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Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Hoje vamos falar de uma velhíssima aliança, a aliança luso-britânica, aliança entre Portugal e o Reino Unido. Por quê? Porque estão a começar as comemorações dos 650 anos desta aliança. Na verdade, habitualmente nós referimo-nos ao Tratado de Windsor, mas o primeiro tratado em que houve uma aproximação entre Portugal e o Reino Unido foi o Tratado de Tagilde. O Tratado de Tagilde foi firmado a 10 de julho de 1372, portanto vai fazer no dia 10 de julho exatamente 650 anos. Para quem não sabe, Tagilde é hoje em dia uma freguesia do município de Vizela e este tratado foi assinado na sua Igreja de São Salvador, nesse dia. Foi assinado entre o rei Dom Fernando I de Portugal e os representantes de João de Gant, que era duque de Lencastre e filho de Eduardo III de Inglaterra. Este tratado ainda é basicamente um tratado muito medieval nos seus termos, pois é basicamente um tratado de aliança contra Castela e de cooperação, que depois dará origem, um ano depois, ao Tratado de Londres ou de Westminster, que foi assinado na Catedral de São Paulo e mais tarde, já depois da Batalha de Aljubarrota, ao Tratado de Windsor. Jácome Gama, como eu disse, este primeiro tratado ainda é um tratado muito medieval, mas ele vai evoluindo nos tratados seguintes para uma fórmula mais diplomática, mais abrangente, não é assim?

Sim, e temos também que prestar um pouco homenagem aos tratados que o antecederam, porque em 1353 já Dom Afonso IV tinha feito um tratado de comércio válido por 50 anos de proteção recíproca de comerciantes e mareantes, e em 1294 Dom Dinis tinha negociado um acordo de proteção para comerciantes e pescadores portugueses junto do Reino Unido. Isso foi até mais atrás.

E recuando, podemos recuar à tomada de Lisboa, não é?

Sim, com o bispo britânico, o bispo Gilbert de Lisboa, e o papel que teve na mobilização de ingleses para apoiar as forças portuguesas em 1151 na conquista de Lisboa. O próprio Dom Afonso Henriques é filho de um nobre da Casa de Borgonha, que era aliada da Casa da Flandres e de outras casas medievais aliadas ao rei de Inglaterra contra o rei de França. Portanto, há aqui já uma raiz muito forte quantamim, tem a ver com a maritimidade de ambas as situações, com o comércio e que depois vai revestindo uma dimensão diplomático-militar e política relacionada com interesses de ambas as partes, ou direcionados para a apreciação da situação na Península Ibérica ou até na função europeia. Mas digamos que o Tratado de Tagilde é um bom exemplo de como aqui se desenvolve esta aliança, que tem uma raiz estrutural, com a conjuntura de um interesse do Duque de Lencastre na sua pretensão ao trono de Espanha, por ser casado com a princesa castelhana e, portanto, por estar ali a defrontar Henrique Trastâmera e Pedro de Aragão nessa disputa. Portanto, entra aqui já uma consolidação de ordem política maior, com mais estruturação diplomática, com mais consistência. Mas está tudo isso inserido numa estrutura de interesses ditada pela geografia, pelas relações de comércio, pelo que se tinha vindo a estabelecer entre os dois países já ao longo do tempo.

Jácome Nogueira Pinto, estes primeiros tratados, e em particular o Tratado de Tagilde, que é aquele que vai servir para sinalizar um pouco estes 650 anos, como eu disse, são tratados, principalmente este Tratado de Tagilde, basicamente é uma aliança para a disputa do trono de Castela. Mas depois eles vão consolidar-se em algo bastante mais desenvolvido, portanto no Tratado de Windsor, e também já logo no Tratado de Londres, quando há declarações mútuas sobre a perpétua paz, sobre amizade, sobre aliança entre ambas as partes. E aquilo que é talvez estranho é como é que algo que nasce com uma coisa tão conjuntural vai sobreviver 650 anos. Como é que pode explicar isto?

Sim, isso explica-se. Não podemos esquecer que isto nasce no quadro de um grande conflito europeu, porque muitas vezes olhamos pra história de Portugal sem fazer o enquadramento na época. Às vezes parece que achamos que Portugal só começou a prestar atenção à Europa depois da adesão à União Europeia, na terceira república, mas de fato Portugal esteve sempre integrado nos grandes movimentos europeus. E aqui temos um caso em que há um grande conflito europeu.

Que é a Guerra dos Cem Anos.

Que é a Guerra dos Cem Anos, e em que Portugal vai alinhar exatamente ao lado da Inglaterra, dos reis de Inglaterra, e a França está aliada a Castela. Uma parte desta guerra apanha também aquele conflito religioso da cisão entre Roma e Avignon, e também temos o Papa de Avignon que está ligado à Castela e à França, e o Papa de Roma está ligado à Inglaterra e também a Portugal. Portanto, não há dúvida que tem, sobretudo, os cruzados ingleses. Os expedicionários ingleses colaboraram bastante em Portugal, nalgumas conquistas. Estiveram na conquista de Silves, já se falou na conquista de Lisboa, mas também estiveram, por exemplo, na conquista de Alcácer do Sal, em 1117. Mas depois, como o Jaime Guerra já estava aí a chamar a atenção, é evidente que para além disso há esses interesses, essas razões de fundo, de certo modo, a força da realidade, a força da geografia. E também nesta época temos que ver outra coisa que é muito importante, que são as próprias relações dinásticas. Já no enquadramento destes acordos, destes tratados, o Tratado de Windsor, a aliança com João de Gaunt. E a gente não se pode esquecer, João de Gaunt, se não estou em erro, é aquele que o Shakespeare põe numa peça, não sei se é no "Ricardo II", é uma peça que ele põe a fazer a oração, o discurso da Inglaterra, é uma figura emblemática da Inglaterra. Ora bem, ele foi muito ajudado aqui. Enfim, não correu bem, mas foi bastante ajudado aqui, quer por Dom João I, quer pelo Condestável Dom Nuno Álvares Pereira, nessas guerras de Espanha, que ele não teve sucesso. Mas depois, há outra ligação fundamental, que é a Dona Filipa de Lencastre, filha do João de Gaunt, casar com o nosso Dom João I.

Dom João I.

E dar origem à tal ínclita geração, onde os fatores dinásticos nesta época foram muito importantes. Tudo isto tem depois repercussões, tem continuidade, vai continuando ao longo de todo o século XV e depois vai voltar a ter um grande incremento. Depois tem ali problemas, depois há um ponto que é muito importante, em que há um conflito, que é no período em que Portugal está, de certo modo, governado pelo mesmo rei que Espanha. Pelo Filipe II, de Espanha, primeiro de Portugal, e que nessa altura não há dúvida que os ingleses passam a ser nossos inimigos. Aliás, pra nossa desgraça.

Sim, nós perdemos a nossa marinha. A nossa armada é perdida com a Armada Invencível.

Com a Armada. Mas depois, logo a seguir, exatamente numa conjuntura, e nessa altura os ingleses fazem imensas malfeitorias aqui na costa portuguesa. Mas exatamente logo a seguir à restauração da independência de Portugal, da independência real, porque teoricamente a monarquia dual, mas éramos mandados de fato por Madrid e pelos espanhóis. Em 1642, já há um tratado com a Inglaterra, depois há outro em 49 ou 50, que já são os tratados que penso que são no tempo do Cromwell. Já são tratados comerciais com uma certa profundidade em termos de interesses. Em 1654, se não estou em erro, que dá um estatuto favorável aos comerciantes ingleses entre nós. E eu acho que o que está também no fundo de tudo isto, e muitas vezes nós temos muitas críticas em Portugal, de fato de termos entregue uma parte do domínio econômico aos ingleses, mas isto foi um trade off relativamente lúcido. Houve a ideia de que como precisávamos que os ingleses nos ajudassem a sermos independentes em relação à Castela, demos-lhes algumas vantagens e muitas vantagens, que foram depois confirmadas, sobretudo pelos Tratados de Methuen, já no princípio do século XVIII. Damos-lhes muitas vantagens no campo econômico e que se arrastaram até muito quase aos nossos dias E que teve o viver livrinho, depois tudo isso se passa para viver, mas há de fato razões de fundo e eu penso que foi uma relação relativamente lucida, ou seja, os portugueses, os governantes portugueses, os responsáveis portugueses, perceberam perfeitamente que estavam a ceder determinados interesses de ordem econômica e vantagens econômicas a troco de uma ajuda diplomática, militar, etc., aos ingleses que também, por sua vez, tinham de fato interesse em manter, dada a sua rivalidade com a Espanha, em manter aqui na península dois Estados.

José Gama, este aspecto é muito interessante e muito curioso. A política do Reino Unido foi classicamente tentar que não houvesse uma potência dominante na Europa, para que nunca houvesse ninguém que tivesse força suficiente para esmagar, controlar, dominar o Reino Unido. Isso foi algo que atravessou toda a sua história. Evidentemente, quando isto começa, como o Jaime Vieira Pinto recordou, nós estamos ainda na Guerra dos Cem Anos. A Guerra dos Cem Anos trava-se, sobretudo em solo francês, não em solo britânico, mas depois há muitos anos em que Portugal praticamente está sempre alinhado com os ingleses. Há guerras que nós praticamente não falamos delas, mas em que participamos, como a Guerra da Sucessão Espanhola, como a Guerra dos Sete Anos. E há esta permanência que é, apesar de Portugal também ser uma potência marítima, como os ingleses, e poder rivalizar e ter um domínio colonial, os ingleses sempre nos viram mais como aliados do que como rivais, ao contrário do que se passava com os espanhóis. Há alguma explicação para isso. Os espanhóis falam muito dos anglo-saxões e ligam muito isso à religião, mas nós também somos católicos como eles. Por que esta diferença?

Vamos talvez um pouquinho mais atrás. Na formação de Portugal e na sua individuação como Estado na Península Ibérica, há um período na primeira dinastia em que a coroa segue uma muito hábil política de alianças dinásticas com as casas reinantes peninsulares que não são Castela. E depois, se verificarmos bem, quais são os dois grandes aliados da formação do Estado português nesse seu recorte peninsular? São, por um lado, esta aliança com a Inglaterra, que não é um poder peninsular, mas que permite aqui gerir por parte de Portugal um equilíbrio face à pressão hegemônica dominante que se vai afirmando do lado espanhol, que é a preponderância de Castela, em detrimento dos reinos peninsulares e portanto há aqui esta aliança com um ente exógeno a este contexto geográfico que permite fazer esse equilíbrio, e com isso complementar o quê? A função papal de arbítrio a favor da legitimação do reino de Portugal. Ou seja, temos aqui, para usar uma comparação um pouco absurda e superficial com a realidade presente, o papado a funcionar como as Nações Unidas e a aliança com a Inglaterra a funcionar como a NATO. Ou seja, uma dá a legitimidade jurídica e outra dá o fator força efetiva que permite fazer este balanceamento. Depois, naturalmente, as coisas evoluem e essa aliança vai passar por vicissitudes várias. Na verdade, no período filipino, não nos esqueçamos que entretanto, os ingleses também ficam protestantes e, portanto, ficam num outro campo religioso. Mas Portugal vai, designadamente no período da restauração, ser heterodoxo, porque a potência em que Portugal se inseria do ponto de vista da legitimidade jurídica e canônica, está do lado de Castela. Portanto, a Sé está do lado de Castela e Portugal, sendo um reino católico, faz alianças heterodoxas. Com quem? Alianças heterodoxas com a Holanda, com a Suécia, com a Inglaterra, também no princípio faz com a França. E tudo isso visando consolidar a recuperação da sua independência, o que é algo extraordinário do ponto de vista diplomático, tanto que só vem a normalizar as relações com a Espanha em 1669. Quase 300 anos depois de 1640 e com a Santa Sé apenas no fim, em 1670, porque a Santa Sé tomava muito o partido de Espanha e Espanha conseguiu arguir junto à Santa Sé a doutrina de que Portugal fazia uma aliança com países protestantes De certa maneira, ao recusar a coroa espanhola, estava a praticar um regicídio, entre aspas, porque estava a defenestrar um rei católico e a preferir um alien. E daí a política do Dom João IV de consagrar Portugal à Senhora da Conceição e de a rainha de Portugal ser a Nossa Senhora e não a sua mulher, para influenciar e ganhar o papado a seu favor. Portanto, deste ponto de vista, o que é o confronto com Portugal na monarquia do mal é depois objeto a um tratamento diplomático português em que a aliança luso-britânica é recuperada em pleno e tudo isso vai depois traduzir-se em tratados importantes de consolidação da posição portuguesa, mas depois de ter vencido vicissitudes que foram de grande confronto. Os corsários ingleses atacaram não só as frotas espanholas vindas do México-

E também umas frotas portuguesas

...a própria navegação portuguesa vinda do Brasil.

Já me garanto. Neste percurso histórico, que de facto teve várias fases, o período medieval, depois a época da expansão, há um tratado que é muitas vezes referido como sendo um tratado que nos é particularmente desfavorável, se bem que na altura fosse visto como algo importante pra nós, que é o Tratado de Methuen. É um tratado que pra muitos faz com que tivéssemos ficado arredados, de alguma forma, da Revolução Industrial. Acha que podemos acusar os ingleses disso? Esse tratado é realmente um tratado desigual para Portugal?

Há uma grande polêmica e eu confesso que não sou propriamente um especialista nestas matérias econômicas. Sempre ouvi defender e sempre ouvi atacar e sempre ouvi dizer que não tinha sido tão desfavorável. Agora, é evidente que no fundo, o que a gente essencialmente fez nessa época foi uma facilitação, em termos econômicos, da entrada em Portugal dos têxteis ingleses, portanto, viriam essencialmente pra aqui com grandes facilidades de entrada. E, por outro lado, os vinhos, nomeadamente o vinho do Porto, que iria para a Inglaterra também com essas facilidades. Portanto, era uma espécie de especialização internacional de produções. Ou seja, havia uma espécie de complementaridade, se quisermos pôr as coisas assim. Portugal tinha essa facilitação das exportações dos seus vinhos, portanto, mantinha-se essencialmente como um país agrícola, chamemos assim.

Sim, mas de alguma forma isso consolida o vinho do Porto como aquilo que é, não é?

Sim, como uma bebida internacional. Aqui há um ponto também que estes tratados de Methuen, no fundo, são de certo modo dois tratados, porque ao mesmo tempo também se tratou, já fizemos aqui alusão, da parte militar e de Portugal intervir na grande aliança pra guerra da sucessão de Espanha e portanto apoiando o candidato arquiduque Carlos contra o partido que era também apoiado pela Inglaterra, pela Holanda e pela Áustria e contra o partido francês. Portanto, isto foram de certo modo tratados simultâneos. Agora, não há dúvida que há muita gente que diz que isso foi uma nossa renúncia, de certo modo, no momento inicial foi logo uma renúncia à indústria, foi uma renúncia nesta velha polêmica de que nós seguimos muito em Portugal e temos grandes pensadores no século XIX, Oliveira Martins, nomeadamente, que desespera muito em relação à aversão, à incapacidade do português pra indústria, quando ele diz aquela famosa passagem, que ele diz que vê o banco e que vê a loja, mas não vê a fábrica. Não há dúvida que houve o sublinhar desse tipo de dependência, que o tal atraso português viria de uma certa imposição, a troco talvez exatamente também dessa proteção militar e marítima e tudo isso, uma certa proteção, uma certa marginalização do país de Portugal no sentido da industrialização. É de facto. Já vi defendido por especialistas uma e outra posição. Sei que é uma polêmica bastante longa e destas que ficam sempre de pé.

Pois é. E seguindo um pouco pra diante, nós depois temos um período claramente de crise, que é o período do ultimato, em que Portugal entra em choque com o Reino Unido por causa da partição de África. Mas independentemente disso, já falamos do ultimato aqui no "Conversas à Quinta". Eu gostava de ir para algo que às vezes parece um bocadinho bizarro, como é que na altura, 600 anos depois, ou quase 600 anos depois, quando instala a Segunda Guerra Mundial, a velha aliança é invocada para, não diria para convencer, mas de alguma forma Para influenciar Portugal no sentido de manter a sua neutralidade e, portanto, manter alguma amizade com os ingleses. Há uma nota de Churchill para Salazar em que isso é feito e há toda uma leitura do que foram estes tempos muito feita no quadro dessa aliança, mesmo que Portugal tenha mantido uma posição neutral. José Megal, como é que foi isto? Foi realmente tão bizarro, nós só deixamos de falar desta aliança quando entrámos agora na União Europeia e na NATO, que são quadros de aliança mais vastos, digamos assim, e que já tornam um pouco obsoletas alianças mano a mano como a velha aliança.

Nós temos que ver que essa aliança também passou por períodos de maior ou menor atrição no passado. A forma como essa aliança opera em relação à independência dos Estados Unidos. Depois, a forma como essa aliança gere no período napoleónico e na sua sequência.

Mas o período napoleónico é uma altura alta da aliança, não é?

Sim, mas com nuances, porque depois há a forma como gere a independência do Brasil, nem tudo coincide, e a forma como gere o papel de Inglaterra na estabilização do sistema político português saído de 1820.

Sim, até porque Inglaterra acaba por participar indiretamente na guerra civil, não é? Apoiando os liberais.

A seguir atentamente. E depois, também há a forma como é gerida toda a questão da relação dita colonial, com questões que têm a ver, por um lado, com a abolição da escravatura e, por outro lado, com a delimitação de fronteiras em África, na sequência da Conferência de Berlim e aí também toda a questão do ultimato. E também as posições em relação à gestão da Primeira Guerra Mundial com a gestão da transição da monarquia para a República. Na Segunda Guerra Mundial, não nos esqueçamos também da participação inglesa em negociações com a Alemanha antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial e a colocação em hipótese da partilha de Angola e Moçambique como forma de sossegar a aspiração da Alemanha a uma presença maior nas colônias. Portanto, é tudo feito com algumas nuances. Embora a mim pareça que durante a Segunda Guerra Mundial, sem ignorar o que é a guerra econômica usada pelos ingleses em relação a Portugal na época, há uma tentativa de procurar, já na sequência do que tinha acontecido durante a Guerra Civil de Espanha, de procurar articular a relação de Portugal com o mundo, em especial com a potência emergente que são os Estados Unidos, através de uma avaliação do papel de Inglaterra como desempenhando um fator moderador nessa relação. E, portanto, aí há uma recuperação da aliança inglesa, que não é bem uma recuperação feita de convicção profunda. Não nos esqueçamos até que os interesses ingleses em Portugal são terminados durante esse período, mais à frente, com o fim das concessões nos telefones e também na Carris. Portanto, há aí a consciência de que essa relação com Inglaterra não se deve manter tal como se mantivera antes. E, portanto, mesmo até uma certa recuperação com o Alfredo da Silva da função que o país devia ter quanto à sua própria capacidade industrial em relação à função financeira que era desenvolvida com a Praça de Londres, através do controle da dívida portuguesa. Portanto, há aí muitas coisas que têm que ser analisadas, mas parece-me que nesse período, essa aliança é fundamentalmente uma aliança que serve para atenuar uma relação que teria sido mais brutal se tivesse sido estabelecida diretamente com os Estados Unidos. País em relação ao qual não havia capacidade para gerir em pleno a emergência do seu poder mundial e, portanto, há uma relação que se estabelece aí. Embora depois haja dois problemas que frustram muito esse relacionamento e são problemas que se põem na diplomacia portuguesa da época em relação aos ingleses. A questão de Goa e a questão da Rodésia e de Moçambique, que são dois irritantes muito fortes na aliança luso-britânica nessa época.

José Megal Pinto, nós estamos já aproximando do fim do programa, mas que sentido faz falar hoje desta aliança quando Portugal tem uma outra aliança formal com o Reino Unido, fazemos ambos partes Parte da NATO e, de alguma forma, deixamos de ter a integração comum na União Europeia, porque o Reino Unido saiu da União Europeia. Como é que vê esta relação? O Reino Unido tornou-se, de novo, um dos principais destinos de imigração dos portugueses. Os portugueses, hoje em dia, mais do que durante muitas gerações, estão mais ligados à cultura anglo-saxônica do que estiveram no passado. Lê-se mais os autores de origem anglo-saxônica, e não é só por causa do cinema e da literatura, é também por causa da ciência política, onde há uma influência que não houve durante muito tempo. Como é que vê esta transição? Vai ocorrer apenas aí ou o facto de, para todos os efeitos, continuarmos a ser dois países atlânticos, faz sentido continuarmos a falar desta velha aliança? Eu recordo isso até porque quando esteve em Lisboa, quando era Ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson fez uma intervenção em torno precisamente da velha aliança.

Sim, eu acho que nós vamos continuar a ter, mesmo dentro da União Europeia e não só por causa das circunstâncias atuais, vamos manter os Estados nacionais que vão continuar a ser os grandes eixos do poder político. Estados nacionais onde uns serão mais poderosos que outros, outros terão talvez uma certa hegemonia regional, mas de qualquer maneira, essa ideia e essa tradição, que aliás o Roger Scruton, que é um pensador conservador inglês muito importante, talvez até mesmo mais importante desta última geração. O Roger Scruton insiste muito nisso, quer dizer que é muito importante que nós estamos num mundo, e é bom que continuemos num mundo de Estados nacionais, de Estados independentes. E que isso é o paradigma da cultura europeia. Nesse aspeto, nesse sentido, e também pelas razões que o José Manuel estava a falar, porque eu e o Jaime Gama ainda somos de uma geração que era muito dominante em todos os aspetos.

Nós tínhamos mais tempo de aprendizagem de francês do que inglês, não é? Isso agora mudou.

Hoje, tínhamos muito esse domínio do francês, mas isso mudou e o francês recuou fortemente nesses aspetos, aqui em Portugal e noutros países. Até talvez isso tenha sido mais por obra da América que por obra da Grã-Bretanha, mas não há dúvida que isso aconteceu. E eu acho que essa relação mantém, por essas razões todas, e para além das coisas em que estamos em comum, como é exatamente esse caso da NATO e o denominador comum Atlântico e tudo isso. Acho que essa relação continua a ser importante e vantajosa para os dois países, embora não se ponha hoje talvez nós precisarmos propriamente da Grã-Bretanha para nos proteger da Espanha, que aliás tem muitos outros problemas com que se preocupar propriamente com anexar Portugal. Portanto, acho que nesse aspeto a aliança inglesa continua a ser, do ponto de vista cultural e político, bastante importante e significativa.

Jaime Gama, muito sinteticamente, a mesma questão. Depois de uma aliança na NATO, uma não aliança na União Europeia, dois países atlânticos, que espaço para a velha aliança luso-britânica neste quadro do século XXI?

Tem um imenso valor cerimonial e um imenso valor histórico e tem um ponto alto que é a Guerra Peninsular. Isso tem sempre uma capacidade de sublimação e de celebração imensa. Mas dito isso, não nos podemos esquecer de uma coisa: quem arrasta Portugal para a União Europeia é a Inglaterra e a entrada da Inglaterra na União Europeia e o fim da EFTA. E não nos esqueçamos que as duas grandes madrinhas da entrada de Portugal na União Europeia acabaram por ser a rainha da Inglaterra e a primeira-ministra Margaret Thatcher, que vieram antes da formalização do tratado de adesão, visitar Portugal de uma forma muito solene e significar o empenhamento da Inglaterra nessa opção portuguesa. Portanto, isso é preciso também ter em consideração. Quanto ao resto, se verificarmos, Portugal até foi um dos países que menos criticou o Brexit para salvaguardar a especificidade e o valor dessa relação histórica, e que procurou desde cedo desenvolver também uma relação própria com o Reino Unido que sobrevivesse às atrições decorrentes do Brexit, e tem mantido essa linha e isso é positivo. Há áreas em que o relacionamento tem razões específicas muito próprias, por exemplo, na área da defesa. Isso aí é absolutamente essencial. E isso é algo que devemos preservar. Depois também na área científica, na área cultural, e esperemos que passe também este embate do Brexit e que a atual situação europeia também leve a repensar um pouco a necessidade da Europa com a Inglaterra, com o Reino Unido, ser mais solidária, mais estruturada e mais cooperativa. E esse exame também é seguramente um exame que é feito em Inglaterra. Portanto, nós não somos, no contexto europeu da União Europeia, um dos países que se caracterize por assumir radicalidade ou criticismo exagerado em relação às posições que levaram a Inglaterra a assumir outro caminho. E procuramos sempre salvaguardar essa relação essencial, que não é hoje o que foi no passado, mas que contém imensas virtualidades, que mais não seja a virtualidade de dois países tão antigos poderem celebrar um tratado e uma relação tratadística que porventura é ímpar no relacionamento entre os Estados.

Acabamos mais um "Conversas da Quinta". Não será ele que vai terminar com esta aliança. Temos um largo programa de comemorações pela frente, com uma participação grande do município de Vizela e do município de Braga, até por causa da origem do tratado em Tagil, do primeiro dos tratados que aqui referimos hoje. Quanto ao "Conversas da Quinta", estaremos de regresso dentro de uma semana.