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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso ao "Conversas à Quinta". Hoje vamos voltar a falar um pouco da situação na Rússia. E vamos falar da situação na Rússia, porque ocorreu na Rússia um referendo destinado a consagrar uma revisão da Constituição. Essa revisão da Constituição vai permitir que, no limite, Vladimir Putin possa ficar como presidente da República até à incrível data de 2036. Se isso porventura acontecesse, Putin poderia manter-se no poder na Rússia mais tempo do que José Stalin. Portanto, o que seria verdadeiramente extraordinário. É evidente que não há nenhuma garantia que isso possa vir a acontecer, apesar de tudo, ainda seriam mais 16 anos, mas o que é verdade é que o atual líder russo já está no poder há duas décadas. Trata-se de algo que vai muito para além do que é normal. É um sinal de que aquilo que é normal numa democracia, que é os líderes serem substituídos de forma pacífica, na Rússia é cada vez mais difícil e mesmo a forma como este referendo decorreu foi tudo menos normal, porque tudo foi feito para que houvesse a chamada votação expressiva, como a influência às urnas, que foi relativamente elevada para um período de confinamento e de pandemia, com 80% dos eleitores a votar a favor. Nalguns casos, por exemplo, nas Forças Armadas, com votações a chegarem aos 99,9%, votações típicas de regimes ditatoriais. Estamos perante um regime que cada vez disfarça menos as suas características. Isto depois de o próprio Vladimir Putin ter prometido, quando começou a construir o seu poder, que nunca se manteria tanto tempo à frente do Estado russo. Jaime Gama, é evidente que Putin chegou depois de um período muito conturbado da história da Rússia. A queda da União Soviética, a desintegração daquilo que tinha sido o Império Russo, que tinha se prolongado na União Soviética, depois os anos terríveis que foram os anos 90, com enorme crise econômica. Uma crise econômica que de alguma forma não terá sido completamente superada, porque a Rússia depende basicamente das suas matérias-primas. Não é uma potência econômica no sentido tradicional do termo, industrial, tecnológica, mas voltou a ter, de alguma forma, uma palavra a dizer, porque continua a ter algum poderio militar e uma palavra a dizer nos assuntos internacionais, mesmo que não seja a potência que foi no tempo da URSS. Putin restaurou, de alguma forma, o orgulho russo, mas não devolveu de forma nenhuma aos russos um modo de vida, uma qualidade de vida, uma esperança num país mais normal. Pois não?

Há várias etapas no percurso de Putin, porque ele praticamente vem do KGB e de uma posição que ocupa ainda no tempo de Yeltsin na Câmara Municipal de São Petersburgo com Sobchak. Consegue sobreviver à queda de Sobchak e depois é recuperado e projetado por Yeltsin, primeiro como primeiro-ministro, depois quando Yeltsin morre como presidente intrínseco em 99 e depois presidente. E há uma primeira etapa em que ele aparece como, por um lado, alguém que introduz autoridade e racionalidade a um sistema que estava longe de o possuir com a queda da União Soviética e do regime comunista. E depois também há alguma melhoria das condições de vida nessa primeira etapa. Depois, mais à frente é que os rendimentos começam a deteriorar-se, algumas expectativas a frustrarem-se e Putin não logra desde início o apoio pleno, nem de liberais, nem dos velhos comunistas do Partido Comunista da União Soviética, mas vai mantendo um apoio naquilo que se pode chamar o grande centro político e que ele mobiliza de várias formas. Mas há em 2011 o início de uma erosão da polaridade que ele compensa com a anexação da Crimeia Só que a anexação da Crimeia também cedo esgota a sua capacidade de ser reutilizada politicamente, na medida em que há sanções, na medida em que a deterioração da situação econômica e social se acentua, e daí pra frente Putin vai vivendo. É difícil saber qual é o grau de aceitação. Há muitas sondagens ditas independentes, não independentes, mas digamos que Putin sofre uma erosão da opinião pública nos eleitorados urbanos, mas mantém aceitação e apoio no eleitorado rural e na Rússia profunda, que ele mobiliza também com o socorro de que se vale em matéria dos simbólicos relacionados com a Igreja Ortodoxa, relacionados com a glória passada do exército soviético na Primeira Guerra Mundial e também com a agitação de sinais exteriores de poder na cena internacional, porque não são só as intervenções na Geórgia, depois na Crimeia, depois no Donbass, na parte oriental da Ucrânia. Há também um conjunto de gesticulações com exercícios militares, com a reconstituição de algum campo de aliados, até com a recuperação de um papel determinante na Síria, que vão ao encontro de uma certa nostalgia de glória, que é por um lado czarista, por outro lado soviética. Como é que Putin vai assentando o seu poder? Porque ele tem um resultado importante na guerra da Chechênia, quando os chechenos começam a fazer alastrar o terrorismo, não só na Chechênia, como para outras partes da Rússia. Depois também consegue controlar os oligarcas que tinham apoiado Yeltsin, que transitam pro apoio a ele, mas onde começa a haver a tentativa de aparição de uma liderança desse setor e Godarovski é eliminado de uma forma muito frontal. Também depois não permite a eleição direta de líderes provinciais e consegue que Medvedev, no período em que exerce as funções de primeiro-ministro, lhe prepare o caminho para uma extensão do mandato presidencial, aliado a uma extensão do mandato da dupla.

Aliás, houve um período em que ele é primeiro-ministro em vez de ser presidente e faz uma espécie de troca de cadeiras muito curiosa.

Sim, mas nessa altura há ainda dúvida sobre saber se essa troca de cadeiras é completamente artificial ou se não há ali um polo de tensão também com o próprio Medvedev, que durante pelo menos algum tempo mantém um horizonte próprio de atuação. Sim, sem dúvida. Agora, chegados a este ponto, este referendo que esteve pra ser feito antes, porque tudo isto estava para ser realizado há uns meses antes, com o Covid teve que ser adiado. A data inicialmente escolhida era a data de maio.

Não, estava marcado abril primeiro.

Abril, que era o aniversário do nascimento de Lênin, 22 de abril, e depois com uma grande parada em maio, no dia da vitória soviética sobre o nazismo, como é assim considerada. A ilusão do Covid também entra em campo e então essa cerimônia é reformatada pra uma cerimônia em que o ato inicial da cerimônia é uma parada, que aliás é interessante visualizar pra se perceber como funciona pictorialmente, que há também uma estátua do soldado herói soviético e depois uma mobilização dos veteranos, e em que a bandeira do Exército Vermelho da União Soviética desfilam atrás da bandeira russa numa sinalização completa de glórias passadas. E depois um referendo que se prolonga por uma semana. Esse referendo é um mix, porque o referendo tem uma parte ideológica, são 206 questões, e uma parte mais institucional, que é a possibilidade de Putin continuar a exercer o poder até 2036 e também de interferir no sistema dos tribunais superiores. Mas o conteúdo ideológico de várias questões programáticas que ali estão, respeitantes à proibição de casamentos gay, respeitantes à glorificação da fé em Deus como característica fundamental do povo russo, defesa da língua russa, defesa e apologia da verdade histórica sobre a participação na Segunda Guerra Mundial. A melhoria do regime de pensionistas e a sua articulação com a proteção da erosão das pensões face à inflação, que tinha sido uma coisa que abalou muito o governo Putin quando Putin faz um aumento da idade da reforma. Isto agora foi pra corrigir o efeito disso. Proibição de cedências territoriais, apologia da língua russa, portanto, uma série de questões Que se quisermos, são questões nacionalistas, proto-czaristas, emblemáticas da glória russa, da índole profunda do povo russo e que constituem um programa de Putin para esta nova fase. Se esta nova fase vai ter mais ou menos pujança, veremos, porque também não é indiferente à Rússia a situação econômica internacional, vai ter um resultado negativo este ano, embora recupere no ano próximo ao que se prevê. A Rússia tem uma economia má, não competitiva, mas tem fortes reservas, não só petrolíferas, também monetárias. Tem controlado o seu déficit comercial e o seu déficit corrente, não tem superavitário nesses domínios. Tem estabilizado um padrão de comércio internacional com a China e a União Europeia, um pouco a Bielo-Rússia, um conjunto de países que gravitam em torno dela, que lhe permite gerir uma autarcia econômica sem pôr em causa as cadeias de abastecimento, mas também sem permitir a prosperidade para a população. E é esse o quadro que Putin tem pela frente. Nunca sabemos o que se passa também no campo de Putin com os oligarcas, com os grupos do antigo KGB que o apoiam e depois com todos aqueles irregulares da economia que são envolvidos em operações como os trolls ou as companhias Wagner de mercenários que atuam um pouco por todo o lado. Portanto, há ali uma grande rede que está hoje muito descrita em livros muito interessantes e reportagens muito bem feitas do ponto de vista jornalístico, como o recente livro sobre Putin de um correspondente do Financial Times em Moscou durante vários anos, que carreiam elementos muito interessantes sobre o funcionamento desse sistema. Agora, apesar de todo ser crípico, o referendo não é, de facto, um referendo democrático normal e a forma como decorreu com prêmios aos votantes e com concursos associados e com um conjunto de ações de carrinhas de votação móvel. Mas a Rússia é a Rússia e isso permite continuar no poder. Como e para quê, há aí uma interrogação grande. E eu acho que o que vier no imediato, sobretudo o que se passar este ano e no início do próximo, com a crise internacional e os seus efeitos na Rússia, vão também refletir-se no que vai ser a configuração desse regime e desse sistema.

Já me diga, Pinto, esta forma de atuar de Vladimir Putin, de alguma forma, pôde resultar, apesar de ele ter entrado um bocado com o pé esquerdo, porque lembremos que logo no princípio ele teve que enfrentar aquele problema do submarino Kursk e na altura não lhe correu muito bem, porque ele não reagiu logo da melhor forma. Foi um desastre que acentuou a crise da vergonha russa, a vergonha de que as coisas corriam todas mal, mas depois ele conseguiu dar a volta. O que vê nele como líder para ter conseguido, além dos métodos um pouquinho mais autoritários, menos democráticos, para conseguir dominar um país daquele tamanho e daquela dimensão?

Eu acho que Putin, por convicção ou por estratégia, não há dúvida que Putin escolheu ser, no mundo pós-Guerra Fria e na Rússia que sucedeu à União Soviética, ser o defensor de uma política que a gente poderia chamar nacional-conservadora, quer dizer, uma política que procura, por um lado, fazer um forte apelo ao patriotismo do povo russo, fazer um patriotismo russo, que é um patriotismo que por um lado inclui a tradição russa, a tradição do patriotismo russo do século XIX, a tradição da importância da Rússia como uma potência na Eurásia, todos esses elementos, mas também não rejeita, de certo modo, uma parte, nomeadamente em relação à Segunda Guerra Mundial, dos sucessos da União Soviética. Procura, por outro lado, fazer uma aliança forte, aliás, na linha de alguns dos que se dizem ser os seus mestres ideológicos. Dizem que, de facto, os grandes elementos da força da Rússia são o povo russo, o patriotismo do povo russo e a Igreja Ortodoxa. Ele faz, efetivamente, uma fortíssima aliança com a Igreja Ortodoxa Russa. E portanto, vai até gradualmente tornar-se uma personalidade que mesmo nos círculos nacionais conservadores e nacionais radicais europeus é visto com simpatia. E nomeadamente, ele também pega num velho tema da tradição e da polêmica russa

Que é pegado por autores indiscutivelmente conservadores e cristãos como Berdiaev. Ele pega nesse tema, ele é mais depressa um eslavófilo, naquela dicotomia do século 19 dos eslavófilos e dos ocidentalistas ou ocidentalizantes. Ele é mais depressa um eslavófilo e vê-se agora até nos conteúdos de algumas das suas propostas constitucionais, por exemplo, de facto, como o Jaime Gama já há pouco referiu, o voltar a haver uma referência concreta à importância de Deus e do culto de Deus e dos valores religiosos na Rússia e no povo russo, que fica de certo modo consagrada no próprio texto constitucional, como em medidas que são importantes em termos da chamada guerra cultural, em definir, por exemplo, o casamento como uma união entre um homem e uma mulher. Ele, aliás, ainda há pouco numa declarações quaisquer diria que na Rússia em que ele mandasse nunca haveria aquela história do primeiro progenitor, segundo progenitor, haveria sempre um pai e uma mãe. Portanto, quer dizer, ele traz uma carga forte de conservadorismo ideológico, nacionalismo conservador ideológico. E depois também prepara o terreno para continuar no poder por mais algum tempo. Portanto, está ali. De facto, não são medidas que ofereçam surpresa, mas oferecem a ideia de as consolidar o mais possível, quer dizer, de as consolidar constitucionalmente. Por outro lado, também não há dúvida que analisando o comportamento de Putin e sobretudo os recursos que ele tem e os resultados que tem conseguido, nomeadamente no campo internacional.

Jaime Gama e Pinto, nós vamos ter que interromper agora pro intervalo. Vamos retomar esse raciocínio já na segunda parte, depois da publicidade e do noticiário. Retomamos o "Conversas da Quinta". Jaime Gama e Pinto estava precisamente a falar dos recursos que Putin tinha e que poderia utilizar. Jaime?

Nesse aspecto, por exemplo, eu lembro aqui um aspecto que é muito interessante: é a capacidade que ele demonstrou, que já temos aqui referido, ainda há pouco foi referido. Ele, de facto, tinha um único aliado no Médio Oriente, um velho aliado da União Soviética, que é a família Assad da Síria. E ele conseguiu, no meio de toda aquela confusão, numa altura que ninguém dava absolutamente já nada pelo Bashar Assad, ele conseguiu salvá-lo. Ele consegue depois, ao mesmo tempo, ter uma política em que tem boas relações com o Irão, mas também tem boas relações com Israel e, por outro lado, também faz as suas entradas com os turcos e, por outro lado, também mantém em África alguma, enfim, não será uma longa influência, mas mantém uma certa presença através de algumas companhias militares privadas, através também, por exemplo, nalguns países em que o material militar é essencialmente material militar russo, portanto, ele tem aí os seus consultores e conselheiros e está a fazer tudo isto com um país que é um país com enormes extensões, mas tem uma demografia relativamente leve. Tem uma população que não é especialmente numerosa e os recursos essenciais da Rússia são energéticos, oil and gas, e portanto sempre muito dependentes dos altos e baixos dos mercados mundiais. Mas tem, de facto, um elemento poderoso que ele também tem usado, que é um poder militar muito significativo e tem conseguido com isso não só retirou a Rússia daquele caos em que a deixou o período Yeltsin, mas conseguiu reafirmar a presença da Rússia no seio daquela meia dúzia de potências que podemos considerar importantes no mundo.

Jaime Gama, esse aspecto que o Jaime Gama e Pinto referiu remete para a questão de saber que papel pode a Rússia realmente desempenhar, porque um país que tem aquela dimensão territorial, que tem uma memória histórica e um papel que desempenhou na história, o papel que a Rússia desempenhou, que continua a ter, para todos os efeitos, poderio militar, mas que é um anão económico como a Rússia é. Que papel pode desempenhar um país assim no equilíbrio do mundo, na geopolítica do mundo?

Oi, José Manuel Fernandes.

Além de ter um lugar no Conselho de Segurança.

Mas basta olhar pro mapa.

A gente às vezes esquece da geografia.

É o maior país do mundo territorialmente, isso sim. A Rússia é um país que esteve para não existir, porque por um lado tinha ameaças de Norte e do Ocidente, em especial os suecos e também os polacos, e depois tinha imensas ameaças dos povos montados das estepes. E portanto, a constituição da Rússia por um grupo eslavo, que aliás migra do Ocidente e de Sul para formar ali umas unidades políticas, o Grão-Ducado de Moscovo, tudo isso é uma história muito impressionante. Depois a expansão de tudo isso A partir do momento em que não se deixam derrotar no Báltico e contêm os suecos, depois progridem na contenção, quer de polacos, quer de alemães, quer de austríacos, vêm enfrentar-se para sul com os turcos. Depois, tudo o que se passa na zona do Cáucaso, depois tudo o que se passa na Ásia Central e depois a expansão da Sibéria para o Grande Oriente Russo, que os leva a tocar os japoneses, os coreanos e também a China. Aliás, a informação obtida pelo Império Russo em torno de todos esses territórios é admirável, quer por geógrafos, quer por escritores viajantes, quer por militares. É um conhecimento feito ao longo dos anos e que é incorporado depois na cultura de expansão do regime soviético, que ganha a guerra civil. E, portanto, há um conhecimento de como lidar com minorias, a exploração de minorias para dividir os adversários e amplificar uma projeção de interesse russo. E depois há uma capacidade, porque há um fundo geopolítico geral. Depois há uma motivação ideológica sempre, mas depois há um pragmatismo e uma flexibilidade no emprego de meios. Isso é bastante interessante e como às vezes são recuperadas táticas que foram deixadas cair, mas como está sempre presente uma análise de fundo que envolve questões etnográficas, questões linguísticas, questões geográficas, muitíssimo interessante. Veja, por exemplo, a grande orientação russa de progredir para um controle da Europa Central e a forma como agora isso se traduz da parte de Putin no apoio aos nacionalismos, aos populismos e aos políticos dessas orientações nos países da Europa Central, vendo com isso aliados que podem pôr em perigo uma relação de integração com a União Europeia e também um certo modelo de relação com os Estados Unidos, visando uma flexibilidade da NATO bastante grande. Depois, a forma como se relacionam com o Egito, intermitentemente com a Turquia, com a Arábia Saudita, por causa das comunalidades na política petrolífera, com a Síria e mais para lá com a China, uma relação feita de grande mistério, que passa muitas vezes por uma fachada de bom relacionamento que encobre profundas tensões e rivalidades. A política sobre a Ásia Central, a obsessão na questão do controle do Mar Negro e do acesso ao Mediterrâneo. Tudo isso revela uma escola, ou seja, quando se fala com a Rússia, por mais cruento que seja quem é o interlocutor, ele tem por detrás de si manuais que representam a sedimentação de anos de análise, de conhecimento de História, através de várias etapas, de conhecimento da Geografia. Isso é importante. Putin considerou que a maior tragédia da história universal foi o desmantelamento da União Soviética, como facto geopolítico, ou seja, perdeu-se ali um campo de aliança. E a obsessão de Putin é, sem o regime comunista, conseguir, em primeiro lugar, travar essa pressão sobre o espaço russo e depois reconstituir, sempre que pode, aliados que permitam majorar o campo de influência da Rússia. Isso revela uma centralidade de pensamento e de objetivos que só é possível existir num país com cultura histórica, com sentido de como combinar o povo, aqui neste caso, eslavo, russo, com a religião ortodoxa, com a capacidade militar, com a ocupação do território. Saber aproveitar as fraquezas do adversário, a atual administração americana, as divisões na União Europeia, uma certa dificuldade que a China agora está a atravessar, o próprio poderio turco, que já não tem a euforia que tinha há uns anos. Tudo isso atesta como há ali uma visão de conjunto, um objetivo. E depois os doutrinadores, porque têm aquelas academias onde se investiga, estuda os documentos que estão no serviço secreto, nas bibliotecas, no exército, nos estados maiores, etc. Mas depois também têm uns ideólogos públicos. Logo no início da transição, foi Zhirinovsky que fazia um discurso público slavófilo, russófilo e de defesa da pátria russa imperial. Depois, Alexander Dugin, agora, que vão criando caldos de cultura mais na mediação popular da opinião pública para enraizar este tipo de políticas. Não é só o Brasil que tem Olavo de Carvalho e

Os Estados Unidos, Bannon, os russos também produzem os seus Bannon e os seus Olavo de Carvalho. A forma como, por exemplo, a Rússia é capaz de chegar à utilização das plataformas da comunicação social, dos fake news, da desestabilização pelo digital e do comentário sobre questões internacionais que por ínvios caminhos acaba por favorecer os seus pontos de vista, revela um domínio de situação em alguém que não tem o poderio que já teve no passado, mas que não deixa de pensar como alguém que gostaria de recuperar grande parte desse poder, sabendo o que está a fazer do ponto de vista dos objetivos geopolíticos internacionais.

Jáime Nogueira Pinto, uma das coisas que a Rússia nos habituou nos últimos dois séculos, nos períodos de crise, nos períodos sem ser de crise, nos períodos de glória, nos períodos mais sombrios, foi sempre a produção de uma cultura muito forte. Escritores, pintores, artistas, cineastas, em todas as áreas havia artistas de vanguarda, artistas que rompiam com as tradições, grandes criadores. Mas neste momento, posso estar distraído, mas vê-se essa capacidade na Rússia de hoje? Nós vemos isso no final do século XIX, vemos isso no período da Rússia revolucionária, vemos isso mesmo durante o período da Rússia comunista, vemos no período dos dissidentes. Na Rússia de Putin, quem são os criadores?

De facto, não me parece que tenha havido assim nada extraordinário.

Para a cultura russa há os Tólstoi, os Dostoiévski, já também os grandes pintores, depois a quantidade de Prémios Nobis que nós encontramos na literatura russa não são poucos. E agora?

Sim, de facto, nós temos uma quantidade, como o Zamanno estava a referir, os grandes escritores, até digamos, da modernidade ocidental, uma parte muito substancial deles encontra-se na Rússia, que é os Tólstoi, os Dostoiévski, uma série de grandes, mesmo no tempo do stalinismo produziram-se grandes como o Pasternak, o Mikhail Bulgákov. De facto, começamos a ter hoje uma certa falha desse tipo de escritores, ou talvez não sejam de certo modo tão conhecidos cá fora. Agora tenham aparecido alguns. Temos, por exemplo, estou-me a lembrar daquela mulher que escreveu sobre Chernobyl, uma Svetlana.

Sim, é ucraniana.

Pois, uma Svetlana Alexievich. Eu nisso deixo um pouquinho russo aquilo tudo. Temos algumas mulheres escritoras, mas de facto não tem aparecido. Por acaso há dias deram-me, há tempos alguém me deu um russo, um bocado mais moderno, mas também considerado como um elo desses grandes escritores do século XIX. Mas confesso que, de facto, também não tenho estado muito atento a essa nova vaga. Mas de facto não podemos dizer que haja neste momento, nestes últimos 20 anos. Mas também isso é um fenómeno que praticamente acontece por toda a parte, porque a gente, por exemplo, também vai ver a França e tirando o Lebeck, não tem nos últimos 30 anos um grande escritor que se tenha revelado. A gente vai aos Estados Unidos e também vê que todos os Philip Roth, uma série dos grandes escritores também já existiam há 30 ou 40 anos. Não há, de facto, grandes revelações um pouco por todo lado. Não sei se não há uma decadência, até talvez mesmo da própria literatura. Hoje, de facto, os grandes polos de atenção cultural e, portanto, até do comércio cultural, acabam por ser, já nem é bem o cinema, é mais as séries de novelas, as Netflix, as HBO, etc. Não sei, talvez haja uma geral decadência da literatura, e na Rússia também isso se reproduza. Não sei avaliar. Confesso que estou a pensar pela primeira vez no tema e está-me a ocorrer isto. De facto, não se vê grandes revelações literárias ou grande qualidade nos novos escritores nos últimos anos. Um pouco pela Europa. Ou são os consagrados, ou de facto também não há grandes figuras.

Sim, há sempre um tempo de depuração que é sempre necessário.

Há um homem que aparece logo a seguir ao fim do comunismo, que aparece aqui, que é aquele homem de "Os filhos de Arbat".

Sim, mas esse é um escritor ainda do comunismo.

Ainda do comunismo. Também há aquela tese que diz que a grande escritura, a grande leitura, o grande desafio, surge exatamente nesses períodos ditatoriais, difíceis. A gente em Portugal tem um exemplo disso, de facto Há uma série de grandes escritores, normalmente críticos do regime durante o Estado Novo, e esses escritores hoje quase ninguém os lê. Agora apareceram dois ou três escritores que a gente pode considerar maiores ou melhores, mas também não há esse florescimento. Não sei, confesso. Mas tem razão, de fato, tanto quanto se me oferece, não vejo, neste momento, uma grande literatura ou mesmo uma grande poesia aparecer. Até porque normalmente estes períodos de uma certa euforia nacional também dão lugar a autores celebrativos e autores que nem sempre são os autores de primeira. Portanto, pode ser também esse o fenômeno.

Jaime Gama, Putin vai continuar a procurar desestabilizar eleições no exterior como tem feito nos últimos tempos?

A Rússia aí funciona com pragmatismo para o seu objetivo, ou seja, se vir que há essa possibilidade, não vai desistir de usar esse instrumento, até porque a Rússia agora está também um pouco aflita. A Rússia depositou grandes expectativas em Donald Trump e vice-versa, mas agora com estas medidas de suspensão dos grandes acordos do nuclear, a Rússia está dividida. Tem a preocupação de procurar responder e ajustar sistemas novos para produzir efeitos danificadores, tem a preocupação de procurar reconstituir um quadro negocial para impedir que uma nova corrida aos armamentos leve ao que aconteceu no final da Guerra Fria, que foi a exaustão do sistema soviético para poder acompanhar essa pressão feita por Ronald Reagan. E também não é despreciando o fato de a Rússia, embora não o podendo afirmar, comungar com Donald Trump o objetivo de fazer chamar os chineses a incorporar essa nova negociação, porque a relação da Rússia com a China é uma relação muito interessante de seguir, feita de imensas sombras e de poucas claridades. Mas é óbvio que a Rússia não vê com tranquilidade o crescendo do poderio comercial e do poderio militar da China. Portanto, vai ter que procurar obter alguma contrapartida. Daí que não tenha reagido dramaticamente a estes anúncios que são feitos por Donald Trump. Portanto, a Rússia vai, para conseguir uma plataforma negocial e um quadro negocial, usar o que puder estar ao seu alcance para conseguir estabilizar os seus interesses. No caso vertente da Crimeia e da Ucrânia, já dá para descritar que a comunidade internacional tenha aceito a anexação da Crimeia. E quanto à Ucrânia, deposita, em relação às províncias do leste, uma esperança em que a União Europeia, quiçá os Estados Unidos e o atual presidente da Ucrânia, favoreçam uma evolução do sistema municipal para o leste da Ucrânia, que permita ali colocar um vasto conjunto de eleitos que manterão todas essas fidelidades e que poderão permitir à Rússia também sair-se desse conflito com uma preservação de posição e com uma atenuação da carga negativa que resultou da forma abrupta como foi levada a intervir. A questão da Bielorrússia também muito importante, porque tem interesse econômico e tem interesse como modelo para a Rússia de uma solução de modus vivendi nessa área de atrição entre alianças. Também a Rússia não vai deixar de explorar todas estas mudanças da política norte-americana, de retirar tropas da República Federal da Alemanha para colocar menos tropas na Polônia. Enfim, há aí uma grande efervescência que a Rússia analisa, porventura, com mais estabilidade do que muitos outros, porque está ali no território. Analisa do ponto de vista da terra, do solo, e isso dá sempre mais firmeza nas apreciações do que quem analisa muito na vertente tecnológica ou na vertente dos sistemas eletrônicos ou na vertente das projeções de longa distância e não tem aquele sentimento do apego ao solo que caracteriza a definição de toda a política russa do ponto de vista militar, porque é predominantemente uma grande potência terrestre com fronteiras dificílimas, com todos os seus confinantes e ainda por cima com a dificuldade de, no seu próprio território, ter faixas da população que não são russas e que facilmente se articulam transfronteiriçamente com esses outros confinantes do lado de lá da fronteira. Portanto, a Rússia vai procurar gerir, não declinar, travar os seus adversários, dividi-los, reconstituir algum poder, mas também sem ter a certeza que vai ser uma vencedora absoluta.

Bem, terminamos mais um programa. Eu só queria, antes de terminar, fazer uma pequena correção. Eu há pouco referi que Svetlana Alexievich era ucraniana. Ela, de fato, nasceu na Ucrânia, mas é bielorrussa, escreve em russo e é bielorrussa. Terminamos por hoje. Regressamos dentro de uma semana.