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Na Tarde em Direto hoje estamos à conversa com Rodrigo Francisco, o diretor do Festival de Teatro de Almada, que termina este fim de semana. O festival esteve para não acontecer, mas sem desistir, juntaram 17 companhias de teatro que durante todo o mês de julho apresentaram trabalhos na edição mais portuguesa de sempre. Rodrigo, bem-vindo. Obrigada pela disponibilidade.

Obrigado.

Bem-vindo, Rodrigo.

Rodrigo, este ano, claro, tudo isto foi muito fora do comum. Portanto, no fundo, colocar este festival de pé mais uma vez, diria que foi uma prova de resistência?

Sim, foi sobretudo uma prova de confiança que o público nos deu. Nós durante o período de confinamento ligámos aos nossos espetadores, um a um, perguntando o que eles achavam, não sabendo ainda se seria possível haver festival ou não, porque essas regras ainda não tinham sido definidas. E as pessoas, o que nos responderam, foi que mais de metade disse-nos que se houvesse festival, cá estariam e adquiririam a sua assinatura para assistir a todos os espetáculos. E, portanto, foi pelo público, tendo em conta o serviço público de cultura que prestamos, que nós decidimos avançar com esta programação do festival, que é uma programação, como disse, que não é habitual. Tivemos só três espetáculos estrangeiros, mas foi também uma oportunidade para medir o pulso à criação teatral portuguesa contemporânea. Um exemplo disso é o espetáculo que temos ainda este fim de semana em cena aqui no Theatro Municipal Luiz Quintanilha: "Turismo", do Tiago Correia, uma companhia do Porto. E, portanto, o festival foi diferente, mas a reação que temos tido por parte das pessoas foi ótima. Houve uma grande emoção em realmente os espetadores poderem voltar às salas.

Claro que sim, o festival já é uma referência e, portanto, houve sempre esse apoio também de quem vos queria ver, de quem queria estar com o festival, como nos explicou agora. Mas logisticamente, eu imagino, os desafios foram muitíssimos, não, Rodrigo?

Foram. Nós tivemos várias versões de programações, porque tudo isto começou em meados de março. Começamos a receber as primeiras notícias de que as companhias estrangeiras, algumas delas que já estavam programadas, a programação já estava feita, mas as maiores foram logo as primeiras a dizer que não poderiam viajar. Foi um período difícil para nós também enquanto companhia, porque nós estivemos em lay-off e tivemos que manter o ânimo e, sobretudo, o ânimo de toda a gente que aqui trabalha. São 35 pessoas. Por exemplo, a equipe técnica esteve a construir um cenário durante esse período, durante o mês de abril, sem saber se poderíamos estrear o espetáculo ou não. Mas foi também uma forma de nos salvarmos, porque um período completamente estranho, em que o medo pudesse se ter apoderado das nossas vidas. Uma forma que nós encontramos de mantermos este projeto foi continuarmos a trabalhar, continuarmos a fazer aquilo que sabemos, que é fazer teatro.

E chegaram a temer o pior, Rodrigo? Chegaram a temer que essa força para fazer um trabalho destes, nesta altura, não existisse ou sempre confiaram que era possível, mesmo nestas condições, continuar a trabalhar, continuar a dar trabalho, que era também muito importante, continuar a fazer mexer também este setor numa altura em que boa parte do país estava paralisado?

Nós não fizemos nada de muito extraordinário. Nós fechamos o teatro quando as autoridades disseram para fechar o teatro e reabrimo-lo quando as autoridades disseram para o reabrir, no início de junho. Não tínhamos nenhum espetáculo para apresentar nessa altura, mas abrimos o edifício aos espetadores. Agora, o que nós não fizemos foi deixar de trabalhar. Ou seja, com o teatro fechado, nós mantivemos a atividade, porque achamos que era o nosso dever, não só com as autoridades, que de resto se fizeram representar. Na abertura do festival, houve um fato inédito, que foi sublinhado até pelos correspondentes estrangeiros que estão a seguir o festival. Estavam presentes no teatro o presidente da República numa sala e o primeiro-ministro noutra, contemporaneamente. Eu acho que nunca aconteceu neste país. Portanto, sentimos o respaldo dos decisores políticos, por assim dizer.

Sentiram que tinham tomado a decisão certa e que estavam a fazer algo também, não apenas para vocês, mas para todos.

Mas aí está a diferença. Nós não estávamos a fazer isto por nós, estávamos a fazer isto pelos espetadores. E tivemos a perfeita noção de que tínhamos tomado a decisão certa quando, na noite da apresentação da programação, já a 21 de junho, já tínhamos vendido mais da metade das assinaturas que tínhamos colocado à venda. O que nós fizemos foi muito simples: foi limitarmo-nos a ouvir os espetadores e era não termos esta atividade do teatro como uma coisa nossa, é um serviço que nós prestamos aos espetadores. Isso poderá ter sido novo, acho eu, porque não ouvi muita gente a falar neste problema. Muita gente falava no problema dos artistas, mas não ouvi ninguém a falar do problema dos espetadores.

E foram recebendo também muitos pedidos e muitos apelos para que não terminassem, para que não desistissem, para que avançassem com o festival, para que permitissem às pessoas que tivessem esse momento de ida ao teatro, apesar dessas condições.

Houve até pessoas que nos disseram, quando lhes ligámos a perguntar o que achavam, que nos disseram: "Eu não vou poder ir, porque sou de um grupo de risco, mas não se preocupem porque vou adquirir a minha assinatura, o passe para todos os espetáculos, e alguém irá no meu lugar". E quando se ouve coisas destas, tem-se mesmo esta sensação.

Claro, é incrível. Essa disponibilidade, não é? Claro. Preenche bastante. Rodrigo, eu gostava de falar também um pouquinho da homenagem que vocês este ano estão a prestar ao Ruy Mendes.

Sim, nós homenageamos o Ruy Mendes, que é um ator, mas não só, é também encenador, tradutor, professor, que tem atravessado e tem influenciado várias gerações de artistas. Nós habitualmente temos uma exposição de homenagem que acontece na Escola António da Costa, que é um espaço que nós este ano não pudemos utilizar por causa das regras sanitárias. O José Meral Castanheira concebeu uma exposição que está ainda patente no foyer do Teatro Municipal Joaquim Benite, que tem uma componente take away, ou seja, há um contentor que é uma espécie de Arca de Noé em que temos um Rui Mendes condensado com as suas preferências artísticas, com o seu percurso. E depois há uma parte que é uma caixa que as pessoas levam para casa, onde está resumido aquilo que é mostrado nesse contentor.

Muito curioso essa exposição take away.

Sim. De resto, este ano, excepcionalmente, houve a surpresa de o Presidente da República ter condecorado o Rui Mendes no dia da abertura do festival com a Ordem do Mérito no dia 3 de julho. Portanto, foi uma surpresa com a qual ficamos bastante felizes, não só o Rui Mendes, mas também nós, Companhia Teatro de Almada e claro, o público.

O festival que termina este fim de semana, portanto termina no domingo. Destaques, o que é que ainda é possível ver? Eu aproveito para lhe deixar este espaço aberto para fazer também o convite a quem nos está a ouvir e que está muitíssimo curioso, imagino.

Muito bem. Amanhã temos cinco espetáculos a acontecer. O André Morraças vai ter na Incrível Almadense o espetáculo que se chama "O Criado". Por outro lado, a Luísa Cruz vai estar a interpretar de novo "A Criada Zerlina", dirigida por João Botelho, no Fórum Romeu Correia, em Almada. Também em Almada, na Academia Almadenense, o espetáculo espanhol "Rebota, Rebota y en Tucana Explota". É um espetáculo premiado, de um feminismo de guerrilha e que está em cena ainda hoje, amanhã e domingo. E aqui no Teatro Municipal Joaquim Benite, temos na sala principal o "Turismo", do Tiago Correia, que é uma companhia do Porto, a Turma, um espetáculo sobre a gentrificação das cidades. E na sala experimental, uma criação da companhia Mártir de Mário Zoffo and Mayerburg, uma encenação minha, que esteve em carreira durante todo o festival, desde o dia 3 até domingo.

Todas as informações estão no site festival.ctalmada.pt para quem nos está a ouvir. E Rodrigo, já agora aproveito para lhe fazer também uma pergunta. Nós ao longo deste período de pandemia temos estado à conversa com variadíssimos artistas das mais variadas áreas e temos perguntado sempre isto: se acham que a perspetiva em relação à arte, ao lugar da arte na vida de todos nós, mudará depois da pandemia, ou se acha que, pelo contrário, isso não vai acontecer.

Olhe, eu acho que já mudou só pelo fato de durante três meses não ter havido teatro. E a força com que os espectadores voltaram às salas, mesmo com todas essas condições, de terem a obrigatoriedade de usar máscara, já nos veio mostrar a falta que o teatro nos faz. Às vezes é preciso passar por períodos em que não temos acesso a determinados bens para percebermos o quão precisamos deles para viver. Agora, há uma coisa que já é certa. Este festival foi possível realizar-se em moldes diferentes, mas a quebra de receitas próprias, no nosso caso, é na ordem dos 20%, porque as lotações estão reduzidas para metade.

E o que significa essa quebra de 20% em termos práticos e de funcionamento?

Olhe, em termos práticos, foi possível realizar o festival porque algumas das companhias estrangeiras, que implicavam um investimento maior, não vieram. E portanto, encontrou-se este formato de fazer um festival quase exclusivamente português, digamos assim. Agora, para o futuro, até nos espetáculos das criações da nossa companhia e de todas as companhias, vai ter que se ter em conta este fato. É que, pelo menos no nosso caso, a venda de bilhetes era uma parte importante do nosso financiamento e essa possibilidade de financiamento está agora reduzida em 50%, que é a redução que as salas têm.

E como é que se aperta o cinto num setor que está sempre a lidar também com as dificuldades financeiras?

Agora não se vai poder apertar o cinto. Agora vamos ter que encontrar, e o Estado vai ter que encontrar, formas de compensar esta impossibilidade nossa de não poder vender tantos bilhetes como vendia.

Já agora, Rodrigo, queria perguntar uma coisa. O Rodrigo Francisco é diretor de um festival de teatro, do Festival de Almada. Nós ouvimos, por exemplo, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, dizer, e passo a citar: "Voltem às salas de cinema, voltem ao teatro, a cultura é vida". Como é que se olha para palavras destas da ministra da Cultura, que pede às pessoas que voltem às salas de cinema e voltem ao teatro, ao mesmo tempo que ouvimos tanta gente do setor deixar críticas à forma como o governo tem ajudado, ou neste caso, pouco ajudado as pessoas ligadas ao setor. Não sei se partilha dessas críticas, de algumas críticas que foram sendo feitas também ao governo e à forma como o governo tem lidado com esses problemas do setor da cultura, pré-pandemia, durante a pandemia também, e neste momento em que estamos agora a tentar sair também deste problema.

Olhe, esse conceito de setor da cultura é um conceito muito vasto e que inclui realidades muito distintas. O que eu posso falar é do nosso caso particular. Companhia de Teatro de Almada, nós temos um contrato quadrienal de apoio com o Ministério da Cultura por meio da Direção Geral das Artes, e esse contrato de apoio tem sido escrupulosamente cumprido. E portanto, em relação a isso, não há nada a apontar. Houve até da parte da Direção Geral das Artes uma abertura para podermos adaptar os orçamentos que tínhamos contratados a esta nova realidade. Agora, a definição daquilo que é cultura é uma discussão muito vasta. Pode ler-se o Elliott sobre isso. O Manuel Maria Carril uma vez disse aqui neste festival: "Se tudo é cultura, então nada é cultura". E portanto, eu acho que antes de se entrar nesse tipo de discussão, é preciso definir muito bem do que se está a falar. Nós somos uma companhia de teatro subvencionada e portanto só posso responder em relação àquilo que se passa conosco. E os contratos com o Estado têm sido escrupulosamente cumpridos. Houve espetáculos que nós não pudemos apresentar durante os meses em que o teatro esteve fechado e vamos apresentá-los na segunda metade do ano.

Rodrigo Francisco é o diretor do Festival de Teatro de Almada, é o diretor artístico da Companhia Teatro de Almada. Este festival chega este fim de semana ao fim, mas eu volto a repetir o site onde pode consultar toda a informação, porque hoje, por exemplo, também há espetáculos para ver, portanto, festival.ctalmada.pt. Rodrigo, muito obrigada, até à próxima.

Até à próxima.

Até à próxima.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.