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Hoje é mais um daqueles dias em que José Manuel Fernandes quer estar mesmo contra a corrente. Tudo por causa da entrevista de Graça Freitas e do tal cenário de um milhão de infectados.
É verdade. Eu não sei quantos portugueses acordaram em sobressalto sábado passado com a notícia de que podia haver até um milhão de infectados em Portugal. Eu acho que devem ter sido muitos, pelo menos a acreditar nas reações, tantos que a Direção-Geral de Saúde até foi obrigada a vir dar esclarecimentos sobre o que tinha dito aos jornais. No fundo, ela não vai dizer nada de especial, vai dizer que o milhão de infectados não é uma previsão, é um cenário. Aliás, ela dizia isso na entrevista, mas eu comecei a pensar que se calhar é a altura de explicar que se algum dia tivermos um milhão de infectados, isso pode não ser tão catastrófico e até pode ser um bom sinal.
Um bom sinal? Como? Agora não estou a perceber.
Ainda sabemos muito pouco sobre este vírus, mas uma das coisas que sabemos é que este vírus é muito menos perigoso do que outros que ouvimos falar. E portanto, acho que é a altura de começar a dizer essas coisas. Por exemplo, todos se lembram do H5N1, que era o vírus da gripe das aves. Esse vírus matava 60% das pessoas infectadas. Ninguém já se relembra disto. No entanto, é importante reparar nisto: apesar desse vírus ser tão extremamente agressivo, em seis anos, que foi o período em que ele esteve mais activo, de 1997 até 2003, o H5N1 só matou 455 pessoas. Ora, com este coronavírus, em pouco mais de dois meses de epidemia, já morreram 3000 pessoas.
Lá está, então isso não são más notícias, isso não prova que o vírus está fora de controle.
Eu diria que são ao mesmo tempo boas e más notícias. Ora vamos lá ver. Isto é um pouquinho difícil de explicar, mas eu vou tentar explicar. Uma das razões porque o H5N1 matou tão poucas pessoas, relativamente, digamos, foi porque os doentes morriam antes de transmitir o vírus. Para além disso, como a taxa de mortalidade era muito elevada, o próprio vírus matava a maior parte dos hospedeiros e morria com eles, por assim dizer. Este coronavírus é completamente diferente. Aparentemente, há muitas pessoas infectadas que nem doentes ficam. É uma coisa que tem sido pouco referida, mas os chamados casos assintomáticos, isto é, os casos em que ninguém tem sintomas, podem ter sido aqueles que estiveram, por exemplo, na origem da entrada da doença em Itália, onde não se sabe ainda como é que ela entrou. E como o vírus também leva duas semanas a incubar, isso quer dizer que podemos andar por aí com ele, a infectar outras pessoas sem saber. Não morremos.
José Manuel, mas tudo o que estás a dizer é preocupante e continuo sem perceber como é que ter um milhão de infectados pode ser uma boa notícia.
A má notícia já a conhecemos: é que com estas características relativamente benignas, o coronavírus espalha-se muito mais facilmente, por exemplo, do que o tal tão perigoso H5N1. A boa notícia é que ele acaba por não ser muito mais perigoso do que os vírus da gripe mais comuns. É um pouquinho mais perigoso até agora, mas nem isso a gente tem totalmente a certeza. Às vezes parece que está esquecido, e esse aspecto também eu acho que é bom recordar, que o vírus da gripe, nas suas diferentes variantes, é provavelmente o vírus mais mortal de toda a história da humanidade e anda por aí todos os anos e nós não andamos de cabelos em pé por causa disso. Por exemplo, ainda no ano passado, só em Portugal, morreram umas 3000 pessoas de gripe. As pessoas têm que morrer de alguma razão. E não houve um drama especial com isso. É evidente que tem que ter cuidado.
E eram pessoas que já estavam fragilizadas.
Quase sempre, e também é o que está a acontecer muito com este coronavírus. Também é isso que nos devemos recordar. Agora, toda a atenção que estamos a dar ao coronavírus e com os cuidados que espero que todos estejam a tomar, até pode ser que tenha o efeito positivo de evitar algumas dessas gripes normais.
Mas mesmo assim, José Manuel, se chegarmos a um milhão de infectados, será sempre muito preocupante.
Sim, vamos lá ver. É preocupante, mas Graça Freitas também disse que o milhão era só um cenário, não era uma previsão. Aliás, eu já vi cenários bem mais carregados. Alguns especialistas em epidemias dos Estados Unidos, nomeadamente em Harvard, que é uma das universidades mais prestigiadas do mundo, preveem que pela forma como se está a propagar, eu vou dar um número assustador, agora sim, é possível que o coronavírus acabe por infectar 40% a 70% da população mundial. Isto é, vamos apanhá-lo todos, mais ou menos. Contudo, aquilo que é a boa parte disto, é que a maior parte das pessoas que forem infectadas nem vão dar por isso. E outras terão apenas uma gripe ligeira que nem saberão que é um coronavírus. É isto que torna tão difícil conter este vírus, mas também é isso que de alguma forma deve sossegar-nos. É por isso que eu às vezes tenho um bocadinho mais medo das medidas para conter a doença e sobretudo deste histerismo público, do que daquilo que a ciência realmente nos está a dizer nessa altura.
Mas tens medo de quê em concreto?
Tenho medo de exageros. Não se imagina que possa acontecer no mundo o que aconteceu na China. Só foi possível porque a China é um regime autoritário, onde eles verdadeiramente prenderam cidades inteiras. O medo de contágio mesmo assim, e não conseguiram resolver o problema. O medo de contágio já está também a afectar a economia, as bolsas estão a cair e, por exemplo, se houver uma retracção do turismo, Portugal pode sofrer muito, porque dependemos imenso do turismo e não vamos seguramente continuar a ser uma ilha sem casos eternamente. Eu também tenho medo de alguns comportamentos xenófobos, que também já apareceram, porque o medo é mau conselheiro, sempre foi. E este medo que está a espalhar-se pode permitir comportamentos políticos perigosos, porque autoriza, se calhar, pessoas mais autoritárias, mais enérgicas, e também comportamentos pessoais, às vezes, um pouco irracionais. É por isso que, no fundo, eu vou discordar de quase toda a gente, eu acho que Graça Freitas fez bem quando falou do cenário de 1 milhão de infectados. E fez bem por duas razões: primeiro, porque mostrou que há quem esteja a pensar em cenários extremos. Eu gosto que no meu país pensem em cenários extremos, acho que isso é bom. Depois, porque está a apontar para uma epidemia muito generalizada e que isso só pode acontecer porque ela não é tão grave como às vezes por aí se diz. Eu acho que é isso que nós temos que estar a explicar às pessoas.
"Contra-Corrente" com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge de Carvalho, na Rádio Observador. Amanhã há nova edição, não perder, sempre a seguir ao "Jornal das 18h".
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