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A lista parece não ter fim e ainda haverá muitos nomes por aparecer. Nos três milhões de documentos tornados públicos do chamado caso Epstein, há tantos e tantos nomes de ricos e famosos que se chega a duvidar se não é mais fácil identificar os que lá não estão do que referir todos os que, de uma forma ou de outra, fizeram parte do círculo do pedófilo, a maior parte deles bem depois de este ter sido condenado uma primeira vez, muitos continuando mesmo a defendê-lo quando novas e mais graves acusações surgiram. De Bill Clinton ao príncipe André, de Bill Gates a Peter Mandelson, dir-se-ia que estão lá todos, que todos puderam viajar no jato privado, incluindo até o famoso ativista radical Noam Chomsky. O que levou tanta gente a tornar-se cúmplice, a fechar os olhos, a defender o indefensável? Queríamos falar sobre isso no Contracorrente de hoje. José Manuel, lanço-te já uma pergunta, também achas que estamos, como alguns têm escrito sobre isso, perante mais um sinal de uma trágica deriva das elites financeiras e intelectuais do nosso tempo?
Bom dia, Carla. Em boa parte, sim. Até porque aquilo que aconteceu é difícil de perceber onde é que Epstein parava. Há pessoas que têm, e ele aparentemente seria uma dessas, um certo poder magnético para reunir à sua volta outras pessoas que querem criar redes de relações, que depois também servem para se autopromoverem, para ganharem dinheiro, naturalmente. Ele tinha uma empresa de consultoria financeira, mas que neste caso era muito mais do que isso e tinha uma amplitude difícil de imaginar, porque encontramos um ex-presidente como Bill Clinton, que foi várias vezes, nomeadamente à ilha, hoje em dia chamada de ilha dos pedófilos, uma ilha que fica nas Ilhas Virgens, uma ilha particular. Houve um período, mas numa fase muito antiga, isto há mais de 20 anos, em que ele também era muito próximo de Donald Trump, atual presidente, e futuro presidente nessa altura. Havia ali isso no que diz respeito a políticos. Depois, no que diz respeito a empresários, está lá quase tudo. Talvez o mais famoso de todos e que teve relações, onde há mais e-mails a revelar cumplicidade, seja Bill Gates, mas pela casa dele também passou Elon Musk, por exemplo, mas às vezes há coisas que são apenas festas. Às vezes é preciso distinguir o trigo do joio. E há outras situações que são particularmente perturbadoras. Por exemplo, há trocas de e-mails com uma figura muito conhecida do ativismo mais radical, que é Noam Chomsky, um acadêmico americano, que tem quase 100 anos, mas que há fotografias dele a viajar num avião particular, alguém que passa a vida a dizer mal do capitalismo, mas pelos vistos gosta da tessitura do capitalismo. E já depois de uma das condenações e das acusações que começaram a aparecer nos jornais, há e-mails a dizer que aquilo é tudo perseguição. Isto é muito significativo, até porque uma boa parte das raparigas, estamos a falar de conhecidos, muitos nomes, mas depois menos conhecidos, provavelmente centenas de raparigas que são envolvidas nisto. São miúdas que muitas eram pura e simplesmente abandonadas pelas suas famílias, ficavam com pais disfuncionais, famílias disfuncionais, um certo deixa andar dentro daquele limbo em que os valores tradicionais da família deixam de ter o valor que tinham e porque enquanto a coisa está perdida, acha-se que a escola, que o Estado, que as instituições os substituem, não substituem. Desse ponto de vista, há aqui também falhanços. Não estamos a falar de uma sociedade onde houve uma guerra e as famílias foram desfeitas, numa cidade onde houve uma crise, onde houve uma cidade pobre, onde vale tudo. Estamos a falar do país mais rico do mundo. É só isso. Talvez não per capita, porque ainda há alguns onde há mais riqueza, mas em termos de riqueza disponível são os Estados Unidos e numa das cidades mais ricas do mundo, que é seguramente Nova Iorque, onde tudo é fogo em termos de preço. Quando se chega a este ponto, é preciso perceber por que é que gente que não se percebe bem por quê, quer dizer, uma princesa norueguesa pedir conselho sobre se no quarto do filho deveria haver um pôster de mulheres nuas a fazer bodyboard ao Epstein. Os e-mails são absolutamente surpreendentes. Já não se fala do príncipe André. O príncipe André sempre foi uma espécie de ovelha negra da família real inglesa, britânica, mas que neste caso chega a pontos inacreditáveis. As memórias da rapariga que o acusa de ter abusado e com a qual ele achou o acordo para não haver mais processos judiciais, ou a quem ele pagou para não haver mais processos judiciais, basicamente, é um testemunho muito impressionante. Ela tem um livro de memórias publicado. Tudo isto revela Não apenas uma capacidade de influenciar. A maior parte destas pessoas não tinha necessidade, como se costuma dizer. Não era preciso. O que é que elas iam fazer ali? Agora, há aquela ideia de que quando se criam certos círculos, é necessário estar nesses círculos, e em nome disso, para estar dentro, para ser conhecido, para fazer parte daqueles que no fundo estão por cima, estão lá, estão a comandar tudo. E nessa altura fecha-se os olhos a muita coisa. Porque é quase impossível, para não dizer que é mesmo impossível, quando se ia para tais ilhas. Por exemplo, para essas ilhas, uma das pessoas que esteve lá, e por mais de uma vez, foi o presidente do comitê Nobel que escolhe o Nobel da Paz, a quem a Epstein depois também ajudou a arranjar melhores empregos para ganhar mais dinheiro. É disso que estamos a falar. Parece que há ali uma necessidade de estarem todos juntos e depois de se protegerem todos uns aos outros, sem limites, sem barreiras, fechando os olhos ao que for necessário, que é muito perturbador e vamos tentar falar um pouco sobre isso, mesmo considerando que muitas destas pessoas podem não ter participado nos crimes. Mas há situações, há um dos e-mails que, aliás, não se percebe quem é a pessoa que escreveu aquele e-mail, o nome está apagado. Tu falaste que há muita coisa que não é conhecida. Repara, de todos os documentos deste processo, que são seis milhões e meio, só três milhões e meio é que foram postos cá fora. Ainda faltam três milhões, falta metade. Há muitos nomes ainda que estão rasurados. Um deles, por exemplo, é alguém que diz: "Gostei muito da noite de ontem com aquela miudinha, ou com aquela piriguinha. Ela era um bocadinho", aquilo que nós em Portugal dizemos, "um bocadinho porca". Num e-mail. Não se sabe quem foi que escreveu isto, mas vê-se o nível e o tipo de coisas que ali se passavam. Tudo muito sórdido, de facto.
Até já, Joel.
Até já.
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