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Bem-vindos de regresso ao Conversas à Quinta. Hoje vamos falar do dia de hoje, isto é, do 1º de dezembro. Estamos a emitir este programa na rádio a 1 de dezembro de 2022. Ele ficará depois disponível em podcast, poderá ser ouvido noutras datas, mas hoje é mais um 1º de dezembro. Todos sabem, foi o dia em que Portugal recuperou a sua independência, o dia em que os conjurados retomaram o poder. Depois, não se resolveu logo tudo, ainda houve que travar algumas batalhas, uma guerra que se prolongou alguns anos, mas o dia simbólico, o dia importante é o 1º de dezembro. Vamos aproveitar esta oportunidade para falar um pouco sobre a independência de Portugal e sobre o significado de um país independente nos dias que correm. Jaime Gama e Pinto, se os conjurados não tivessem tido sucesso, haveria alguma possibilidade de, com o tempo, Portugal ser apenas uma província de Espanha, ou acha que nós, por comparação com a Catalunha, por exemplo, temos uma identidade diferente? Até que ponto a nossa identidade é suficientemente distinta ou é posterior a esse período de 1640?
Bom, isso é um ponto interessante e já agora, aqui há uns anos apareceu aqui em Lisboa, comparando com a Catalunha, porque eu acho que estaríamos de certo modo um bocadinho para a Catalunha. Aqui há uns anos apareceu aqui em Lisboa uma espécie de delegado ou representante oficioso do governo da Catalunha e que pediu para falar comigo e vinha trazido por um amigo comum, portanto eu fui vê-lo ao Hotel Altis e disse-lhe: "Olhe, antes de começarmos esta conversa, eu gostava de lhe dizer uma das razões porque estou aqui, ou a razão porque vim aqui, é porque eu tenho a consciência que nós em Portugal, em 1640, quando nos revoltamos contra Madrid e contra a tutela que sobre Portugal era exercida pela Casa de Áustria, nós fomos salvos, de certo modo, porque Madrid e o Conde de Olivares e o Rei Filipe IV priorizaram dominar a revolta da Catalunha a dominar-nos a nós. Portanto, nós tivemos quatro anos bastante tranquilos, em que pudemos, do ponto de vista diplomático, do ponto de vista militar, etc, preparar-nos para receber o embate de Madrid. Ora, se tivesse sido ao contrário, naturalmente, em vez de ser você que estava agora aqui em Lisboa a falar comigo, naturalmente era eu ou alguns portugueses que iríamos a Barcelona falar com vocês. Eu levei 20 minutos a chegar de casa aqui e levaria muito mais". Uma espécie de graça, mas eu acho que é importante. É evidente que se em 1640 não tivesse havido o levantamento da restauração com sucesso, com certeza que os portugueses teriam resistido e continuaria a haver, com certeza, uma nação. A questão aqui importante é a questão da nação e normalmente as nações querem um Estado para se defender, até porque perceberam historicamente que as nações querem um Estado. Era uma ideia que o Carlos Frederico diz que são uma espécie de irmãos siameses que se buscam permanentemente, onde há nação sem Estado, a nação busca o Estado e o Estado também, historicamente na Europa, de certo modo, construiu uma série de nações. Portanto, eu acho que sim, acho que teríamos mantido essa identidade que já estava criada. Já estava criada exatamente no século XVII, nos meados do século XVII, quando foi o levantamento da restauração, já estava criada essa nação e essa identidade nacional, tanto que quando veio de facto esse grito da revolta de Lisboa, ele foi rapidamente secundado pelos portugueses, até porque os portugueses tinham tido a noção que tinham perdido muito durante, embora teoricamente fosse uma monarquia dual, como se chamava, e que os Felipes eram reis de Portugal e reis de Espanha, não há dúvida que trataram bastante melhor. Por exemplo, as possessões de Espanha defenderam-nas muito mais encarniçadamente do que defenderam as possessões portuguesas, que entretanto praticamente na Índia e no Oriente foram todas ao ar. E no Brasil só não foram porque houve depois capacidade para as recuperar. Portanto, acho que sim, acho que teríamos um problema talvez semelhante ao da Catalunha ou até talvez mais forte.
Jaime Gama, está de acordo? Acha que a identidade nacional em 1640 já existia? É difícil falar de identidade nacional antes de haver a própria ideia de nação tal como entendemos hoje, ou não?
Sim, há conceitos aproximados. A nação também não é logo de início a nação dos românticos posteriores. É muito o recorte de um território por razões geográficas que são perceptíveis, não só rios horizontais e verticais, como cadeias montanhosas praticamente intransponíveis. Isso dá um recorte geográfico claro, a noção de um mapa. Depois, há todo o caldo de cultura e de integração política nascido da reconquista, que é fundamental. E há também toda a centralidade em torno de um poder régio, que se vai afirmando em aliança com coletividades municipais e disciplinando o campo da nobreza e das ordens religiosas. Portanto, há o tecido que está bem definido, bem ancorado. E depois há uma expansão marítima, norte da África, Madeira, Açores, e depois muito mais, e tudo aquilo que nós conhecemos, e há a consolidação do fator língua. E do fator língua, depois, também unido por obras literárias, poéticas ou outras, que valorizam esse recorte e essa identidade. Ou seja, em 1640 vamos encontrar o quê? Vamos encontrar tudo isso já tendo transcorrido uma experiência de integração na monarquia hispânica ou de ocupação. Agora é muito chique falar-se em monarquia dual e integração na monarquia hispânica, mas a verdade é que isso foi conseguido através de dinheiro, foi conseguido através de intriga, foi conseguido através de uma operação militar conduzida pelo Duque d'Alba. Portanto, não foi também algo que brotasse espontaneamente de um encontro para criar esse agregado maior. E atenção a um ponto bastante importante: é que quem está a renascer em 1640 é quem sentiu 1580 como uma capitulação pelo enfraquecimento com que se vinha confrontando a seguir a derrota de Alcácer Quibir. Portanto, toda a nobreza, toda a estrutura militar que aceita nas Cortes de tomar a sucessão para Filipe II, independentemente da argúcia jurídica e das demonstrações em termos de genealogia das casas reais e direitos pertinentes à Coroa, a verdade é que tem por integrador uma ocupação, uma manobra que estava concebida e planeada, e que foi executada, e que é uma manobra de força, de agilidade e de imposição. Não é preciso ir muito longe, basta ler um documento muito interessante e simples, que são as cartas escritas por Filipe II durante os dois anos em que está em Portugal, mais em Almada do que em Lisboa, porque ele receava ser objeto de um atentado em Lisboa. Demonstram como isso foi planeado e qual era o desenho geral de toda essa operação. Em 1640, há a consciência de que a monarquia dual não funcionou, que era, no fundo, um mero artifício formal, porque, na realidade, o que havia era uma dominação espanhola. Depois, com guerra na Catalunha, querer mobilizar os portugueses para irem combater na Catalunha, aumento de impostos pelo Conde-Duque de Olivares, o caráter absolutamente vazio de conteúdo do Conselho de Portugal em Madrid, junto do rei, e as figuras que desempenhavam funções de mando em nome do rei espanhol em Portugal, uma vice-rainha, o vice-rei, o secretário de Estado, tudo isso era uma coisa completamente artificial, porque havia, obviamente, a par disso, nas próprias guarnições militares, guarnições com composição espanhola. A pretexto de estarem a proteger a segurança externa, faziam também segurança interna. Portanto, em 1640, aproveitando o momento da franquia espanhola, um grande descontentamento popular e da alta nobreza em relação a essa experiência da monarquia dual, há um golpe de Estado em Lisboa que tem sucesso, que aclama o Duque de Bragança, um descendente do filho bastardo de Dom João I e da filha de D. Filipa Monaldes Pereira, e depois essa aclamação vai sendo sucedida no resto do país, nas cidades e vilas, nuns sítios com apoio da nobreza, noutros com apoio do clero, noutros com apoios populares e, portanto, vai-se estendendo essa teia de um novo poder
No país que resiste às agressões espanholas, que também não eram muito fortes porque havia a guerra na Catalunha, porque havia descoordenação e porque também a parte portuguesa se organizou bem e derrotou as ações militares espanholas quando elas se desencadearam, e derrotou no terreno militar. Por isso, ainda recentemente saiu em Espanha um interessantíssimo livro, na perspetiva espanhola, chamado "A Guerra de Portugal", que é no fundo a resposta de um perito militar à questão: como é que de 1640 a 1668, nós não conseguimos voltar a tomar conta de Portugal e perdemos a guerra?
José Megra Pinto, face a isto, há vários momentos em que nós podemos considerar que são momentos definidores da nossa independência. Naturalmente, este, e a guerra que se segue, mas depois há mais guerras com Espanha.
Sim, no século XVIII, há nas invasões francesas.
Exatamente, há mais guerras com Espanha, há o momento das invasões francesas. Quais os momentos que considera que de alguma forma são mais definidores da independência de Portugal?
Primeiro, claro, o ponto de partida é o Tratado de Zamora. Depois, eu penso que o completar da conquista do Algarve também é um ponto importante. Depois há a grande prova, que é uma espécie de segunda independência, que nós aliás também chamamos de Guerra da Independência, que é de facto a revolta de Dom João, mestre de Avis e do Condestável Nuno Álvares Pereira e de João das Regras e de toda essa linha de gente que nos finais do século XIV, entre 1383 e depois seguindo 1385, até ao fim da Guerra da Independência, faz uma coisa que é bastante significativa, porque a ideia do ponto de vista do direito da época, do direito feudal, de certo modo, a coroa devia caber a Dona Beatriz, filha de Dom Fernando, que tinha casado com Dom João I de Castela, e que o testamento de Dom Fernando tinha sido jurado sobre a hóstia consagrada pelas cortes. Ora bem, numa época em que durante muitos séculos ainda foi assim, que o facto do rei ser estrangeiro era uma coisa perfeitamente secundária, esse levantamento popular e seguido por uma grande parte da nobreza é muito interessante, porque nessa altura o corte a nível da nobreza, os chefes das casas seguem, regra geral, Castela, com pequeníssimas exceções, como a Casa dos Cunha das Beiras, mas seguem de um modo geral a causa de Castela, os chefes das casas, e os bastardos e os filhos segundos seguem a causa do mestre de Avis, o que também do ponto de vista de interesses pode ter algum significado. Depois, para mim também, e penso que para toda a gente, é muito importante toda a estratégia das descobertas e conquistas de além-mar. Porque arranca-se para isso antes de Castela ter unificado a Espanha, e enquanto Espanha continua praticamente toda em guerra durante o século XV, Portugal está em paz, tirando aquela breve incursão de Dom Afonso V também nas guerras dinásticas de Castela, que leva à Batalha de Toro, mas Portugal está em paz e pode tranquilamente levar por diante toda essa empresa dos descobrimentos, que vai culminar no final do século XV com a chegada de Vasco da Gama à Índia e com o Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Tudo aí é uma convergência, depois a primeira gramática portuguesa, que é de 1536, se não estou em erro, de Fernando de Oliveira. E depois, claro, temos aquela conjuntura que leva a Alcácer Quibir. Mas outro ponto que eu acho que é interessante: houve sempre uma certa resistência a essa ocupação espanhola, quer dizer, basta lembrar, por exemplo, os falsos Dom Sebastião, que é uma projeção muito popular e importante, e como o professor Borges Macedo dizia, ele combatia muito a ideia de que o sebastianismo era uma coisa de quietismo, de acomodação, de resignação. Ele costumava sempre dizer: "Morreram todos enforcados, os falsos Dom Sebastião". Portanto, há essa permanente revolta ou essa permanente insatisfação. O frei Bernardo de Brito escreve, imagina aquelas histórias de Portugal. Depois, a partir de 1640 temos vários períodos, mas temos sobretudo esse período da resistência aos franceses, que também é muito importante, porque apesar de tudo, passa-se numa altura que a coroa e a direção, a hierarquia está fora do país, ou melhor, está no Brasil, mas está fora do território europeu continental, e vê-se aí que há uma fortíssima vontade, há um sentimento popular, que é também religioso, mas que é também nacional, de não gostar, de não querer cá os estrangeiros. Depois do século XIX há uma certa decadência. Aliás, temos alguns dos nossos melhores espíritos que têm no século XIX aquela tentação iberista. Observa-se em alguns deles, embora no fim também se arrependam. Não há dúvida que há passagens, o Jaime Gama também conhece, penso eu, bastante bem isso, mas há passagens quer com Oliveira Martins, quer com o próprio Antero, quer dizer, há ali um desânimo perante a decadência no século XIX, também já tinha havido um pouco isso no próprio . O Hurculano nunca foi iberista, mas o Hurculano tinha uma conceção de Portugal muito pouco da expansão, era mais um homem aqui do território continental europeu. Há um espírito de facto de resistência bastante importante, que depois com o período do Estado Novo, quer a política durante a Guerra Civil de Espanha, quer a política durante a Segunda Guerra Mundial, é sempre uma preocupação muito grande defender os interesses da independência nacional e mesmo toda a questão da guerra de África, é essencialmente porque Salazar achava que sem o império, Portugal seria facilmente dominado ou pela Europa ou pela Espanha. Isso foi, penso eu, a grande razão das guerras, da resistência em África, àquilo que pareceria ser uma vaga mais ou menos irreversível da descolonização. Era essa preocupação de defender a independência. Eu não gosto de dizer identidade, porque identidade não é bem um conceito político, é mais um conceito étnico ou cultural. E a independência política é fundamental até para defender essa identidade.
Jaime Gama, até que ponto é que mantermos estas fronteiras quase inalteráveis durante tantos séculos é uma espécie de milagre na Europa? A nossa posição geográfica é só fruto da posição geográfica ou há mais do que isso?
A posição geográfica tem uma grande importância na consolidação das nações e dos Estados também. A circunstância de a Espanha, ela própria, ser plural e diversa e, no caso português, haver uma homogeneidade muito mais visível. O caso de ter havido confronto, o caso de haver a perceção de que há interesses comuns, mas que muitas vezes as perspectivas têm pontos de partida diferenciados. Por exemplo, neste momento da restauração que nós estávamos a apreciar, Portugal simultaneamente liberta-se dessa tutela espanhola e estabelece uma relação paradoxal com outros aliados, com a França, com a Inglaterra, com a Suécia e com a Holanda. E no caso especial da Holanda, a Holanda é nossa aliada porque é contra a Espanha, mas continua a bater-se por retirar-nos alguns territórios na América, na África e na Ásia. E isso é objeto de um tratamento muitíssimo especial, porque uma das razões que também está na origem, em 1640, é o que estava a ser o retalhamento do império português por esse acosso de outras potências, designadamente do império marítimo emergente que os holandeses queriam criar. Os holandeses, mesmo já depois de 1640, continuam a atacar no Brasil, no Maranhão, a Bahia. Continuam a querer anexar Angola e por isso é que é feito partir do Brasil a expedição de Salvador Correia de Sá para tomar. Ataca Angola, ataca Malaca, ataca o Ceilão, ou seja, há aí uma espécie de guerra em frente dupla. Muitíssimo interessante de analisar, porque vemos também como da restauração emerge um corpo militar novo, emerge um corpo diplomático novo e um aparelho central da governação do Estado, com o aparecimento de uma nova nobreza de antigo regime, que é uma nobreza ao redor de Dom João IV, e que vai ser o sustentáculo também de um regime político que aguentará até ao liberalismo, mas que faz a defesa de todos esses interesses e que organiza os novos dispositivos militares, as novas chancelarias, a própria coroa e o governo que a coroa na monarquia absoluta estrutura depois desse corte com a Espanha e ante a necessidade de enfrentar esses combates múltiplos. Porque são combates que por um lado são combates na fronteira próxima, porque durante todo esse período, até à normalização das relações com a Espanha, há o receio de uma grande invasão espanhola, que nunca se chega a concretizar, mas há também todos esses ataques dos espanhóis e até dos holandeses em todas essas áreas do mundo onde havia fixação de interesses portugueses. E é importante ver como Por exemplo, Charles Boxer disse que entre nós e os holandeses há a primeira guerra da globalização, a Primeira Guerra Mundial, porque há o teatro África, há o teatro Oriente e há o teatro América Latina. E de certa maneira, na guerra dos portugueses com a Holanda, há um empate em África, há uma vitória portuguesa na América Latina e há uma derrota portuguesa no Extremo Oriente. Com uma ideia de que o primeiro enfrentamento global à escala planetária é o enfrentamento entre o primeiro império marítimo, que é o império português, o segundo, que é o holandês, até vir depois o império britânico. A relação nossa com Espanha, neste caso, está muito focalizada na Península Ibérica, ela mesma, e no recorte do território, porque a população e o território são naturalmente a base do Estado. Todas essas crises vieram sempre reforçar a noção da importância do Estado português e, portanto, a importância de que o Estado português nunca se dilua para baixo, ou seja, nunca desarme a sua estrutura estadual e também nunca se dilua para cima, integrando-se em blocos que, de certa forma, enfraqueçam o contorno próprio da identidade estatal. É uma lição que a história nos ensina.
Já me grapto. E hoje, passados estes séculos todos, estamos no século XXI, estamos integrados na União Europeia, transferimos para a União Europeia grande parte da nossa soberania. Como é que olhamos para a independência de um país independente quando, por relações económicas, por relações políticas, o grau de liberdade de decisão dos países está relativamente restrito?
Sim, mas é curioso. Por acaso é um ponto que eu gosto de chamar a atenção, porque eu próprio também só recentemente é que comecei a refletir a fundo, até por algumas coisas que estava a escrever sobre isso. Curiosamente, a nossa primeira globalização, que há pouco o Jáme Gama estava a falar, um dos confrontos da globalização foi, de facto, esse nosso confronto com os holandeses nos espaços de globalização europeia. O segundo grande, que ocupa praticamente um século, é o confronto anglo-francês, que é um confronto essencialmente também de globalização, que se passa nos Estados Unidos e Canadá, que se passa na Índia, que ocupa também a África, etc. A globalização, se por um lado foi, e até muito tarde, ainda aqui há 100 anos, praticamente o mundo era um mundo dominado praticamente pela Europa e pelos Estados Unidos, claro, mas sobretudo pela Europa. E esse mundo, essa globalização promovida pela Europa e pelos impérios europeus e pelo imperialismo europeu, levou também, curiosamente, para esses espaços, o Estado soberano. Quer dizer, o Estado soberano, portanto, ao mesmo tempo, multiplicaram-se os Estados soberanos. E nós hoje vemos, mesmo dentro da Europa, que voltou a haver, já não havendo tanto movimentos chamados eurocéticos, mas aparece o conceito da Europa das nações e aparece cada vez com mais força. E no fundo, também a gente vê que os próprios Estados mais integrados e até líderes da União Europeia, como é o caso da França ou da Alemanha, sempre que estão em jogo ou sempre que estão em disputa critérios de valorização do interesse nacional e de um hipotético interesse europeu, escolhem os seus interesses nacionais, até porque no fundo, mesmo independentemente da sua ordem ética nessa valoração, eles sabem perfeitamente que as eleições são Estados democráticos e que eles são eleitos por seus nacionais, não são eleitos por Bruxelas. Se pode às vezes nalguma periferia, nos Estados mais débeis, como no fundo, Portugal passou a ser, por variadíssimas razões, até porque desnacionalizou profundamente a sua economia, desnacionalizou não é no sentido da apropriação pública, é no sentido da propriedade de muita empresa em Portugal, hoje em dia, não ser de portugueses, ser de estrangeiros. Mas essa foi, de facto, uma desnacionalização muito forte da economia, que com certeza traz fenômenos de uma certa subordinação. Mas eu creio que o fator político, independência política, soberania, tudo isso está muito forte e Portugal, até porque tem esta coincidência interessante de ser um Estado muito unido, ou pelo menos tem sido, espero que não o desunam agora com novas ideias De regionalizações, que voltam sempre à carga periodicamente. Quando não há mais nada que fazer, fala-se disso. Não há dúvida que o facto de sermos um Estado nacional em que as fronteiras, como há poucos estávamos a dizer, as velhas fronteiras, velhas no sentido de antigas fronteiras do Estado, correspondem mais ou menos, e até por defeito num certo caso, às fronteiras da nação, no sentido da nação histórico-cultural. Não há dúvida que Portugal tem nesse aspecto uma vantagem comparativa, até porque a maior parte dos casos, e vemos isso hoje na Europa, de tensão, de instabilidade, etc, vão cada vez mais dever-se muito menos a questões de classe social ou de confronto de classes, mas a questões de identidades. Esse fator não me parece que esteja a diminuir. Se os nossos governantes souberem tomar conta dele e não sejam eles próprios a levá-lo por caminhos de autodestruição e de subordinação, eu acho que Portugal, nesse aspecto, apesar de tudo, apesar dos problemas, apesar da pobreza, apesar do recuo, apesar de tudo isso, ainda tem uma certa capacidade de manter a sua independência.
Jaime Gama, esta visão é a visão mais acertada? Quer dizer, nós temos a nossa independência, temos as nossas eleições nacionais, a democracia exerce-se mais no espaço nacional do que nos espaços supranacionais. Mas, ao mesmo tempo, há em muitas populações a percepção de que isso não permite, de facto, exercer verdadeiramente a democracia, porque a margem de liberdade é pequena. Isto não tem a ver apenas com a integração europeia, tem também a ver com tudo o que deriva, por exemplo, da globalização, dos mercados financeiros, dos mercados globais, da integração económica, de estarmos em alianças de defesa. Os nossos governantes, já foi governante várias vezes, sentem que para além da política doméstica, têm realmente uma margem de soberania à moda antiga, digamos assim, suficientemente dilatada para concretizarem os seus programas?
A soberania também começa pela nossa cabeça. A nossa cabeça tem que ser soberana e, portanto, tem que saber pensar com independência, critério, objetividade, os problemas da sociedade, da economia, a forma como gere a sua relação com o exterior, que é uma relação nuns casos mais bilateral, noutras situações mais multilateral. A variedade de plataformas em que nos integramos hoje é muito diversa, não é só política, é financeira também, é comercial. E temos também que ter em conta que, na verdade, o fluxo de informação prático, ou seja, de informação que transporta dinheiro, que transporta mensagens, que transporta cultura, que transporta propaganda, tu fazes parte do mundo atual. E, portanto, esse é também um desafio que se coloca a todos. Uma das piores maneiras de responder a esse desafio é dizer logo à partida: "Estamos perdidos, porque não controlamos nada e, portanto, não vemos nada, não percebemos nada, não podemos manter a nossa liberdade". Bom, é uma desistência de pensar e é uma desistência de agir. Temos que fazer um esforço para saber ler o que se passa e para saber gerir o interesse concreto de algo que tem que ser visto ou como nação ou como sociedade, mas sobretudo como Estado. Daí a importância de um mínimo público para proteção do conjunto, porque eu percebo a necessidade de não querer economias burocratizadas ou estatizadas, porque isso não tem dinâmica. Mas o denegrimento permanente da esfera pública é também nocivo aos próprios interesses da sociedade livre, dos cidadãos e das iniciativas livres dos cidadãos. Portanto, não há no mundo atual uma utopia do não público, porque a utopia do não público é uma selva. Portanto, tem que haver um mínimo ordenador no plano do Estado nacional e um mínimo ordenador nas relações internacionais. Isso tem que ser compreendido não como algo que asfixia, mas como algo que reequilibra os poderes à escala mundial. Isso é positivo, é benéfico. Portanto, aí faz um certo sentido uma defesa de uma intervenção adequada da esfera pública. Depois, naturalmente, não se pode hoje agir em matéria internacional sem ter também um mínimo conhecimento da história
Sem ter um conhecimento de como estas formações e estas relações se foram desenvolvendo. Muitas vezes há debates sobre isso no seio da União Europeia. No seio da União Europeia é preciso saber gerir o interesse de cada país. E tanto não sabem aqueles que fazem um protesto contra o conjunto, como aqueles também que apenas atuam como delegados serventuários da ideologia da central, que no fundo é um conjunto de funcionários sem responsabilidade direta perante ninguém, porque não é eleita, não se confronta com o voto. Portanto, é preciso aí também saber percorrer um caminho que tem que ser percorrido, porque nós não podemos inventar um mundo como se o mundo é o mundo que existe, é com ele que temos que lidar, que temos que proteger interesses, que temos que abrir espaços, que temos que fazer vingar pontos de vista. Portanto, a preparação para a gestão destes problemas, que integra vertentes demográficas, vertentes económicas, vertentes culturais, vertentes diplomáticas, vertentes militares, é uma preparação que deve ser muito bem cuidada e que também não pode derivar de culturas políticas originadas de slogans ou de frases feitas, de clichês. Tudo isso é empobrecedor. Não vamos querer resolver uma situação que é complexa na base do agresso ao mais boçal dos simplismos, porque também não funciona. É mau. Portanto, é preciso fazer um esforço. Digamos que está em aberto uma escola de educação, uma escola de formação para o Estado, como as grandes escolas de certas épocas, como o confucionismo na China ou outras oportunidades semelhantes para saber pensar o mundo que nos rodeia, não claudicar, não simplificar, perseverar. E temos, no caso de Portugal, o exemplo de como uma reflexão redobrada da nossa parte pode muitas vezes corrigir deficiências, caminhos inseguros, em preparação, e pode levar a um rumo certo. Porque se há país na Europa que tem boas lições a colher da forma como se afirmou, sobreviveu, resiste, tem unidade, sabe defrontar o campo da vizinhança ampla e o campo da globalização, é Portugal. Mas temos que saber ser patriotas sofisticados. Não podemos ser só patriotas quando a seleção nacional marca um golo. Está muito bem, é bom, mas é preciso também melhor ainda.
Bem, nós entretanto terminamos mais um programa neste dia especial, primeiro de dezembro. Reencontramo-nos dentro de uma semana com uma promessa: vamos falar de livros, livros pro Natal, algumas das melhores leituras deste período e deste ano de 2022.