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O atropelamento de um trabalhador numa autoestrada por uma viatura ministerial talvez não se tivesse tornado num caso político se o ministro não tivesse sido desmentido pela brisa e se não houvesse suspeitas sobre a lisura do inquérito. No entanto, para José Manuel Fernandes, este é apenas mais um caso que mostra que há mais do que uma crise no governo. Há sinais de crise na democracia e é isso que ele quer debater neste Contracorrente. José Manuel, por que vais tão longe?

Bom dia novamente. Muitas vezes costuma dizer-se que o diabo está nos detalhes e na democracia o diabo está mesmo em cumprirmos as regras. O diabo das regras, o detalhe das regras, a essência das regras. E não apenas as regras escritas, mas as regras que não estão escritas. Peço desculpa. Tudo porque aquilo que garante a democracia não é a bondade das pessoas, são mesmo as regras e as instituições. Aquilo que me preocupa é que nós atravessamos um daqueles períodos em que parece que vale tudo, menos cumprir as regras. O que se está a passar com o acidente que envolve o carro em que seguia Duarte Cabrita é um bom exemplo disso. Foi uma violação das regras do comunicado do ministério, em que se atiravam as culpas pra empresa que estava a realizar os trabalhos e pro trabalhador que morreu. Foi uma violação das regras, a falta de humanidade em não ter mostrado a mínima preocupação com a situação da família. Num primeiro caso, uma violação das regras formais, no segundo caso, uma violação das regras informais. Eu não vou voltar a discutir hoje aquilo que todos desconfiamos, se o carro seguia ou não em excesso de velocidade. Acho que temos tempo para perceber isso. Acho que já percebemos todos que ele provavelmente grande parte do tempo foi a mais de 200 km/h, até porque toda a gente sabe que o excesso de velocidade é a regra nas comitivas oficiais. O que quero lembrar é que nesta altura, depois de notícias contraditórias, muitas horas de ontem que foram necessárias pra GNR aparecer com um desmentido, que nem era um desmentido como devia ser, temos razões para desconfiar da lisura dos processos. Aliás, porque este governo, infelizmente, já nos habituou a mentir.

Costuma dizer-se antes faltar à verdade, mas tu estás mesmo a dizer que o governo mente.

Neste caso do acidente, não sei, mas estou de pé atrás, como costumo dizer. Já estava de pé atrás de manhã, mas fiquei de pé atrás de tarde. E devo dizer que fiquei quando estava a ouvir Mariana Vieira da Silva. Já falámos hoje de manhã no Vencedor é sobre aquilo que foi, a meu ver, os sorrisos disparates que o governo decidiu em Conselho de Ministros. Não é por licas, a gente não vai a lado nenhum, nomeadamente toda a confusão e mistificações com aquilo que se chama pomposamente recolher obrigatório. Agora, há uma coisa que me chocou, que foi a Sra. Doutora dizer que estava garantido que todas as pessoas com mais de 60 anos estariam vacinadas com a segunda dose da AstraZeneca até 11 de julho. Eu tenho 64 anos e as indicações que tenho para ir tomar a minha segunda dose dessa vacina é na semana que começa por acaso a 12 de julho. A 11 de julho não terei a segunda dose da vacina tomada. Eu tinha essa data na minha agenda, fui verificar só para ver se não era eu que estava enganado. Não, não era eu. A ministra é que nos estava a enganar. Como costumo dizer, mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo e logo ali em conferência de imprensa.

Mas se calhar baralhou-se com as datas, né, Manuel?

Desculpa, mas a minha tolerância para erros dos nossos ministros já se esgotou. Sobretudo quando penso que neste caso o que ela estava a dizer visava obter um efeito político, que é: está tudo muito bem. Mas há mais e a meu ver há pior, porque quando olho pra trás e me recordo de algumas notícias das últimas semanas, acho que é de ficar de lado. Vivemos um momento de degenerescência das instituições. Eu vou recordar algumas delas. Vou recordar, por exemplo, a notícia dada pelo Expresso de que este governo arranjou forma de viciar sete em cada 10 concursos para altos dirigentes do Estado. Não foram dois, nem três, foram sete. No tempo de Passos Coelho, tinha sido criada a CReSAP, até com acordo de Contratação de Estado Seguro, pra tentar despartidarizar a administração pública. Mas António Costa encontrou um buraco na lei e pronto, volta a enchê-la com boys à descarada. Pergunto: houve sobressalto nacional? Caiu algum ministro? Um sobrolhozito que se franziu e mais nada. Entretanto, vimos a mulher do nosso Duarte Cabrita ser nomeada reguladora dos transportes com ordenado principesco. Assistimos à nomeação do comentador Pedro Adão e Silva pra comissário das comemorações de 25 de Abril, nas condições que todos conhecemos. E neste caso, sabes o que me surpreende? Que ele continue a achar normal que pode continuar ser comentador em tudo que é lugar e que se comente a si próprio e que comente quem o nomeou.

Mas esse caso, apesar de tudo, deu alguma controvérsia, José Manuel.

Uma controvérsia durou menos que um fósforo. Já passou. Ele continua a comentar. Mas há mais, repara. Por exemplo, uma notícia dessa semana, a demissão inopinada do diretor-geral do Patrimônio Cultural. O homem, que eu não conheço, nunca vi na vida, foi despedido, acusado de incompetência, de nada fazer.

Incompetente, praticamente.

Havia mais coisas. Pelo menos foi esse o recado que a ministra fez chegar aos jornais Passadas umas horas, percebeu-se que o senhor não tinha dinheiro para nada, nem para manter abertos os monumentos à hora de almoço, nem para mandar cantar um cego, como se diz. Hoje estou a usar expressões populares. Mais um bode expiatório, mais uma vítima da incompetência deste governo, socialista, o que quiseres. O Carlos Afonso passou muitos anos na Câmara de Lisboa, portanto, deve ter se inspirado nos métodos de Fernando Medina, eventualmente. E portanto, bodes expiatórios é o que há.

Outro caso, e agora que falas de Fernando Medina, é um caso que ainda continua mal explicado.

Continua e também não se entende como é que o PCP se alia ao PS, neste caso, para impedir que o homem que Medina quer usar como bode expiatório, não possa ser ouvido na Assembleia da República. É nessas alturas, sinceramente, que eu digo que ficamos com a sensação que, como diz o povo, estão todos feitos uns com os outros. E essa sensação é das que mais corrói um regime. A sensação de que são todos iguais, estão todos feitos uns com os outros. Quando um cidadão comum começa a ter desabafos destes, as coisas estão mal paradas, tal como ficam também mal paradas quando esse mesmo cidadão comum se convence, e esta é mesmo uma das formas como os populistas entram, que é: há os de baixo e os de cima, há os outros e há nós. E esses outros podem ser figuras como, por exemplo, Ferro Rodrigues, que já aqui falei várias vezes por causa do futebol, da seleção. Só que mesmo quando alguém que há muitos anos vive na bolha dos políticos, pode achar que aquele comportamento é normal, que ir a Sevilha ou ir um fim de semana para o Algarve, como ele foi, quando o governo do seu partido decretou uma cerca sanitária em Lisboa, só alguém, de facto, que vive nessa bolha é que acha que fazer isso tudo e fazer aquelas declarações, não é estar a gozar com os portugueses.

Mas há muito tempo que não víamos tantos memes sobre um político nas redes sociais.

Sim, que eu me recorde, de facto, eu ri-me um pouquinho com alguns deles, é um facto. Mas tem havido concorrentes, mas sim tem havido concorrentes fortes. Há outro concorrente muito forte, que é o Pedro Nuno Santos, também cheio de memes por todo lado. Vamos chorar alguns desses memes. Ora rimos, mas vamos chorar, porque enterrar milhões e milhões na TAP, enquanto nós vamos sabendo que a TAP continua a ir de problema em problema. Ou então a história mais caricata que me recordo, também deu origem a muitos memes, foi a história que deveria ter feito cair um ministro, mas era por vergonha, de vergonha de se ter prestado ao ridículo, que foi aquela incrível cerimónia em que o ministro do Ambiente foi inaugurar um parque de estacionamento para quatro bicicletas e um laçarote. Me parece que havia também um laçarote. Tudo aconteceu ainda por cima num sítio com nome bem apropriado que é Senhor Roubado. Se não existisse, tinha que ser inventado. Um país decente, um governo assim, e não contei as histórias todas, nem fui à ministra da Saúde. Uma senhora nesta fase crítica parece que só existe para a Joana Pinheiro. Um governo assim, dizia eu, como um dia escreveu Eça de Queiroz, não havia de ter caído, porque não é um edifício, mas já devia ter saído como benzina, porque é uma anódino.

Esta é a imagem clássica. Não resisti à tentação também de te recordar a imagem da benzina.

Pois é, infelizmente, o nosso problema é que o governo que temos sabe que nem cai com estrondo e não há quem saiba já usar a benzina. A benzina é uma coisa antiga, portanto agora-

Já não há drogarias.

Já não há drogarias. Este governo, este PS, no fundo, este poder que temos, fazem o que fazem, abusam como abusam da nossa paciência, ocupam como ocupam tudo o que há para ocupar, não prestam contas, não acabam os inquéritos, não pedem desculpa. No fundo, sentem-se impantes, impunes, porque têm pouco quem lhes faça frente. Esta é que é a questão. E quem lhes faça verdadeira oposição. Tudo isto que eu descrevi era impensável em países mais evoluídos. Temos exemplos disso todas as semanas. Países um pouco mais exigentes, mas infelizmente, tudo isto ainda é possível em Portugal. E eu acho o seguinte, acho que é por isso que ainda somos pobres, porque toleramos essa degradação das instituições. Porque a única coisa que fazemos é um sobressalto no Facebook e depois passamos a duas imperiais. E às vezes nem isso, nem é um sobressalto no Facebook.

Fica feito o desafio aos nossos ouvintes para participar neste Contracorrente. Olhamos para vários casos do governo e esta crise de regime, como lhe chama o José Manuel Fernandes. Esta manhã convidamos também para estar conosco o professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, André Azevedo Alves. Bom dia.

Bom dia.

Bem-vindo, mais uma vez, ao Contracorrente. André Azevedo Alves, o José Manuel Fernandes deu aqui muitos exemplos de casos que envolvem elementos do governo, elementos do Partido Socialista ou próximos do Partido Socialista, mas para já as sondagens não mostram esse desgaste. Há alguma explicação para isso?

É verdade, as sondagens não mostram um desgaste significativo do Partido Socialista, com alguma variação entre elas, mas todas apontam para o Partido Socialista continuar a liderar as preferências e o que pode ser até mais importante, com uma vantagem significativa para o PSD. E eu creio que isso se liga também com um aspecto que o José Manuel Fernandes referiu no final da sua intervenção, que é o governo e o Partido Socialista beneficia bastante da ausência de uma alternativa robusta. Quer dizer, Rui Rio continua a não se conseguir afirmar como uma alternativa, pelo menos com uma parte substancial do eleitorado. Isso, por um lado, tem proporcionado espaço para o crescimento do CHEGA e da Iniciativa Liberal, mas mesmo com esse crescimento Seria possível e é possível, no futuro, uma alternativa em que podemos conceber que o PSD não esteja à frente do PS, mas que o conjunto de partidos à direita do Partido Socialista consiga formar uma maioria. Mas ainda assim não é essa a situação neste momento, e, portanto, o PS e o governo vão beneficiando disso. E há um outro indicador que também é interessante, que nas sondagens que recolhem esses dados, não é só a intenção de voto no Partido Socialista, os indicadores de confiança em António Costa são habitualmente relativamente positivos, muito abaixo do Presidente da República, o que em Portugal geralmente é comum, o primeiro-ministro ter indicadores abaixo do Presidente da República, que tipicamente tem um posicionamento mais consensual e mais abrangente, e também está menos envolvido na governação e, portanto, tem menos desgaste. Mas a verdade é que mesmo com toda esta situação, mesmo com todos os escândalos, todos os casos, todos os problemas, António Costa continua a ter uma imagem, indicadores de confiança e indicadores de popularidade bastante razoáveis e, em geral, acima dos de Rui Rio. Vai beneficiando dessa situação e, mesmo neste contexto, e não obstante todos estes casos e todos estes problemas, o PS está numa situação relativamente confortável.

E o André Azevedo Alves faz aqui uma distinção que se calhar pode ajudar a perceber o que está a acontecer. Não basta ser oposição, e ouvimos, de facto, muitas críticas ao governo, mas não há uma perceção de alternativa sólida, é isso?

Exatamente. Para uma parte substancial do eleitorado, e nomeadamente do eleitorado tipicamente de civil eleições, do eleitorado de centro-esquerda, de centro-direita, que não são aquelas pessoas que estão todo dia a seguir a discussão política e os últimos casos, etc, a questão mais importante não é tanto se avaliam positivamente ou negativamente o ministro X ou Y, ainda que isso seja relevante, mas é em quem eu deposito mais a minha confiança para governar o país. Isso, aliás, que é ainda mais saliente no contexto do último ano e meio, da pandemia, etc. E a verdade, e é o que as sondagens apontam, e eu não tenho razões pra achar que estejam todas erradas, é que para uma parte substancial do eleitorado, não obstante todos estes problemas, quando confrontados com a questão, apesar de tudo isto, nas mãos de quem é que o governo do país fica melhor ou se quiserem, menos mal, para uma parte substancial do eleitorado, a resposta continua a ser António Costa e não Rui Rio ou não outra alternativa, mas que enfim, normal no contexto partidário português seria o líder do maior partido da oposição, e portanto, Rui Rio. E António Costa beneficia bastante disso, tem conseguido, não obstante todos estes problemas, preservar essa situação, muitas vezes até não aparecendo, ficando uns períodos em que manda outros ministros aparecer, quando há anúncios ou períodos mais impopulares.

Estamos numa dessas fases.

Estamos numa dessas fases, claramente, mas tem havido várias. E António Costa vai fazendo essa gestão de uma forma que é bastante hábil. Eu não partilho as críticas de que o governo tem muitos problemas de comunicação. Pelo contrário, eu acho que em especial o primeiro-ministro faz uma excelente gestão da comunicação. Acho que há problemas de governação. Acho que até em termos de comunicação, provavelmente o governo estará uns furos acima, certamente da oposição e certamente do PSD. E até diria mais, acho que em termos de comunicação, o primeiro-ministro está até bastante acima do que é a governação em várias áreas. E essa gestão tem sido bem feita e para uma parte substancial do eleitorado, como eu dizia, face à questão fundamental, que é em que mãos a governação do país fica melhor entregue neste contexto, para uma parte substancial do eleitorado, a resposta continua a ser António Costa e não Rui Rio.

André Azevedo Alves, fique conosco até perto das 11h00 para ouvirmos também os nossos ouvintes que já se inscreveram. O Francisco Soto e Castro é empresário, tem 46 anos, está em Ligardo, Porto. Muito bom dia.

Bom dia. Primeiro que tudo, eu gostava de dar os parabéns ao Observador, porque de facto, para que as instituições se mantenham a funcionar no nosso país, precisamos realmente de um quarto poder forte e realmente o Observador neste momento, acho que é o único realmente que consegue não haver este pensamento único que existe no nosso país. Eu obviamente que concorro com tudo que foi dito. Gostava de passar aqui um bocadinho, talvez, para outra questão, que tinha a ver com a questão de existir uma certa dissonância cognitiva no nosso país. Acharmos que poderemos ser ricos com mentalidade de pobres. Nós temos aqui no nosso país, infelizmente, a ideia de que o pai tem que ser o Estado, o Estado é o nosso paizinho de todos, e que portanto, se o Estado é quem realmente é o motor da economia, de tudo que se passa no nosso país, então obviamente os partidos que estão associados a um maior poder do Estado terão mais preponderância. E obviamente que a geringonça que foi criada nos últimos anos, passou de geringonça do governo pra geringonça do país, porque isto é realmente uma geringonça que ninguém consegue O PS vai se misturando nos cargos, como disse muito bem o José Manuel Fernandes. Os outros partidos mais pequenos também começam a ter o seu poder. Aliás, vimos as leis laborais serem mudadas esta semana. Em Lisboa, o Fernando Medina a dizer que a Carris pertencia ao Estado e, portanto, tem que meter pessoas do PS. E vamos assim empobrecendo alegremente. As instituições são degradadas em função deste empobrecimento. E depois temos presidentes a mudar cuecas ou calções em público. E realmente o que faz é com que o Estado, neste momento, não tenha poder nenhum quando pomos para a perceção que o poder é realmente total. A mim preocupa-me mais uma questão que é importante e acho que eu, como conservador que sou, tenho bastante relevância, que é a questão da ligação intergeracional. Nós recebemos um legado dos nossos pais e dos nossos avós e vamos entregar o nosso país aos nossos filhos. E hoje em dia, sobretudo a escória que governa, porque realmente as pessoas boas não querem se meter na política, só vai quem realmente não tem mais nada que fazer. Está a governar hoje e não pensa que vamos ter que entregar isto aos nossos filhos melhor do que o que recebemos. E infelizmente vai se degradando e os nossos netos, os nossos filhos é que vão realmente ficar com isto tudo. Eu também tenho aqui a minha quota de culpa e por isso é que estou aqui também a dar o meu testemunho, que eu acho que é importante.

E ainda bem que o fez, Francisco Soto e Castro, muito obrigada por nos ter tocado, traçado este retrato preocupante do país com instituições degradadas, a expressão utilizada pelo nosso primeiro ouvinte. O próximo está a ligar de Cascais, o José Silva, que é reformado. Bom dia.

Bom dia para os ouvintes, para o José Manuel Fernandes e para a senhora Carla. Bom, a remodelação governamental. Eu pergunto por quê? Isto dá muito trabalho. É preciso treiná-los na boa arte do engano, da mentira e dos homens de cidade. Portanto, isto iria perder-se sempre. Veja-se o caso Siza Vieira. Há tão pouco tempo no governo, já está a ser investigado. Veio ganhar, segundo a imprensa da época, 15 vezes menos. Eles às vezes perguntam para mim: "Eu sou burro, sou estúpido ou o quê?" Eu pergunto: o que está aqui a falhar? Quando as pessoas lutam por aumento de rendimento, este só vem ganhar 15 vezes menos. Aqui há uma coisa que me está a falhar, meu Deus. Eu não sei. Eu não sei se é burro, com certeza. O caso Augusto Santos Silva. Augusto Santos. Veja bem, o senhor agora diz que quer voltar à antiga profissão. Mas qual profissão? Este senhor alguma vez teve alguma profissão? Este senhor alguma vez fez alguma coisa? Eu desde pequeno vi-o sempre no Parlamento. Este senhor está a brincar com a gente ou está a brincar com os russos para eles não tomarem conta dos apontamentos. O José Manuel falou na controvérsia de Pedro de Silva. Isto é a maior vergonha. Não foi Fernando Medina que disse. Isto está realmente lesa e lesa outra. Mas António Costa tem sempre uma solução para isto. Ele vira-se para o seu séquito e diz: "É, isso para semana já ninguém se lembra disso." Ele diz isto. Nós então vamos aqui governando. O velho Rockefeller dizia: "Quando houver sangue nas ruas, comprem." E é isto que muita gente está a fazer. Há muita gente a enriquecer. Agora este caso, este senhor que foi atropelado, quer dizer, se calhar tirava uma porcentagemzinha lá das máscaras, lá do antifogo, das derrapagens, daqueles contratos. Enfim, dava sempre algum dinheiro ao senhor. Para terminar, Carla, e sobre as sondagens. Bom, as sondagens, eu devo dizer que até o ratinho Mickey ganhava as eleições ao senhor António Costa. Depois temos o Rui Rio, que isto é inacreditável, não quer o primeiro-ministro na Assembleia da República porque está cansado. Está cansado do quê? Está é cansado de nos mentir. E quando alguém aqui diz, com todo o respeito, que é hábil, eu acrescento, é hábil e manhoso. Nisto é campeão, é catedrático. Ele não é doutorado em nada, não é catedrático em nada, é manhosíssimo, é o maior. É uma pouca vergonha, realmente. Temos este governo com o senhor António Costa, e ele deve dizer o seguinte: não é justo para os portugueses. Enfim, para aqueles que rasgam as vestes quando alguém aqui critica o senhor António da Costa. Isto é bom para eles aprenderem. Um dia terão que aprender a lição. É injusto isso que nos está a acontecer. É um país com história. O senhor António da Costa é indigno ser primeiro-ministro de Portugal. Bom dia e muito obrigado.

Muito obrigada, José Silva, muito descontente com este governo liderado por António Costa. São apenas algumas opiniões. Paulo Ferreira, vamos também ouvir o que nos dizem os nossos leitores nas redes sociais.

E vai tudo um pouco no mesmo sentido. Aqui dois exemplos. Manuel Ramos escreve que só há uma remodelação que interessa, de António Costa, e conclui que o resto é para entreter totós. E Rui Lourenço pergunta: "Remodelação? Se fosse um governo de direita, já teria caído. Imaginemos a berraria dos democratas do Bloco de Esquerda ou dos republicanos eticamente puros socialistas se fosse esse o caso."

Algumas das opiniões online neste Contra-Corrente. Pode participar também através da sua chamada para o 910024185. Estamos também a falar com o José Manuel Fernandes sobre se caminhamos ou não para uma remodelação governamental.

E é isso mesmo que vamos colocar já à nossa próxima ouvinte que se inscreveu para participar neste Contra-Corrente. Graça Rocheta está a ouvir-nos em Lisboa, tem 67 anos. Bom dia, bem-vinda. Parece-lhe que pode haver uma remodelação no governo à vista?

Bom dia. Antes de mais, queria agradecer a coragem e a perseverança do José Manuel Fernandes e de outros como ele, que continuam a lutar pela verdade, porque é preciso ter muita coragem pra continuar assim. Depois queria dizer da minha enorme preocupação com a indiferença que existe no nosso país. Por exemplo, há pouco tempo soube-se que há mais de 400 mil pessoas, portugueses, em situação de pobreza extrema, abaixo do limiar da pobreza. Entretanto, volta-se a fechar tudo e mais alguma coisa, sem ninguém perguntar por eles e querer saber o que lhes acontece. Por outro lado, e antes de responder, há também uma grande preocupação com a tomada de poder do aparelho do tribunal, portanto, tudo o que significa a independência da Justiça e também a independência da comunicação social. Porque não é só não nos informarem, mas é desinformarem. A maior parte da comunicação social está sistematicamente a mentir-nos, como disse há bocado tão bem o José Manuel Fernandes. Não sobre os media.

Mas a ideia do José Manuel Fernandes de que a crise não é uma crise do governo, é uma crise de regime, e a Graça tem também esta percepção, de que são as instituições que estão também a falhar.

Completamente. Em vez de estarem a serviço dos portugueses, estão a serviço do PS e de outros interesses individualmente. Agora, dos portugueses não estão a serviço.

Tem alguma ideia sobre o futuro deste governo? A ideia de uma remodelação de que cada vez se fala mais pode ser uma saída?

Saída não é. Digamos que é a prova de que ainda existe alguma vergonha, algum pudor nestes ministros, mas eu, para ser franca, acho que é perfeitamente. Ou o governo cai, porque há alguém que realmente com força e uma coligação de partidos que pode fazer isso, ou então vai ser mais no mesmo.

Graça Sachetta, muito obrigada por nos ter ligado e deixado aqui também algumas das preocupações. André Azevedo Alves, temos de facto estado aqui a lançar este desafio aos nossos ouvintes e nas redes sociais a proposta é discutir se o cenário de uma remodelação governamental é ou não credível. Ainda não tinha colocado esta questão. O que sabemos é que este primeiro-ministro não gosta muito de remodelações governamentais, pelo menos olhando para os últimos anos. Este pode ser, no entanto, um caminho nesta fase.

É verdade, António Costa tem resistido a remodelações governamentais e, em especial, a remodelações governamentais na sequência do que ele percepciona como pressão mediática ou pressão da opinião pública. Portanto, eu creio que António Costa evita que se gere a percepção de que faz remodelações governamentais ou que substitui ministros por ser pressionado para o efeito. Parece-me pouco provável, não impossível, até pelo conjunto de situações, algumas delas que o José Manuel Fernandes referiu, e em especial a situação de Eduardo Cabrita é de facto bastante complicada, mas parece-me pouco provável que António Costa avance para uma remodelação substancial antes das eleições autárquicas.

Portanto, esta equipa vai aguentar o verão, digamos assim.

Parece-me que é o mais provável, ainda que, por exemplo, nomeadamente, e volto ao caso de Eduardo Cabrita, se se confirmar ou se verificar que há alguma situação de obstrução à Justiça, por exemplo, pode a situação tornar-se mesmo para os padrões portugueses, insustentável, e nomeadamente se houver uma intervenção do Presidente da República, que mais uma vez não me parece muito provável, mas pode acontecer. Salvo uma situação excepcional, parece-me que até às eleições autárquicas não será muito provável que haja uma remodelação substancial, tendo em conta esse padrão histórico de António Costa.

Não sei se teve a oportunidade de ler hoje a entrevista que o ministro dos Negócios Estrangeiros dá ao Expresso em que diz que basicamente quer que o PS lhe permita voltar à sua vida profissional. Isto não é um sinal de que alguma coisa vai mudar no governo?

Pode ser um sinal e são declarações de um membro do governo que têm um peso até político também que é substancial. E portanto, pode de facto apontar nesse sentido. Parece-me que antes das autárquicas, António Costa correria o risco de estar a gerar alguma entropia que pudesse, porque já estamos relativamente próximo das eleições autárquicas, que poderia, até pela situação interna dentro do Partido Socialista, e acho que também é importante ter em conta, provavelmente algumas, não todas, mas algumas das questões e dos casos que têm surgido nos últimos tempos, estou a pensar, quer com Fernando Medina em Lisboa, quer com elementos do governo, e nomeadamente Pedro Nuno Santos, acho que não refletem só problemas do governo e dos agentes políticos em causa. Eles também são um reflexo das próprias clivagens no interior do Partido Socialista, que têm vindo a acentuar-se, nomeadamente com a perspectiva de uma possível sucessão de António Costa e com as várias fações internas do Partido Socialista a movimentar-se. Uma remodelação antes das autarquias, a meu ver, correria o risco, porque necessariamente mexe com essas fações internas. Portanto, haverá, entre aspas, promoções e despromoções para figuras relevantes dessas fações internas do Partido Socialista, correria o risco de gerar entropia, mas António Costa pode, de alguma forma, ser forçado a isso.

E com o Congresso do Partido Socialista também adiado, ainda sem data, mas aparentemente para setembro. José Manuel Fernandes, como é que te colocas nesta ideia de haver uma remodelação governamental? Há sinais de que alguma coisa está a mexer ou parece-te que António Costa vai manter esta regra de não reagir pressionado por agendas mediáticas?

Eu diria que o instinto de António Costa é não reagir, é esperar. Nós sabemos que basicamente ele só remodelou quando esteve literalmente encostado à parede.

Com o ministro da Defesa, Azeredo Lopes.

Com o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, com a ministra da Administração Interna, quando foram os incêndios, e foi só já à segunda catástrofe, e com alguns secretários de Estado quando foram constituídos arguidos, mesmo quando já não tinha alternativa. Procura sempre fazer o mínimo possível, procura sempre remodelar pelos mínimos. Depois, há outra coisa que notamos, é que essas remodelações, inclusive a grande remodelação que foi a mudança do governo quando houve eleições, não são grandes repescamentos, no sentido de passarmos pra um governo mais forte, com caras novas, um novo governo. São remodelações em que os secretários de Estado passam a ministros, os assessores passam a secretários de Estado, os diretores-gerais passam a secretários de Estado. É uma espécie de promoções por antiguidade. Uma certa dificuldade em encontrar novo pessoal político.

Creio que foi nossa ouvinte José Silva que dizia: "Mas pra que uma remodelação governamental, se a ideia é ter as pessoas próximas, quase como uma casta?"

Sim, e depois há esse outro aspecto. António Costa tem dificuldade em encontrar pessoas fora do seu círculo mais próximo. A quantidade de pessoas que nós encontramos no governo que fazem parte do seu círculo mais próximo é muito grande. Há muitas pessoas no governo que ou são amigas ou trabalharam com ele há muitos anos. Quer dizer, por que o Duarte Cordeiro se aguentou tanto tempo? Vem com ele desde os tempos da universidade.

Se aguenta.

Se aguenta. Ele está com ele desde os tempos em que eram colegas na faculdade de Direito. Siza Vieira, por que está no governo? É alguém que também foi amigo dele desde os tempos de faculdade de Direito. Lacerda Machado, alguém que ele foi buscar pra uma missão importante. Também o conheceu nos tempos da faculdade de Direito. Graça Fonseca, como é que chegou onde chegou e continua ministra da Cultura? Vem desde os tempos da Câmara de Lisboa. Há uma quantidade de membros do governo que são pessoas que foram subindo pela proximidade a António Costa. E há uma dificuldade em alargar o leque, parece faltar mundo. O que não é muito surpreendente, porque se pensarmos, a vida de António Costa é uma vida dentro do Partido Socialista e pouco saiu disso. E os partidos fecham-se muito dentro deles próprios. E mesmo quando isso não acontecia, isso era difícil. Eu recordo-me que outros chefes de governo, que duraram muitos anos, sentiram essa dificuldade. E um caso clássico é de Cavaco Silva, também viveu muitos anos e no fim também já não conseguia chamar pessoas para o governo.

Vivia num círculo mais fechado. Temos mais uma ouvinte para ouvir, Margarida Barbosa, que é uma professora aposentada que liga de Lisboa. Muito bom dia, bem-vinda.

Bom dia. Olhe, eu só quero dar força, muita força. Eu subscrevo por baixo tudo o que o José Manuel Fernandes disse. Em relação a dizer uma renovação deste governo, o governo é que já não é credível, é um governo incompetente. E eu pergunto todos os dias como é que este país está adormecido. Mas há duas explicações que eu penso que são aquelas que respondem a tudo. Primeiro, não há oposição também credível ou pelo menos capaz de fazer frente aos disparates deste governo. Segundo, aquilo que disse o primeiro ouvinte, os portugueses penduram-se todos no governo e todos se querem pendurar, portanto, não há volta a dar. Olhe, só vozes como as vossas é que talvez consigam fazer alguma coisa e fazer o povo acordar. Muito obrigada.

Margarida Barbosa, muito obrigada nós pelo seu telefonema. Um bom dia pra si. Temos mais um ouvinte nestes últimos minutos. Creio que, afinal, essa chamada caiu. Vamos tentar ainda, porque estamos mesmo nos dois últimos minutos. José Manuel Fernandes, o papel do Presidente da República foi também aqui abordado mais uma vez.

Eu, sinceramente, acho que o papel do Presidente da República nos últimos tempos me tem deixado um bocadinho perplexo. Literalmente, a palavra é perplexo. O Presidente da República, que designadamente nesta questão do confinamento disse que parecia que tinha linhas vermelhas, tem visto as linhas vermelhas serem literalmente torpedeadas sem fazer nada e acaba sempre de dar uma palavra de apoio ao governo. Num momento ou outro vai dando sinais em que tenta empurrar as pessoas pra frente e deu esses sinais, por exemplo, com Eduardo Cabrita, mas depois não faz mais nada. Acho que o Presidente da República parece que está de mãos ipesatadas por António Costa e não tem a capacidade de dar uma palavra que indique aos muitos portugueses que votaram nele que podem de facto confiar nele pra que ele empurre o governo numa direção diferente.

Mas será por quê? Por causa da pandemia, Marcelo Rebelo de Sousa encontra aqui circunstâncias excepcionais?

Já se percebeu que o presidente tem sobre a gestão da pandemia ideias neste momento diferentes das do governo, mas não consegue levar água ao seu moinho e não está a dar aos portugueses sinais claros disso.

André Azevedo Alves, é a mesma questão sobre o papel do Presidente da República neste xadrez. Também aqui Marcelo não está a cumprir aquela ideia de um segundo mandato mais interventivo. A explicação poderá ser, de facto, a pandemia?

Eu acho que a explicação principal é o perfil do próprio presidente. Eu acho que Marcelo está a ser Marcelo e antes das eleições presidenciais, lembro-me de exprimir opinião que não seria de esperar uma alteração muito substancial no segundo mandato, não obstante alguns sinais e algumas expectativas que se geraram, porque Marcelo Rebelo de Sousa, eu creio que genuinamente procura ser o mais consensual possível, mesmo quando às vezes esse caminho pode não ser o melhor caminho do ponto de vista do desempenho das funções presidenciais. E acho que a forma como está a gerir a sua atuação em relação com o governo neste momento reflete isso. Ou seja, mesmo tendo ideias diferentes e mesmo discordando, Marcelo não quer assumir nenhum conflito, nenhuma clivagem pública com o governo e a consequência disso é que acaba por dar cobertura política ao governo.

André Azevedo Alves, muito obrigada por ter estado conosco neste Contracorrente, que está mesmo a chegar ao fim. Agradeço também aos nossos ouvintes. José Manuel Fernandes, vamos de fim de semana, mas trarás um novo tema para discussão na segunda-feira. Até lá.

Até lá. Eu sou o José Manuel Fernandes, obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.