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José Manuel Fernandes, bom dia.

Bom dia.

Queres hoje abrir uma exceção aqui no Contracorrente para falar de um meme. Qual meme?

Bem, já vamos fazer quase um ano de Contracorrente, não me lembro de nunca ter falado de memes aqui nestas manhãs, mas hoje não resisti. Aliás, eu devo dizer que não sou nada de memes. Eles circulam agora à velocidade da luz nos grupos de WhatsApp e eu às vezes até fico um pouquinho saturado, mas ontem, por acaso, calhou-me abrir um que eu acho que estava mesmo bem visto. Colava os títulos de três notícias. A primeira era: "Governo francês vai dar mais 1500 € de bónus a profissionais da saúde". A segunda era: "Coronavirus: Alemanha vai aumentar a remuneração dos profissionais de saúde". E a terceira, era a mais recente, vinha com a fotografia do nosso primeiro-ministro e o título era: "Final da Champions em Lisboa é um prémio aos profissionais de saúde".

É, foi o que António Costa disse na cerimônia em Belém para comemorar essa grande notícia.

Pois, parece que a notícia era mais pra ele do que pros outros. Mas isso é um tema pra discutir numa outra altura, neste país que parece que só vive pro futebol. O que me interessa agora é ir mais ao contrário do que é habitual, é que eu fiquei a olhar pra aquele meme e resolvi fazer forward para um médico amigo, só pra ver a reação, por pouca sensibilidade. Ele, por acaso, já tinha visto e o mais importante foi o que ele me respondeu. Vou dar a resposta: "Esse meme já anda a correr aqui pelos nossos WhatsApps". E depois, só a seguinte frase: "Palhaços e sacanas". Bem, devo esclarecer que este meu amigo não é pessoa de grandes exaltações, pelo que achei a reação muito significativa, até pelo meme já andar a circular entre os trabalhadores da saúde. Depois abri o meu e-mail e o que lá estava? Estava o texto de outro médico, Fernando de Alencastro. Este envolvou-se em política, foi já ministro da Saúde. É um texto que hoje publicamos no Observador e também é um texto que revela bastante irritação com esta situação.

Mas não são apenas reações pontuais?

Olha, eu acho que francamente não devem ser, até porque nós acabamos de ouvir, é capaz de ter ouvido, o bastonário da Ordem dos Médicos, e ele também foi muito claro. Não é um tema que tenha agradado muito aos médicos. E neste caso, no caso quer do médico a quem eu mandei o meme, quer do Fernando de Alencastro, são médicos que trabalham na Grande Lisboa e por isso estão a lidar com este surto da doença, que é um surto que ninguém sabe explicar. Ou seja, eu acho que são médicos que estão cansados, que estão, porventura, saturados, que tinham a expectativa de que depois de todo o esforço que lhes foi pedido, e que eles deram com enorme generosidade, viriam dias, porventura, melhores, mas os dias melhores não estão a chegar. E já percebemos isso pelo orçamento suplementar, é que não vêm mesmo aí dias melhores. Eles também perceberam que há uma enorme quantidade de trabalho que está a acumular-se, porque muitos doentes foram deixados pra trás, por exemplo, como muitas operações cirúrgicas foram adiadas, e que o que aí vem, afinal, é o prémio da Champions, e que o prémio da Champions pode vir até o risco de mais contaminações. Portanto, eu se calhar, no lugar dele, também estava a chamar, perdoe-me a expressão, de facto, palhaços e sacanas a quem manda nisso tudo.

Mas falaste aí do risco de mais contaminações. Mas tu não defendes que devíamos estar a regressar à vida normal mais depressa?

A minha intuição é que nós temos, provavelmente, condições, em grande parte do país, pra isso acontecer. Mas o que eu defendo é que uma política tem que ser coerente e, sobretudo, tem que haver transparência sobre o que se está a passar e transparência sobre o racional das decisões. Ora, tudo o que temos assistido é o contrário disso. Por exemplo, eu acho absolutamente intolerável que ninguém saiba explicar-nos o que se está a passar em Lisboa. Por exemplo, onde é que estão os focos? Não é em Lisboa toda, seguramente. Quer dizer, há de haver sítios onde há problemas. Nós estamos a falar de uma festa no Algarve, e sabemos exatamente onde ela foi. Estamos a falar de um lar em Sintra e sabemos exatamente qual é o lar. Mas 90% das novas infeções foram durante imenso tempo em Lisboa e não sabemos onde elas foram. Isto é pra quê? É pra atirar areia pros olhos? O que estão nos escondendo? Quer dizer, este é o primeiro problema, a falta de transparência. É um problema que eu falo desde o primeiro dia e acho que é o mais grave, ou pelo menos é um dos mais graves. O segundo é outro que toda gente tem falado, que é a incoerência na política e às vezes nos discursos, e a sucessão de maus exemplos. Quer dizer, eu já ontem falei aqui do problema da má decisão sobre as escolas, mas posso recordar outros problemas. Quer dizer, depois, por exemplo, de ver toda a gente junta em certas manifestações e certas espetáculos públicos, eu gostaria de saber qual é o pai que consegue impedir um jovem de ter com os amigos uma festa. É um bocado difícil. Porque se é que se autorizam umas coisas, por que não se podem fazer outras? E a realidade é o que é. E, por isso, ontem, como eu costumo dizer, levamos uma grande bofetada.

E que grande bofetada é essa?

Bem, eu estou a referir-me ao fato de termos sabido que há seis países europeus que afinal não nos deixam voar pra lá. Portanto, éramos tão campeões, tão campeões, tão campeões, e de repente descobrimos que há seis países que olham pros nossos números e dizem: "Olha, isto afinal é um bocado perigoso e que os senhores não estão a conseguir controlar a pandemia". Portanto, andamos um bocado a cantar de galo e de repente chocamos com a realidade, e a realidade é que se calhar não houve aquele grande milagre português de que andamos a falar. Na verdade, neste momento, Portugal tem números diários, considerando o tamanho da nossa população, mas mesmo em termos absolutos, são dos piores da Europa. Eu acho triste que ninguém queira olhar para esta realidade de frente e nos andem a dar saltos e lançar foguetes com a Liga dos Campeões. A Liga dos Campeões vale pouco, porque o que vale realmente, o que é importante, era que os turistas pudessem regressar. Ora, eles não vão regressar se houver fronteiras fechadas, porque eles não passam, pura e simplesmente, não podem passar. Portanto, bem pode o ministro dos Negócios Estrangeiros fazer ameaças, que eu acho que quem fechou as fronteiras é para o lado que dorme melhor, não é com as ameaças que eles vão mudar de opinião. Por isso, eu vou voltar ao meu meme e aos meus trabalhadores da saúde. Eles estão lá dentro, eles sabem o que fizeram, eles sabem pelo que passaram. Eu não os vi ainda a bater palmas à doutora Marta Temido e suspeito que não os vou ver. Mas cá fora nós podemos andar ainda um bocado iludidos, até porque o povo é manso e teve muito medo do vírus e acha que toda a gente fez tudo muito bem. Mas eu acho que o feitiço não dura sempre. E se um dia se generalizar esta ideia dos palhaços sacanas, nesse dia, os populistas que estarão na mode cima não são os populistas que andam a lançar foguetes aos Champions, serão os populistas que se calhar, mais depressa chamam palhaços sacanas a todos os outros e são aqueles que a gente não gosta tanto assim.

José Manuel Fernandes, no "Contra Corrente das Manhãs 360", aqui na Rádio Observador e já sabe, sempre disponível em podcast.

Chamam-me Marcelo Rebelo de Sousa, sou professor. O vírus ataca toda a gente. O que apetece? Eu digo-lhes o que é que me apetece. Abraçar e beijar, de manhã, à tarde, à noite. Eu tenho a fama de beijoqueiro, mas é verdade, sou beijoqueiro. Presidente da República tenho que dar o exemplo. E no outro dia aconteceu uma cena incrível. Não resistiu, abraçou-me e beijou-me. Foi assim no meio da rua. Eu caí em mim, disse: "Para, para! Eu estou a fazer uma coisa que não posso fazer." E lembrem-se desta experiência. Digam: "Olha, aconteceu-me aquilo, de repente, caiu-me em cima." Contem essa história.

8h25, é hora do "O Bom, o Mau e o Vilão".

Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa ou 98.4, no Grande Porto.