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José Manuel Fernandes quer regressar no Contra Corrente de hoje a um tema que tem sido um cavalo de batalha. Queres voltar a falar de universidades, não é? Bom dia.
Bom dia. Sim, se bem que hoje não sei se lhes posso chamar bem universidades. Começo a achar que algumas se estão a transformar em verdadeiros manicômios ou coisas parecidas. Eu vou só dar conta de algumas notícias dos últimos dias. Uma é de ontem e li aqui no Observador, mas já está a dominar muito a imprensa inglesa, a imprensa britânica. Parece que é uma moda nova nalgumas universidades do Reino Unido. Agora já não é preciso saber escrever bem inglês para ter boas notas ou para ser admitido. As instruções são para não considerar importantes nem os erros de ortografia, nem os erros gramaticais. Aparentemente, alguns reitores e diretores acham que é preciso ser tolerante com quem escreve mal e também com quem fala mal, em nome, dizem eles, da inclusão social de saúde.
José Manuel, mas estás a falar de que universidades? Estás a falar de Oxford, estás a falar de Cambridge?
Essas, no que respeita a erros de ortografia, ainda não. Vamos lá ver. Mas lá vamos, porque também há coisas dessas universidades. O caso mais gritante, pelo que eu li, é de uma universidade de Hull. Hull é uma cidade do norte de Inglaterra. Aí o reitor não esteve com rodeios, foi direto ao assunto. Para ele, e cito: "Construir uma voz académica significa adotar um modo de expressão que é homogêneo e que é da Europa do Norte, masculino, branco e elitista. Portanto, não vamos ter uma voz académica". Ou seja, lá estamos nós com a conversa do costume, lá estamos nós a dizer que os opressores são os europeus, são os homens, são os brancos. E depois disto tudo, claro que não faz sentido argumentos, porque dizer que Churchill também dava erros de ortografia e coisas desse gênero, porque Churchill era o protótipo do europeu do norte da Europa, muito branquinho, de resto, o mais aristocrático possível e que até nasceu num palácio. Era descendente de um duque.
José Manuel, essa universidade, vamos todos reconhecer, é pouco conhecida. Será que não estás a dar demasiada importância?
Sinceramente, acho que não. Até diria, infelizmente, acho que não. E ontem o António Guerreiro Leite, no Twitter dele, comparava a decisão a uma espécie de cruzamento do Rubicão, aquele gesto do Júlio César, simbólico, que marcou o fim da República Romana. Parece-me uma boa comparação, porque acho que estamos a chegar a um ponto em que eu não sei se já há recuo, em que já se consegue dar o passo atrás que é preciso dar. Tu há pouco, por exemplo, falavas de Oxford e de Cambridge. Que eu saiba, ainda não relaxaram no que respeita a erros de ortografia. Mas em Oxford, já se discute se se deve ou não continuar, por exemplo, a estudar Beethoven ou tocar Beethoven. Aqui o argumento é mais ou menos o mesmo. Trata-se, e cito: "Música europeia branca." E a música europeia branca, isto é, ouvir a quinta sinfonia ou não sinfonia, causará, de acordo com as autoridades acadêmicas de Oxford, algum estresse nos estudantes de cor. A mim ouvir jazz ou outras músicas não me causa estresse nenhum. Gosto ou não gosto, depende. Estamos num repertório que supostamente vamos tirar Beethoven para ser mais inclusivo, dizem eles.
Mas tu não achas que pode ainda assim haver um repertório mais inclusivo?
O que eu acho é que na música, como na ortografia, como na literatura, como em todo o mundo das artes e das ciências, não temos de decidir em função do que é europeu e branco, do que é homem ou mulher, do que é africano ou esquimó e cristão ou hindu. E mais não sei quantas opções que eu podia continuar a elencar, que nunca mais acabavam, porque entre geografias, religiões e tons de pele há imensas coisas que eu podia inventariar. Neste momento, o que está na moda, de resto, é atacar o que for europeu, o que for masculino, o que for branco, o que for heterossexual e cristão. Isso é o que está sob a linha de fogo. Daqui a uns tempos, se calhar, ainda acrescentam os olhos azuis, o cabelo loiro, talvez ter mais de 1,80 m, talvez ter nascido acima do paralelo 45, não sei, um critério qualquer desse género. Obviamente, tudo isto não tem lógica, mas tem uma agenda política e essa agenda política, eu falei dela aqui há uns tempos, mais ou menos um ano, quando falei de uma loucura que vi em Seattle, capital do estado de Washington, nos Estados Unidos, em que iam acabar com o ensino clássico da matemática, porque também consideram esse ensino clássico uma coisa racista.
Sim. Lembro-me muito bem dessa tua crónica.
Pois, lembras-te que na altura eu disse que eles achavam a matemática ocidental, sublinhavam ocidental, que, aliás, é um disparate, porque uma boa parte da matemática veio da Índia, era uma forma de opressão e que não se devia ensinar dessa forma, devia-se talvez aprender pela forma de contar dos aborígenes. E por que isso tudo sucede? Porque há um problema político que está mal resolvido, um problema político e social, que há algumas minorias, nomeadamente minorias raciais, nomeadamente minorias de origem africana, que têm mais dificuldade em progredir nos estudos. Isso, nos Estados Unidos, tentaram resolver de muitas formas, nomeadamente através de quotas, mas não resultou. Neste momento, as quotas prejudicam muito outras minorias, nomeadamente as minorias asiáticas, que essas, sim, têm sucesso nos estudos e depois, por causa das quotas, não conseguem entrar nas boas universidades. Portanto, temos um problema em que as quotas resolvem os problemas de umas minorias e prejudicam outras minorias. Como as quotas não funcionaram, estão a tentar, neste momento, igualar por baixo. Destruir a qualidade do ensino, o que acaba por tornar todos mais ignorantes. Se ninguém souber matemática ou se não for necessário saber de matemática, se for possível dar exames de ortografia e se for possível dar exames de gramática, se tudo for permitido na acessão das universidades, talvez então se consiga levar toda a gente que pretende para a universidade ou mesmo aquela que não pretende. Só que vai então nascer outro problema. As universidades deixarão de ser universidades, serão outra coisa qualquer, mas não serão aquilo que nós estamos habituados, que são lugares de sabedoria.
E nós agora também vamos ter quotas.
Sim, parece que sim. Não há mau exemplo que venha lá de fora que não se copie cá dentro. A proposta vem da famosa comissão que está a planear uma estratégia de combate ao racismo, mas sinceramente, eu acho que falha o alvo. Eu acho que o problema dessas minorias começa muito antes de o jovem querer entrar nas universidades, mas enfim, isso é uma outra discussão, talvez um dia falemos disso aqui. Preparemo-nos é para o que vem e tomem nota. Corrigir erros de ortografia é manter a opressão do homem branco. Ensinar o teorema de Pitágoras é fazer prova dos nove, é quase uma prova de imperialismo ocidental. Já quanto a ouvir Beethoven, já nem sei que pecado representará. Isto é o novo paradigma. E não se riam, que essa gente não brinca. Essa gente está a fazer política e faz política pulidora, que é o que isto é. Portanto, repito, não se riam, que esta gente não brinca. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.