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Nas duas cidades não deve chover esta quinta-feira. Ainda assim, o sol está mais tímido na cidade do Porto. 8h14, vamos receber o José Manuel Fernandes no "Contra Corrente."
José Manuel Fernandes quer aproveitar o "Contra Corrente" de hoje para falar um pouco do primeiro bloco de entrevistas aos candidatos presidenciais que temos vindo a realizar aqui na Rádio Observador. Alguma surpresa, Zé Manuel? Bom dia.
Bom dia. Para dizer a verdade, estou um pouquinho surpreendido por chegarmos ao fim desta ronda e eu não ter muitas dúvidas sobre quem foi pior, quem se saiu pior nas entrevistas, e acho que foi claramente Ana Gomes. Aliás, devo dizer que é uma percepção um pouco reforçada pelas outras aparições públicas de Ana Gomes, que por este caminho eu acho que ela há riscos a ter um mau resultado. Aliás, bastante mau face às expectativas neste momento. Ainda ontem, por exemplo, usou o Twitter no meio dessa discussão toda que a gente está a ter sobre o SEF. Ela usou o Twitter para vir dizer que existem umas imagens, devo dizer que não as vi, que mostravam os agentes de uma empresa de segurança privada no aeroporto, eventualmente envolvidos no caso do Igor Omeleniuk, e que isso preocupa-a por ser um sinal de perversão neoliberal. Eu não sei, sinceramente, no meio deste problema todo, o que lhe vai na cabeça. O país está a discutir o que fizeram funcionários do Estado, que eram polícias. Está a discutir o que fez a hierarquia dessa polícia. Está a discutir o que fizeram os serviços de emergência, que também são do Estado. Está a discutir se tiveram a atenção que deviam ter no preenchimento dos papéis, por exemplo. E Ana Gomes está preocupada com uns desgraçados de uns trabalhadores de uma empresa de segurança e com, vejam lá, o neoliberalismo. Eu estou preocupado é com o ministro da Administração Interna, que já não devia estar em funções, já se devia ter demitido, mas isso aparentemente não preocupa Ana Gomes.
Mas agora estás a falar do Twitter. E nas entrevistas?
Nas entrevistas, o que se destacou nos últimos dias? O que se destacou nos últimos dias foi a defesa que ela fez numa entrevista que deu, salvo erro, à TVI, de que o MRP, ela passou pelo MRP, tinha uma agenda para a democracia. Uma coisa é nós não nos arrependermos daquilo que fizemos na juventude. Outra coisa é dizer uma loucura destas. O MRP era, vamos lá ser francos, um bando de fanáticos. Eu devo dizer que conheci o MRP de perto. Nunca fiz parte do MRP. Eu era de um outro grupo parecido, também era um bando de fanáticos, mas por acaso dois irmãos meus eram do MRP. Portanto, eu sei bem do que estou a falar. Não vou entrar em detalhes, não é tempo para isso, mas essa frase contrasta sobretudo com aquilo que tem sido a obsessão de Ana Gomes, e talvez ainda mais dela do que Marisa Matias, que é a obsessão de ilegalizar o Chega. Mas já aqui disse e repito: essa obsessão é um tremendo disparate. O Chega e André Ventura são o elefante na sala destas presidenciais. Ora, aquilo que a Ana Gomes tem vindo a fazer é dar todo o protagonismo a esse elefante, é pôr a louça no caminho desse elefante para ele partir a louça toda, é fazer dele o tema de todas as conversas, é torná-lo ainda mais importante do que ele é. Ainda por cima, caindo ela própria, e também Marisa Matias, numa armadilha que eu acho que é uma armadilha antidemocrática. Aliás, eu acho significativo que o candidato do PCP, que nisto tem sido mais inteligente, que é alguém que me parece que conhece melhor o eleitorado, percebe o eleitorado, não esteja a cometer o mesmo erro.
José Manuel, mas tu não achas que pode haver mesmo aqui um problema de constitucionalidade no Chega?
Sobre isso, devo dizer que acho imensa coisa e ficarei aqui muita hora a falar e podemos um dia, se calhar, discutir isso. Primeiro, acho que se é para proibir partidos antidemocráticos, partidos totalitários, também devíamos proibir tanto partidos fascistas como partidos comunistas. É o que decorre da história europeia do século XX, porque é o que nos ensinou o que foi o totalitarismo, é o que decorre também, por exemplo, das moções aprovadas no Parlamento Europeu. Acontece que eu acho que não devemos proibir nem uns nem outros. Devemos combatê-los, não devemos proibi-los. Trata-se de uma questão da forma como olhamos para a política. Acontece que a Constituição, por razões históricas, proíbe uns, não proíbe outros. Proíbe muita coisa, mas daí aprovar que o Chega é um partido fascista ou racista, também vai uma grande distância. E por isso eu também sou contra a judicização da política. Acho que as coisas se fazem na política, não se fazem nos tribunais. Quem quer combater André Ventura tem que fazer melhor que André Ventura. Não pode pretender calá-lo usando métodos que, vamos lá ser francos, eram métodos do antigo regime, que era tratar as coisas com a polícia ou com os tribunais. Por isso, acho que seria impossível conseguir alguma coisa e que só lhe daria ainda mais força. É também por isso que eu acho que tudo isso é uma estupidez. Aliás O que eu posso dizer quando alguém diz que a MRP tinha uma agenda burocrática e ao mesmo tempo diz que quer proibir um partido que é apoiado por milhares de portugueses? Isto é uma coisa que choca. Só posso dizer que essa pessoa está a perder todo o crédito que podia ter.
Mas as entrevistas de Ana Gomes não foram só isso.
É verdade. Não foram só isso, mas olhando bem, tem sido pouco mais. É uma candidata que tem um discurso curto, limitado, fala de poucas coisas, não tem uma agenda muito variada. O que vimos até agora, por exemplo, é que mesmo Maria Matias, que disputa, de certa forma, o mesmo espaço político, está mais bem preparada, tem um discurso mais sólido, menos histriónico, mais doce, digamos assim, conhece melhor os dossiês. E Tiago Mayan, que é um neófito, que aparece completamente do nada, começou de forma muito tímida, eu até diria mesmo trôpega, mas vai progredindo de entrevista em entrevista. Ele, por exemplo, sujou-se já bastante bem na última entrevista que deu este fim de semana ao Ricardo Araújo Pereira. E André Ventura, que sabe que vai ter sempre entrevistas hostis, está na comparação a levar o jogo para o terreno que lhe interessa. E o que lhe interessa é aparecer como mais moderado, face à imoderação dos outros, mais sensato e até como vítima. Se necessário, até como vítima dos jornalistas, coisa que às vezes também lhe fazem esse jeito. É por isso que eu digo que a estratégia de Ana Gomes pode agradar a um eleitorado mais radicalizado, mais garrido, mas não creio que agrade à maioria dos eleitores. E não creio que esses eleitores defendam a ideia que o problema do Chega se resolve com polícia, com tribunais, mesmo que aqui, neste caso, a polícia ou o tribunal seja o Tribunal Constitucional. Para além disso, Ana Gomes tem ainda um outro problema.
Qual é que é esse outro problema de Ana Gomes?
Eu acho que esse problema é um problema que se nota nomeadamente neste tweet, que ela não sabe bem o que há de fazer com o governo. Diz bem do governo ou critica o governo? Já viste, tem um problema que é um bocadinho, enfim, quase que diria azar. Sai-lhe na rifa ter como apoiante, principal apoiante no governo, quem? O ministro que vai fazer experimentos na TAP. Ora bem, o que é que uma candidata que gosta sempre de estar ao ataque, há de dizer? Não é fácil. Depois, como é que se explica o que ela há de dizer no caso do SEF, que ela faça mais críticas a Marcelo, ela está sempre a atacar Marcelo por causa do SEF, e não fala do ministro Cabrita. Também não se explica, fica-se um bocado mal. Portanto, não se explica que apareça a fazer o disparate daquele tweet sobre neoliberalismo no aeroporto, que é uma coisa assim, um tiro ao lado, completamente ao lado. Portanto, fazer uns comentários na televisão, de facto, não é o mesmo que ser um candidato presencial. Por isso eu digo que continuar assim, suspeito que quem se vai rir no fim ainda vai ser André Ventura.
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