O despejo de uma família de uma casa municipal em Marvila levou os manifestantes da Acampada de Lisboa a realizar uma vigília e a sua sétima assembleia naquele bairro, esta sexta-feira. O movimento, que nas últimas semanas se concentrou na Praça D. Pedro IV, anunciou nas redes sociais que o encontro foi convocado “em solidariedade com uma mãe viúva de 26 anos, com dois filhos menores (com 2 e 4 anos), despejada de uma casa municipal” — mesmo com as dúvidas que envolvem a situação.
Marcada para as 18 horas, a programação desta sexta-feira teve início com cerca de 60 pessoas. Agentes da Polícia de Segurança Pública acompanharam a movimentação no local. Ao aproximar-se das 19 horas, horário previsto para o início da assembleia, já eram cerca de 300 pessoas reunidas, entre jovens presentes nos dias anteriores e autarcas. Entre os manifestantes, estava o presidente da junta de freguesia de São Vicente, André Bivetti. “Vim hoje como cidadão, em solidariedade ao movimento”, disse ao Observador o autarca, que já declarou em várias ocasiões a sua oposição ao projeto de transformar o antigo Quartel da Graça num hotel.
Outro político presente foi João Ferreira, vereador da CDU na Câmara Municipal de Lisboa, que declarou também participar em solidariedade com a família despejada. “Assim que tivemos conhecimento sobre este caso, questionei o presidente da Câmara, procurando garantir uma alternativa de recursos habitacionais que não foi garantida antes do despejo”, disse ao Observador.
▲ A polícia estacionou os seus carros na Praça Dr. Fernando Amado. Não foram vistas intervenções durante os protestos
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
“As pessoas despejadas estavam inseridas no bairro, as crianças frequentavam a escola desta zona e de uma hora para a outra a família viu-se num momento difícil”, lamentou. “É um caso com contornos dramáticos e chocantes, fruto da ausência de uma verdadeira política habitacional”, afirmou o comunista. “E é por isto que continuamos a ver casos como este repetidamente e milhares de pessoas inscritas em programas habitacionais da câmara municipal que não encontram resposta”.
Numa publicação na sua página do Instagram, a Acampada de Lisboa refere que a família despejada vivia no bairro do Condado, Lote 568, em Marvila. “Foram vários eventos traumáticos”, diz o texto. “Durante mais de dois anos, [a família] pagava as rendas e tentou regularizar o seu contrato de arrendamento, sempre aceite pela própria Gebalis. Foi despejada, ainda assim, a 30 de julho”. Na Praça Dr. Fernando Amado, onde decorreu a manifestação, um dos porta-vozes do protesto pela habitação em Lisboa pediu que o movimento fosse fortalecido, anunciando ainda a preparação de uma greve geral. “É muito urgente reconstruir a nossa acampada”, afirmou António Tonga.
▲ Vigília começou às 18h com cerca de 300 pessoas e perdeu força até às 22h30, quando foi encerrada a assembleia
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Antes do início da assembleia, alguns manifestantes distribuíram exemplares da sexta edição de “A Passarada”, que se apresenta como um “jornal autónomo da acampada”. Os autores mantêm-se no anonimato e os conteúdos não são elaborados nem aprovados em conjunto com a organização da acampada. O primeiro de vários apontamentos sobre o movimento acusa a comunicação social de “inventar questões”, citando “os grafítis, a limpeza da estátua, os cartazes, a conchinha” como exemplos de temas usados para “encurralar a acampada numa permanente autojustificação”.
O texto defende ainda que a acampada deve ser organizada “de modo a desafiar a autoridade do Estado e do espetáculo mediático”. Em declarações aos jornalistas, uma das porta-vozes da Acampada de Lisboa negou que as próximas ações do grupo se assemelhem àquelas ocorridas em França nas últimas semanas. “A violência é da polícia e do Estado, que querem silenciar as reivindicações. O Governo continua a não dizer uma única palavra sobre os problemas da habitação”, afirmou Teresa Mamede, que tem a expetativa de que, no sábado, “milhares de pessoas tomem as ruas da cidade”. A jovem pontuou ainda os problemas que decorrem após os despejos: “As crianças têm que mudar de escola quando os pais são despejados, os trabalhadores têm que passar horas nos transportes porque não conseguem viver junto dos seus locais de trabalho, as comunidades estão a ser desagregadas com os despejos”.
Com uma hora de atraso, o grupo caminhou até um campo desportivo próximo dos prédios residenciais. A sétima assembleia da Acampada de Lisboa arrancou com aplausos dos presentes. “É preciso que tenhamos muito respeito por quem vive aqui. Pedimos desculpas pela invasão, mas não é à toa que cá estamos. É por causa de uma história muito triste e ainda sem resolução”, disse uma das porta-vozes da acampada.
▲ Pinturas na cara para as crianças e comida quente foram oferecidas por voluntários apoiantes do movimento
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Na hora e meia que se seguiu, foi aberto o microfone para quem desejasse fazer intervenções. A prioridade para falar, afirmaram os organizadores, era para os residentes na zona. Uma das pessoas que decidiu falar foi Olga Araújo, irmã do ator Bruno Candé e que vive na zona J há 44 anos. “As casas desta zona estão degradadas, mesmo que estejamos a pagar a renda todos os meses. Precisamos que a nossa voz seja ouvida através da luta. Através da vossa luta, vão escutar-nos”, disse Olga. “Continuem pacificamente, estamos todos juntos!”.
As várias intervenções foram mediadas por Priscila Valadão, que tem cumprido a função desde a primeira assembleia. Entre as chamadas para que os inscritos compareçam para falar com a multidão, a mulher anuncia que há comida quente disponível para quem desejar. Uma fila forma-se atrás de uma mesa onde estão duas grandes panelas cheias de massa com legumes. “Estamos a tentar fazer o melhor possível“, diz a voluntária que organiza os alimentos, muitos destes vindos de doações. Além da massa, há também garrafas de água, leite, iogurtes, frutas e pães com sementes. Em redor dos manifestantes, há crianças a andar de bicicleta e a aguardar por pinturas faciais na cara, iniciativa organizada por voluntários do movimento.
Perto das 22 horas, arrancou o momento principal da assembleia, com votações que definem os próximos passos do grupo. Na noite de sexta-feira, não foi convocado o acampamento no Rossio nem em Marvila. Os participantes estão a preparar-se para a extensa programação dos próximos dias: no sábado, às 11 horas no Rossio, será feita a pintura da faixa da manifestação marcada para as 15 horas, na Praça do Marquês de Pombal. Após a marcha, que deve ser encerrada no Rossio, por volta das 17 horas o grupo prevê iniciar a montagem das tendas para passar a noite no local. A próxima assembleia está marcada na Praça D. Pedro IV às 19h. Em seguida, às 21h, começam as apresentações de artistas apoiantes do movimento, com os Fado Bicha já entre os nomes confirmados.
▲ O frio dispersou o grupo antes do fim da assembleia. A programação foi encerrada numa conchinha com um minuto de silêncio
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
A organização apresentou novas propostas, todas aprovadas pela maioria dos presentes. Entre as reivindicações estão a garantia de que a habitação pública do Estado não será vendida, impedindo a sua privatização; a dissolução da Gebalis, com a transferência da gestão da habitação pública para o vereador da Habitação; e a canalização de verbas da Defesa para a habitação pública no Orçamento do Estado para 2027. Foram também aprovadas a organização de turnos de acordo com a disponibilidade das pessoas acampadas e a realização de uma “conchinha massiva” no aeroporto de Lisboa, em data a definir.
A descida das temperaturas fez com que cerca de um terço dos manifestantes tenha deixado o recinto desportivo antes do fim da assembleia. Com a dispersão do público, foi decidido (com “98 votos a favor”, segundo contagem da organização da acampada) que as votações de temas relacionados com a marcha devem ser realizadas no domingo, em horário e local ainda a definir. Às 22h30, a sessão foi encerrada com mais uma “conchinha coletiva” (sem pernoita) e um minuto de silêncio. Aos poucos, aqueles que resistiram ao frio começaram a abandonar a praça, que teve ainda a apresentação de dois artistas daquela zona: Rato Chinês e Mini Mouse.