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Vamos descobrir já a seguir. A imagem de um agricultor de Estarreja com um cabrito ao colo é uma das fotografias finalistas do concurso mundial da aplicação Agora. Na imagem a preto e branco, o homem aparece vestido com um capote, segurando de mão aberta o animal contra o peito em jeito de proteção paternal. E o cabrito, branco e cândido, está de pescoço erguido, olhando para o alto e de focinho encostado ao queixo do seu protetor. O autor desta imagem é o veterinário e fotógrafo Jorge Bacelar, que se junta a nós em direto. Olá, Jorge.
Olá.
Bem-vindo, Jorge. Viva.
Obrigado pelo convite. Agradeço.
Ora essa. Jorge, espero ter sido justo na descrição da fotografia finalista. Onde é que foi feita esta imagem e em que circunstâncias?
Eu sou médico veterinário e faço clínica de campo. Visito regularmente, diariamente, muitos agricultores. Esta imagem foi tirada em Estarreja, no agricultor Bruno Lopes. Segurava o animal recém-nascido e eu fiz essa imagem.
Foi uma fotografia espontânea ou foi uma imagem preparada?
Acabo por pensar sempre no melhor sítio onde vou tirar a foto. A reação do animal é sempre espontânea. Assim como o olhar das pessoas. Agora, a composição e a forma como vou metendo a luz na máquina, é no momento. A fotografia é o momento e acabou por sair. O agricultor encostou-se no sítio que eu pretendia e fiz a foto.
Esta imagem foi feita numa das suas incursões pelo mundo rural português e que faz parte do livro que o Jorge editou chamado "Ruralidades". Todas as fotografias têm uma espécie de matriz. O Jorge pede sempre, e posso correr o risco de estar a ser injusto, aos seus modelos que se cheguem à luz para depois criar uma atmosfera com fundo negro, que poderíamos quase designar como uma imagem de tons bíblicos. É isso?
Obrigado. Sim, a fotografia não é mais do que jogo de luz, e aproveitarmos a luz e brincarmos com a luz. E nas explorações, assim como nas cozinhas, nos ambientes que me desloco, são ambientes muito sombrios e escuros. As cozinhas muitas vezes estão pintadas de negro pelo fumo e muitas vezes as explorações também têm o sítio onde a luz entra pela janela, por uma porta, e aproveito. Aproveito essa luz, aproveito o jogo dessa luz para ter as imagens que as pessoas vão vendo e que fazem parte desse livro, "Ruralidades". É isso.
Jorge, este é um livro que o deixa orgulhoso?
Sim, claro. Eu gosto das minhas fotos, gosto de todas elas. E o livro não é mais do que também as pessoas poderem ter em casa e guardarem e poderem ter em sua casa um pouco, quase como um diário da minha vida, porque eu vou retratando as pessoas, minhas amigas, os agricultores que eu convivo e vivo com eles diariamente e a forma de perpetuar momentos é através da fotografia.
E faz fotografias todos os dias, Jorge?
Não, não faço fotografias todos os dias. Normalmente aproveito mais ao fim de semana, num dia que esteja mais tranquilo, porque trabalho com milhares de agricultores e com muitos agricultores e depois apareço lá ou agendo com eles e fotografo.
Mas portanto, não sente essa necessidade de fotografar todos os dias. Não se levanta de manhã a pensar que vai ter de tirar uma fotografia a isto ou aquilo, ou seja, deixa que algo à sua frente acabe por sugerir essa fotografia e também lhe acontece, de certeza, não ter aí uma máquina à mão para avançar com o processo.
Sim, é naquele momento, quando me encontro na exploração para ir fotografar, que olhando ao redor, vendo os frutos do campo, os animais recém-nascidos ou os animais da exploração, na altura depois surge a ideia, vejo onde está a luz que eu mais aprecio, de que forma é que entra e aproveito para fotografar. E nesses momentos estou completamente concentrado e a viver aqueles momentos, que considero únicos, porque gosto muito de fotografar e gosto muito de retratar os meus agricultores e de os perpetuar e de os enaltecer através da fotografia. É uma homenagem que lhes presto e que eu acho que eles merecem.
Jorge, como é que surgiu esta ideia de começar a fotografar os agricultores com quem se ia cruzando no dia a dia?
Eu, na realidade, comecei com o vídeo. Comecei primeiro a recolher imagens, porque tenho a noção que muitas dessas explorações têm os dias contados e muitos desses ambientes que eu vivo e tenho o privilégio de viver e de observar diariamente, mais meia dúzia de anos, uma dezena de anos, termina, certamente.
Estamos a falar, sobretudo, de agricultores que fazem a chamada pequena agricultura, não é?
Exatamente, porque embora as fotografias não é o meio que me motiva tanto a fotografar, eu trabalho com grandes explorações, explorações muito grandes, com muitos animais, já com robôs a ordenhar, com tudo mecanizado, mas na fotografia, o que me fascina mais é este tipo de ambientes.
Porque são os mais pitorescos, os que se prestam a melhores imagens, é isso?
E são pessoas idadas, muito minhas amigas. Tratam-me como um membro da família e é indescritível. Foi isso que me levou a ter que registrar essas imagens, porque realmente são muito meus amigos. Todos os agricultores são meus amigos, mas pela necessidade que sinto das pessoas, se calhar, não valorizarem como deviam valorizar o mundo rural e os agricultores. Olharem de outra forma. São pessoas que trabalham do nascer ao pôr do sol, e se todos hoje temos uma refeição, devemos a eles também.
A verdade é que, Jorge, há muita gente que acaba por dizer que bem que se está no campo, mas a verdade é que depois, na prática, pouca gente quer trabalhar e quer ir viver para o campo e para o mundo rural, até porque é um espaço onde necessariamente se obriga, muitas vezes, ao trabalho de dia e de noite.
É verdade, e não há fim de semanas, nem há férias. Isto é trabalhado do nascer ao pôr do sol, sem direito a férias, nem fim de semanas, nem nada. É um trabalho duro e que eu acho que deveria ser valorizado e enaltecido. O trabalho deles deveria ser pago de forma justa. As pessoas, no geral, deviam valorizar.
O Jorge sente que as suas fotografias, que têm corrido um pouco o país em exposição em vários espaços culturais, já tive a oportunidade de ver fotografias suas, por exemplo, no Auditório Augusto Cabrita, no Barreiro. Sente que as suas fotografias servem de alguma maneira para ajudar a mudar um pouco a mentalidade que existe em Portugal em relação ao mundo rural português? Sente que isto é uma expressão que valerá o que vale?
Eu acho que sim, pelo menos é o que eu tento. Porque o mundo rural muitas vezes passa ao lado das pessoas, que também passam o dia todo a trabalhar.
Longe da vista, longe do coração, como se costuma dizer.
Pois, é um pouco isso. E é por isso, se vir nas minhas fotografias, quando viu a exposição, eu procuro este lado afetivo das pessoas com os animais, mas também com os frutos do campo, mas que se vejam os rostos, as mãos de trabalho. Tento jogar com isso tudo e sempre com o objetivo de enaltecer as pessoas e de as dignificar, porque são pessoas que merecem todo o nosso respeito e a nossa admiração.
Jorge, os modelos, estes agricultores do mundo rural português, transmitiram-lhe feedback das fotografias que foi tirando ao longo dos últimos tempos?
Gostam muito. É engraçado, porque ao início eu até acreditei que, se calhar, eles deixariam-me fotografar mais no sentido de me verem feliz, sabendo que eu estava a fazer aquilo que gostava, mas certamente nem faziam ideia do que é que viria a seguir.
Portanto, eram modelos desinteressados.
Sim. Eu acho que eles, acima de tudo, estão mais para estar comigo e para estarmos aquele bocado, porque não estamos só a fotografar, estamos a falar de várias coisas, da vida, da dificuldade, do dia a dia, e a fotografia também surge. E noto que eles sentem um grande orgulho nas fotografias. E das coisas que mais, por exemplo, essa exposição no Auditório Augusto Cabrita, que foi uma grande exposição que eu tive aí, mas senti pena que os agricultores não foram. Quando são exposições mais perto da zona onde eles estão, aqui em Mortós, Estarreja, eles vão às exposições e é muito bonito, porque parece que eles saltam das fotografias e circulam ali a ver a exposição, e é mesmo muito bonito. E olhar pra cara deles, a felicidade deles é gratificante.
E Jorge, qual é que tem sido a reação do público, não só às fotografias em si, à sua qualidade artística e expressiva, mas também ao objeto das fotografias, portanto, agricultores, e estou a olhar aqui pra algumas das suas fotografias, agarrados a uma vaca ou uma galinha, ou aos ovos, ou às laranjas. Qual é que tem sido a reação do público?
As pessoas gostam. Para ser sincero, nunca tive nenhum amargo de boca.
A minha pergunta é no sentido: são imagens que nos transportam quase pra um imaginário da antiguidade. Parecem pessoas vindas de outra era do passado. Era mais nesse sentido a minha pergunta. Ou seja, expressam perplexidade por ainda existirem pessoas que vivem naquele contexto?
Eu acredito que, se calhar, ao início expressavam. Neste momento, expressam respeito e admiração por eles. Ao início, acredito que sim, tenham ficado um pouco admirados. Mas agora, não, mostram respeito e admiração, que é isso que eu procuro mais, é que sintam respeito e admiração pelas pessoas que eu fotografo. Porque a fotografia é um momento e também temos que ter muito cuidado naquilo que pomos cá pra fora, e é sempre no sentido de as enaltecer e que elas sintam orgulho naquilo que vejam. Porque é uma responsabilidade também enorme Do fotógrafo naquele momento. Ele dá-nos a liberdade para podermos fotografar e nós temos que dar o máximo para que ele também fique contente. E quando a foto não fica aquilo que procuro, também não aproveito.
Sentiu alguma resistência por parte destas pessoas, destes agricultores, ao fotografar ou não?
Não. Até há agricultores que ainda não fotografei e que me pedem para ir lá fotografar. Nesse aspecto, não. E se às vezes estou tempo sem ir lá fotografar, eles próprios telefonam-me e pedem para aparecer para fotografar. É uma admiração mútua. Fico contente de eles gostarem. Mais me entusiasma, mais do que os prêmios e de várias conquistas que possa ter e das exposições que tenha feito, que também são importantes. Ter agricultores meus para expor no Museu Nacional de Arte Antiga, por exemplo, ou estou a agendar também no Museu Nacional, uma exposição individual minha com os meus agricultores. Tenho muitos convites e isso deixa-me muito feliz.
Muito bem. O Jorge é veterinário. Estudou fotografia ou nem por isso?
Não estudei. É bom que se estude, acho que é importante conhecermos bem a minha máquina, mas conheço muito bem a minha máquina, conheço bem todas as funções e sei perfeitamente o que procuro e sei meter a luz que procuro na fotografia para fazer as fotografias que as pessoas veem.
O que é essencial para tirar uma boa fotografia? Para alguém que não perceba nada, que pode até ser um apaixonado da fotografia, mas do ponto de vista de quem está a observar.
Uma boa composição. A composição é tudo.
Composição significa, Jorge?
É metermos na fotografia, como temos um quadro, uma pintura, é metermos os elementos nos sítios certos. Há determinados pontos na fotografia que fazem saltar a fotografia. Isso, a falar na rádio é mais difícil, mas se dividirmos a fotografia em linhas verticais e horizontais, em duas horizontais e duas verticais.
Uma espécie de uma quadrícula, não é?
Uma quadrícula. Há pontos-chaves que são importantes e depois jogar com linhas oblíquas. A composição, no fundo, é aquilo que nós vemos, nós olhamos para uma imagem e dizemos: "Gostámos disto". E depois prende-nos o olhar. Mas por que nos prende o olhar? E tem tudo a ver com composição.
É colocar os pontos de interesse na linha dos dois terços. E depois traçar uma ou duas diagonais imaginárias e colocar alguma data de elementos. É isso? É por aí?
Explicou muito melhor. Exatamente, é isso. E da forma como os nossos olhos leem. A nossa leitura, mesmo quando nós lemos um livro, se é da esquerda para a direita, também nós quando olhamos para uma fotografia, temos tendência a olhar da esquerda para a direita, normalmente. Tentar meter na composição os elementos que queremos na fotografia, de forma a que o olhar se prenda na imagem.
E, portanto, é preciso uma técnica apurada, é preciso saber daquilo que se está a tratar, neste caso de fotografia. Mas queria lhe perguntar se é preciso também uma boa dose de inspiração ou se a inspiração para aqui não é chamada, se é preciso sobretudo técnica.
Não, tudo é importante, mas o mais importante não é a técnica. O mais importante é o olhar do fotógrafo. É naquele momento decidir o que é que tem que meter naquele quadradinho, naquele retângulo, o que resulta na fotografia. As línguas, as espirais, tudo que nos faça saltar e que nos faça ver que isso realmente é uma boa fotografia.
Jorge, estamos na reta final da nossa conversa de fim de tarde de hoje. Que projetos é que tem no domínio da imagem com agricultores? Vai continuar a fazer este tipo de imagens ou vai mudar de registo?
Não. Será sempre dentro da ruralidade. Fotografo essencialmente a ruralidade. Porque na fotografia temos que gostar muito daquilo que fazemos e vivermos bem o momento. E por gostar muito da ruralidade e dos agricultores é que os fotografo. Acho que se não fosse veterinário, se calhar nem sei se fotografava. É por gostar muito deles e por gostar também muito da fotografia e de ter aprendido a gostar, porque também não fotografo assim há muito tempo, que me apaixonei pela fotografia.
Muito bem, Jorge Bacelar, muito obrigado por se ter juntado a mim e ao João na conversa de fim de tarde desta segunda-feira. Jorge Bacelar, veterinário e também fotógrafo, é um dos dois portugueses finalistas do concurso mundial da aplicação Agora.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada