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Sim, em primeiro lugar, nós temos também de perceber outras coisas. Ou seja, nós temos neste momento uma cobertura de pré-escolar até superior a outros países da União Europeia. E temos sempre de falar com muito cuidado nestas coisas, porque aquilo que nós agora consideramos bom, não é necessariamente aquilo que se vai considerar bom daqui por algum tempo, ou que se considerou bom no passado. Nós, neste momento, temos uma das convicções que é positivo para as crianças frequentarem o pré-escolar desde cedo, na medida em que isso depois promove a sua integração, favorece a sua progressão escolar e portanto, temos esse dado, a maior parte das crianças e até mais crianças em Portugal do que em outros países da União Europeia, vão às suas creches, aos seus infantários, à escola, claro. Isso é visto como positivo. Depois temos aqui estes números. Eles estão muito tempo na escola. Estão, certamente, mais tempo do que noutros países da União Europeia. Na verdade, é um horário de trabalho.
Sim, é o horário de trabalho dos pais mais o tempo dos transportes. A escola acrescenta um pouquinho.
Sim, em parte terá a ver com isso. Referiste aí algumas coisas, Portugal, por exemplo, é um país em que há a questão do horário de trabalho dos pais, a questão dos transportes, a questão daquela triangulação entre casa, trabalho, escola, isto admitindo, depois que as pessoas até têm os filhos na mesma escola ou se têm mais do que um filho. Essa é uma das questões. Temos também de perceber que em Portugal se trabalha mais horas do que noutros países da União Europeia, para lá de que não está vulgarizado, não é fácil as questões do part-time, que são soluções a que se recorre muito frequentemente noutros países. Os trabalhadores portugueses trabalham mais horas do que os outros.
Estão mais tempo na empresa.
Sim, e também trabalham mais. Isso depois a que te estás a referir, é um daqueles meus ódios, mas mesmo os grandes ódios de estimação, que é o presentismo. Mas os dados que nos dizem é que um trabalhador em full time em Portugal estará, em média, até mais do que 38, estará 40 horas por semana na empresa, ao passo que nós encontramos números significativamente baixos. Por exemplo, na Alemanha, 35, Dinamarca, 32, 33. Depois chegamos sempre àquela palavra que passamos aqui vida a falar, que é a produtividade. Com tanta hora no posto de trabalho, não se produz o mesmo, não estou a dizer que os trabalhadores produzam o mesmo. Ou seja, o resultado não é o mesmo. Portanto, a questão vai sempre dar tudo rigorosamente ao mesmo ponto. Mas na verdade, sim, os trabalhadores portugueses estão mais tempo que muitos outros de outros países da União Europeia no seu posto de trabalho. A isso junta-se então aquele meu ódio de estimação do presentismo. Que é aqueles que estão lá porque sim, porque é a sua forma de vida, é a sua forma de afirmação, é a sua forma de se justificarem a si mesmos, não têm mais nada para fazer, nem uma corda de roupa para estender. Olha, agora que estão 80 mil €, que há aquela polêmica enorme com a Maria João Simões olha pra mim.
Tu estás a olhar pra mim, estás a Carla Costa, nós sabemos.
Tu falaste em 80 mil € e claro que a João olhou.
Claro! Não estender roupa, 80 mil €.
Aquela enorme polêmica com as aquisições de obras de arte pelo Estado e haverá uma corda de roupa, um varal, por 80 mil €. Pelo menos podiam comprar cordas de roupa pra casa, qualquer coisa. Pronto, esse é um problema grande, também. E em Portugal não tem censura social. Eu acho que devia ter grande censura social, mas isso é uma opção. E acho que eu gostaria muito que conseguíssemos falar disso aqui. E depois temos aqui uma outra coisa também. As crianças também estão mais tempo na escola, para lá de tudo isto, e gostaria de perceber, também muitas vezes porque a escola é vista como um espaço seguro. Portanto, as crianças não estão na rua, não brincam na rua. E a escola é vista como um espaço seguro e se as pessoas têm que fazer qualquer coisa, têm a convicção que enquanto estão na escola, esse também é um tempo seguro. Agora, como é que isto se reflete nas crianças? Temos estes dados, temos a questão do porquê. Depois temos a questão do como é que isto se vai refletirComo é que eles reagem a mais atividades, a menos atividades? Qual é o tempo para não fazerem nada, para se aborrecerem?
O tédio.
O tédio é fundamental. Portanto, há esse lado que também gostaria muito que nós conseguíssemos aqui tratar. Eles estando tanto tempo na escola, o que fazem durante esse tanto tempo? Porque nós temos aqui idades diversas, é claro que nem tudo são atividades letivas, e portanto, como é que se organizam esses tempos? O que é que fazem? Qual é a margem para poderem organizar? Até para se poderem organizar, porque depois também há uma outra questão que eu acho que seria muito importante nós aqui conseguíssemos tratar, e que é: as escolas, nós em Portugal fazemos, como nos outros países, grandes investimentos nos edifícios. Valter Maia, já sabemos a escola, depois tivemos todas aquelas obras que foram feitas nas escolas. Mas a própria organização das escolas não permite, muitas vezes, um usufruto desses diferentes espaços, porque os meninos só podem ficar ali naquela parte que é onde estão os funcionários e as funcionárias, não podem muitas vezes usufruir os campos. Há ali quase que uma noção também muito securitária da escola. E também às vezes, e aí falo como mãe, como pessoa que esteve envolvida nas associações de pais, ficam aqui todos no lado da frente da escola, não se vai lá para trás. Ou seja, considera-se que se não houver funcionários, eles não podem estar e depois acabam por não usufruir os espaços da escola, mesmo quando esses espaços têm, por exemplo, zonas com árvores, com tudo isso. Portanto, temos também isto: o que eles estão a fazer lá?
Quando se sabe que a parte de trás do pavilhão é sempre muito mais interessante.
Pois todas as escolas. Isto até aos 11 anos, mas também para jogar à bola, para fazer essas coisas todas.
Com certeza.
Agora é que eu percebo os vossos olhares maldosos para mim.
Maldosos, como assim?
Não estava mesmo a pensar em quererem jogar. Foi uma queixa aqui recentemente, mais pequenina.
Acontece, sim.
E depois há uma noção muito: "Não te sujes, não caias, não corras, não vás para aí que é perigoso". Eles estão muito tempo na escola e também há essa questão: estão a fazer o quê? Portanto, gostaria, e acho que temos convidados que nos vão mesmo ajudar a responder a isto. Tudo isto, convém dizê-lo, o pretexto para este programa foi os números daquele estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos e também é justo dizê-lo, que têm tido aqui um trabalho muito meritório na divulgação destes números, que às vezes nos põem a pensar e olhar para nós.
E a falar da escola. Até já, Helena.
Até já.
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