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Sejam bem-vindos. A viajante desta semana considera-se sedenta de explorar o mundo. Há uns anos juntou dinheiro, largou tudo, Isas, partiu para o Sudeste Asiático, por lá andou oito meses, regressou com uma certeza: ia continuar a viajar. E assim fez. Entretanto, já registou muitas viagens e aventuras. Hoje vive das viagens, é líder de viagem de uma agência portuguesa e está aqui conosco. Ana Mano, bem-vinda às "Conversas do Fim do Mundo".

Muito obrigada, boa tarde e obrigada pelo convite.

Ora essa. Olha, há uns anos, foi em 2017, não é?

Exatamente.

Deu-te assim um amoque e aí vais tu viajar para o Sudeste Asiático. Por quê?

Ora bem, estava naquela altura dos 20, não é?

Ah. Vale tudo.

Exato, vale tudo.

E pode tudo.

Exatamente.

É bom.

E já tinha muita sede de viajar, já tinha feito algumas coisinhas, mas faltava dar o salto.

A grande viagem.

A grande viagem.

Foi até agora a tua grande viagem?

Foi, sem dúvida. Sim.

Por que o Sudeste Asiático? Porque é mais barato?

É mais barato, exatamente.

É um clássico entre os portugueses que se tornam grandes viajantes.

Sim.

Começar pelo Sudeste Asiático.

E é mais fácil. A logística lá não é assim tão complicada.

Defina logística.

Apanhar transportes.

Ok. E boleias também.

E boleias também. Reservar alojamentos de um dia pro outro ou nem reservar e só aparecer. É fácil, a comida é boa. E era barato na altura, pareceu razoável. Acho que é uma boa entrada para se sair da Europa.

Ok. Portanto, há uma grande disponibilidade do ambiente para receber viajantes europeus.

Sim, sem dúvida. E acho que continua.

É?

Sim.

Parece que sim. Ainda há muitos portugueses que começam a viajar no Sudeste Asiático.

Acho que sim. Pela Tailândia, por exemplo.

Por exemplo. E o que se faz durante oito meses no Sudeste Asiático, Ana?

Descobre-se muita coisa, tem-se muitas peripécias, tem-se muitas aventuras.

Conta.

Ora bem, sei lá, comecei pela Tailândia. Como estava a dizer, foram 10 países ali por aquela zona. Tive a sorte de passar pelo Mianmar, por exemplo, que é um país que esteve fechado e que entretanto fechou outra vez, e eu apanhei aquela janela em que esteve aberto. Países maiores como o Vietnã, por exemplo, países mais pequenos como Brunei. E foi giro. A ideia até era fazer tudo por terra. E foi majoritariamente por terra.

Ou seja, aterrar na Tailândia e depois percorrer.

Exatamente, fazer os transportes terrestres ou por mar, sem voar. Depois acabei por voar só de Cingapura para Bali, porque tinha uns amigos que foram lá ter a Bali e tinha que lá estar naquelas datas. E então teve que ser, porque depois por mar, fazer essa parte toda da Indonésia também não ia ser fácil.

Disseste que viveste muitas aventuras e muitas peripécias. Anda, partilha conosco.

Sim, então.

Este programa serve para isso, Ana Mano.

Então, sei lá. Falando de boleias.

Sim. Apanhaste muitas boleias. Até fiquei sem voz. No Sudeste Asiático.

Não foram muitas. Só ali a metade da viagem, mais ou menos, é que me lancei nessa experiência, porque ainda estava a ganhar calo até lá.

Deixa só eu fazer, tu viajaste sozinha?

Não, na altura viajei acompanhada.

Ok.

Mais uma pessoa. Estávamos os dois no Laos e ali entre Luang Prabang e Vientiane, que é a capital do Laos, aquilo parece mais ou menos em linha reta no mapa, ou seja, aquilo não parece ter muita ciência entre uma cidade e a outra, passando ali no meio por Vang Vieng. E nós pensamos: "Olha, parece uma boa altura pra experimentarmos boleia, isto vai ser sempre a andar daqui pra frente. Vamos experimentar." Só que não sabíamos é que aquilo era montanhas, e montanhas, e montanhas, que não havia nada lá no meio. E então lá experimentamos a primeira boleia e tal, correu bem, só que deixaram-nos, porque a boleia tem que ser às partes. Muitas vezes não nos levam até o destino final do dia. E deixaram-nos lá. "Pronto, olha, sobemos até aqui", já nem me lembro, acho que foi um senhor. "Sobemos até aqui, agora nós apanhamos outra, venha a próxima". Só que a próxima foi muito difícil de apanhar, isto no primeiro dia, primeira experiência andar à boleia. Porque aquilo era montanha, não passava nada, não havia ninguém.

Também, escolheram logo o pior sítio.

Foi o pior, a sério. Podia ter sido outro qualquer. Conclusão do dia, isto foi o dia inteiro.

Parecia que estavam a promover o vosso próprio fracasso.

Era, sem dúvida. O dia inteiro, nós já a ver o sol a pôr-se e a caminhar, do género: "Olha, vamos ter que dormir aqui numa valeta qualquer". Nem havia casas. Até que passou uma carrinho de caixa aberta, cheio de senhores, de homens na parte de trás, que eram trabalhadores, vinham dos campos. E nós quase que nos pusemos à frente da carrinho pra ela nos levar até onde fosse.

E levou-vos?

E levou, e levaram-nos.

Muito bem.

Até uma aldeiazinha qualquer.

Essa foi a primeira boleia.

Essa foi a primeira.

Foi tirada a ferros.

Primeiro dia.

Tirada a ferros. E depois os outros?

As outras boleias seguintes?

Sim.

Foram mais razoáveis, mas depois fomos mais inteligentes em escolher os sítios em que escolhíamos as boleias, porque isto também é uma aprendizagem. Porque quando se sai de grandes cidades, tem que se ir um bocadinho mais para fora, não se pode andar pedindo boleia no centro da cidade, porque é muito discrepante os sítios por onde as pessoas vão. E depois, também se ganha aqui algum calo.

Experiência, não é? Claro, e faz parte.

Sem dúvida.

Dessa viagem de oito meses por 10 países, Ana, o que foi mais extraordinário e transformador para ti?

Boa.

Que idade tinhas na altura? 20?

Tinha 23.

Ah, supernovinha.

24, se calhar.

Eras muito nova, não é?

Não, não tinha nada. Estou a mentir. Tinha 26.

Pronto, eras nova mesmo.

Sim. E então, a pergunta era?

A pergunta era: qual dos 10 países-

Qual das experiências acho mais marcante.

É isso.

Ao longo desses oito meses, também porque nós viajámos muito em low cost e fomos fazendo também voluntariados e serviços em troca de alojamento, refeições, etc. No Mianmar, precisamente, ficámos uma semana num templo budista, isto era o que nós sabíamos. Num templo budista a fazer atividades diversas. Quando lá chegámos, aquilo não era um templo budista como imaginávamos, uma coisa branca, com os monges a caminhar nos seus trajes. Não, aquilo era uma aldeia de recolha de desfavorecidos diversos do Mianmar. Ou seja, desde pessoas doentes, famílias sem forma de sustento, crianças sozinhas.

Aquilo que nós aqui designaríamos como uma IPSS, uma instituição particular.

Sim, mas uma coisa enorme. Aquilo tinha, agora já não me recordo, mas tinha acho que mais de 3 mil pessoas.

Ok.

Sim, e requeria muitas pessoas que trabalhavam lá no Mianmar e também tinha alguns voluntários estrangeiros.

Ok, e vocês foram para lá expressamente para...

Exatamente, fomos para lá para isso.

Em busca de uma semana zen.

Era isso. E meio que serviu também a esse propósito, mas foi muito impactante, porque desde cuidar de feridas a doentes, até isto nós fizemos, agora eu penso: "Oh, meu Deus, como é que nós..." Sem capacidade nenhuma, mas as pessoas que lá estavam também não a tinham. Ou seja, nós estávamos só a tentar ajudar. Fazer comida, tanto para os voluntários como para as pessoas que lá estavam, dar aulas de inglês a miúdos, até dar banho a idosos, por exemplo.

Também fizeste isso?

Sim. Aqueles sete dias pareceram um mês, porque foi mesmo muito impactante.

Muito intenso, é isso. E muito impactante.

Sim. E também tínhamos a parte da meditação lá com os monges, o que também foi giro, ter aí algum contacto.

Tu e a pessoa com quem viajavam eram os únicos ocidentais lá ou havia mais voluntários?

Não, havia para aí 50 voluntários estrangeiros.

Muita gente.

Sim. E o resto era tudo, tanto voluntários como funcionários do local. Imagina, para dar resposta àquelas 3 mil pessoas nas várias vertentes, era preciso muita gente. Aquilo era enorme.

Sentiste que havia como que uma espécie de um mercado ou sentiste-te aproveitada, ou seja, enganada? Não.

Não. Nunca. Acho que eles precisavam mesmo, e se calhar continuam a precisar, não sei o ponto de situação agora, de muita ajuda de mão de obra.

Ok. Braços.

Braços para cuidar, para transportar coisas.

Vocês é que interpretaram mal a missão.

Sim, nós é que não sabíamos. Se calhar nem lemos muito bem para o que é que íamos. Foi tipo: "Templo budista, uma semana no Mianmar".

"Bora!"

Parece-nos uma experiência voluntariado.

Um voto de silêncio durante uma semana.

Isso, podia ser algo assim.

Vamos ter uma experiência nova para contar.

Não estávamos à espera de fazer esse tipo de coisas tão práticas, tão cruas.

Ok.

Mas agora olhando para trás, foi uma experiência brutal.

Ok, muito bem. Sudeste Asiático, nós conversávamos um pouquinho isso aqui antes de começarmos a gravar, é aquela viagem que se faz quando se tem 20 e poucos anos, mas que depois já não se faz mais.

Pois, eu agora acho que já não fazia igual. Ou seja, na altura era, sei lá.

É preciso ter uma grande disponibilidade para se sujeitar àquilo tudo. Àquilo tudo, isto é um mundo que vive literalmente do outro lado do nosso mundo.

Sim. Ou seja, também dá para ter experiências mais confortáveis lá, sem dúvida.

Sim, também deve haver hotéis como aqui.

Exato.

E museus, e restaurantes e tudo, e outros confortos.

Exato, mas na altura também íamos nesse modo de exploração e de low budget, e portanto, esse propósito foi cumprido, sem dúvida.

É engraçado, porque há muito o desejo dos viajantes de viver uma espécie de vida vagabunda. É isso, não é Ana?

Era um bocado isso.

Por que que tu achas que há esse Culto ou essa vontade.

Não sei, porque se calhar durante a nossa educação, ou seja, durante o tempo de escola e universidade, estamos ali dentro de umas linhas.

Educados para...

Para o âmbito profissional e tudo mais.

Para sermos qualquer coisa que outros esperam que nós sejamos. É isso?

Exato. E assim será. Ou seja, encaminhamos logo por aí ou não. Mas acho que depois chega ali o momento em que quero fazer uma coisa diferente, ir para fora destas linhas durante um tempo e depois lá volto. Mas acho que se calhar é isso.

Muito bem. Estás de partida agora para a Índia, não é?

É verdade.

Já foste à Índia?

Ainda não, é a primeira vez. Portanto, isto do Sudeste Asiático acho que não vai ser nada em comparação com a Índia. Estou muito expectante.

Muito bem. Sabe aquela vontade de sair da rotina e apanhar um avião? Agora é a altura certa. Estão de volta os Real Deals da KLM. Descubra Amesterdão, explore o Kilimanjaro, experimente visitar Los Angeles ou até Nova Iorque e Dubai, com tarifas especiais e lugares limitados. É só passar por klm.pt, escolher o seu destino de sonho e marcar a próxima escapadinha. Ana, vamos abrir o álbum de viagem? Vamos embora. Então guardas contigo ou tens contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial? É este que tens aqui em cima da mesa?

É este, exatamente. Bom, é assim: eu trouxe este, mas o objeto não-

É o quê?

Desculpa, é um chapéu vietnamita.

Um chapéu vietnamita feito de palhinha. Aquele piramidal, não é?

Exatamente. Que os vietnamitas de facto usam muito para se proteger do sol nas suas atividades agrícolas, principalmente. E na verdade, o chapéu não é este porque o meu teve outro destino, mas este é uma réplica que eu tenho. Mas ele tem uma história, porque eu comprei no Vietname, nesse périplo por terra. Eu comprei o chapéu no sul e comprei também uma mota e fiz o Vietname de mota do sul até ao norte.

Quanto é que custa uma mota no Vietname?

Pai 100 €.

A sério?

Imagina, comprei por 120 e vendi por 100. Perdi 20 €. Entre o comprei e o vendo.

Loucura.

Sim.

Portanto, percorreste o Vietname de mota.

Exatamente.

Uau!

E o chapéu também percorreu.

Sim.

E foi muito difícil, porque imagina um chapéu destes numa mota, isto está sempre a voar.

Sim.

Tem que estar bem preso. Entretanto, perdi o chapéu num desses voos, já mais no final. Ou seja, o chapéu andou comigo uns oito meses. Oito meses não, uns seis de viagem.

E depois voou-te da cabeça.

Várias vezes voou. Já o perdi num voo, voltei ao aeroporto para ir buscá-lo. Ele teve muita história, o chapéu.

Ok, mas depois perdeste-o. Está com outra pessoa com quem tu viajaste.

Exatamente.

Mas tens aí esse contigo.

Tenho uma réplica.

Muito bem, para te lembrar essa viagem.

Sim, porque sem dúvida, acho que é o objeto daquela viagem.

Ok, é o que resume. Conta-me lá como é que é viajar de mota pelo Vietname.

Olha, é difícil. Eu não estava a conduzir. E se calhar conduzir pode ser melhor ou pior.

Sim.

Mas para mim dava muito sono. Como eu não estava a conduzir, eu juro, eu adormecia muito facilmente em cima da mota, porque eram muitas horas. Eu sei que isto podia ser muito mais romântico, mas não foi.

Adormecer.

Juro.

Isso contraria a tese de que o trânsito no Vietname é caótico.

Não, mas é, sem dúvida.

Portanto, apesar do caos de viajar à pendura e de mota, Ana Mano, tu adormecias.

Eu conseguia adormecer.

Portanto, ninguém te pode meter num carro e levar-te daqui do centro de Lisboa até a Amadora.

Não, eu já vou adormecida na esquina.

É?

É verdade.

Não passas da primeira esquina, é isso?

Sim, é verdade. E então foi uma aventura.

Sim.

Mas acho que podia ter sido melhor aproveitada porque no Vietname só tinha 32 dias de visto.

Ok.

E fazer o Vietname todo em 30 dias, por assim dizer, de mota é apertado.

Ok.

Porque teriam que ser muitos quilómetros por dia e isso fazia com que não aproveitasse tanto cada sítio. Mas assim foi. E fez-se.

E fez-se, muito bem. Não voltarias a repetir o registo desta viagem, mas voltarias a repetir estes países?

Voltaria, sim. Sem dúvida. Acho que talvez todos. Podia voltar a todos.

Boa!

Cingapura acho que já posso dar como feito.

É muito pequenino, não é?

Sim, já está.

Quantos dias? Eu nunca fui a Cingapura.

Estive uns quatro, cinco dias.

E chega?

Sim, sem dúvida.

Ok, muito bem.

Haverá quem diga o contrário, mas sim, para mim chegou.

Boa. Estamos à conversa com a viajante Ana Mano. Fazemos aqui uma pausa nas Conversas do Fim do Mundo. Regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com a viajante Ana Mano. A Ana, em 2017, fez uma viagem de oito meses pelo Sudeste Asiático, foi a 10 países, atravessou o Vietname de moto, numa moto que comprou por 120 e vendeu por 100. Oiçam essa história na primeira parte das Conversas do Fim do Mundo. E foi aí, Ana, que nasceu ou que se cimentou na tua cabeça a ideia: "Eu vou viajar até ao fim dos meus dias". Foi, Ana. E aí tu continuaste a viajar. Realizaste mais algumas viagens, não foi? Mas aqui já é registo trabalho e viagem, certo? Conta lá tudo.

Sim, depois quando regressei-

Já agora uma pausa. Quando largaste tudo em 2017, o que é que fazias?

Fazia organização de eventos e dava formação.

Ok. Tu estudaste turismo, não foi?

Sim.

Boa.

E depois mestrado em gestão e por isso também aí essa parte da gestão.

Da gestão. És uma boa gestora?

Acho que sim.

Vais gerindo a coisa, não é?

Sim.

Boa.

Sim, acho que para organizar viagens também é preciso ter um pouquinho dessas skills.

De gestão.

Gestão, organização. Sim, acho que sim.

Ok.

Isso dá jeito.

Tu organizas as tuas próprias viagens até ao detalhe ou há muito improviso?

Depende. Se eu não tiver muito tempo, organizo tudo.

As tuas viagens pessoais.

As minhas pessoais. Se eu não tiver muito tempo, organizo bastante. Se eu for com tempo, se for uma viagem em que tenha mais flexibilidade e possa largar-me um bocado à aventura, não planeio tanto.

Ok.

Mas nessa altura, quando voltei, estavas-me a perguntar.

Da viagem de oito meses do Sudeste Asiático.

Voltei a dar formação, e desta vez online, e-learning, e isso permitiu-me ir fazendo viagens e ir trabalhando ao mesmo tempo. E portanto fiz um mês pela Turquia, algum tempo no Egito, um mês e meio em Marrocos, que também foi tudo à boleia, essa viagem em Marrocos.

Foi?

Sim, um mês e meio à boleia em Marrocos. Fiz dois meses à volta de Portugal de bicicleta.

Uii!

E dois meses na Colômbia também.

Uau.

Portanto, ia trabalhando e viajando ao mesmo tempo, e aí sim, com mais flexibilidade, porque ia, sei lá, um mês, uma pessoa tem tempo pra muita coisa.

Pois, muito bem. De todas, Turquia, Marrocos, Egito, Colômbia e essa volta a Portugal de dois meses e meio, qual foi a mais impactante pra ti, Ana?

Ora bem, pergunta difícil. Talvez a Colômbia.

A Colômbia?

Sim.

Ou pelo menos a que te deixa mais saudades. É a Colômbia?

Ai, sim, sem dúvida. Então essa pergunta não tenho dúvidas. É Colômbia, sempre.

Por quê?

Gostei muito da Colômbia. É um país muito diverso, mas nem é só isso que me atrai. É muito-

Fervilhante.

É isso, fervilhante. É isso. É caloroso, tem sempre alguma coisa. Tem sempre a parte da música, as pessoas, a alegria.

Um país muito colorido, não é?

Muito colorido.

Lá as cores são muito vívidas, não é?

Sim.

Boa.

E a história também é uma história forte. Isso vê-se na população.

Ok.

Sim.

E eles são muito vivos, não é?

Sim.

São muito garridos nas suas expressões, não é?

Sim, é tudo muito intenso.

É. Como o café.

Sim, exatamente.

Boa, e então o que é que nos recomendas da Colômbia, Ana?

Olha, recomendo assim, pra quem faz um trajeto mais tradicional, a cidade Medellín, sem dúvida, não pode faltar.

Ok.

É a minha cidade favorita de todas.

Por quê?

Tem uma história muito forte.

Perigosa.

Pois, exatamente. Está mal conotada.

Por causa dos cartéis de droga.

Exatamente. Mas entretanto a cidade já renasceu, já teve muita infraestrutura nova, educação, e ver essa diferença, ver essa evolução toca muito. Choca muito também. E ouvir essa história da boca e fazer, por exemplo, um tour que conta essa história in loco, é...

Essa história, ou seja, da forma como eles de alguma forma se libertaram.

Exatamente.

Dos cartéis de droga.

Sim.

E se transformaram numa cidade, entre aspas, "normal". É isso?

Exatamente, sim. Pronto, cidade Medellín em primeiro lugar, acho que tem que ser. Depois também o tradicional das praias das Caraíbas, lá em cima Cartagena, Tayrona, acho que sim.

Ah, Cartagena das Índias, não é?

Sim, e o Parque Tayrona, que é muito bonito. Mas pra quem quer fazer assim uma coisa diferente, a Amazônia colombiana. Eu passei lá uma semana com uma tribo indígena e também foi uma aventura.

Passaste uma semana com uma tribo indígena?

Sim.

Mas é o quê? É um produto turístico?

Ou seja, existe isso como produto turístico na Amazônia colombiana, neste caso. Mas nós quisemos procurar uma coisa que não fosse assim-

Que não fosse forçada.

Exato, e que fosse mais fora da rota.

E então, apanharam o autocarro?

Não, apanhamos um barquinho pra ir lá ter à comunidade 11 de Janeiro. Porque foi através de um contato de uns amigos que já lá tinham estado há uns anos e conheceram uma rapaz e ele levou-os pra casa dele. E então, pronto, a casa dele é lá na comunidade. E aquilo é uma comunidade, é uma meia dúzia de casas E nós ficamos na casa dele durante uma semana. Tínhamos que fazer tudo como a família, cozinhar e comer com eles. Depois íamos com ele fazer as atividades diárias e ele, o Joaquin, também nos levava a conhecer por ali aquilo que havia. Ir para um lago caçar piranhas, por exemplo, e depois comer essas piranhas ao almoço. Ele era mesmo muito perspicaz. Ele conseguia andar na selva, ver uma pequena corrente de água ao pé, e do nada dar a correr e caçar um peixe com a mão. Ele tinha uma agilidade para ver os animais. Aquele instinto de caça, mesmo refilado.

É o ambiente dele.

Exatamente. E foi isso que nós também quisemos. Claro que não conseguimos tal proeza, como era o filme, mas quisemos ver e estar em contato.

Mas isso quer dizer o quê? Que andaste uma semana na selva colombiana descalça?

Não, descalça não. Ele eventualmente sim.

A fazer de Robinson Crusoé da Amazônia.

Quase. Sim. Foi muito engraçado.

Ok, muito bem. Volta a Portugal em duas semanas de bicicleta. Conta-me tudo.

Não, não foi em duas semanas.

Ah não, então.

Dois meses e meio.

Desculpa, dois meses e meio. Mesmo assim, quantos quilômetros?

2100 e tal. 2160.

Ok, o que fizeste?

Ora bem, saí de casa, de Barcelos.

Barcelos. Desculpa, não estou usado com o sotaque. Acho maravilhoso. Um grande abraço para Barcelos.

Sim, grande cidade. Começamos ali logo pela parte difícil, que é o norte e Trás-os-Montes. E a ideia era ir até Bragança.

Os dois meses e meio foram seguidos?

Foram seguidos.

Ok.

Sim. E eu estava a trabalhar ao mesmo tempo, portanto, também tinha que ir gerindo, por isso também foi tanto tempo. A ideia era ir até Bragança e fazer assim mesmo praticamente a volta de Portugal. Fazer assim, mais ou menos. Mas chegamos ali a Mirandela e percebemos que aquilo subia demasiado para mais outra coisa.

Dói, não dói?

E então cortámos ali para o Douro e começámos a descer o Douro, que aquilo pareceu-nos mais razoável. Depois por aí fora, por mais ou menos o centro do país, Viseu, Lousã. Atravessámos assim mais ou menos a meio, mas depois voltámos para o Alentejo, virámos já mais para o oeste, para o Alentejo, Algarve, e depois subimos tudo pela costa.

Ok, incrível. O país é super diverso.

É super diverso, tem tanta coisa. Quase que isto se podia estender muito mais tempo e estar sempre a ver coisas diferentes. E a comida também é boa.

É, não é?

A comida é a melhor de todas, sem dúvida.

Seja lá onde for.

Seja onde for, sim.

Somos um país afortunado, não somos?

Sem dúvida, sim.

Boa. Sem desprimor para nenhuma região de Portugal, mas qual foi a que tu gostaste mais de percorrer de bicicleta, Ana?

A zona do Guadiana.

Ah, ok. Por quê?

Aquela Alentejo inteiro.

Atravessaste o Guadiana, essa zona em Outubro/Ano, lembras-te?

Foi verão.

Verão?

Verão total. Foi muito quente.

Pobre, coitadinha.

As alturas também se calhar não foram muito bem escolhidas. Foi julho, agosto.

Ui! Escolhe bem.

Sim, muito bem. Sabes que foi naquela altura, foi em 2020.

Ah, a pandemia.

Exato. Tínhamos estado fechados, não se podia viajar para fora, para lado nenhum.

Exato.

Ou era muito difícil. E nesse verão pensámos: "Olha, por que não fazer aqui dois mesinhos por Portugal, por aí fora?" E assim de bicicleta também estamos ao ar livre, não passamos Covid a ninguém, essas coisas. E então foi isso.

Foi bom. Iam dormindo, acampando?

Um misto. Tínhamos tenda, íamos acampando.

Acampando em locais não autorizados.

Autorizados.

Semiautorizados.

E semiautorizados.

Ok.

Os dois. E também ficávamos em alojamentos para repor energias.

Ok. Não deixaram lixo por aí, pois não?

Não, nada.

Ainda bem. É isso.

Levámos tudo connosco.

Boa. O que é mais difícil para quem atravessa Portugal de bicicleta, Ana?

Ter força nas pernas.

É a zona lá de cima do norte, não é?

É, sim. Mas mesmo que eu pensasse e ia pensando: "Isto agora daqui para baixo é sempre a descer". Não é sempre a descer. Nem no Alentejo é sempre a descer, porque aquilo até pode ser sempre em frente, mas está sempre a subir e a descer, é tipo colinas. O nosso país não desce em lado nenhum.

O Alentejo pode ter o tamanho da Holanda, mas não é como a Holanda.

Exatamente.

Muito bem. Olha, que viagens é que tu gostavas de realizar, Ana, no futuro?

Ai, que boa pergunta. Ora bem, eu gostava muito de fazer a Islândia.

De bicicleta, de todo-o-terreno?

Não, podia ser numa campervan.

Campervan, ok.

Podia ser. E gostava muito de fazer Bolívia e norte do Chile, com o deserto do Atacama.

Ok.

Acho que está assim na minha lista. E talvez o México.

O México. Puxa-te muito a América Latina.

Sim.

Por quê?

É o calor. Eu gosto. Tempo quente.

Barcelos também é muito. Não leves a mal. Mas é muito folclórico, não é? A América Latina também é muito. Se calhar é por aí.

Se calhar vem daí. Se calhar pode ser. Não tinha estabelecido essa ligação.

Pois, pode ser. Muito bem. Ana, quando é que nasceu Esse gosto por viajar, querer descobrir o mundo.

Eu fui escuteira durante 17 anos, e acho que vem daí.

Escuteira com U ou com O?

Com U.

Com U. Do CNE?

Exatamente, do CNE.

Muito bem. Sempre alerta para servir, não é?

Exatamente.

Quantos anos escuteira?

Acho que foi 17.

17? Foste até o fim, até o topo da carreira.

Sim.

Chegaste a ser chefe?

Cheguei a ser chefe.

Boa.

Sim. Depois, entretanto, a vida levou-me pro mundo e já não deu pra manter o compromisso.

É o trabalho, não é?

Exatamente.

Ok. Portanto, criou em ti a ideia de que o mundo se pode explorar.

Sim, acho que foi isso.

Desbravá-lo.

Querer conhecer o mundo e depois também tínhamos alguma ligação. Sabíamos que havia escoteiros não sei onde, e fomos ganhando essa ideia do mundo e acho que veio daí. Embora que-

Embora, o quê?

As minhas tias contam uma história, que eu quando era pequenina dizia que quando fosse grande queria ser turista.

Quem não, é?

Para ir conhecer França, Espanha e o estrangeiro. Era isto que eu dizia.

Muito giro.

Portanto, se calhar já vem daí, mais pequena.

Muito bem, portanto, escoteiros. É engraçado porque os escoteiros são uma boa fábrica, digamos assim, de viajantes. Há ali qualquer coisa que acontece naqueles fins de semana no campo, que semeia em muitos miúdos e muitas miúdas a vontade de querer ser aventureiro e de partir à conquista do mundo.

Acho que sim. Acho que muitos destes viajantes com que me vou cruzando, bloggers, líderes, etc, muitos me dizem que foram escoteiros alguma vez na vida. Então, acho que sim, acho que está aí uma sementezinha.

Que continuaste a germinar, porque depois fizeste um Erasmus.

Sim, quando estava na universidade, fiz o Erasmus em Itália e na Polônia. E depois alguns projetos de Erasmus+, que eram mais pequenos.

A trabalhar. E já em contexto laboral, o Erasmus+.

Sim, exatamente. Isso também me deu o salto para a Europa e depois mais tarde é que veio o salto pra fora da Europa.

E para o mundo. Muito bem. Ana, vamos fazer checkout? Vamos embora. Então vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre, o que é que vai?

Na minha mala vai sempre uns talheres.

Talheres?

Sim.

Por quê?

Porque eles dão sempre jeito em todo lado.

Mais o garfo ou mais a faca?

Mais a colher, até. Sei lá, às vezes pra comer um iogurte. Quando se viaja há muito tempo, uma pessoa às vezes farta-se das comidas, quer umas coisas assim mais normais, normais pra nós.

Sim.

E às vezes encontro um iogurte e apetece-me comer. A faca também, pra descascar uma fruta ou algo assim. E os talheres cabem sempre ali, são pequeninos, não ocupam muito espaço e dão sempre jeito.

Boa. Talheres, ninguém tinha dito talheres.

Exato.

A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.

Eu acho que não foi a da Ásia, mas foi a minha primeira no Egito. O Egito é um país muito-

A minha primeira, portanto, já houve várias.

Sim, já houve várias.

É um país que gostas muito?

Sim, gosto muito do Egito e já fui talvez umas 10 vezes.

Uau!

Acho que sim, porque fui a primeira antes de ir pra Ásia. Aliás, foi a primeira viagem fora da Europa. E depois quando voltei da Ásia, fui novamente ao Egito e entretanto acho que já fiz oito grupos no Egito.

Ok, enquanto líder de viagem.

Enquanto líder de viagem.

Mas por que foi com mais peripécias?

Eu fui enganada o tempo todo, tive problemas.

A primeira vez que lá foste?

Sim, porque o Egito é muito fácil uma pessoa ser enganada.

Enganada. Endominada.

Sim. Se não se tiver atenção, se não souber os esquemas. Fui enganada logo de início.

Então compartilha conosco um esquema pra nós sabermos, nós que vamos comprar bilhetes pro Egito. Vá lá.

Então, por exemplo, na primeira vez que eu fui às pirâmides do Egito, aquilo dava para se ir de táxi ou assim, mas eu: "Não, vou de autocarro e transportes". À maluca. Até ao outro lado do Cairo, em Giza. E no autocarro, eu estava lá sentada e sentou-se um senhor que parecia muito normal, que ia na vida dele, pro trabalho, e começou a meter conversa. E entretanto, nós dissemos que íamos visitar as pirâmides e ele: "Se quiserem eu indico onde é a entrada". Nós: "Pronto, sim, senhor". Continuamos ali a conversa. O que é certo é que ele não nos levou para a entrada oficial das pirâmides, levou-nos para depois dessa entrada, uns 3 km.

Malandro.

Entretanto, nesse sítio que tinha muitos militares armados, já nos estavam a pedir 90 dólares para entrar nas pirâmides, quando nós sabíamos que na altura era pra aí quatro dólares. E quando percebemos que estávamos a ser enganados, pegamos nas nossas coisinhas.

Deram à sola.

Deram à sola, exatamente. Aí está um dos exemplos muito comuns no Egito.

É um país seguro para viajar, o Egito?

É um país seguro, diria que sim, mas tem que se ter bom senso e intuição.

Pela as suas coisas.

Exatamente.

Como todos.

E cuidado com a comida também.

Ah, é?

Sim, pra ter desarranjos também é muito fácil.

Já vi que há longa experiência aí.

Exato, sim. E nessa primeira, então

Foi o caos total. O crime do passaporte ou o visto mais difícil de obter?

Não foi o mais difícil, mas foi o que teve mais peripécias também, que foi o do Laos, porque passámos por terra do Vietname para o Laos pelo norte. E aquela viagem foi desde, sei lá, quase cabras entravam no autocarro. Galinhas tinha de certeza. E depois na fronteira em si, pediam-nos um ou dois dólares por qualquer coisa, até para pormos o dedo para tirar as impressões digitais ou para verem a febre ou para qualquer coisa nos pediam dinheiro.

E vocês pagavam?

Claro, senão o que é que havíamos de fazer? Ninguém passava naquela fronteira. Éramos os únicos estrangeiros ali.

Estavam nas mãos deles, não é?

Era sim.

Até te dizer quanto é que gastaste nesse circo todo.

Para aí uns €30, se calhar. 20 ou 30.

A recordação de viagem mais cara?

Eu não costumo trazer muitas lembranças, mas eu não me importo de gastar dinheiro é a trazer café da Colômbia.

Café da Colômbia.

Sim. Sempre que vou, tenho que trazer o café.

É único e especial para ti.

É muito bom.

É super perfumado, não é?

Sim.

Intenso, como dizíamos há pouco.

Também, exatamente.

A refeição mais estranha, qual foi?

Acho que foi em Marrocos, numa das celebrações que eles fazem, que é o Aït em junho. Eles comem borrego. Só que matam o borrego no próprio dia e fazem a refeição no próprio dia para festejar. Tipo a nossa Páscoa. Só que eu dormi na casa de um rapaz, uma pessoa local, com a família dele e como estava tanto calor, nós dormimos no terraço com o animal, que foi morto no dia seguinte pela família e nós depois comemos a refeição do animal com que tínhamos dormido. Ainda hoje me está aqui a pesar na recordação.

Não és vegetariana?

Não, mas aquele animal não gostei de comer. Tinha dormido com ele na noite anterior.

Olha, gostava de viajar com?

Eu gosto muito de viajar com a minha mãe e fazemos sempre uma viagem por ano. Nos últimos anos temos feito uma viagem por ano e quero continuar a manter essa tradição.

Boa, já têm destino marcado?

Temos.

Partilha.

Sim, reservámos muito recentemente, vamos novamente a Cabo Verde.

Boa!

Sim. Essa é uma que quero manter. Quero sempre continuar a viajar com ela.

Muito bem, então boa viagem.

Obrigada.

Olha, chegámos ao fim. Qual foi a música que trouxeste, Ana?

É a "Oiga, Mire, Vea", de uma orquestra colombiana.

Guayacan Orchestra?

Exatamente.

Olálá!

Sim, e lá está, tinha que trazer a Colômbia para aqui, porque eu gosto muito de salsa, gosto muito de música e tinha que trazer.

Vamos embora. Vamos bailar. Ana, foi um gosto. Muito obrigado.

Muito obrigada.

Obrigado. Guayacan Orchestra com "Oiga, Mire, Vea" a fechar a conversa do "Fim do Mundo" esta semana. Estamos de regresso dois a oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.