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Bem-vindos de regresso ao Conversas à Quinta. Nós hoje não estamos a conversar à quinta-feira, estamos a gravar na quarta-feira anterior e por isso não temos ainda todos os resultados das eleições intercalares nos Estados Unidos, as midterms. No entanto, já há umas tendências que podemos considerar relativamente seguras. Muito rapidamente podemos dizer que a expectativa relativamente à chamada onda vermelha, red wave, dos republicanos não se materializou. Há avanços dos republicanos na Câmara dos Representantes. Em princípio serão suficientes para lhes garantir uma maioria, mas uma maioria estreita, portanto não há ainda resultados finais, repito, pode haver aqui surpresas. No que respeita ao Senado, atualmente a inclinação maior é que o Senado poderá ficar ou como estava ou até um pouquinho mais democrata, está tudo ainda mais indefinido do que no caso da Câmara dos Representantes, mas eu arriscaria dizer que os democratas vão aguentar a sua maioria, mesmo que seja uma maioria desempatada pela vice-presidente Kamala Harris, portanto uma maioria de 50-50. E houve alguns resultados importantes durante a noite, com alguns triunfos que fazem emergir algumas figuras, sobretudo no Partido Republicano, designadamente o governador da Flórida, DeSantis, que teve um resultado muito expressivo, o que poderá indicar que ele é um putativo candidato ou protocandidato às próximas eleições presidenciais. Tudo isto num quadro em que se chegou a esperar que Donald Trump fizesse qualquer anúncio na véspera das eleições. Ele não o fez, adiou para a semana que vem, mas eu arriscaria dizer que Donald Trump se pode contar entre os derrotados desta eleição, uma vez que os objetivos que ele esperava alcançar não os alcançou e, pelo contrário, alguns dos seus protegidos foram derrotados. Não obtiveram de forma alguma os resultados que gostariam de alcançar e viu emergir algumas figuras de que ele não gosta muito no Partido Republicano, como potenciais adversários, já falei de DeSantis, mas podemos também falar do governador da Geórgia, Kemp, que também teve uma vitória muito folgada, muito mais folgada do que na anterior eleição e que foi um adversário encarniçado de Trump quando foi a questão das eleições de 2020. Portanto, temos muitos pontos por onde podemos começar a discussão. Jaime Galapinto, este resultado fica aquém daquilo, eu não diria daquilo que esperavam as sondagens, porque isto cabe dentro daquilo que as sondagens indicavam. Havia mais uma expectativa criada pela leitura das sondagens, em que se considerava possível uma onda vermelha que não se materializou. Como é que explica que os republicanos, numa altura em que o presidente tem a despopuralidade tão baixa e que a economia está complicada, não tenham conseguido melhor do que aquilo que eventualmente vão conseguir?

Olhando para as várias explicações, eu acho que de um modo geral, mesmo vários comentadores conservadores e de redes sociais conectadas com a área conservadora republicana, acham que isso se deveu a candidatos, mesmo em áreas relativamente seguras, a candidatos que não eram os mais indicados ou os melhores possíveis, mas que tinham o apoio de Donald Trump. Não há dúvida que Donald Trump tornou-se um símbolo, para bem e para mal, de determinadas coisas. E aqui parece, estou a sufragar-me um pouquinho no que vi nas opiniões dos Estados Unidos, que de facto houve aqui uma rejeição, pelo menos de parte dos candidatos que foram sufragados ou apoiados por ele. Essas opiniões baseiam-se nesta ideia de que é uma personalidade que tende a unir os inimigos e a dividir os amigos, usando uma linguagem schmittiana. Não há dúvida que os problemas que mais preocupam neste momento os americanos é a questão da inflação. Não há dúvida que há também uma tradição nos midterms do partido que está na Casa Branca normalmente pagar alguma coisa por isso. Aqui tínhamos o caso, de facto, de um presidente com níveis de impopularidade altos e de popularidade muito baixos e que é clarissimamente rejeitado por muita gente, pela maioria, pelo menos, dos eleitores. Depois há aqui uma questão de fundo, que é capaz de ter tido alguma influência contra os republicanos, que pode ter sido a questão do aborto, porque houve quatro ou cinco referendos em que essa questão foi também levada a referendo em quatro ou cinco estados, a maior parte deles claramente democráticos, mas de qualquer maneira De certo modo, houve uma rejeição da decisão do Supremo Tribunal, que muitas vezes tem sido erradamente apontada como uma proibição do aborto, quando o que o Supremo Tribunal fez foi remeter para a legislação de cada estado essa decisão. Portanto, não foi propriamente uma proibição, foi entregar a questão do aborto a cada estado da União, como aliás está, por exemplo, a legislação sobre a pena de morte. Parece para já que essa tal vaga vermelha, a vaga conservadora, poderá ter estas várias explicações para não se ter concretizado. De qualquer maneira, parece que, de facto, eu neste momento estive a ver os resultados e os republicanos levam uma vantagem de 24 lugares e falta apurar ainda 30. Portanto, será difícil que não saiam vencedores ou controlem a Câmara dos Representantes. O Senado vai ser mais demorado e tudo indica também que vai ter uma segunda volta, pelo menos num estado, na Geórgia. Portanto, só daqui a duas ou três semanas é que saberemos o que é que aí vai acontecer. Por outro lado, também há figuras que, de facto, como é o caso de Ron DeSantis, que emergem dentro de ideias que podem ser próximas ou parecidas das ideias conservadoras, próximas das de Donald Trump, mas que não são ideias de Donald Trump, são ideias conservadoras e que Trump, de certo modo, também aderiu a elas. Trump, aliás, é um cristão novo nessas matérias, toda a vida dele, mesmo políticas, influências políticas não tinham nada a ver com essa linha. E Ron DeSantis que faz uma grande campanha contra a ideologia de esquerda, contra o wokeismo, os exageros dos LGBTs, tudo isso, é eleito com uma claríssima maioria, perto dos 60% na Flórida. Portanto, vê-se que é uma figura que está em alta.

José Gama, nestas várias leituras possíveis da eleição dessa semana, um dos elementos mais relevantes, que está a ser destacado por vários analistas, é o facto de isto não favorecer a possibilidade de uma recandidatura de Donald Trump. Ele viu algumas das figuras que apoiava perderem, está associado por isso a algumas derrotas, designadamente na Pensilvânia, mas não só. A dificuldade, por exemplo, da eleição do senador da Geórgia, Walker, que também era muito próximo dele. Conseguiu eleger algumas pessoas que contaram com o apoio dele, como por exemplo o Vance no Ohio. Mas pode-se dizer, como por exemplo, há pouco estava a ver o "Telegraph", o "Telegraph" diz que ele é o derrotado da noite eleitoral.

Trump agitou-se muito com esta eleição. E também temos que ver se Trump se agita com esta eleição porque quer ter um futuro político ou porque quer evitar as consequências do passado político, designadamente os processos judiciais, os processos que ainda estão em curso no Congresso. O Congresso só a 3 de janeiro é que muda de mãos. Portanto, paira sempre essa dúvida. E também a sua agitação em relação a potenciais rivais no Partido Republicano demonstra da parte de Trump insegurança, desconforto, hiperativismo. A quantidade de vezes que ele há dois ou três dias disse que ia anunciar a sua recandidatura a presidente e que depois adiou a conferência de imprensa, os ataques que tem feito, por exemplo, ao governador eleito da Flórida. Tudo isso deixa um pouco pairar no ar a ideia de que a aposta Trump foi uma época, mas que o seu declínio é inevitável. Aliás, muita gente diz que os republicanos em público ainda deixam ficar colada a Trump a sua imagem, mas em privado todos dizem e aspiram: "Esperamos que Trump desapareça para isto entrar numa nova era, porque ligados a esta hipoteca não vamos a lado nenhum". Depois, é muito diferente, por exemplo, alguém como Trump participar e influenciar as primárias pra designação de candidatos pro Partido Republicano e depois como influenciar o eleitorado republicano, porque há uma diferença entre os ativistas e o campo eleitoral, embora o campo eleitoral esteja perpassado por todas essas correntes que hoje extravasam um pouco aquilo que eram as formatações clássicas das opções e das correntes políticas. Trump, por exemplo, em algumas intervenções que fez Na eleição, não nas primárias. Ao querer colar-se à eleição, hoje é concluído por muitos republicanos como até tendo sido prejudicial ao resultado da eleição.

Será que eles estão em condições de aprender isso, de interiorizar isso? Será que os republicanos...?

Ele vai fazer tudo para conseguir. Ele está a atacar para se defender. Ele não está a atacar para ganhar, está a atacar para se defender. E isso já é o princípio de algo que indica uma mudança. Muito se vai passar, muita água vai correr no Partido Republicano daqui pra frente, isso é evidente, embora o fenômeno da pulverização e segmentação dos eleitorados, quer no campo republicano, quer no campo democrático, sejam uma constante da vida política dos Estados Unidos há 30 ou 40 anos. Os republicanos e os democratas formavam campos claros, baseados em ideologias genéricas, com diferenças claramente definidas. E hoje cada campo tem essa mistura de componentes identitárias de várias origens, que fazem com que ao final cada campo seja uma espécie de coligação, ou de frente, ou de aglutinação, que às vezes é difícil manter unida. E depois também cada campo gera rejeições. Por exemplo, Biden está num momento baixo, mas Trump está pior nas sondagens. Biden não está famoso, mas se formos ver o agregado de sondagens sobre personalidades políticas nos Estados Unidos, Trump está pior. Trump está abaixo de Biden. Quando a fogosidade com que ele intervém parece quase afirmar que está muito acima. A questão da contestação da eleição e do resultado da eleição e o assalto ao Congresso é algo que marcará profundamente a vida americana pro futuro. E vamos ver agora, os republicanos tudo indicam que vão ganhar as eleições pra Câmara dos Representantes. Então vão contestar o sistema eleitoral que lhes dá uma vitória? Na Geórgia, porque nestas eleições foram eleitos também governadores, foram eleitos procuradores-gerais, em Nova York foi reeleita a procuradora-geral que conduz processos contra Trump. Na Geórgia foi eleito secretário de Estado para as questões do interior, as questões eleitorais, aquele que Trump quase quis obrigar a demitir-se ou então a fazer a negação do resultado eleitoral e que se recusou a fazê-lo. Aqui Trump também não sai muito validado com a reeleição daquele que foi, porventura, o obstáculo mais efetivo a que o resultado das eleições não fosse impugnado, porque as eleições eram eleições que é o próprio Estado que organiza e esse responsável era o organizador. A questão da contestação aos resultados eleitorais, que é uma coisa nova introduzida na vida política dos Estados Unidos, também um pouco no Brasil agora, é algo que também tem os seus dias contados, porque os sistemas apesar de imperfeitos, são melhoráveis, mas os sistemas como se demonstra dão vitória de uns ou outros e tomara muitos países terem sistemas como este a funcionar em termos de escrutínio, de transparência do escrutínio e de fiabilidade dos resultados eleitorais. Há aqui também um ponto, e esse ponto deu também aos democratas na campanha algum campo de atuação, o da defesa das instituições, o da defesa dos resultados eleitorais do sistema americano, a fiabilidade da máquina. Isso é algo que estas eleições, que foram eleições muito participadas, não tantas como as últimas midterm, mas das mais participadas dos últimos 50 anos em termos de midterm, assim como também a própria eleição presidencial. Biden foi o presidente dos Estados Unidos eleito por mais votos populares desde que existem Estados Unidos. Há aqui também um reforço da legitimidade do sistema na correspondência da afluência às urnas e do voto. Tomara muitos países terem este grau de participação político e este grau de discussão numa eleição que é uma eleição compósita, porque se está a eleger o Senado, a Câmara dos Representantes, governadores, procuradores-gerais, secretários de administração, legislaturas em Estado, ou seja, é uma eleição compósita em que temáticas locais, temáticas regionais, temáticas nacionais, novas ideologias, novas fraturas no campo do posicionamento político, cultural, religioso, contribuem para influenciar o voto. Uma eleição muito interessante, muito complexa, muito participada e muito elucidativa.

Estamos a debater os resultados das eleições intercalares nos Estados Unidos. Jaime Garapito, o que isto nos mostra sobre o que pode vir a ser os próximos anos? Já se sabe que Biden, em princípio, terá a vida um pouco mais dificultada, os democratas a vida um pouco mais dificultada, mas a divisão de poder dentro do Congresso, a proximidade das maiorias, uma câmara de representantes quase empatada, um Congresso se calhar empatado, isto vai permitir dar espaço aos moderados dos dois partidos ou vamos continuar a assistir àquilo que é um fenómeno que já tem décadas, não nasceu com Trump, que é uma extrema bipolarização da política norte-americana?

Eu acho que vai ser difícil voltar a uma prevalência. Durante muitos anos tivemos uma espécie de hegemonia em cada partido daquilo que se poderiam chamar posições mais moderadas. Mas entretanto eu acho que o próprio mundo e há pouco estava a falar com essa questão que estavas a levantar com o Jaime Gama sobre a questão da contestação dos próprios atos eleitorais. É claro que isso é um indício muito perigoso para o sistema, porque melhor ou pior, em última análise, com mais ou menos convicção, já não direi que haja aquela fé profundíssima da vontade geral do Rousseau, as pessoas hoje em dia encaram o sistema mais como exatamente um jogo, umas regras de jogo que se aceitam e o vencedor ganha. Agora, neste momento, é que não é só a questão que se põe, talvez mais pelo lado da direita ou de alguns elementos na área da direita, de contestar o valor, a seriedade dos atos eleitorais, sobretudo a partir das contagens, da questão dos votos não presenciais, mas por outro lado, começa-se a querer contestar a liberdade de determinadas posições políticas. Fazem-se aquelas referências históricas ao nacional-socialismo ter vencido na Alemanha em eleições. Ora bem, esta contestação àquilo que melhor ou pior, com mais razão filosófica ou menos razão filosófica, de certo modo, é o modo de indicar ou designar a legitimidade dos governos. Essa contestação é, de facto, muito complicada e eu não sou tão otimista no sentido de que isso é uma coisa passageira. Não sei se é, até porque há muitas áreas do globo onde ela é real, onde há razões pra duvidar disso, onde há partidos que acabam por funcionar quase como partidos únicos, embora admitam contestações. Portanto, eu penso que não estamos numa época fácil, porque de certo modo é capaz de estar a haver uma mudança de paradigma, quer ideologicamente, quer mesmo em termos geopolíticos. Eu diria que a chamada ordem internacional liberal, que nasceu do fim da Guerra Fria e que sobreviveu de certo modo, e que se afirmou e sobreviveu relativamente bem à ofensiva terrorista jihadista. Agora com esta abertura deste conflito, desta guerra quente na Ucrânia, derivada da invasão da Ucrânia pela Rússia e os alinhamentos que à volta disso se têm vindo a fazer, não sei até que ponto vão permitir que esta ordem internacional liberal persista com outra agravante, é que o próprio Estado hegemônico ou dominante dessa ordem, mais representativo dessa ordem que são os Estados Unidos, está neste momento também, ele próprio, bastante dividido com uma fortíssima radicalidade. E é evidente que estas personalidades, quer Biden, quer Trump, tudo indica que são personalidades que estão a caminho de ser banidas. Mas as ideias deles não sei se vão ser banidas nessa mesma medida. No fundo, Biden, que era um homem do meio, mas que acabou por dar uma grande força e representatividade a uma linha mais radical no Partido Democrático, uma linha mais woke. Não sei se isso desaparecerá com ele, essa linha. E segundo, no caso de Trump, DeSantis não contesta muito as ideias de Trump. Aliás, ele terá talvez mais direito a ter essas ideias que o próprio Trump. Agora, o que está em jogo, de facto, quer em política interna, quer talvez com alguma representação internacional, está uma divisão muito forte nos Estados Unidos Divisão ideológica, divisão até estatal que continua, que sempre foi assim. Não há dúvida que os estados do Sul e do Midwest são mais conservadores que a Califórnia, que os estados da Nova Inglaterra. Mas isso é pra persistir.

Jam Gama, é uma fatalidade esta divisão entre os americanos?

Estão mais polarizados, mas também depois é preciso dar o desconto entre o que é a polarização das mensagens pré-campanha e das mensagens para obter as nomeações nas primárias e até para depois obter algumas franjas de eleitorado e depois o que é também a racionalidade final das condutas e a racionalidade final do sistema. Eu acho que uma das coisas mais interessantes a que vamos assistir é saber quem é que os republicanos vão escolher pra liderar a maioria na Câmara dos Representantes e que tipo de política essa liderança vai ter.

Em princípio, será o McCarthy que vai ocupar esse lugar. Agora, que política que ele vai seguir é que é mais.

Se vai ser um surrogate para repristinar uma liderança Trump ou se vai ser alguém que vai fazer uma placa giratória para alinhar um novo Partido Republicano com a hipótese de ganhar a próxima presidencial na base de outra nomeação pra candidato. Isso vai ser muito interessante. E qual a plataforma? Não há dúvida que com a maioria republicana na Câmara dos Representantes, vão prevalecer temas como controle e redução de despesas, teto de despesa, porventura shutdowns, baixa de impostos, controle de despesas. Depois também as questões relacionadas com a articulação internacional. Por exemplo, na conjuntura atual, os democratas tendem a achar que a Rússia é uma ameaça maior do que a China. Os republicanos acham que a China é e a Rússia não é. Mas na ajuda à Ucrânia, os republicanos vão ser bastante mais seletivos, assim como vão ser seletivos em despesas com alterações climáticas e transição energética e mais reducionistas. Mas na questão da Ucrânia, é interessante verificar como até antevendo já um novo Congresso, a própria administração Biden começou a dar sinais de que uma negociação com a Rússia é algo que não está completamente fora do baralho, que a Ucrânia e Zelensky têm que se ir adaptando a uma transição pra negociação e, portanto, já prevendo um novo Congresso.

Acha isso complicado do ponto de vista de Zelensky, por exemplo?

Eu acho que o Zelensky terá que se adaptar, porque o Zelensky sem apoio já não existe. Portanto, aí quem tem os sistemas de armas que fazem Zelensky tem um poder sobre a situação que é um poder bastante grande. Zelensky é um porta-voz de algo que lhe permite ser porta-voz, mas não é propriamente o detentor do poder. Isso toda gente já percebeu, já entendeu. Depois, acho que Biden e a sua administração aproveitaram também este momento pra dar um sinal nessa matéria. Se repararmos, essa questão não esteve em discussão nas eleições norte-americanas, o que é muito interessante. As duas partes não quiseram fazer desse tema um tema em discussão.

Como é que interpreta isso, Jam Gama? Acha que há sensibilidade no eleitorado?

Eu acho que aí há eleitorado convergente dos dois lados. Teve aquela sombra até de uns congressistas mais à esquerda do Partido Democrático de explicitarem a necessidade de haver essa negociação, mas depois redigiram essa carta a Biden. Mas deixaram esse sinal. E depois também vamos entrar na Câmara dos Representantes numa era não Pelosi, o que é também interessante ver quem vai, da parte do Partido Democrático, liderar na Câmara dos Representantes a minoria democrática, porque agora vai passar a ser minoria. Portanto, há aí uns dados. Eu acho que também na sombra e por detrás da cortina, como se diz, há umas transferências, há umas mudanças e que estão todos a tentar adaptar-se a um cenário que aí vem, mas já a contar com ele. Isso também vai ser muito interessante de ser observado, sem dúvida.

Jamila Pinto, está de acordo com isto? Portanto, vamos ter aqui um conjunto de atores novos. Por exemplo, como é que pode ser a sucessão de Pelosi? Pelosi que teve uns dias mais complicados por causa daquela ameaça do marido.

Sim, por aquela agressão ao marido e a especulação que quer de um lado, quer de outro se fez com isso. A parte democrática, no fundo, insinuando que aquilo era-

Sim, mas parece que ele tinha problemas mentais, no caso concreto.

É, de fato, um maluco. Portanto, nem era um maluco de extrema-direita, nem um maluco de extrema-esquerda, era um maluco, só. Os malucos também podem ter uma certa liberdade, até podem estar ao centro. Os malucos não têm que ter necessariamente um Uma convicção ideológica para atuar. Mas eu concordo, em geral, com esta ideia que o José Gama diz de que vai haver mudanças e até talvez essas mudanças, porque não há dúvida que as pessoas também começam a ficar um bocado cansadas e começam a olhar também com algum receio, o medo de uma possível escalada, de um possível até erro que leve qualquer um dos beligerantes a fazer qualquer coisa que não estaria propriamente nas regras do jogo, etc. E, portanto, também há um certo cansaço, este tipo de causas também cansam e não há dúvida que as repercussões económicas e sociais na própria vida americana, dos cidadãos comuns americanos. Portanto, a ideia de que uma Câmara dos Representantes com a maioria republicana. E os republicanos também têm tradicionalmente a tendência a ter posições mais realistas, menos entusiásticas. Houve aquela exceção dos neoconservadores na altura com George Bush 43, houve de fato aquele predomínio na administração dos neoconservadores e todo aqueles ímpetos militares e militaristas que também não deixaram as pessoas muito felizes. Portanto, eu acho que vai haver aqui uma tendência e aliás, o dirigente da minoria republicana nos representantes, que agora passará, em princípio, a ser o líder ou dirigente da maioria, tinha sido um dos que não tinha dito que ia retirar os apoios à Ucrânia, mas tinha dito que os republicanos seriam mais exigentes, teriam menos tendência a dar um cheque em branco a todos os pedidos do presidente Zelensky e a todo esse surto financeiro e armamentista, etc. E, portanto, é capaz de ser também um bom pretexto para todos, quer para a atual administração, quer para a oposição republicana, é um bom pretexto exatamente para haver algumas mudanças. Não creio que haja mudanças, por exemplo, já em relação à China, isso, aliás, também não tinha havido mudanças da passagem de Trump para Biden. Portanto, aí penso que não há, porque isso é um objetivo mais uma certa contenção da China, isso parece-me ser um objetivo mais nacional e dos poucos que têm escapado ao debate interno e à polêmica, esta radicalização de outras posições, mas no resto é capaz de haver alguma revisão, nomeadamente na questão da guerra.

Precisamente sobre a questão da guerra, José Gama, prevê alterações significativas na posição americana? Nós temos dois extremos, por assim dizer, temos esta posição do McCarthy, mas que apesar de tudo é uma posição de uma espécie de visão de navegação. E depois temos aquela carta dos 30 congressistas da chamada ala progressiva do Partido Democrata, o que dá a sensação de que as tendências para, bem, eu vou exagerar, o termo parece-me um pouquinho exagerado de utilizar, os isolacionistas têm presença nos dois partidos, o que aliás é histórico, não há aqui novidades, mas poderão estar a manifestar-se mais, talvez por causa de um cansaço em relação à duração da guerra. Só que a guerra pode durar muito mais tempo, não é?

Sim, isso é verdade, mas na sociedade americana, a guerra ainda não se fez sentir de uma maneira verdadeiramente efetiva, porque a economia cresce, não há recessão.

Há uma inflação pesada.

Bom, mas a inflação, vamos a isso. O desemprego está baixo e a criação de empregos é surpreendente na economia americana. E se formos ver a questão da inflação, a tendência da opinião pública americana, os republicanos jogaram bem com isso na campanha, é de considerar que a inflação foi menos provocada pela guerra na Ucrânia e foi mais provocada pelos estímulos por causa da guerra da Ucrânia. Estímulos dados, sobretudo, por causa do Covid. E no momento em que a economia já estava a recuperar e porventura justificasse uma retirada dos estímulos. Bom, essa discussão foi uma discussão que esteve muito presente no debate americano. Agora, a verdade é que os Estados Unidos ganharam um pouco a noção de que o Ocidente não pode ser dirigido por Zelensky. Tem que haver uma responsabilidade global dos Estados Unidos na relação com a China por causa deste conflito, e a China, se é certo que se comportou como se comportou em matéria de Taiwan, mas em relação à questão da Ucrânia, de quem é o principal parceiro comercial, a China já tem vindo a dar sinais que condena a atitude russa quanto ao uso de armas nucleares táticas, à ameaça do uso de armas nucleares, tem tido cuidado em dizer que não está a fornecer armamento

À Rússia para intervir na Ucrânia. Portanto, há também esse fator que pondera. E depois há o fator, que me parece interessante, que é o dos Estados Unidos e a Rússia terem aproveitado esta ocasião para ver que têm canais abertos e que estão a negociar os tratados estratégicos. O prolongamento que tinha sido decidido sobre o START está ao mesmo tempo a ser acompanhado por uma negociação que é altamente importante, porque é a negociação sobre os grandes sistemas estratégicos nucleares. E ao mesmo tempo, tudo indica que há canais abertos para também discutir a questão da Ucrânia e para ver até que ponto uma solução é possível. E obviamente, há também a articulação disso com os europeus e a articulação disso com o governo ucraniano atual, que naturalmente vai ter que aceitar o que for a lógica da sua capacidade militar efetiva. É certo que essa capacidade militar, com apoio externo, tem permitido à Ucrânia reganhar posições na confrontação com a Rússia, e a Rússia tem perdido imenso o seu prestígio internacional. As viragens internacionais, tem o próprio cuidado do Irão a desvincular-se da posição da China. Isso é tudo resultado do que é o fracasso das Forças Armadas Russas na condução e na execução das operações militares na Ucrânia. Isso também é um sinal. E, portanto, a Rússia vai agora preparar-se para o inverno. Se pode começar a entender que não tem capacidade de regeneração, que esta sua mobilização das recrutas do serviço militar obrigatório é uma coisa que não vai contribuir para nada, senão para mortes em combate, que a imagem internacional da Rússia está deterioradíssima. E portanto, isso pode ser um indicador de que ambas as partes aceitem, pelo menos regressar à linha de colocação de forças acordadas e dos acordos de Minsk. E portanto, haver um entendimento para uma solução de um conflito, que é um conflito que não interessa absolutamente a ninguém. Absolutamente a ninguém, porque perturbou a comunidade internacional no que era o fim do Covid, a necessidade de recuperação económica, de estabilidade, prejudica todos do ponto de vista económico, comercial, de investimento e até impede, na verdade, um combate efetivo às alterações climáticas, que obriga a invocar sistemas de eletroprodução que estavam a caminho de ser abolidos. Portanto, tudo ao contrário do que devia ser. Pode ser que haja a possibilidade de uma negociação mais efetiva e mais realista.

Bem, nós entretanto acabamos o nosso tempo. Haveria mais temas para abordar, é uma eleição gigante, com muitos casos. Vamos regressar dentro de uma semana.