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Já temos conosco a nossa convidada de hoje. A Inês Gomes é a autora da novela que pode ver atualmente na SIC, "Terra Brava". Inês, bem-vinda.
Muito obrigada.
Olá, Inês. Bem-vinda.
Primeira vez na Rádio Observador. Inês, mas podia estar ali do lado do Ricardo Conceição, se no início do seu percurso tivesse optado por seguir o jornalismo, que foi algo que não fez, não é?
É verdade. Tirei Comunicação Social, ainda estive a trabalhar na Rádio Renascença, mas passei depressa pro guionismo.
Como é que trocou a profissão que procura os factos, a verdade, pela ficção, neste caso? Como é que isso aconteceu?
Na verdade, eu apanhei uma época em que os jornalistas eram todos estagiários e eram estagiários durante muito tempo. Então eu achei que precisava de começar a fazer outras coisas. Ainda estive a dar aulas, e depois surgiu esta oportunidade. Estava a ser formada a Casa da Criação, que era uma estrutura só para argumentistas da MPB, na altura. Eu acabei por tentar entrar. Tive que adaptar um guião pra ver se me conseguia adaptar a escrever. E foi assim que entrei neste meio.
Bom, uma coisa é certa: é preciso uma dose de criatividade gigante.
É uma coisa que se treina também. Isto de ter ideias, treinar a criatividade e criar histórias, vai se treinando também, é um processo.
E o que é que nasce primeiro? É a espinha dorsal do enredo e depois vão adaptando ao longo, neste caso, nas telenovelas, por exemplo. Primeiro, tem uma ideia pro enredo e depois é que vão criando ao longo da telenovela, é assim?
Sim, primeiro tem que ter uma ideia. Geralmente, começa-se pela história principal, pela história dos protagonistas. Depois desenvolve-se os outros núcleos, que gravitam um bocadinho à volta dos protagonistas e depois ao longo da novela, vamos construindo as histórias e o enredo e vamos levando as personagens. Eu, quando começo a escrever, sei mais ou menos onde é que os protagonistas vão acabar, as outras personagens, nem tanto.
Mas a Inês não tem a certeza.
Dos protagonistas?
Onde é que eles vão acabar, ou tem?
Dos protagonistas, tenho.
Acaba em casamento?
Isso eu não vou contar.
Não podemos ainda avançar.
Não.
Mas depois, como é que articulam todo esse trabalho? Isso deve ser um trabalho gigantesco, não é?
Dá um certo trabalho.
Expliquemos lá, é importante.
É verdade. Depois de termos a história principal, a ideia principal, e criarmos as personagens, depois temos que criar as personagens, que é um processo muito engraçado, porque, na verdade, é criar pessoas.
Realidades, não é?
Realidades, é dar-lhes um passado, uma história, personalidade, é criar as pessoas. Depois temos as personagens criadas, começamos a contar a história delas e vamos construindo ao longo da novela. Eu, sei lá, mensalmente, paro pra pensar pra onde é que a história vai nos próximos episódios. Com a minha equipa, juntamo-nos e pensamos pra onde é que caminhamos.
Mas isso também vai depender um bocadinho da reação do público aos episódios que já estão no ar ou nem por isso?
Nós escrevemos com muita antecedência. É difícil, às vezes, fazer modificações. É sempre possível voltar atrás e emendar. Se tiver a correr muito mal, às vezes acontece nos projetos, mas não é bom. É muito melhor se nós conseguirmos ir escrevendo e seguindo o rumo normal da história seguir.
Estão muitos episódios à frente daquilo que as pessoas estão a ver.
Estamos.
E às vezes acaba muito antes, claro, não é?
Sim, eu vou acabar. Esta história ainda vai durar mais uns meses, também não sei quando é que vai acabar no ar, e nós vamos acabar de escrever em abril.
E é muito diferente daquilo, a realidade que nós conhecemos, a melhor é a brasileira, não é? É aquela que temos como comparação. É muito diferente a forma de escrever o argumento em Portugal e no Brasil?
Tem diferenças, porque temos diferenças de orçamento.
Claro, eu imagino. Aqui será um pouco menor.
É só um bocadinho. Quer dizer, o Brasil tem uma indústria e vende pro mundo inteiro. E além de que o mercado deles é muito maior que o nosso. Nós temos 10 milhões de público, os nossos orçamentos são muito mais baixos. Temos mais condicionantes a escrever. A produção é mais difícil.
E há uma coisa que eu tenho sempre uma curiosidade enorme. A autora da novela, neste caso, a Inês Gomes, não tem, por vezes, vontade de matar metade das personagens? É que tem esse poder.
Tenho, e às vezes tenho vontade.
E já matou muitas, não?
Nós vamos matando. Por acaso, nesta até estou meio calminha, ainda não matei muitas.
Está magnânima.
Mas não fica a remoer naquilo? Nunca se arrependeu? Não?
Às vezes arrependemo-nos de rumos que damos à história e que afinal não resulta tão bem como pensávamos. A história é uma coisa muito dinâmica. E depois já é complicado voltar atrás, porque nós escrevemos com um ritmo muito acelerado. Nós temos que escrever entre cinco a seis guiões por semana. É muito guião.
Cinco a seis guiões?
Sim.
E como é que isso se faz? Quantas pessoas?
Neste momento, tenho sete, já tive oito na equipa. A máquina está bem oleada. À segunda-feira, eu faço uma Pequena reunião com a Rita Roberto, que é o meu braço direito, e com um dos argumentistas que está responsável por fazer a estrutura dos episódios nessa semana. Nós chamamos-lhes grelhas, eles dizem que estão de grelha, e é o trabalho que é mais estressante para um argumentista, porque está a ter que gerir os episódios.
Fazer com que aquilo tudo encaixe e bata certo, é isso?
Sim. Funciona assim, eu digo-lhes: "Olha, os ganchos destes cinco ou seis episódios, portanto, o final dos episódios, vão ser estes. E as histórias, os plots que quero desenvolver vão ser estes" e eles têm que os encaixar.
Mas tanta gente a escrever, são sete pessoas?
Estão duas a fazer esta parte, e é rotativo, e depois os outros estão a escrever.
Estamos a falar de cabeças diferentes, de maneiras de estar diferentes. Como é que depois tudo aquilo-
Depois eu tenho esse trabalho.
Ah, depois vai a Inês?
Sim, depois eu vou atrás e vou uniformizar, compor.
Mas chega a um ponto em que toda a gente já sabe mais ou menos a linha de pensamento uns dos outros, não é?
Sim, vai entrando e no início é mais difícil, depois vai encarrilhando.
E nunca se perdem na história?
Às vezes.
E só dão por isso quando vêem o episódio ou conseguem resolver a tempo?
Não, em princípio, temos departamento, a continuidade, para nos ajudar. E há muita gente a ler os guiões, portanto, esperamos sempre que alguém dê por ela, mas acontece às vezes de passarem coisas. São muitos episódios, 300 episódios. Nós estamos mais de um ano a escrever, portanto, é fácil às vezes perdermos uma coisinha ou outra.
Claro, escrevem durante muito tempo. Inês, a autora tem papel também na escolha do elenco ou isso já faz mais parte do trabalho da produção e depois do canal também que compra o conteúdo? Como é que funciona?
A escolha do elenco é todo um processo que também é complicado. Eu opino, posso ter uma ideia ou outra de alguns atores que acho que são os indicados para o papel, e depois é tudo uma junção de quem está disponível, do que o canal pensa, do que a produtora quer fazer, do orçamento, portanto, é toda uma montagem. O elenco demora algum tempo a ficar fechado.
E depois adapta-se também a escrita ao ator ou atriz em causa?
Sim. Não é para todos. Às vezes há personagens que são um bocadinho mais genéricas e o ator encaixa melhor. Às vezes é preciso alterar um bocadinho a personagem para se adaptar ao ator.
E o ator também, pelo desempenho, alguma vez a surpreende e a obriga depois também a corrigir aquilo que tinha pensado no início?
Completamente. Os atores dão muitos inputs e nós começamos a escrever também muito antes de isto começar a ser gravado. Quando eles entram em ensaios, já ficamos com uma ideia do que eles podem dar à personagem. E depois quando começam a gravar, mais ainda. E muitas vezes surpreendem-nos pela positiva e levam-nos para outros rumos.
Outros caminhos?
Sim.
Isso é muito interessante. Eu queria só voltar aqui um bocadinho à questão. Eu peço desculpa, é um fascínio que eu tenho, que é matar personagens, mas eu também vi a "Guerra dos Tronos" toda. Já disse aqui que às vezes se arrependeu por causa da questão da história, mas eu queria saber como é esse processo. A Inês diz: "Vou matar esta personagem agora num acidente de automóvel", ou às vezes apetece-lhe ser um bocadinho mais retorcida?
Não, tem muito a ver com o que eu quero fazer na história. E geralmente, se eu quero matar uma personagem, é porque isso vai ter um impacto.
Estamos a falar de ficção. Se tiver alguém da PGR a ouvir-nos, estamos a falar de ficção.
Porque depois o que me interessa é o impacto que tem para as outras personagens e como é que isso vai mexer com a história. Portanto, às vezes há personagens que até estão a funcionar muito bem, o ator está muito bem, está tudo a correr bem, mas aquela morte traz-nos um grande desenrolar e uma grande reviravolta na história.
Por isso é que há uns que morrem logo no primeiro episódio.
Claro. Matamos sempre alguém no primeiro episódio.
Mas já percebi que já não casam toda a gente no final.
Não, já não casamos todos.
Mas caiu em desuso o casamento no final?
Não, continua a ter uma novela, uma novela, e um casamento faz parte de uma novela, mas não têm que casar todos, nem ficar todos aos parzinhos.
Então já teve reações de atores que foram um bocadinho intempestivos depois dessa decisão de acabar com a personagem, aquilo não caiu assim muito bem, ou geralmente não?
Não, geralmente eles aceitam bem. Sim, e é conversado com as pessoas, porque é que vão...
Porque é que vai acontecer, explicam isso?
Sim.
E a Inês Gomes anda com um bloco sempre consigo e vê uma situação no supermercado e diz: "Isto dava uma boa cena para a novela."
Agora tenho o telemóvel.
Vai tomando notas no telemóvel.
Sim, mas vou apontando quando tenho ideias, quando há alguma coisa que me surge, vou escrevendo, porque senão esqueço-me.
E a realidade também serve muitas vezes de inspiração, não é?
E nós somos um país rico, não é? Em ideias.
Somos muito. E tudo serve, as pessoas que eu conheço, as situações. Eu não agarro numa pessoa, por exemplo, que eu conheço e coloco-a diretamente na ficção, mas posso tirar características ou uma história que ela tenha vivido e ponho isso junto com outras características e não ponho ninguém.
Já recebeu algum telefonema de um amigo ou de um familiar: "Eu não acredito que tu puseste aquela história na novela?" Já?
Já. Às vezes as pessoas reconhecem cá ali-
Traços, não é?
Sim.
É preciso uma capacidade muito grande também de análise de comportamento, não é, Inês? Para criar depois essas personagens todas, todas tão diferentes.
Sim, eu acho que os argumentistas, para já, têm que saber um bocadinho de tudo, porque nós escrevemos sobre tudo e temos que inventar e saber, às vezes, escrever sobre cenas médicas, por exemplo, é um desafio sempre escrever. E sim, temos que saber analisar comportamentos.
E nesses casos de temas mais específicos, a Inês não tem capacidade para dominar todos eles, naturalmente. Usam consultores para esse tipo de questões?
Usamos. Nem sempre, mas para as cenas mais... Imagina, por exemplo, quando estava a escrever "O Amor Maior", que tínhamos um núcleo da PJ, tínhamos um consultor que tinha sido da PJ.
E que vai dando conselhos, dizendo: "Isto faz sentido, isto não faz sentido".
Sim. Perguntamos como é que a coisa se faz. Às vezes mandamos as cenas para eles lerem e opinarem. Nessa novela também tínhamos uma personagem que era esquizofrênica, tínhamos uns psiquiatras a acompanharem-nos e a lerem as cenas. Portanto, isso tentamos que fique o mais credível.
E esses casos são escolhidos, por exemplo, lembro-me dessa novela que se falava de esquizofrenia, era um dos temas dessa telenovela. Esses temas são escolhidos pelos argumentistas, pelo canal de televisão? Porque são sempre uns temas fortes, não é?
Sim, somos nós que escolhemos. Às vezes, o canal também pode pedir.
Às vezes sentimos isso quase como uma forma de intervenção social, de pedagogia.
Porque a novela, de facto, tem um papel social também. Portanto, se nós pudermos ter alguma abertura para ter estes temas, tratar destes temas e informar as pessoas, também faz parte.
E sente que já conseguiu mudar mentalidades por causa de uma cena de novela ou de uma telenovela?
Não sei. Às vezes as pessoas reagem e dizem que ficaram impressionadas, que aprenderam alguma coisa e que mudaram a ideia que tinham. Agora, se estamos a mudar mentalidades.
Pelo menos espelham uma preocupação. Eu estou aqui a pensar na violência doméstica. As novelas agora espelham também muito isso. Portanto, vão espelhando aquilo que são as preocupações sociais.
Exato. Vamos aproveitar os temas que se debatem na sociedade.
Mas acha que existe um certo preconceito em relação às novelas? Há muita gente que gosta de dizer que não vê de todo. Se calhar, no fundo, acaba por ver. Acha que isso existe cá?
Existe.
E porquê?
É que era um produto talvez mais barato do que uma série ou um filme. A televisão sempre foi um pouquinho o parente pobre e agora começa com as HBOs, as Netflix. Portanto, a televisão ganha um caráter mais preponderante, há mais dinheiro. E as telenovelas, na verdade, é o produto com mais audiência em Portugal. As pessoas às vezes dizem que não veem, mas alguém está a ver.
Alguém vê.
Nós temos audiências.
E as séries, a RTP está a apostar bastante em séries. Há um caminho a fazer aqui em Portugal? Acredita que vai ser possível ter séries portuguesas vistas por portugueses? É que a audiência geralmente é um pouco baixa, não é?
É, a audiência é baixa, já está a tentar há alguns anos. A RTP já tem tido séries há-
Mas isso é por quê, Inês? É a forma como a história está construída? É um preconceito? O que é que sente?
Não, e isto é uma análise que vale o que vale. Mas a verdade é que a oferta é muito grande em termos de séries estrangeiras e que nós também não conseguimos competir com esses orçamentos que eles têm. Portanto, isso faz diferença.
Mas se nós às vezes olharmos com atenção para as séries estrangeiras, algumas são muito fraquinhas, têm muito sucesso, mas são muito fraquinhas, muito previsíveis.
São, algumas.
Mas é porque em inglês são melhores.
Talvez. Mas eu tenho esperança que isto mude e que a gente vá fazendo não só novelas, mas também séries.
Como é que está o mercado dos argumentistas, dos guionistas? Há muita gente interessada em entrar neste universo?
Cada vez mais já começa a haver também formação na área. Nós, por exemplo, agora estamos a dar uma pós-graduação na ESCS, em parceria com a ESP, que é uma coisa que não existia. Quando eu comecei, não havia maneira de termos formação em Portugal. Se quiséssemos, tínhamos que ir fora. E agora já vai havendo, já há pós-graduações, cursos, já há muita cadeira de argumento nos cursos ligados à multimédia. Portanto, há cada vez mais interessados nesta área.
Mas alguém que nos esteja a ouvir e esteja interessado, deve fazer um curso primeiro. Só a vontade não chega, não é?
Depende da experiência que as pessoas têm. Há pessoas que chegam, agarram e começam a escrever e isso lhes sai naturalmente. Claro, se puderem ter formação, melhor. Todos nós, que estamos a trabalhar nesta área, mesmo não tendo formação específica, fomos fazendo as formações.
Porque há também uma técnica.
Há técnica, claro. Há técnica para escrever.
Deixe-me só fazer mais uma pergunta. Fica muito zangada às vezes quando imagina uma cena, escreve uma cena e depois o realizador faz outra coisa?
Às vezes.
"Não era nada disto."
Não, há uma coisa que nós temos que interiorizar quando começamos a trabalhar nesta área: é que estamos a escrever e o guião não é uma obra completa. Só fica completa depois de os atores interpretarem, o realizador gravar, a edição trabalhar em cima. Portanto, é uma coisa em contínuo. Não termina quando eu acabo de escrever. É diferente de um livro por isso. Agora, sim, tanto me surpreendem às vezes pela positiva, como já aconteceu surpreenderem-me pela negativa.
São coisas que acontecem.
E aí faz um telefonema ou não?
Falamos.
Conte lá, Inês.
Falamos e conversamos.
Falamos, com esta forma diplomática como diz.
Exatamente.
Mas, por exemplo, nesta novela estou muito contente com a coordenação de projeto, o Jorge Cairoga, com os realizadores, que estão a fazer um grande trabalho, a direção de atores, também.
Portanto, uma novela-
Estão a cumprir o argumento, é isso?
Estão, sim senhor. É muito bom quando temos alguém que percebe qual é a intenção da cena. E nesta novela temos isso.
Estamos a falar da "Terra Brava". A Inês Gomes é a autora. Vão continuar a escrever até abril, dizia há pouco a Inês.
Por aí.
Não é? Até abril.
Ainda não tenho bem os prazos.
Inês Gomes juntou-se a nós. Obrigada, Inês. Até à próxima.
Obrigada, Inês.
Obrigada.
Obrigada.
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