterol, da hipertensão, de outros eventuais fatores de risco?
Inicialmente, todos nós devemos fazer um estilo de vida que nos permita adiar ao máximo qualquer um destes eventos. É previsível que a determinada idade possa existir um evento destes causado pela aterosclerose, mas há pessoas que o têm muito precocemente. É isso que nós temos visto ultimamente, que há muita doença precoce e há mortes prematuras causadas por esta doença, o que tem um impacto enorme, quer em nível pessoal, tem custos diretos com os cuidados de saúde, tem custos indiretos com o fato das pessoas não conseguirem ir trabalhar porque estão doentes. E há mortes causadas por isto, infelizmente, muitas prematuras. Portanto, aqui está, sobretudo, o controle dos fatores de risco major, que são: a hipertensão, saber que é hipertenso, controlar a hipertensão; o colesterol, sem dúvida. Já no século passado, Virchov dizia que a aterosclerose é, no fundo, uma doença inflamatória crônica causada pelo colesterol, portanto, o colesterol tem aqui um papel, de facto, primordial. O tabagismo, o sedentarismo, ter muita atenção a esta pandemia que foi claramente agravada agora com a outra pandemia que nós tivemos há pouco tempo.
Certo, as pessoas tornaram-se ainda mais sedentárias.
Sim. Com a diabetes. Todos estes fatores contribuem de forma importante para a aterosclerose. É controlar estes fatores todos, fazer rastreios, ver como é que está a pressão arterial, ou então sabendo que há na família alguém que já teve uma doença cardíaca mais cedo do que era expectável. Também investigar, estar mais atento. Ou então as crianças Sinceramente, não tem sido tão valorizado medir o colesterol das crianças, mas acho que se preconiza que, a partir dos 10 anos, se possa fazer um perfil lipídico, porque já há muitas crianças com colesterol elevado. Não só porque há muitas crianças obesas, mas porque também há uma doença genética que pode levar a ter níveis elevados de colesterol desde muito cedo. E colesterol elevado ao longo do tempo leva a uma carga cumulativa que é muito prejudicial. Ou seja, é mais prejudicial ter 20 anos de um colesterol alto do que a determinada altura, embora tenha a vida toda um colesterol controlado, ter um colesterol alto naquela altura. Portanto, há aqui uma carga em cima do historial de anos de colesterol alto.
E eu vou pegar precisamente nessas palavras pra passar a palavra ao Rui Nascimento. Vou perguntar-lhe quais eram os seus fatores de risco até descobrir que tinha doença coronária. Mas no seu caso, havia uma componente genética muito forte, tanto no caso da sua mãe e agora mais recentemente, também a filha já faz esse-
Exato.
Seguimento.
Fez o rastreio e tem o colesterol elevado também. Já está a ser medicada.
Que tem 13 anos.
13 anos.
Portanto, é um caso como a Patrícia estava a referir.
Tem tudo a ver da parte da minha mãe, tudo da parte da genética.
Portanto, a sua mãe já tinha uma doença-
Coronária, que também fez a operação, a mesma que eu fiz. A minha mãe fez há sensivelmente uns 20 anos, e eu fiz há três anos. Muito mais novo do que ela, na altura.
Certo. Se calhar, também procurou já sabendo desse conhecimento, não é, Patrícia?
Também. Atualmente, nós, como somos mais jovens, temos o conhecimento e praticamente todos os anos faço um check-up. A nível de tudo. E há outros fatores que temos há muitos anos, que eu fui acompanhado a nível do colesterol. Eu tomava medicação e continuo a tomar, mas praticamente de ano para ano vou sempre alterando a medicação. Ou vou juntando outros componentes, ou aquele não está a funcionar, vamos juntar outro. E depois a alimentação também é muito importante, reduzir certas coisas. Eu também sou diabético. Soube que fui diabético antes de ter uma crise cardíaca, porque após ter a alta, sabendo que era diabético, é quando começou a me arder o peito. Ardia-me muito o peito. Fiz, depois, vários exames. Uma das doutoras me disse que poderia ser um refluxo o motivo de me arder o peito. Mas eu disse: "Não pode ser", porque eu também tomava medicamentos pro estômago. Fiz novamente exames, eletrocardiogramas, análises. Depois quando fiz uma prova de esforço, aí é que foi detectado.
Então, inicialmente, os seus sintomas foram valorizados para outra doença. Que é também um dos problemas que, neste tipo de doenças, este projeto, pelo menos o que nos tem ensinado, é que muitas vezes há sintomas que não se enquadram.
Não se enquadra e depois vão por um outro caminho e não vai pra aquele. E depois no meio disso tudo passa-se meses. E a dor sempre maior. Depois fiz um cateterismo, no qual estavam dois doutores, disseram que não poderia ser feito porque estava tão grave, as artérias estavam tão entupidas que não seria possível colocar o stent. Tinha que ser operado. Só que isto foi no Algarve. No Algarve não fazem operações ao coração. Teria que vir pra Santa Marta. Isso foi na altura do COVID.
Tempestade perfeita.
Tempestade perfeita. Depois aquilo adiou um pouco. O que acontece? Não fui operado naquela altura, só fui operado um ano e meio depois.
Depois do diagnóstico. Então só pra citar, tem o diagnóstico, com que idade ou há quanto tempo, mais ou menos?
Foi em agosto de 2019.
E depois vem a pandemia, em março de 2020.
Fui operado em março de 2021. Por quê? Porque meteu-se o COVID. Eu fui algumas vezes ao Hospital de Santa Marta, falar com os cirurgiões, só que eles diziam que não havia hipótese de me enquadrar lá. O que eles podiam dizer era: "Se você tivesse uma crise, um ataque, um AVC, seja o que for, aí vinha pro hospital da sua área e depois era encaminhado pra cá, que já tem cá a ficha". Só que, entretanto, felizmente, não me aconteceu nada.
Certo.
Mas, na altura, eu pra evitar essas dores, que eram as dores do peito que eu tinha, que eram as artérias que estavam inflamadas. Foi uma doutora do Hospital Santa Marta que depois esteve a me explicar. Como eu tinha as artérias tão inflamadas e estavam obstruídas, o sangue ao tentar passar, fazia-me aquela dor. Depois comecei a tomar medicação pra diluir mais o sangue e comprimidos mais fortes pra conseguir que o sangue passasse pelas artérias entupidas.
Já vamos falar aqui desta espera, mas depois, passado um tempo, aí talvez um triplo bypass das artérias.
Exato.
E é motorista de pesados, é a sua profissão, e o que me disse numa conversa anterior a esta gravação é que se sentia bastante cansado. E que depois desta cirurgia, então, a sua vida mudou completamente.
Mudou. Eu estive sensivelmente um ano e meio, mais de um ano e meio, praticamente sem fazer nada. Uma caminhada, por exemplo, nunca pude fazer uma caminhada porque começava a me arder o peito. Logo no pós-operatório, mesmo um mês do pós-operatório, eu já fazia caminhadas de quilômetros. Já não andava mais. Por quê? Porque já me doíam os músculos das pernas.
Não estava habituado.
Não estava habituado. Mas ao nível do peito, a dor desapareceu completamente.
Certo.
O que acontece é que a aterosclerose, quando evolui, primeiro há uma acumulação de colesterol dentro da artéria. Essa acumulação, o colesterol, há ali uma série de mecanismos que ocorrem, vai chamando outras células, sobretudo células inflamatórias, há uma inflamação e aquilo, no fundo, forma-se uma placa.
Onde há sempre a atração de outras células lá para dentro. Isto perpetua-se. O colesterol dentro da artéria acaba por destruir mais aquela camada protetora e acabam por vir outras células. Vai crescendo até que o lúmen fica entupido. O tal cano.
Exato.
Que às vezes não deixa passar a água, aqui não deixa passar o sangue. Não deixando passar o sangue, dá dor. Mas estamos numa fase muito avançada da doença. Para que dê dor, já estamos numa altura em que as artérias estão mesmo quase obstruídas. Portanto, aqui o Rui podia ter tido um verdadeiro enfarte.
Exato. Sempre me perguntaram se eu não tinha tido nunca. Por acaso, não.
Pois, por acaso. Mas aqui temos outra questão que me surge de repente, que é: o Rui é uma pessoa preocupada e que controlou sempre a sua saúde, mas depois não teve acesso, se calhar, aos cuidados o mais rapidamente possível ou no tempo certo. Bem sei que na pandemia tudo isto foi muito ajustado e que as verdadeiras emergências, se calhar, é que tiveram um passo à frente. Mas como é que se contorna isto? Isto é muito complicado. Esta parte da espera deve ter sido para o Rui muito difícil, tendo um diagnóstico na mão, sabendo qual era a solução e não podendo atuar em relação a isso. De qualquer maneira, o Rui é um doente com muitos fatores de risco e tem um risco cardiovascular muito alto. Eu digo que tem, porque continua a ter. Não foi por fazer esta operação que deixou de ter risco, porque é diabético. Não é uma cura. Não é uma cura. E pode acontecer noutros territórios. Porque se os fatores de risco não continuarem a ser controlados, aquilo que foi no coração, poderá ser um dia no cérebro. Portanto, o fato de ser diabético e de já ter tido, de fato, esta prova de que tinha doença coronária, torna o Rui um doente de muito alto risco, o que faz com que a gente tenha que ter o colesterol muito reduzido, bem controlado, a pressão arterial bem controlada, o peso e a diabetes. Em relação ao tempo de espera para a cirurgia, de fato, a pandemia do Covid teve muitas nuances, quer dos próprios doentes, uns porque tinham medo de ir aos serviços de saúde, e foram arrastando, não parece ter sido o caso do Rui.
Não.
As prioridades, em termos de atuação, foram alteradas. Muitos doentes, mesmo em termos de oncologia, que não foram assistidos da melhor maneira porque as prioridades estavam alteradas, e isso prejudicou em muito a evolução de muitas doenças em muitas pessoas. Isso é certo. Eu acho que de uma próxima vez já vamos ter isso em atenção, porque fomos todos apanhados um bocadinho desprevenidos e não se sabia como atuar da melhor maneira. Ainda bem que o Rui não chegou a ter o evento e que se conseguiu resolver. Por outro lado, a pandemia também agravou todas estas doenças. As pessoas que caminhavam, deixavam de caminhar, porque fiquem em casa. Portanto, isto foi muito difícil. Ficavam em casa, muitas deprimidas. A alimentação. A alimentação. Fizemos todos muito pão e muitos bolos, porque era a comida de conforto, mas que não é a comida mais adequada. Muitos deprimidos fumavam mais.
O estresse em si.
O estresse em si. Olha, agora o Rui disse uma coisa giríssima.
Aumenta muito.
E devem-lhe ter explicado isso. O estresse, que às vezes se diz que é: "Isso é só do estresse".
Não.
O estresse e o fato de nós estarmos durante muito tempo numa posição ou numa situação de alarme crônico, quase, porque foi isso que aconteceu durante dois anos. Nós tivemos uma pressão muito grande, quer a nível familiar, quer a nível da profissão, ou porque pessoas que ficaram sem emprego. O próprio medo associado ao desconhecido. O próprio medo. Isso faz com que haja uma produção de catecolaminas, que é ótima, quando nós precisamos de estar alerta. Se vier aqui um leão, é bom que a gente tenha essa reação e que abale. Mas cronicamente, o nosso organismo estar constantemente numa situação de alarme e de alerta, é muito prejudicial, porque esta produção de catecolaminas, de corticoides, faz-nos aumentar a inflamação. E a inflamação está certamente na base de muitas doenças, nomeadamente da aterosclerose. Sem colesterol e sem inflamação, não tínhamos aterosclerose. Patrícia, falou em catecolaminas, que penso que são hormonas, mas se quiser especificar um pouco melhor em que é que consiste. Sim, são hormonas produzidas endogenamente, como, por exemplo, o cortisol, a cortisona. Rui, como é que é atualmente a gestão da sua doença? Além da medicação que tem que fazer regularmente, que outros cuidados tem?
Em relação à minha doença, acima de tudo, tenho que ter cuidado com a alimentação, a nível de gorduras. Tenho outro grande cuidado também, por causa da diabetes. Atualmente, o meu médico, por exemplo, agora receitou-me um tipo de medicamento que está esgotado nas farmácias. Porque eu tenho essa tal doença cardíaca. O meu médico diz que para evitar o máximo possível, que tome insulina, porque vai-me agravar a minha situação. Só que no mercado não há essa medicação, que é a nova medicação, que é injetável E uma vez por mês só. A gente vai à farmácia, não há, está esgotado. Por quê? Porque há pessoas que estão a tomar esse medicamento, não para o diabetes, mas sim para emagrecer. E há que ter atenção aos diabéticos, porque eu, como diabético, preciso desse medicamento por causa do meu diabetes. Porque se eu não tomar a medicação, meus valores andam sempre nos 200, 300 para cima. E acima de tudo, quando tenho os valores elevados, me sinto muito mal.
Pois.
Sinto-me mesmo mal.
Está mais descontrolado.
A nível fisicamente, de estômago, tudo. Depois, um dos fatores é o cansaço e beber muita água. Eu quando descobri que era diabético, eu era capaz de beber 5 L de água por dia. E por quê? Depois eu até fui descobrir, fui ao doutor Google, no qual estava lá, eu fui começando a assimilar aquilo tudo, até que depois tive uma cetose diabética. Tive uma cetose diabética, estive oito dias internado.
O doutor Google também é um clássico, não é, Patrícia Vasconcelos?
Nessa crise que me deu dos diabetes, foi quando após estar dois, três dias em casa, após a alta, foi quando começou a me arder o peito. E depois fui ao médico novamente ver o que se passava. Depois fiz exames, exames, exames, até descobrir, quando fiz o cateterismo, no qual estava tudo entupido. Mas acho que foi algo ali a nível dos potássios, dos líquidos que me deram, dos soros, dos antibióticos, qualquer coisa despontou ali no meu coração, que fez com que a inflamação criasse e ficou.
O Rui acabou de falar em acetose diabética. Patrícia, em que consiste este termo?
O termo mais correto é cetoacidose diabética. No fundo, é um coma diabético causado por uma glicemia excessiva, ou seja, um valor de açúcar no sangue muito alto, que acaba por dar um coma. É um desligar do mundo e que mata. Da mesma maneira, podíamos ter com as glicemias muito baixas, mas quando se fala em cetoacidose diabética, são glicemias, ou seja, valor de açúcar no sangue muito alto.
Quando falamos anteriormente, o Rui falou muito que ouvia bastante ter as artérias obstruídas, mas a aterosclerose não lhe diria grande coisa.
Não, uma pessoa não tendo o problema não vai investigar. Não somos médicos para tentar saber o porquê. Só quando temos essa anomalia é que a gente vai tentar saber o porquê das coisas. E vi até no YouTube, aparece até operações, como é que é feito, como é que se coloca um stent.
Não sei se isso é uma boa dica, Rui. Vou perguntar aqui à Patrícia Vasconcelos, só para ter uma ideia.
É o que acontece às pessoas.
Mas acontece muito. Ou seja, a internet tem este poder incrível. O problema é que muitas vezes nós não sabemos filtrar a informação. Como é que vocês na consulta, depois desta questão do doutor Google e desta informação que o doente também tem?
Hoje em dia vêm super informados. O grande problema é fazer a triagem do que é que está certo e do que é que não está. Nós precisamos muito de literacia em saúde. O problema é que quando se vai ao doutor Google, ele tem tanta informação e coisas tão certas, como tem coisas muito erradas. A triagem disto é que é complicada. Às vezes tem que haver um trabalho depois na consulta de: "OK, vimos isto tudo, então agora vamos esclarecer o que é que se passa".
Quais é que são as fontes fidedignas e não fidedignas. Um estudo recente estima que as diferentes manifestações clínicas da aterosclerose afetam cerca de 740 mil adultos em Portugal, e em 2016, isto correspondia a 14% dos óbitos totais ocorridos no país. Mas neste estudo ainda não estamos na fase pandémica. Eu sei que não vamos fazer futurologia, não é esse o intuito, mas do que vê na consulta e na prática clínica, as pessoas estão a chegar mais tarde?
Eu acho que durante a pandemia, nestes anos, houve um agravamento, claro. Sim. E até arriscava dizer que algumas mortes durante este período foram causadas por doença aterosclerótica. Não foram as mortes diretas do Covid, foram as mortes indiretas do Covid.
Este ano sentiu no inverno, já ouvi também alguns médicos com quem vamos falando neste projeto, que as pessoas se começaram a retrair quando havia muitas notícias de que se deveria evitar ir às urgências. Sentiu isso na sua consulta?
Na área onde eu trabalho não se notou muito o voltar atrás, o não ir. Não. Embora se tente ao máximo que comecem pelos centros de saúde, que telefonem para a Saúde 24, para que não haja uma avalanche nos hospitais e que às vezes entrem com um tipo de sintomatologia e acabem por sair de lá mais doentes do que entraram, porque tiveram em contacto com tanta coisa.
Mas é um equilíbrio difícil, esse. Entre decidir ir. Para o doente será sempre uma urgência.
Para o doente é sempre uma urgência. Uma dor no peito é uma urgência.
E não deve ser desvalorizada.
Não, até prova em contrário, nada deve ser desvalorizado.
Para quem está a assistir esta consulta informal, o que é que podemos dizer em termos de sinais que devem levar as pessoas a procurar ajuda? E bem sei que muitos dos sinais são silenciosos.
A doença como é silenciosa, quando temos os sintomas, temos doença. Ou seja, em relação à parte cardíaca, aquilo que leva um doente à urgência a procurar ajuda, é de facto aquilo que o Rui descreve. É uma dor, é uma opressão, é uma queimadura no peito quando faz um pequeno esforço Ou vai piorando. Começa quando sobe umas escadas, mas depois já se cansa quando vai daqui ali à casa de banho.
Até mesmo deitado acontecia, a dormir.
A dormir, em repouso.
Um cansaço.
Isto é uma doença grave.
Não, era o ardor. Parecia que tinham posto um bocado de ácido em cima do peito.
Mas o Rui referia também muito cansaço como um dos sintomas, porque era uma consequência depois disso.
Isto por quê? Porque ao andar eu começava a sentir a dor, depois ao sentir essa dor, despontulavam outras coisas. E a gente o que acontece? Para. Já não conseguimos andar mais.
Se for um AVC, terá manifestações típicas de um AVC. Se for a doença arterial periférica, esta às vezes é mais difícil de identificar, mas o melhor que eu posso dizer para descrever é aquilo a que nós chamamos claudicação intermitente, que no fundo é uma dor quando caminham na parte posterior da perna, portanto naquilo que se chama os gémeos, e que melhora imenso quando a pessoa para. No fundo, é exatamente aquilo que se passa no coração, porque são as artérias das pernas que estão entupidas e não as do coração. Portanto, a dor, em vez de ser no peito, é na perna. Mas há pessoas que descrevem isto: "Eu tento ir da minha casa ao café, que é só atravessar a rua, e eu tenho uma dor tão grande que eu não consigo." E aí a dor é a mesma, a causa é a mesma, é só noutra localização. Portanto, uma dor destas, que depois melhora muito com o repouso e que volta a aparecer quando se faz esforço, é também para procurar ajuda.
Nós estamos já a terminar esta conversa. Eu gostava de lhe perguntar, penso que sei mais ou menos a resposta, mas a partir do momento em que há um diagnóstico e que o tratamento é instituído, e depois com alguns ajustes terapêuticos, é muito caso a caso e personalizado, esta é uma tarefa para toda a vida?
Em contínuo. Para toda a vida, sim.
Sim, eu tomo muita medicação.
E tem essa noção, não é? Tem noção que é até ao fim da vida. E agora a sua filha também já o acompanha nessa-
Todos os anos faço o exame completo, faço o ECG, vários pontos, faço as análises todas. E se falhar a medicação, por exemplo, um mês antes. Posso estar até esse período, até chegar à consulta, sempre a tomar. Mas falho ali um mês, uma semana, por exemplo. Esses valores vão ficar todos alterados e eu vou-me sentir logo mal fisicamente. Eu tenho que tomar aquela medicação correta todos os dias.
Tenho que aproveitar aqui o que o Rui está a dizer para dizer que um dos fatores mais difíceis para nós médicos e que mais interfere nestas doenças é a falta de adesão terapêutica. Portanto, isto é das coisas mais importantes.
Não é deixar de tomar quando se sente bem.
É, exatamente.
No meu caso, é para o resto da vida. Eu tomo nove comprimidos por dia.
Já entrou na sua rotina.
Na rotina. Isso é que tenho que acostumar. À tensão, para o colesterol, para os diabetes, para o estômago, para o sangue.
Porque também sabe que quando não toma, sente fisicamente.
Sei, porque o meu médico diz logo: "Os valores alteraram, alguma coisa que você falhou, ou isto ou aquilo outro".
Mas também digo, Cláudia e Rui, o colesterol não dói.
Exato.
Não é? E às vezes as pessoas dizem: "Estou a fazer tantos medicamentos, isso vai-me fazer mal ao estômago, estou a gastar muito dinheiro." Como o colesterol não dói, ao contrário de outras coisas, muitas vezes é o primeiro-
A descartar, entre aspas.
A descartar.
Eu não. Sou pelo contrário, não deixo de tomar os comprimidos para o colesterol. Por quê? Porque é o fundamento número um.
Exatamente.
Por quê? Se eu eliminar ou tentar eliminar o LDL, que é o meu inimigo número um, eu vou conseguir ajudar a mim próprio. Agora, se eu não tomar essa medicação e comer a comida, que a nossa comida portuguesa é muito excessiva em gorduras e em sal, se eu não tomar essa medicação, os valores aumentam. E depois eu não quero passar outra vez o que passei.
E não é só a comida, não é, Rui? Porque no seu caso, provavelmente, há aqui uma doença genética.
Sim, exatamente.
Que por muito que o Rui consiga controlar com a comida, não a consegue evitar, tem mesmo que ser um medicamento.
É genética, não pode mesmo alterar. Mas o Rui depois faz o seu papel no que respeita aos fatores de risco.
Claro que sim.
Eu tenho os fatores todos, engloba tudo.
Não fuma?
Não.
Boa. Já não tem todos.
Não, mas não fumo, tenho os diabetes.
Não fumar é bom, é um bom princípio.
Colesterol elevado, diabetes, tensão arterial elevadíssima, em altura. Agora anda baixíssima.
E agora é aproveitar e passar exemplo à filha.
Não, ela já está a tomar medicação, a nível de alimentação e tudo, evitar dar-lhe carnes vermelhas, passar-lhe mais carnes brancas.
Pô-la a fazer exercício.
Eliminar os fritos, que é o número um.
O Rui vai ser bom também a passar depois esta mensagem e fazer esta literacia à sua filha. Em 10 segundos, uma mensagem final de algo que não tenham dito e que está sem passar às pessoas que nos estão a ver ou ouvir, conforme o formato em que nos acompanhem. Rui.
A nível da alimentação, é evitar o máximo possível comidas gordas. O tabaco é o inimigo número um, primeiro deviam de acabar com o tabaco. Cuidado com as bebidas alcoólicas, que as bebidas alcoólicas também ajudam bastante. E fazer exercício, acima de tudo.
E as recomendações do médico, o Rui segue à risca.
À risca. E tudo o que o médico diz é para escrever. Não é só para ouvir e passar.
Exato. Senão vamos para casa e esquecemos tudo.
Não. Por quê? Porque a tal medicação, por exemplo, eu estou a tomar um tipo de medicamento que me está a fazer bem. Se eu deixar de o fazer ou alterar a minha alimentação, aquele medicamento já não me está a fazer nada. O médico já vai ter que me passar outro tipo de medicamento que seja mais potente para conseguir eliminar o meu colesterol, que eu ainda consigo ter os meus triglicéridos muito elevados, que ainda estou a tentar consegui-los baixar altos. Mas a nível do LDL, o meu médico diz que para a minha condição, está estável.
O LDL é o colesterol mau, é de facto o fator número um nesta doença e que tem que estar bem controlado. Muitas vezes, ele estando controlado, há outros fatores à volta que vão contribuir para isso, mas eu diria que sim, controlarmos o LDL.
Que é o importante.
De tudo aquilo que o Rui disse, estilos de vida, fatores de risco bem controlados, mas não se esqueçam que isto continua a ser a principal causa de morte em Portugal, é a doença cerebrocardiovascular.
É uma doença silenciosa.
E é isso.
Muito obrigada, Patrícia Vasconcelos e Rui Nascimento. Foi muito importante a vossa presença aqui. Esta foi a consulta informal do Projeto Arterial, uma iniciativa editorial do Observador exclusivamente dedicada às doenças cerebrocardiovasculares. Muito obrigada por terem estado conosco. Até à próxima.