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Nesta tarde, em direto, estamos à conversa com Jorge Serafim. É humorista, mas é sobretudo um grande contador de histórias e hoje junta-se a nós para nos falar do livro que acaba de lançar. Chama-se "Amar à Vista", tem ilustrações também do próprio e se à primeira vista parece um livro infantil, na verdade, não é. É para todas as idades. É assim, Serafim, bem-vindo.

É assim. Essa questão está-me sempre a ser levantada, se é um livro pra crianças, se é um livro pra jovens. Eu acho que ele é muito poético, tem uma mensagem, tem uma riqueza de linguagem, que eu acho que se adequa a todas as idades. E quando eu digo isso, não é por ser uma forma redutora de o encarar. É que eu acho que as crianças, cabe a nós, adultos, professores, educadores, encarregados de educação, ser mediadores do livro e da leitura.

Exatamente. E há algo também nisso.

A criança vai aprendendo. Nós nos recordamos bem, todos nós crescemos com livros que nos marcaram e com as pessoas que nos uniam e nos ajudavam a entender os livros.

Precisamente. E Serafim, diz a capa deste livro, "Amar à Vista", escrito num barco de papel: "A esperança é quando o amor se põe à espreita". É a sua forma também de espreitar para este novo ano, que espera ser significativamente diferente?

Eu acho que acima de tudo, eu não sei se vai ser um novo ano significativo diferente, porque eu vejo a conversa é sempre voltar à normalidade. E essa normalidade que nós, num mundo muito consumista e comodista, num lado de um mundo muito consumista e comodista, essa nova realidade, essa antiguidade dessa realidade, aliás, é de pessoas muito fechadas nelas próprias. E o livro fala exatamente sobre isso. Sabe, e vós jornalistas que andam muito atentos ao mundo, sabem-no tão bem. Nós comovemo-nos muito quando há aquela attack horrorizante, aquela tragédia do Je Suis Charlie, o movimento que despontou, mas nós não dizemos Je Suis Eritreia, não dizemos Je Suis Somália, nem dizemos Je Suis Norte de Moçambique. Portanto, quando o nosso perímetro de conforto, de segurança começa a ser incomodado, aí sim, as lágrimas saem desse perímetro. Então, este livro é um bocadinho isso, é um olhar sobre o mundo em que houve coisas que não mudaram. Se nós pensarmos bem, a questão das pessoas que fogem das convulsões dos seus países e se metem na fragilidade de embarcações com os filhos às costas e tentam atravessar o mar para chegar a qualquer sítio melhor do que aquele, continuou. A pandemia monopolizou todos os assuntos diariamente, mas houve questões que não se resolvem há anos e outras até há décadas. Nesse sentido, escrevi um livro de um barco que vive a angústia de transportar as pessoas e ao invés de dizer como dizem os marinheiros, sinal de esperança, terra à vista, eu quero que o verbo amar esteja à vista, porque muitas vezes as pessoas quando chegam a um lado que pensam, que sonham, que imaginam que seja um pouco melhor do que aqueles que deixaram, acontece que encontram intolerância, o medo, o receio, o racismo. E este amar à vista é, de facto, mais do que encontrar uma terra, que o amor esteja sempre à espreita pro coração dos homens.

Exatamente. E que a pandemia não anule também essas realidades que, como nos explicava, às vezes parecem muito distantes, mas não são assim tanto.

Não são. Aliás, até acentuou as coisas que foram acentuadas.

Claro. E Serafim, as ilustrações deste livro são também suas. Era algo que já se tinha aventurado também a fazer anteriormente?

Sim. Eu apaixonei-me por literatura infanto-juvenil. As pessoas embora mais me conheçam por ter participado em programas de comédia, em registos de stand-up comedy. E a televisão dá esse mediatismo. Mas, de facto, o meu trabalho mais antigo, se quiser, eu há 25 anos comecei a contar contos e a trabalhar em mediação do livro e da leitura quando ingressei na Biblioteca Municipal de Beja.

Onde esteve 12 anos, não é? Doze, foi muito tempo.

12 anos.

E conseguiu, Serafim, já agora, deixe-me só perguntar-lhe, aproveitando aqui esta ideia da biblioteca e daquilo que já fazia antes, dessa maior visibilidade também proporcionada pela televisão e pelo que fez no stand-up comedy e no humor. Conseguiu também com essa maior visibilidade levar mais pessoas à biblioteca, mais crianças? Conseguiu levar também outras pessoas que o acompanhavam por causa do humor para os livros?

Atenção, eu comecei primeiro nos livros. Essa questão é interessante. Depois, houve ali um período em que tinha tantas solicitações como contador de histórias, que eu tive que deixar a biblioteca porque não era compatível com o horário. O humor até aparece depois. Consegui, dessa visibilidade, ir a mais bibliotecas. Mas há aqui um handicap, João Alexandre, essa pergunta é sempre muito interessante, porque o humor tem um problema. Eu às vezes não vivo bem com o humor, porque o humor nas pessoas cria um padrão. E é difícil nós quando trabalhamos, eu acho sempre mais profundo, desculpem os meus colegas humoristas, bons que há, bom trabalho, mas eu acho muito mais importante o trabalho do mediador do livro e da leitura do que o humorista. E até no aspecto, os agentes culturais discutem muito a questão do apoio à cultura, 1% para orçamento de Estado, e nós não temos um público pra teatro, não temos um público pra uma música clássica. Se não tivermos pessoas que sejam estimuladas Pela leitura. Ler não é só decodificar os signos. Ler dá-nos uma leitura do mundo, dá-nos uma plasticidade mental para aderir a outras linguagens. Eu não acredito num mundo de cultura que se discuta como se discute, sem a leitura, sem as bibliotecas públicas, que foi uma grande conquista. A rede de bibliotecas públicas de Portugal foi maravilhosa neste país e muitas vezes não se entende que elas para funcionarem, para serem ativas, para serem interativas com a sociedade, com a comunidade para a qual trabalham, têm de ter orçamentos para promover atividades, dinamizar atividades e encontrar. Eu, nesse sentido, sofri sempre um bocadinho a confusão do humorista de ir fazer um serão de contos. Eu gosto de contar contos tradicionais do mundo inteiro. E há uns que são muito divertidos, um humor extremamente sábio.

Mas sentia que confundiam, em alguns casos, esse conto divertido com uma sessão de anedotas.

Sim, muitas vezes conto contos, inclusive portugueses maravilhosos, muito introspectivos, que são grandes chapadas na vida que os nossos avós e bisavós já contavam. Contos em que a morte é uma personagem extraordinária no universo do cancioneiro popular e as pessoas já estavam com um sorriso. Acontece muito a pessoas que fazem humor de, em velórios, me virem dentro da casa mortuária para tirar selfies. E eu dizer que era uma falta de respeito e passei por arrogante, que na televisão era mais simpático. Então, eu acho, até como idealista que ainda sou de vida, que um projeto contínuo, diário, de promoção do livro e da leitura é mais importante. O humor faz parte. O contador de histórias também usa o humor, obviamente, mas confunde-se um caso. Uma pessoa, às vezes, aparece como humorista, parece que não tem créditos para ser um bom poeta ou um bom escritor. Está sempre à espera que seja isso. E a minha escrita até vai muito no sentido contrário. Eu só escrevi um livro quando comecei na televisão, na área do humor, que se chamava "Histórias do Serafim", que foi muito bem recomendado, temos as suas histórias divertidas. E até criei um fio condutor, quase um romance, com muitos episódios caricatos. E todos os outros livros que escrevi são sempre poéticos, de um observador do mundo, um bocadinho, às vezes, magoado com coisas que não mudam, mas parte do público está sempre à espera da gargalhada, do riso. É um paradoxo. Às vezes não é fácil viver com isso.

Imagino que não. E Jorge Serafim já está a trabalhar no próximo livro, o que nos pode contar? Como é que foi ocupando também os seus dias em pandemia?

A propósito das ilustrações, só uma pequena parte. Eu comecei a ilustrar. Eu tenho uma grande coleção de livros infantis, tenho mais de mil de todo o mundo. A pandemia, desculpem a expressão, lixou-me um bocado, quando em março começaram a cancelar as atividades. Foram quase 300 sessões de contos até o final do ano letivo, portanto, até 15 de junho, mais ou menos. E agora é difícil ir contar às escolas. As vezes que fui, tive que ir mascarado, é horrível, falta-nos o ar, é abafado, damos dinâmica na oralidade e a máscara cola-se à boca, perde-se a expressão, perde-se muita coisa.

Mas se calhar muitos de nós aperceberam-se disso agora também, não é? Da importância dessa expressão e daquilo que contribui para contar uma história.

Sim. Quando eu bato sempre nesta tecla do humor e do contador de histórias, eu costumo dizer isso. Nós vamos pedir um serão de contos a uma biblioteca pública. Pedimos sim, acham sempre muito, porque as bibliotecas são municipais, a Direção não aprova, o vereador não aprova. Se eu, para o mesmo município, no Cine-Teatro, for fazer uns espetáculos, stand up comedy, e pedir 10 vezes sim, é o gás da televisão e pagam-lhe a recibo. Estão a ver a questão que há aqui de prioridades, sempre se primou a atenção para os humoristas e para o trabalho que há grandes humoristas e há pessoas que são formidáveis. Mas há sempre esta coisa de desvalorização. Temos um país com uma língua extraordinária, com poetas, com escritores. Leia-se Gil Vicente e ainda temos o Portugal atual, leia-se Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro, Antero de Quental, maravilhoso, o Camilo. Essa gente deslindou uma forma portuguesa que ainda hoje se mantém muito, apesar das redes sociais. Aliás, acentua-se nas redes sociais. Deixem-me só dizer que os meus livros, estou a pensar no próximo e eu faço edições de autor, divulgo todos os dias nas redes sociais, as pessoas contactam por aí e eu explico como é que me podem adquirir o livro. E por quê? Eu comecei também como um self-made man. Comecei o Cel Livros, porque já tenho alguns feitos. Havia um ilustrador que eu gosto muito, meu colega da biblioteca, demorava muito tempo e eu acho tanto. Eu disse: "Não, não posso esperar dois anos para editar um livro". Então comecei eu a observar. Eu não sou desenhador, não sou de Belas Artes, mas concordo com a literatura, há que se fazer alguma coisa. E apaixonei-me também pela ilustração. O próximo, edições de autor, por quê? Porque os autores em Portugal, muitas vezes as pessoas não têm noção. Nós vendemos um livro para uma editora, ganhamos 10% do preço de venda ao público, o distribuidor chega a mamar 55% para pôr nas FNAC, nas grandes livrarias.

Portanto, as margens para os autores já não são generosas e depois a isso junta-se o fato de a venda de livros também não ser uma atividade que em Portugal faça ninguém rico, por vezes. Ou pelo menos para muitos.

Sim. E cada vez se lê menos, é um problema, mas isso é outra questão. Eu, quando trabalho com escolas, está bem, eu não trabalho, vou, faço sessões, venho-me embora. Não me exponho àquele trabalho de continuidade. Mas a leitura, a abordagem à leitura também tem de ser desconstruída. Uma coisa que eu acho que o ensino nos faz falta é a musicalidade da língua. Dou-lhes só um exemplo. Estuda-se o conto popular, estudava-se no décimo ano, depois foi retirado e agora dá-se no nono ano Estuda-se, analisa-se a semiologia, a morfologia do conto. E a forma como é dada é uma seca. Se nós visualizarmos, ouvirmos alguém, nem que seja o avô que conta. Aliás, essa gente que cresceu com este repertório, se não ouvirmos a língua, as expressões, como os olhos abrem, as emoções que transparecem na dinâmica narrativa, aquilo é secante. E isso é um problema, muitas vezes o ensino está longe, está afastado da musicalidade da língua. Eu digo muitas vezes quando trabalho com secundários, eu digo aos professores: se eles gostam de hip-hop, peguem nas letras de Gabriel, o Pensador, e vão ver o que é escrever bem. Nós não podemos nos afastar disso. O que nós fazíamos todos? Nós, os maias, comprávamos aqueles livros de bolso Europa-América e estava o trabalho feito. Era igual, eram 27 alunos a copiar do mesmo livro de bolso e aquilo o professor só corrigia um trabalho, corrigia os 26. Mas há mais ali, há muito mais, e temos que trabalhar nisso. Eu tenho esta vantagem, agora na pandemia cortou um cadinho as pernas, mas como tenho esta utopia de ser o vendedor, distribuidor dos meus livros, mas tenho um prazer imenso. É que eu vou a aldeias, vou a lugarejos, onde moram 10 habitantes e aparecem 30. E se vender cinco livros ou quatro, é muito bom, porque ali ninguém vai vender livros. Então eu me envergonho de dizer que sou o vendedor dos meus livros, mas quando eu começo a apontar no mapa os sítios onde eu já fui, aqueles que eu vendi, é uma geografia extraordinária que enriquece a mim todos os dias, saber que há uma pessoa, seja numa grande cidade, mas eu num lugarejo, uma pessoa que esforça e tenho certeza que aqueles que querem são aqueles que o querem ler. Isso é muito bonito. Eu acho que sou o melhor comerciante de mim mesmo. E tenho esta utopia que de fato, que este Portugal extremado que anda, basta ver, vocês veem no Observador põe uma notícia, logo a linguagem, a metralhadora que sai da língua das pessoas, não há um argumento. Mas é porque as grandes críticas, os grandes sabedores das redes sociais e críticos das notícias, são muito vagos no éxe que têm, nas ideias todas. Até aquilo tem que ser destilado nos mínimos, porque, de fato, não há linguagem, as pessoas conhecem. José Saramago dizia uma frase muito bonita: "Um homem só escreve com as palavras que conhece." E isso é uma frase que para mim diz tudo.

É isso mesmo.

Nesta utopia de louvar o livro e a leitura. E atenção, não é de ideologias, é que o livro construa seres humanos capazes. Repensem só nisso. A humanidade quando descobre a linguagem, imaginem a riqueza que foi ao descobrir que tinha capacidade para dar vazão às suas emoções e às suas razões. É a linguagem que posiciona e clarifica o homem no mundo, na descoberta do mundo, porque ela começa a nomear o mundo e a sua diversidade, é através da linguagem. Enquanto nós reduzirmos este espaço, menos capacidade temos de expressar-nos, de nos humanizarmos. Eu tenho a certeza disso. E notas, claro.

Este "Amar à Vista", o novo livro do Jorge Serafim, está disponível. Jorge, é entrar em contacto consigo para o poder adquirir.

É assim mesmo.

Exatamente.

Através do Facebook, Jorge Serafim, contador de histórias, ou no Instagram, António Jorge Serafim. E a partir daí, as pessoas fazem transferências e vou à correio todos os dias, como se diz no Alentejo, com uma machinha do livro debaixo do braço e envio por correio. E tem sido muito bonito. Não me importo de fazer isso, não. Eu acho que as tecnologias não são só desvantagem, também nos dão estas vantagens. Elas reconstruíram uma ideia de mercado. Nós podemos ser sujeitos ativos da nossa própria rede de criação. Dá trabalho. Há malta que não, há gente que não. Que isso é desprestigiar. Eu acredito muito naquilo que escrevo. Aliás, vocês leram o livro, não leram? Deixem-me eu em paz.

Tenho aqui o livro na mão. Tenho muita pena de não o conseguir mostrar para mostrar as bonitas ilustrações que tem.

Mas leram, não leram?

Lemos.

Leram. Está bem. Eu acredito muito, repare, também faço isto nesta posição perante as coisas, porque eu sinceramente acredito neste livro. E deixem-me só dizer duas coisas ao João e à Ana. Eu inspirei-me nesta história duas coisas. Uma foi no basquetebolista Pau Gasol, um catalão que joga na NBA, primeiro espanhol a jogar na NBA. Ele há cerca de dois, três anos, voluntariou-se para uma ONG, daquelas que andam de barco recolhendo pessoas no Mediterrâneo. E houve uma imagem, há várias que nos chocam, mas há uma que ele retira uma mulher da água e ela parecia que estava petrificada, estava viva, estava em hipotermia, uns olhos esbugalhados, e ela tinha uma criança de tenra idade no colo que já tinha falecido. E a imagem tocou-me. Então vem um gigantão basquetebol com umas mãos enormes a tirar uma mulher, e ela tão fechada. Parecia que não abria, não largava a mão da sua criança. E essa imagem tocou-me de tal maneira que eu tive que escrever esta história.

Deu origem a este bonito livro, "Amar à Vista". O Jorge Serafim foi o nosso convidado de hoje. Um bom ano 2021, Serafim, e obrigada pela tua companhia.

Muito obrigado pela vossa atenção.

Obrigada.

Obrigado. Um abraço.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!