Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Arranca agora a edição de quarta-feira do Contra-Corrente. A sua opinião é importante. Ligue-nos através do número de telefone 910 002 4185. Vou repetir: 910 002 4185. Hoje, Carla Jorge Carvalho, o Contra-Corrente é sobre saúde mental dos atletas profissionais.

Com os Jogos Olímpicos a decorrer em Tóquio, há sempre uma enorme expectativa em torno de alguns atletas. Nós, portugueses, tínhamos os olhos postos de novo em Telma Monteiro. O mundo todo esperava para ver aquilo que Simone Biles seria capaz de fazer, mas a ginasta norte-americana saiu ontem em meio da prova. Hoje já anunciou uma nova desistência e isso leva José Manuel Fernandes a querer discutir no Contra-Corrente um tema que quase nunca discutimos: até onde podemos colocar pressão sobre os nossos atletas? Suponho, José Manuel, que achas que fomos longe demais.

Bom dia novamente.

Bom dia.

Eu não sei se fomos longe demais. Pressão sempre houve. Não sei se a pressão hoje, de facto, é maior do que foi no passado. Se pensarmos bem, o princípio dos Jogos Olímpicos é mesmo vencer, é mesmo ser o melhor. E desde o princípio que só há medalhas para os três primeiros. E o lema é "citius, altius, fortius", uma expressão em latim que quer dizer "mais rápido, mais alto, mais forte". Desde o princípio que é assim. É evidente que as coisas foram evoluindo e a pressão mediática é completamente diferente. Podemos dizer que nunca foi muito diferente do que é hoje. Talvez quem levou esse lema muito a sério, por vezes, cometeu excessos. E sabemos que houve muitos excessos também no passado. Nós não podemos esquecer, por exemplo, o que aconteceu com Francisco Lázaro, naquela maratona olímpica de 1912, em que ele correu até morrer, porque cometeu vários erros graves, nomeadamente na forma como se preparou, na forma como se besuntou e coisas assim do gênero. Não nos podemos esquecer também, por exemplo, de outra coisa que tem a ver com todas as dúvidas de doping e todas as dúvidas que hoje rodeiam a morte súbita e estranha de uma velocista, que era a Florence Griffith Joyner, que era americana e que ainda hoje tem, já passaram mais de três décadas, os recordes do mundo de 100 e 200 metros, ninguém se consegue aproximar deles, mas ela depois morreu subitamente passado poucos anos. Tudo isso mostra que, de facto, a pressão sempre foi muito grande e eu recordo estes dois casos, porque são dois casos limite, mas é bom não ter ilusões. Para se ser campeão olímpico, sobretudo em algumas modalidades, é necessário levar uma vida de sacrifício e dedicação completa e desde muito novo, às vezes desde criança. Isso é especialmente verdade, por exemplo, na ginástica, toda gente sabe isso. Às vezes temos campeãs e campeões aos 14 anos, aos 13 anos, aos 15 anos. Natação, também acontece. No ténis.

Sim, é verdade. E há muitos pais que colocam desde muito cedo essa enorme pressão sobre os filhos.

Pois, sem dúvida. Já vimos documentários sobre isso e é de uma, às vezes, crueldade inimaginável. Mas ao mesmo tempo, a recompensa também pode ser grande. Porque o título olímpico é só o pináculo. É um pináculo, mas há muito mais vitórias numa carreira antes de se chegar aos jogos. Seja lá como for, não deixa de valer a pena refletirmos, e eu acho que isso é que é importante, um pouco sobre a pressão que é colocada sobre estes atletas. Alguns deles, de facto, como eu disse, ainda muito novos. Como sabes, por exemplo, há muitos anos que sou um fã da Telma Monteiro. Eu não percebo nada de judo, sempre disse isso. Não compreendo sequer bem as regras, mas li a autobiografia dela, que é um livro muito interessante e acho que tem uma extraordinária história de vida, uma história de superação, que é uma história de vontade de vencer. Sobretudo, eu acho que é a história de alguém que não aceita um destino de exclusão e de pobreza, que era o que ela estava destinada, e que parecia ser o destino dela e que vai para outra, porque nunca desistiu de lutar. Ela hoje já não é nova, mas continua a combater tudo por tudo em cada combate. Isso percebe-se. E mais, eu fico com a convicção de que ela assume muito a responsabilidade de puxar pelo resto da equipa, de ser um exemplo para os mais novos, e eu acho que está a ser. O judo andou muito à conta de outros atletas, Nuno Delgado, por exemplo, que também foi medalhado, e dela hoje em dia. Por isso, eu sei que ela desta vez não vai trazer nenhuma medalha, mas ninguém lhe pode ou podia exigir mais. Nem agora, nem no futuro.

E estás a falar da Telma Monteiro. Achas que a situação da Simone Biles é semelhante?

A pressão sobre a Simone Biles é, porventura, muito maior. Eu não imagino o que possa ser considerado a melhor ginasta de todos os tempos. Como dizem os americanos, G.O.A.T., Greatest of All Time. Que é uma coisa que ela própria assumia e trazia já uma medalhinha. Aliás, há um texto belíssimo que nós temos atualmente na manchete do site do Observador, que eu recomendo a todos lerem, porque é um texto da Cátia Bruno muito bom sobre a Simone Biles e a história dela e estes problemas da pressão. Mas eu não imagino o que seja carregar as expectativas de um país inteiro. Ela carregava as expectativas de um país inteiro e eu não estou a exagerar. Biles era, e ainda é, acho eu, a maior estrela do Team America, porque agora já não há, como havia há quatro anos, o Michael Phelps. É bom ter essa noção. Agora também já não há os duelos imbatíveis da NBA. A equipa de basquete até está a ser uma desilusão total nestes jogos e há mais desilusões nos jogos. Biles é a atleta que todos falavam. Ao mesmo tempo, com 24 anos, ela sabia. Eram os últimos jogos. A um mais alto nível. Aliás, quando foi o adiamento, ela chegou a pensar se seria capaz de chegar aqui, porque na ginástica é muito impiedoso. Mais, Biles era a sénior da equipa, a ginasta que acarinhava e orientava as mais novas, que lhes dava alento e carinho. Isso às vezes também nós vemos nas imagens, quando ela abraça as outras, está ali um bocadinho a chefe da equipa. Eu diria que toda a pressão estava em cima dela e com dois agravantes. O primeiro foi ter sabido, nestes anos duros que os Estados Unidos viveram, que também ela sofreu abusos. Houve um escândalo de abusos sexuais na equipa com o treinador e também ela passou por isso. Ter assumido isso publicamente, como ela fez, nunca é fácil e desgasta muito psicologicamente. O segundo agravante é tudo o que se passou com os adiamentos e os percalços do ano COVID, que fizeram-na duvidar, inclusivamente, de vir a Tóquio. Dizem-me e acho que não foi só ela, quer dizer, que foram todos os outros, e é verdade, mas isso pesa mais nos mais velhos e pesa mais em quem tem mais responsabilidades. E ela está nessa situação. Por isso acho que foi bom ela ter tido a franqueza de assumir que estava com problemas psicológicos. É uma coisa que quase ninguém faz. Parece que os atletas são super-homens. E ela não ter feito aquilo que várias vezes se faz, que é simular uma espécie de lesão, uma rutura, qualquer coisa desse género, que eu diria que era o normal noutras circunstâncias. Ter falado verdade, ter-nos confrontado a todos com essa verdade, a verdade de que os atletas também têm saúde mental. Eu acho que é muito positivo. Quer dizer, de facto, os atletas não são de ferro.

Não são. E José Manuel, e as redes sociais não terão tido também influência na criação desse ambiente de tanta pressão psicológica?

Olha, não sei avaliar, até porque as redes sociais a gente também pode desligá-las.

Mas é difícil também.

Eu sei que é difícil. Mas em contrapartida, já sei dizer, por exemplo, há um outro caso, que também é muito falado, que é o caso da tenista japonesa Naomi Osaka. E as coisas não correram como deviam ter corrido nas redes sociais. Osaka, como eu sabes, foi a atleta escolhida para acender a chama olímpica e era uma das grandes esperanças do Japão, um símbolo do Japão. Nós, aliás, recordamos a Osaka porque ela ganhou o seu primeiro torneio de Grand Slam num Open dos Estados Unidos que ficou famoso por causa daquela final, que ela ganhou à Serena Williams, mas na onde a Serena Williams se zangou com o árbitro português, que era o Carlos Ramos. Não sei se te recordas desse episódio.

Claro.

E agora, para se preparar o melhor possível para estar em Tóquio e para trazer uma medalha para o Japão, ela nem sequer tinha ido a Wimbledon. E em Roland-Garros também tinha desistido para proteger a sua saúde mental, depois de uma discussão com a organização, que a obrigava a umas regras estúpidas para as conversas de imprensa e coisas desse género. E mesmo assim, apesar de as condições parecerem ideais para ela conquistar a medalha de ouro, ela acabou eliminada logo na primeira ronda, uma coisa que foi completamente inesperada. Ora, as reações das redes sociais no Japão foram horríveis, foram cruéis. Houve mesmo quem questionasse o protagonismo que ela tinha tido na cerimônia de abertura. E muito, não digo tudo, mas muito, porque Naomi Osaka é filha de uma tailandesa e de um japonês. Não é uma japonesa pura. O Japão está longe de ser o país mais aberto do mundo e já estou a ser gentil nas palavras.

Pois, mas isso é incrível e sobretudo nos Jogos em que até há uma equipa formada só por atletas refugiados.

Pois, quer dizer, nos jogos que deviam ser exemplares. Que têm que ser exemplares. O mundo está a mudar, mas talvez não mude tanto como isso. Durante muitos anos, décadas, os Jogos Olímpicos foram o palco do nacionalismo e da Guerra Fria, completamente. Estados Unidos contra a URSS, a disputarem a primazia e ver quem conquistava mais medalhas. Eu vivi muito isso. Eu lembro-me de a gente estar sempre a ver dia a dia quem ia à frente. Antes, como todos sabemos, também tinham sido palcos de momentos ainda mais dramáticos, como por exemplo, os Jogos de Berlim em 36, com Hitler na tribuna, a ver aquelas corridas do Jesse Owens e por aí adiante. Mas muito mudou desde então e uma das coisas mais curiosas é ver como, por exemplo, tantos atletas naturalizados disputam os jogos vestindo as camisolas de países onde não nasceram. E nós vamos ter vários na nossa seleção. Nós, por exemplo, jogámos agora Andebol contra uma equipa do Bahrain formada por muitos atletas que não tinham nascido no Bahrain. A nossa própria equipa tem como grande referência um guarda-redes, que infelizmente já desaparecido. E esse guarda-redes era de origem cubana, e toda a gente o venera em Portugal. Portanto, o nacionalismo já não é o que era. A nossa equipa de atletismo também temos vários atletas a vestir a nossa camisola, a camisola portuguesa. Atletas que não nasceram em Portugal, vamos ficar muito contentes se eles trouxerem medalhas para Portugal. Eu diria que tudo isso são sinais de um mundo novo, que é um mundo mais aberto. Mas não estou a dizer que seja um mundo mais equilibrado e justo, porque às vezes estes atletas emigram e mudam de país por razões que não são as melhores razões do mundo. Mas é seguramente um mundo ao mesmo tempo mais integrado.

Estás a dar esses exemplos, no entanto, isso não faz desaparecer a pressão sobre os atletas.

Bem, suponho que não, mas não tenho dúvida que a condição mental é seguramente tão importante como a condição física nessas grandes provas. E vou lembrar uma coisa que se calhar muitos não se lembram, mas os mais velhos lembram-se. Lembram-se da grande rivalidade que havia há 40 anos ou mais, entre dois corredores portugueses de meio fundo e fundo, que eram o Carlos Lopes e o Fernando Mamede. Eles eram ambos do Sporting e por isso tinham o mesmo treinador, que era o Ministro Pereira. E o Ministro Pereira costumava dizer que o Mamede era até fisicamente mais forte que o Lopes, mas psicologicamente ele ia-se sempre abaixo nos grandes momentos. Porque o Mamed conseguiu uma coisa que o Lopes nunca conseguiu, que foi ser recordista do mundo dos 10 mil metros e manteve o recorde durante bastante anos, ao redor de 25 anos, mas nunca conseguiu ganhar nenhuma medalha em competições importantes. Nas competições importantes, ele desistia. Era sempre uma frustração.

Sim. Também eu.

Já o Carlos Lopes era o contrário. Medalha de prata nos Jogos de Montreal em 76, aquela famosa corrida contra o norueguês Ásbjørn Hákon Hakonsens nos 10 mil metros. E depois aquela medalha de ouro, que era a última prova, na Maratona de Los Angeles, que nos emocionou a todos. Também me lembro dessa corrida. Portanto, aquilo que Biles fez ontem em Tóquio é mesmo raro, só pode ser elogiado. Os atletas não são só músculos, têm cabeça. Assumir que se deve sair da prova, porque continuar podia implicar uma lesão grave. E isso implica muita coragem, muita frontalidade, o que não é normal. Vamos ver se recupera. Já sabemos que ela não vai à prova all around. Pode ser que vá à prova de amanhã, mas entretanto ainda há a prova de cada uma das disciplinas. E nós queremos que ela vá. Estamos a torcer para que ela vá, porque gostamos de vê-la e esperamos vê-la. E gostamos que ela traga mais medalhas para conseguir provar que ela continua a ser a Simone Biles. Todos gostaríamos de a ver, porque ela de fato continua a ser a melhor do mundo, ponto final para a gente.

E se calhar melhor depois disto. Vamos tentar perceber, José Manuel Fernandes, será que estamos a exigir demais aos nossos atletas e por quê? Já vamos ouvir os nossos ouvintes. Temos também vários convidados que nos vão ajudar a discutir e a refletir sobre este problema. O Nuno Delgado, todos o conhecemos, foi medalhado nos Jogos Olímpicos de Sydney em 2000, foi medalha de bronze no judo, a primeira medalha portuguesa desta modalidade. Nuno Delgado, bom dia.

Olá, muito bom dia.

Obrigada por estar conosco. Esta pressão que é posta aos atletas, que o José Manuel Fernandes estava aqui a referir, é de fato excessiva ou isto são ossos do ofício e há que saber lidar com isto?

É uma pergunta difícil de resposta. Nós temos uma máxima que dizemos que a pressão é o pequeno-almoço do campeão. Contudo, às vezes o campeão ganha, às vezes o campeão perde. E portanto, quando perdemos, toda a gente sofre as consequências da desilusão. No fundo, os atletas passam a vida a criar o seu futuro e a quererem chegar ao seu futuro, mas às vezes isso não acontece. Aquilo que eu acho que é mais importante levar é que hoje em dia nós já começamos a olhar para o acompanhamento psicológico como um treino. Ou seja, há muitos anos, na minha geração, nós começamos a olhar para o apoio médico não como uma forma de curar lesões e tratar de traumas, mas de prevenir e minorar ao máximo o esforço que o corpo sofre. Finalmente, em Portugal, nós estamos já numa geração que começamos a abortar as questões dos traumas psicológicos, como também uma forma de prevenção e de minorar os efeitos que efetivamente uma competição a este mais alto nível suprime nas pessoas. E não é só nos atletas de alta competição. Todas as pessoas que têm uma profissão de alto nível de pressão, podemos imaginar, por exemplo, um piloto de aviões, um político, um grande CEO de uma empresa ou um tipo das forças especiais ou um militar que está em ações de alto risco. Essas pessoas, efetivamente, já sabemos que vão sofrer traumas, tal como uma pessoa que sobe o Everest vai sofrer desgaste no seu corpo. E, portanto, a ideia é trabalhar com antecedência na prevenção e na preparação mental, neste caso, para essas consequências.

Nuno Delgado, será que Simone Biles não fez esse treino, não fez essa preparação?

Fez, seguramente que fez, porque os Estados Unidos são pioneiros nessa dinâmica. Contudo, o fato de nós prevenirmos não significa que há exceção que confirme a regra. Ou seja, nós todos acompanhamos a história do Michael Phelps, que também teve um problema psicológico significativo e é o atleta com mais sucesso olímpico na história do mundo, tem mais medalhas que Portugal. Isto para dizer que não há milagres. Quando nós estamos na zona, o alto rendimento é um desgaste constante. Portanto, mais cedo ou mais tarde alguém vai sofrer. Eu acho que é inevitável as pessoas não entenderem que a vida de um atleta de alta competição a esse ponto terá sempre momentos difíceis. Hoje em dia, a questão da psicologia e da emocionalidade é uma coisa que afeta-nos a quase todos, e a pandemia foi um efeito importante que nós nos apercebemos que isso foi exposto, deixou de ser tabu. As pessoas hoje em dia já se expressam dizendo: "Eu estou com problemas psicológicos, não me sinto bem, estou com burnout, estou com depressão." Isso já começa a ser mais aceito, mas ela sempre esteve aí. E neste caso, estamos a olhar para os Jogos Olímpicos de Tóquio, a pandemia também tem efeitos sobre os próprios atletas.

E vimos a extrema sensibilidade de vários atletas no fim das suas prestações. Tem sido muito comum ver lágrimas, se calhar mais do que noutras competições.

Claro. Eu acho que é um fenómeno normal, tendo em conta que se olharmos para o fato de que foi adiado o seu sonho de vida em 2020, depois meteram-se nas garagens a treinar sem saberem o dia de amanhã. Muitos deles apanharam COVID, como foi o caso da Patrícia Mamona, que foi campeã da Europa, depois de ter tido uma infeção que ainda trouxe algumas consequências. Temos a situação do Tomás Morais, que nem pode competir por efeitos completamente alheios ao seu nível desportivo. Tudo isso foi-se acumulando ao longo de um ano, de pessoas que mesmo assim tentaram não desistir e não deixar esse sonho olímpico. E depois, quando os resultados não são aqueles que esperavam, é normal. Eu acho que é razoável.

É razoável.

Mal seria se não chorassem.

E sobretudo, não choram só para eles. Está um país a pedir a primeira medalha e ela ainda não chegou. Nuno, continue.

Só para dizer que eu acho que nós em Portugal, e eu acompanho os Jogos Olímpicos desde sempre, não temos a consciência do que valemos realisticamente. Nós valemos zero, uma, duas, três medalhas, ponto. E cada vez que acontece uma medalha, são pelo menos 33% das nossas possibilidades. Portanto, a pressão é enorme nesse aspecto, embora seja preciso lembrar aquela máxima que é: "It's just over when the fat lady sings". Os Jogos ainda vão acabar daqui a duas semanas, sensivelmente, e ainda vai haver seguramente a oportunidade de conquistarmos as medalhas que tanto almejamos. Mas os resultados têm sido fantásticos. À exceção da Telma, já se falou aqui muito que era uma das nossas grandes esperanças. Agora a Telma já cumpriu a sua época desportiva, fez tudo o que poderia fazer. É óbvio que se tivesse conseguido uma medalha olímpica seria fantástico, embora ela já cumpriu, já nos ofereceu a medalha olímpica que tanto almejavamos no ano passado, há quatro anos, mas foi a única.

Claro. E esta nota: os resultados ainda podem chegar, as medalhas, os diplomas, nós até já ficamos bem com isso. Nuno Delgado, fique conosco mais um pouco. Estávamos agora aqui a sentir o vento ou algo que estava a acontecer com o seu telemóvel, mas temos também em linha conosco o Jorge Silvério, que é psicólogo desportivo. Bom dia, acompanhou seguramente este início de conversa e o Nuno Delgado falava de que a questão mental também já é um treino e é encarada já como um treino para os atletas de alta competição. Todos eles têm acesso a esse tipo de apoio?

Bom dia, Carla. E bom dia também ao José Manuel Fernandes e ao Nuno. Um grande abraço, um forte abraço para ele e também aos ouvintes. O Nuno referiu isso, começa a ser cada vez mais comum. Eu estou na área da psicologia do desporto há cerca de 30 anos e quando comecei, de facto, era quase um tema tabu, pouco se falava. Hoje em dia já se percebeu que a componente mental, tal como a física, a técnica e a tática, são importantes para o rendimento desportivo. Muitas vezes até a componente mental tem uma preponderância ainda maior que as outras. Mas ainda há muitos atletas que não têm acesso, de facto, a esse acompanhamento.

Falta esse acompanhamento, mas é por falta de recursos do país ou porque essa sensibilização para a importância da saúde mental ainda não está completamente instalada nas nossas estruturas?

Felizmente, começa a estar cada vez mais. E só o facto de estarmos a ter um programa aqui na Rádio Observador a falar sobre isso é um bom exemplo.

Tivemos também porque há uma das maiores atletas do mundo que assume que tem um problema deste nível, o que também era raro até há pouco tempo.

É. Começa-se a ter cada vez mais atletas a falarem sobre os problemas mentais. Tivemos há pouco tempo a Naomi Osaka, enfim, o José Manuel Fernandes fez uma boa história, digamos assim, do que tem acontecido desse ponto de vista. E quando há uma atleta que é um ícone, eu diria mundial, e que é provavelmente a atleta sobre quem recaiu mais expectativas nestes Jogos, já não temos o Michael Phelps, já não temos o Bolt. E de repente esta atleta assumir é extremamente importante também para os outros. Porque nós estamos a falar de um meio que é extremamente competitivo, em que muitas vezes o demonstrar vulnerabilidades, sejam elas quais forem, é quase proibido.

Perdemos agora, por alguma razão, o contacto com o Jorge Silvério. Vamos já repor essa ligação. O Bastonário da Ordem dos Psicólogos está também conosco. Muito bom dia, Francisco Miranda Rodrigues. Bem-vindo a este Contracorrente. Sabemos que os atletas de alta competição estão particularmente expostos a esta pressão muito grande. Ajude-nos a perceber o que é que faz com que uns consigam resistir e gerir esta pressão e outros não. Há agora um problema com as linhas e por isso vamos ter que repor a comunicação que temos estabelecida com os convidados deste Contra-Corrente. Já lá vamos, teremos tempo para isso, até porque Diogo Teixeira Pereira está a recolher as informações que nos chegam através das nossas plataformas. O que é que já leste que mereça ser agora considerado?

Há, de facto, um debate em torno deste assunto, Carla. Um dos leitores d'O Observador que publicou um comentário diz que: "Desistência dificilmente é coragem. Tem toda a liberdade a atleta para desistir, ainda que tenha retirado o lugar a outra atleta americana, mas quem desiste não é um vencedor." Há aqui outro comentário que vai no mesmo sentido: "Em todo o caso, nunca podia ter desertado a atleta e deixar as companheiras desfalcadas na prova de equipas. Em qualquer grupo, a equipa tem de estar sempre primeiro do que as individualidades. Tamanha falta de solidariedade e comprometimento é inaceitável." O Ricardo Romão, no Facebook, faz duas perguntas. Pergunta se agora não pode haver pressão e pergunta ainda se tudo tem que ser facilitado. "Até para nascer existe pressão", diz Ricardo Romão. "A vida é feita de pressão e de desafios." Mas também há comentários em sentido oposto. É o caso da Maria Vieja: "Ninguém é perfeito, ninguém é de ferro, as vitórias são só dela e as derrotas também. E o esforço, sobretudo o esforço, é só desta atleta." Diz também outro leitor d'O Observador que vai ter muito que trabalhar dentro da sua cabeça para se livrar de todo o lixo e doutrina que lhe colocaram com verdades incontestadas. Há ainda outro comentário de um ouvinte da Rádio Observador que acha admirável a vulnerabilidade da atleta para admitir perante o mundo as suas fragilidades sobre tudo aquilo que tem sentido no mundo da alta competição. "O mundo atual dos Jogos Olímpicos", diz este leitor, "não é o mesmo que era em 1976." Diz ainda que acha difícil estar-se a utilizar argumentos como a cor ou a raça, por exemplo, para dizer que foi a melhor afro-americana de sempre. Diz este ouvinte que isso é completamente irrelevante e despropositado neste contexto.

Diogo Teixeira Pereira, com o essencial das opiniões dos leitores d'O Observador nas redes sociais, a propósito deste tema que hoje trazemos aqui ao Contra-Corrente: a saúde mental dos atletas profissionais. Se quiser participar via telefone, pode ligar-nos para o 91 002 4185. Vou repetir o número de telefone, Carla, 91 002 4185.

É o número para o qual convidamos os nossos ouvintes a participar. José Manuel Fernandes, ouvimos aqui já vários olhares sobre esta questão da pressão dos atletas. O Nuno Delgado dizia que esta questão já é encarada atualmente como um treino que todos devem ter. Pela desgraça pessoal de algumas das atletas, isto pode ser um bom ponto de partida para uma discussão séria sobre saúde mental?

Bem, eu acho que deve ser, mas já agora gostava de comentar aqui um dos comentários dos ouvintes que ouvimos agora aqui. Alguém dizer que não é corajosa a atitude da atleta deixar o resto da equipa, que ela devia ter ficado até o fim. Bem, uma equipa é uma equipa. E ela, se calhar melhor do que ninguém, seguramente melhor do que qualquer um de nós, tinha consciência de quais eram as capacidades da equipa e o que é que ela podia fazer. Um atleta, muitas vezes, quando não se sente em condições, é substituído. Isso acontece numa equipa que joga um desporto coletivo, portanto, andebol, futebol, basquetebol, o que seja, em que é o treinador que substitui.

Aconteceu com o Cristiano Ronaldo na final do Euro 2016.

Aconteceu com o Cristiano Ronaldo no Euro 2016. Aliás, a prestação da equipa americana em algumas das disciplinas que se seguiram à saída de Biles foi muitíssimo boa. Fez algumas prestações muito boas, digamos, aproximou-se bastante da pontuação da equipa russa, que concorre oficialmente só pela Federação Desportiva Russa, não pode usar o nome da Federação Russa, porque a Federação Russa está castigada por causa do doping. E eu acho que é uma avaliação que tem a ver muito com a perceção de que ela podia fazer pior ainda a equipa. Alguém que é a estrela da equipa, ter a noção de que continuar em campo, continuar em jogo, continuar no tapete, neste caso, ou nos tapetes e nos aparelhos, podia fazer ainda pior à equipa, além de poder fazer pior a ela, porque ela admitiu que aqueles são exercícios perigosos, que poderia acabar por sair dali em maca. Acho que é corajoso.

Desculpe.

Não é um sinal de fraqueza.

Até porque ela esteve sempre com a equipa a apoiar o resto dos elementos da equipa e acompanhou a prestação das colegas.

Exatamente, não se foi embora, não desapareceu, não se escondeu, não se meteu num buraco. Isto são decisões extraordinariamente difíceis. Estamos a falar de alguém que viveu praticamente toda a sua vida para este momento. Primeiro para os primeiros Jogos Olímpicos e agora para estes. Estes são claramente em sacrifício, porque nós sabemos que o ano passado, quando ela soube do adiamento por um ano, chegou a hesitar se ia aguentar mais um ano, devido ao que ir a uns Jogos Olímpicos implica. Porque é extraordinariamente difícil, pesado, exigente. Mas ela aguentou e tem continuado a demonstrar e tem levado a novos patamares o nível de exercícios que é capaz de fazer. Designadamente, um salto que ela desta vez não conseguiu executar e foi provavelmente ao decidir a meio da corrida que vai fazer um salto diferente, que as coisas lhe correm mal. Naquele salto de cavalo, ela era para fazer um salto diferente daquele, um salto com um grau de complexidade que mais ninguém no mundo consegue fazer na ginástica feminina, que ela ia fazer e depois não faz. Ainda no ar, a treinadora percebe. Ela não tinha caído, sem cair bem, porque naturalmente alguém que decide a meio da corrida que não vai fazer o salto que vai fazer, já não está bem. Tudo isso é muito relevante e muito importante para percebermos o estado de espírito da atleta. Ainda por cima, porque este é um desporto individual. É necessário um grau de concentração brutal. Nós sabemos isto: é a diferença entre um contra relógio e uma corrida de equipas no ciclismo. Um contra relógio é o corredor contra ele próprio. Quando é subir uma montanha num jogo em que há um pelotão, há sempre alguém ao lado, sempre alguém que está a puxar ou a não puxar por nós, a ajudar-nos ou a não ajudar-nos. E nós sabemos que isso é diferente. Qualquer pessoa que na vida fez desporto ou assistiu a desporto, não é preciso ter feito, é ter assistido, sabe que é diferente um desporto em que a pessoa depende única e exclusivamente de si, ou outro em que está a ter que ter alguém ao lado e agora vou eu mais depressa, agora vai o outro mais devagar, agora vou eu fazer-lhe um drible ou agora vai ele fazer-me um drible. Eu estou permanentemente a ser desafiado. Ali não, eu tenho que me desafiar a mim próprio, vencer as minhas próprias limitações, ultrapassar os meus próprios limites. Ali a cabeça é absolutamente fundamental. Mesmo no judo, que é tão importante, há um adversário, a gente está ali com o outro adversário, estamos a lutar com ele. Não, ali estamos a lutar conosco próprios.

Quase uma solidão.

Contra nós próprios. É uma solidão absoluta.

José Manuel, já vamos continuar a conversar. Chamava há pouco e não conseguia falar com o bastonário da Ordem dos Psicólogos e agora sim, está em linha Francisco Miranda Rodrigues. Bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Era a proposta que lhe fazia há pouco. A resposta não deve ser fácil, mas por que alguns atletas não conseguem gerir esta enorme pressão a que estão submetidos, e que sabem que estão submetidos, e há outros que conseguem?

Antes de mais, eu gostava, antes de responder à pergunta, dizer-vos que foi com enorme satisfação que tenho estado a assistir a este vosso programa. Há 10 anos, certamente que seria muito difícil que pudéssemos estar a ter esta conversa desta forma e isso não deixa de ser um lado muito positivo. Os atletas são pessoas, são seres humanos. Eu acho que a pergunta encerra uma necessidade que todos nós temos, que é de termos certezas. Termos certezas de como é que as coisas funcionam sem falhas. Como é que nós conseguimos que qualquer coisa que temos para fazer, seja ela qual for, corra bem. E uma grande necessidade de encontrar as razões para quando isso não acontece, e para reduzir esse nível de incerteza. Logo, tudo começa aí. Todos nós, em determinados momentos, sujeitos a certas condições, podemos não conseguir lidar com os desafios que temos pela frente e podemos falhar ou podemos sofrer mais com isso. Podemos deixar de ter capacidade para o desempenho de uma determinada tarefa da forma como gostaríamos. E certamente, e já aqui foram levantados vários dos fatores que estarão a interferir neste momento com muitos de nós e também com os atletas e também com os atletas olímpicos, independentemente de muitos deles poderem estar muitíssimo bem preparados, terem competências que os protegem em muitas das circunstâncias. Mas também é verdade que têm um desafio muito grande pela frente e têm expectativas, têm metas que colocaram a si próprios, que em determinados momentos, face àquilo que podem estar a sentir devido às circunstâncias em questão, e a algumas vulnerabilidades Porque todos nós as temos, podem não conseguir essa superação. A Diana falava disso no princípio. Isto é sempre superação: mais alto, mais longe, mais forte. Até os jogos se chamam Jogos Olímpicos, que originariamente vem como uma inspiração dos deuses. E portanto, há uma aproximação à perfeição. Isso é, para qualquer um de nós, tremendo. Ainda mais, os países colocam sobre os ombros de cada um destes atletas uma espécie de representação daquilo que de melhor o país tem e às vezes tem o outro lado, que são o saco e o despejo das frustrações que cada um de nós tem na nossa vida, e portanto para os erros e para as nossas falhas e lacunas pagam estes atletas quando por acaso não conseguem atingir um objetivo, não vão ao encontro do que nós esperamos. Isto não seria simpático para ninguém. E nos tempos de hoje, com a visibilidade que tudo isto tem a cada momento, mais ainda.

Jorge Silvério, que é psicólogo clínico, para quem nos está a ouvir só agora e não desde o início da Contra-Corrente. A pandemia é um novo fator acrescido que pode fragilizar essa força mental que os atletas de alta competição precisam?

Sim, claramente. Tínhamos programado um ciclo olímpico de quatro anos, que de repente passou a cinco. Eu na altura estava a trabalhar com atletas e continuo a trabalhar com atletas que já tinham conseguido a qualificação, mas a grande maioria ainda estava a lutar por isso. E de repente houve muito menos provas, houve muito menos hipóteses de conseguir essa qualificação. E o ciclo foi adiado durante um ano. Também em termos daquilo que é a vida pessoal de cada um dos atletas, alguns deles ainda a estudar, outros já na vida profissional. Normalmente aquilo que eles fazem é no último ano do ciclo olímpico, investem mais na vida desportiva do que na vida profissional ou académica. Aqui teve que se prolongar mais um ano. Houve projetos de vida que algumas atletas tinham, por exemplo, engravidar, outros atletas que tinham como objetivo terminar a carreira nos Jogos. Tudo isto acaba por influenciar, e de que maneira, aquilo que acontece. Aliás, e posso avoá-lo porque é público, a Catarina Monteiro, com quem trabalho, ficou ontem em 11º.º E já tivemos a oportunidade de falar e um dos fatores que ela referiu foi, de facto, teve muito pouca competição ao longo deste ano para conseguir desenvolver ainda mais as suas capacidades. Isto pode parecer quase uma desculpa para as pessoas que nos estão a ouvir, mas é claramente um indicador que era extremamente importante. Ou seja, ela não teve competição a nível internacional, em Portugal não tem adversárias ao nível dela e portanto isto claramente condiciona a prática e condiciona depois o rendimento. Isto é para as pessoas perceberem, de facto, o impacto que tudo isto pode ter. Ok, podemos dizer: "Sei bem que são pormenores", mas é precisamente a este nível, ao nível tão elevado que os Jogos Olímpicos atingem, que estes pormenores, entre aspas, são extremamente importantes.

Claro, ritmo competitivo não é de todo um pormenor. José Manuel Fernandes, estes Jogos Olímpicos são, de facto, atípicos por tudo. E tu deste algumas razões, desde a equipa dos refugiados aos nacionalismos que estão outra vez muito acesos. Deste vários exemplos, mas são de facto uns Jogos Olímpicos particularmente políticos e menos desportivos?

Não tenho a certeza. Acho que há exemplos disso. Sentimos isso nalguns sinais, mas ao mesmo tempo, não creio que sejam mais políticos. Eu dei o exemplo daquelas reações ao que se passou com Osaka, mas ao mesmo tempo temos a equipa de refugiados, que é uma equipa patrocinada de alguma forma pelas Nações Unidas e que é um sinal de que há muitos atletas. Podemos até considerar um sinal político. Atletas que perderam os seus países, porque os seus países estão em turbulência, quer dizer, países como a Venezuela ou a Síria. Julgo que alguns atletas vêm desses países, dessa equipa, e que concorrem sem bandeira, mas com a bandeira olímpica, salvo erro. Portanto, são sinais positivos. O que é novo e o que é perturbante é um Jogos Olímpicos sem público, um Jogos Olímpicos que o país que os acolhe vê com maus olhos, onde eles não são populares, onde o continente onde eles decorrem é o continente que menos gostaria de os ter ali. A Coreia do Sul é um dos países onde as sondagens indicam que mais gente não gostaria que os Jogos Olímpicos tivessem a decorrer, apesar de ser um país ao lado, não se esquecer ali que as coisas estão a acontecer, onde há toda uma situação um bocadinho, às vezes, esquizofrênica quase, por causa da pandemia. E portanto, isso torna-os um bocado estranhos. Simplesmente, de facto, como nós percebemos até agora, neste caso da Simone Biles, tê-los adiado ainda mais para todos estes atletas teria sido Completamente destrutivo. Para muitos atletas, para a maioria dos que aqui estão presentes, para os futebolistas, para os que vão para o basquetebol, ou mesmo para os do andebol, ou mesmo para muitas outras modalidades, os Jogos Olímpicos não são o principal palco, mas para a ginástica, para o atletismo, para a natação, é claramente o objetivo de vida. É o momento, é a competição. É para aí que eles treinam, é esse o momento. Se não tivessem ocorrido, de alguma forma tudo teria perdido sentido, seria quase uma geração perdida. Eu acho que é bom estarmos a poder assistir a estes Jogos Olímpicos, mesmo estranhos como eles são. E ao mesmo tempo, é bom também podermos estar a ter esta discussão sobre a pressão que eles colocam sobre os atletas em situações-limite.

E nesse sentido, devemos agora um pedido de desculpa aos nossos ouvintes. Tivemos um problema na nossa central telefónica, o que nos impossibilitou de ouvir em direto as suas opiniões. Valeu-nos a participação que tiveram nas redes sociais. Amanhã estará tudo resolvido e teremos espaço para os ouvir, seguramente. Agradeço a participação do Bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues, do Jorge Silvério, psicólogo desportivo, e também do Nuno Delgado. Há um novo tema em debate e em análise amanhã no "Contra Corrente". Até lá.

Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.