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No Contracorrente de hoje, José Manuel Fernandes quer falar de imigrantes, mas dos imigrantes portugueses. Bom dia.

Isso mesmo, bom dia. Eu hoje quero falar dos imigrantes, porque quero falar dos portugueses que estão longe e quero falar desses portugueses que os nossos políticos gostam tanto de elogiar, mas que, no fundo, me parece que ou ligam muito pouco ou desprezam, ou mesmo desprezam profundamente. É que não consigo encontrar outra explicação para o que se passou este ano com o voto nos círculos da imigração. Primeiro de tudo, tivemos um governo formado e apresentado antes de sabermos o resultado dessa votação. Eu acho que é um desprezo, pelo menos, por essa votação. Todos já sabíamos que aquilo ia dar, mais ou menos. Sabíamos que não ia mudar nada, mas uma questão de respeito, talvez se pudesse ter esperado 24 horas ou encontrado algum jeito para ter esse resultado a tempo. Mais do que isso, acho que não faz sentido nenhum o sistema que temos, em que se tem que esperar tanto tempo pelo apreamento do voto dos círculos de imigração. No fundo, nós já estamos no século XXI, mas ainda votamos como no século XIX, o que é completamente anacrônico.

Refere-se à forma como se realiza o voto postal, é isso?

À forma, aos prazos, aos métodos, mas acho que neste caso, não foram poucas as queixas e vale a pena ver o que se passou. Eu, aliás, suspeito que há países, é o caso da África do Sul, onde terão sido muito poucos os imigrantes que conseguiram votar por causa do mau funcionamento dos Correios, e isto é intolerável. Eu estive a olhar para os números e os números do conjunto de África só explicam que quase ninguém votou. Repara, em África, a abstenção foi de 97%, enquanto, por exemplo, no Brasil foi de 90% e no Canadá foi de 85%. E nesses dois países, o tipo de comunidade portuguesa é muito parecido com o da África do Sul. Portanto, uma diferença tão grande no nível da abstenção cheira a esturro. Alguma coisa não correu bem. Mas eu acho que isto nem sequer foi o pior. O pior mesmo foram as complicações que inventaram e que explicam o disparar absurdo do número de votos nulos.

Como assim? O que queres dizer com isso?

Eu ontem quando olhei para os resultados da imigração, a primeira coisa que me saltou à vista foram, e repara bem neste número, 22,3% de votos nulos. Isto é uma barbaridade, uma coisa que nunca se viu. Vinte e duas pessoas enganarem-se preencher o boletim de voto, porem uma frase daquelas que a gente já sabe qual é, é um pouquinho demais. É estranho, é uma barbaridade. Portanto, é certo que este ano votaram muito mais pessoas, por causa da mudança do recenseamento, o que quer dizer que muitas votaram pela primeira vez. Mas quando o Observador ontem foi pedir explicações à Comissão Nacional de Eleições, descobrimos que alguém resolveu inventar um sistema novo de voto postal. Já não bastava haver gente a votar pela primeira vez, foram inventar um sistema novo. E quem inventou resolveu, além de inventar um sistema novo, inventar um complicômetro, bem à portuguesa. Antes, os imigrantes recebiam em casa dois envelopes: um verde pra colocar o boletim de voto e um branco, em que depois enviavam o envelope verde e uma fotocópia do documento de identificação. Era tudo muito simples, depois era só pôr no correio. Agora, em vez de dois envelopes, recebiam um envelope verde, normal, e uma folha com instruções, que depois tinham uns vincos que bem dobradinhos permitiam que a folha se transformasse num envelope. Portanto, o processo era tão complicado que até fizeram um vídeo com instruções.

Ora bem, então imagino que muita gente nem sequer viu esse vídeo.

Eu acho que é o mais provável. O certo é que cerca de um em cada cinco imigrantes enganou-se numa das fases deste processo e o seu voto acabou anulado. Eu acho que esta explicação, que é uma lamentável explicação, é a explicação da Comissão Nacional de Eleições. E pior, é que se olharmos para os resultados, vemos que foi nos países onde temos uma imigração, digamos, mais humilde, como a França ou a Alemanha, em que os votos nulos atingiram valores mais altos: 28, 29%. Já em países, por exemplo, como a Bélgica, onde uma parte da diáspora é mais letrada, por exemplo, é que trabalha nas Nações Unidas europeias, os votos nulos desceram pra 10%, o que é um sinal claro que foi a complicação da votação que causou o voto.

E isso é incrível, quer dizer, é difícil de entender.

Eu acho que é mesmo incrível e mostra um desprezo pelos nossos imigrantes e pelo tipo de imigrantes que nós temos. Eu acho que isto significa que entre os que se deram ao trabalho de votar, um em cada cinco viu o seu voto anulado involuntariamente. No fundo, anulado contra a sua vontade e contra o seu trabalho. Eu acho que isto é gravíssimo e por isso acho que o LIVRE tem toda a razão quando pede um inquérito urgente a tudo o que se passou. Até porque houve mais problemas além desses que eu aqui referi e que vale a pena investigar. Como disse, os nossos políticos gostam muito quando vão a um país com muitos imigrantes portugueses pra terem lá uma festa com a comunidade. Eu já assisti a alguma dessas festas e eles ficam sempre muito bem nas selfies. Mas as selfies não dão direitos políticos, os votos é que dão. Isto, se os votos não forem depois anulados.

Contracorrente com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge de Carvalho, segunda-feira, à nova edição. Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.