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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana é um andarilho e um amante da montanha, de tal modo que já atravessou duas cordilheiras a pé: Pirineus e Alpes, milhares de quilômetros, dezenas e dezenas de dias, um pé à frente do outro. Nuno Gomes, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.
Olá, bem-vindo, obrigado.
Ora essa, quão duro é atravessar duas cordilheiras a pé? Muito, pouco, mais ou menos?
Um bocado, mas não tanto como eu estava à espera.
Então.
Não as atravessei de uma vez só. Tiveram uma separação temporal. A dos Pirineus foi em 2014. A dos Alpes já foi mais recente, foi em 2023.
Ok, mas quando começaste a travessia de uma cordilheira, foi até o fim?
Exatamente. Eu quando gosto de fazer essas coisas, há muita gente que faz parcialmente, por questões logísticas, de tempo e de marcações de férias, eventualmente, num ano faz uma parte, outro ano faz outra. Para mim, faz sentido, pela dificuldade também, fazer tudo uma vez.
Tudo de uma vez.
Tanto a dos Pirineus como a dos Alpes foram todas de seguida.
Muito bem. Vamos falar sobre a mais recente, que já foi em 2023, a dos Alpes.
A dos Alpes.
Começaste em Itália, não foi? Trieste, cidade lindíssima, não é?
Exatamente.
É, não é? Espetacular.
É, mas eu posso dizer que praticamente não conheci Trieste.
Pois.
Quando fui para a viagem, foi exatamente fazer a travessia pelas montanhas. Portanto, não fiz turismo nas cidades que atravessei. Quando eu decidi esta travessia, houve três fatores que eu queria cumprir para considerar que teria atravessado a cordilheira, os Alpes. Começar na cota zero, ao nível do mar, e acabar também daí, o começo em Trieste, no mar Adriático, e depois acabar no Mônaco, do outro lado, já no mar Mediterrâneo.
Muito bem. Trieste, que é quase colada à Eslovênia.
Exatamente.
Já foi uma cidade jugoslava. Li num livro.
Sim.
E depois até se conta com alguma ironia que depois aquilo entrou em decadência a partir do momento em que passou a ser italiana.
Que passou a ser italiana. É, mas aquilo está muito próximo da fronteira.
Mas é uma cidade lindíssima, não é?
É, eu não conheço como cidade, era isso que eu estava a dizer, praticamente não conheço, mas aquilo que eu vi de Trieste, a cidade é bonita e vale a pena ir lá para conhecer também Trieste.
Portanto, começaste rente à água.
Comecei rente à água. Eu cheguei de avião a Trieste e fui de aí, ainda de caminhoneta, até ao centro de Trieste, precisamente para ir junto ao mar.
Ok.
Essa era uma das condicionantes. A outra condicionante, eu tinha que atravessar todos os países que têm Alpes, que são oito, considerando os seis grandes países e depois os dois pequenos territórios que são Mônaco e Liechtenstein. Portanto, Itália, Eslovênia, Áustria, Alemanha, Suíça, França e depois Liechtenstein e Mônaco.
Muito bem. Então fizeste uma espécie de uma meia-lua.
Exatamente, uma meia-lua no sentido contrário aos ponteiros do relógio. E como estava a dizer ainda há pouco, eu no dia em que comecei em Trieste, nesse dia já fui dormir na Eslovênia. Aquilo está mesmo próximo da fronteira.
Pois, é mesmo colado.
Eu penso que fiz 20 km nesse dia e já estava na Eslovênia.
Noutro país. Espetacular.
Logo noutro país. Voltei a entrar em Itália mais tarde, mas saí logo da Eslovênia.
Muito bem. Quantos dias demoraste a atravessar os Alpes?
Inicialmente, eu fiz um planeamento conservador e tinha posto como hipótese 110 dias. Achei que era isso que eu iria conseguir fazer. Comecei a sentir-me bem fisicamente e acabei por conseguir fazer em 80. Portanto, um mês antes daquilo que eu tinha planeado.
Uau, campeão.
Fisicamente correu bem.
Sim. Fazias quantos quilômetros por dia, Nuno?
Isto variou muito, obviamente. O dia mais curto foram 9 km, o dia mais longo foram quase 40, foram 38, 39.
Por que só 9 km nesse dia?
Esse dia eu já não me recordo exatamente qual foi o dia. Não me lembro dentro da cronologia dos 80 que foi. Sei que foi um dia que teve algum desnível, portanto algumas subidas e umas descidas um bocadinho mais complicadas, mas eu teria conseguido fazer mais. Mas como vinha de trás de alguns dias já com pouca comida e uma comida não muito boa. Portanto, não estava com grandes energias, decidi mesmo parar nesse dia à hora de almoço e fiquei o resto da tarde a repor aquilo que estava em perca de alimentação.
Pois, o que é mais difícil, é o cansaço físico ou o cansaço mental, Nuno?
É o mental.
Mental?
Sem dúvida. O cansaço físico, como eu disse, consegui fazer um mês antes do que eu tinha planeado. A parte que me custou mais foi a parte mental.
Por quê?
Foi a gestão da solidão. Isso é um bocado estranho, mas eu percebi nesta viagem que sou uma pessoa que gosta de-
Gosta de estar com os outros.
Exatamente. Gosto de pessoas e gosto de estar com pessoas.
Sim.
A parte que me custou foi realmente a solidão. A maior parte dos dias eu estava sozinho, mesmo completamente sozinho, e depois ao final do dia já conseguia estar com pessoas, quer fosse nos refúgios ou nas povoações, havia pessoas. Mas houve uma altura em que eu lembro que estive quase três dias, dias e noites, completamente sozinho. Eu não estava à espera, mexeu muito comigo.
Ok.
Tinha aquela sensação estranha, eu costumo contar isto quando me perguntam. Tive aquela sensação que se vê nos filmes pós-apocalípticos de ser a última pessoa no mundo. Eu tive essa sensação durante esses dois, três dias. É muito estranho, eu falava, cantava.
Sozinho?
Sozinho, completamente, porque não havia contacto humano, não havia vozes, não havia barulhos que não fossem os naturais. Não estava à espera, isso mexeu muito comigo.
Colocou-te perante uma situação limite, não é?
É.
O que é que tiraste dessa experiência, Nuno? Solidão extrema.
Percebi que eu não gosto dessa solidão.
Sim.
E quando muita gente diz que é bom estar sozinho, é, sem dúvida, mas estar sozinho em casa ou estar sozinho na cidade, não é estar sozinho. Temos uma televisão, temos um telemóvel, vamos à janela à gente. Ou seja, se eu quiser quebrar essa solidão, é muito fácil.
Tu nem rede tinhas no telemóvel.
Não tinha. Sem rede. Mais essa, sem rede.
Sozinho no mundo.
Estava mesmo completamente isolado. E eu, se quisesse quebrar um bocadinho essa solidão, não tinha como. E essa parte fez-me relativizar muita coisa. Fez-me dar valor a muita coisa que se calhar não dava cá.
Por exemplo?
Por exemplo, o poder em qualquer altura estar com alguém, falar com alguém, ou coisas mais simples ainda.
Ainda que seja por um motivo-
Não interessa
...corriqueiro e banal.
Ou outras coisas. Eu, por exemplo, enquanto eu estou numa situação destas em montanha, isso quer esteja sozinho ou não, é um bocado o mesmo. Mas eu ali tinha que me concentrar era para onde estava a ir, não me perder, e tinha que me concentrar basicamente em três coisas, que é: eu tenho que ter cuidado para estar bem fisicamente. Tenho que ter cuidado comigo.
Ok, tratares de ti.
Partir, ter cuidado para não ter ali problema nenhum, porque estou completamente isolado. Tenho que me preocupar onde é que vou dormir e tenho que me preocupar o que é que eu vou comer. São as preocupações básicas que nós aqui não temos, porque por pior que nos corra o dia, nós quando chegamos ao final, vamos dormir na nossa cama.
É isso.
E vamos abrir o frigorífico e temos lá comida. O dia pode ter sido muito mau, mas temos essas duas coisas e isso é garantido.
É.
E nós não consideramos isso uma coisa muito importante. Consideramos só tudo o resto, todos os problemas que temos.
É quando não temos, não é? Que damos importância.
Uma coisa que eu também percebi quando acabei a viagem, eu costumava dizer: "Quando acabei a viagem nos Alpes, deixei de ter problemas". Porque aquelas coisas que eu considerei e que eu considero realmente fundamentais, eu aqui tenho. Tenho onde dormir e tenho o comer e estou bem. Tudo o resto são coisas secundárias, são coisas que se resolvem.
Claro, tudo tem resolução. Fala-me do planeamento, como é que se planeia uma viagem destas?
Eu comecei a planear esta viagem quase um ano e meio antes.
Ok.
Eu decidi que queria fazê-la.
Foste ver muitos mapas dos Alpes.
Muita coisa.
Muitas horas no Google Maps, imagino.
Muitas horas no Google Maps, muitas horas no Wikiloc, muitas horas a descarregar percursos de muita gente que já tinha feito, tirar muita informação. Sim, isso foi um planeamento, a parte de tentar perceber por onde é que eu queria passar e onde é que havia caminhos, opções. Também levei muitas opções para, no caso de mau tempo, no caso do percurso não dar para fazer, ter ali opções. Outra coisa engraçada também é que levei muitas opções para poder desistir.
Foi?
Isto foi uma coisa engraçada e que eu costumo dizer que não desisti, porque sabia que podia desistir. Isto é engraçado, mas eu levei muitas opções, que era se a coisa corresse mal ou eu tivesse um problema sério, eu tinha sítios onde eu sabia que dali podia ir a uma povoação que tinha camionetas para me levar a uma cidade com aeroporto para voltar. Ou seja, eu quando começava uma determinada secção, eu sabia que daqui a uma semana, se alguma coisa correr mal, eu posso sair, posso fugir daqui.
Ok.
E isto levou, naqueles dias em que eu estava mais negativo, por mau tempo, porque não estava a conseguir encontrar o caminho. A primeira coisa que me passava pela cabeça é: "Não, acabou. Isto vou coisa amanhã, quando chegar ao cimo, vou-me embora."
Vou acabar com isto.
Vou acabar com isto.
Sim.
Depois a coisa começava a correr melhor, os pensamentos negativos iam-se embora e eu olhava para o meu planeamento e via: "Ainda tenho daqui a mais 10 dias, tenho o escape. Então vou, mais 10 dias."
Ok, muito bem. E ias fazendo etapas.
Era. Dentro da minha cabeça ia fazendo etapas.
Boa.
Porque se isto for 80 dias, eu na altura não sabia que era 80 dias, imaginava 80 e tal. Se eu no 25º dia olhasse para o plano e dissesse assim: "Faltam 80, não dá." No momento negativo, se eu tenho o objetivo muito longe, é muito fácil desistir. Assim, se eu tivesse objetivos pequeninos, olhava para ali e dizia: "Mais 10 dias. 10 dias isto. Isto vai."
Muito bem. Fala-me do percurso. Eslovénia, Áustria, Suíça. Aliás, Áustria, Alemanha, Suíça, França e depois os territórios do Liechtenstein e do Mónaco.
O Mónaco é curioso, eu também não sabia, é considerado os Alpes Marítimos. Aquilo não tem elevações nenhumas.
Pois.
Mas é considerado, porque os Alpes começam, no fundo, é quase como aquela meia-lua fosse encaixada ali, subissem os Alpes. Obviamente que não tem elevações praticamente nenhumas.
Muito bem. Vamos aqui abrir um conflito diplomático. Quais são os Alpes mais bonitos? São os suíços?
Toda a gente me diz isso. Os Alpes na Suíça são fantásticos.
São mais bicudos e cheios de neve, não é?
Também, sim. Mas o percurso que eu escolhi na Suíça, por onde eu passei, como nessa altura eu estava a precisar de baixar muitas vezes a povoações pra comprar comida, acabei por mais vezes sair da montanha do que noutros sítios. E a Suíça tem mais gente na montanha. Os sítios que eu gostei mais foi a parte da fronteira da Áustria com Itália, no norte de Itália.
Sim.
E depois tive que subir por dentro da Áustria pra passar na Alemanha. Portanto, tive que passar ao largo de Innsbruck e depois passar a norte para poder entrar na Alemanha, porque obviamente a Alemanha também faz parte dos Alpes e eu queria cruzar uma parte da Alemanha. Essa parte da fronteira é uma parte muito pouco frequentada, com muitos vestígios da Primeira Guerra Mundial, ainda.
Vestígios como assim?
Arame farpado ainda, fronteiras de arame farpado.
A sério?
Muito antigas, portas ainda com datas de princípio do século, que estão abertas pra as pessoas passarem livremente, mas estão lá muitas marcas ainda.
Perto do monte Zugspitze, será?
Zugspitze é o ponto mais alto da Áustria.
É ali na fronteira, não é?
Sim, exatamente. Eu passei ali ao pé.
Ok, por cima de Innsbruck, não é?
Não, isso é o ponto mais alto da Alemanha.
Ok.
Exatamente.
Fica a dois ou três quilômetros da Áustria.
Pronto, exatamente, muito próximo. A fronteira da Itália com Áustria é mais a sul da Áustria, e essa zona é que ainda tem as fronteiras muito marcadas da Primeira Guerra.
Uau, isso é extraordinário.
Ainda tem lá peças de artilharia partidas, abandonadas.
Mas ninguém as vai tirar, porque é difícil tirar dali.
Partiram-nas quando saíram, quando abandonaram e ficaram lá.
E ficaram lá. Uau, espetacular.
Bunkers, estão lá.
Também?
Aliás, eu cheguei a dormir em bunkers.
Foi?
Eles estão abertos. Estão lá na paisagem, na montanha. Uns muito disfarçados na paisagem, outros mais óbvios, mas estão abertos.
Muito bem. Onde é que dormias nestes 80 dias, Nuno? Para além de dormires em bunkers da Primeira Guerra Mundial.
Sim, levava uma tenda. Portanto, dormia algumas vezes em tenda, em refúgios de montanha.
Ok, existem muitos, não é?
Existem muitos. Quando não chegava a algum refúgio é que tinha então que dormir, o chamado bivacar também, que é meter só a cama numa zona coberta, no chão, e dormir, que não era necessário montar tenda. A temperatura não era muito fria à noite, desde que estivesse abrigado da chuva.
Tudo bem. E bicharada?
E bicharada. Bicharada é assim, eu antes de fazer a viagem também, obviamente, quis consultar o que é que pudesse haver de problemas.
Foste à procura do leão do Tirol.
Exatamente. Não, não do leão. Mas há ursos, se calhar até é pior. Mas pronto, há ursos e há lobos, nos Alpes. Ursos há em duas zonas muito específicas. Toda a Eslovênia é uma zona que tem ursos, eu penso que vem desde a Croácia e toda a zona da Eslovênia é uma colônia muito grande de ursos.
Ok.
E depois há uma zona muito pequenina em Itália, que é na zona das Dolomitas, que também tem ursos. E depois há travessias entre essas duas zonas. As travessias, geralmente, como são travessias de machos, não têm crias, é uma coisa um bocadinho mais pacífica.
Mais pacífico, sim.
O complicado é quando são fêmeas com crias. Mas é muito difícil ver ursos nos Alpes, que eles estão lá. Não vi nem vestígios, nada. Passei em algumas zonas na Áustria em que alertavam para zona de ursos e para a pessoa não acampar. E depois eles têm lá umas casas em madeira, em que a pessoa se pode meter lá dentro, tranca-se por dentro e dorme lá dentro. Tem lá um cartaz a avisar, tipo não durma ao relento, ponha-se aqui dentro, tranque-se, no outro dia pode ir à vida.
Ok.
E depois lobos. Lobos já nos Alpes todos. É mais frequente.
Também não ouviste nem viste lobos?
Vi marcas de lobos, vi pegadas, vi uma cabra morta por lobos, que me alertaram que eles andavam lá. Os lobos é curioso, uma coisa que eu me informei também. O lobo normalmente é um animal diurno. Caça de dia, dorme à noite. Quando tem presença do homem, muda. Porque ele percebeu que durante o dia, pra caçar os animais que o homem defende, não dá durante o dia, dá à noite, quando eles estão agrupadinhos ou no galinheiro. Então, nessas zonas ele é notívago. Portanto, durante o dia é muito difícil haver lobos. À noite, também pra não facilitar, é melhor dormir abrigado.
Ok. Nunca tiveste medo nessa travessia dos Alpes?
Não. Não, porque como não tive contacto.
E cruzaste com pessoas ou não? Como tu, que andou a caminhar.
Sim, a fazer secções. Não me cruzei com ninguém que estivesse a fazer tudo de uma vez. Cruzei-me com muitas pessoas a fazer secções, bocados ou rotas circulares em que acabavam por cruzar o meu caminho.
Ok.
Pessoas que estavam a fazer aquilo que eu disse há pouco, as secções cada ano, duas semanas ou uma semana, para ir completar depois então ao longo de vários anos o percurso todo. Mas ninguém a fazer tudo de uma vez.
Muito bem, e tu fizeste. 80 dias, travessia dos Alpes. Nuno, estamos a chegar aqui ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Então, tens contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial, Nuno Gomes?
Tenho vários.
Então vá, um.
Não, são sempre o mesmo. Eu, das viagens, trago sempre-- eu gosto muito de pedras.
Ok.
E todas as viagens eu trago pedras. Exceto esta travessia. Esta travessia, tanto os Alpes como os Pirinéus. Esta travessia, alguns caminhos são marcados por umas marcas muito características, são as marcas dos gaiers, que são uma pintura branca e vermelha.
Das grandes rotas.
Exatamente, as grandes rotas. Eu consegui apanhar do chão um bocado de uma casca de árvore que tem essas marcas.
Ok.
Já estavam no chão, não as arranquei. Portanto, das travessias, eu tenho essas duas memórias da marcação da travessia. Quando são outras viagens de fazer cumes, gosto de trazer do cume uma pedra. Então eu tenho muitas pedras em casa.
Muito bem.
São as memórias que eu trago dessas viagens.
Destas tuas viagens. Vamos falar delas na segunda parte das "Conversas do Fim do Mundo". Fazemos aqui uma pausa, regressamos a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das "Conversas do Fim do Mundo", esta semana com Nuno Gomes. O Nuno atravessou os Pirinéus e os Alpes a pé. Já falou um pouco da sua travessia alpina na primeira parte das "Conversas do Fim do Mundo". Nuno, onde é que nasceu, ou quando é que nasceu, como é que nasceu esta paixão que tu tens por andar a pé e por subir montanhas?
Esta paixão começou há cerca de 25 anos, quando uma amiga me desafiou pra eu ir fazer um curso de escalada. Eu não conhecia nada do mundo, nem da escalada, nem da montanha.
Nessa altura eras arquiteto ou eras professor?
Nessa altura era arquiteto e professor.
Ok.
Fazia as duas coisas.
És arquiteto de formação, não é?
Sou. Sou arquiteto de formação.
Deixaste os tiradores.
Deixei os tiradores para trás há uns anos e professor também.
Ok. Foste professor de?
Tudo o que era ligado à área das artes. Era professor em escolas secundárias e básicas, tanto escolas do ensino regular, educação visual, geometria descritiva, história das artes, tudo o que fosse das artes, tinha a ver com o curso de arquitetura.
Muito bem, então foste desafiado por uma colega, ou por uma amiga.
E fui desafiado por uma amiga para experimentar um curso de escalada, que era uma coisa gira e tal. "Vê como é que é, fazes um curso, aquilo é giro, bora." E fiquei viciado.
Foi?
Durante os primeiros anos foi só escalada, ainda não sei nada de montanha. Escalei muito nessa altura, praticamente o meu tempo, eu chegava a escalar cinco dias por semana.
Caramba!
Evoluí muito na escalada logo nos primeiros meses. Passei de não saber nada de escalada.
Espera lá, como é que se escala cinco vezes por semana?
Curiosamente.
Em parede de escalada?
Não, rocha sempre. Na altura não havia ginásios, não havia nada. Agora há n ginásios de escalada por Lisboa, pelo país. Mas na altura não havia nada, portanto eu ia para a rocha. E os sítios aqui em Lisboa onde eu escalava era Sintra, Cascais, Neguia e Arrábida.
Ok.
São os três sítios. Tinha a ver depois com as dificuldades. Arrábida tinha as vias mais difíceis. Neguia, em Cascais, era onde praticamente toda a gente começava na altura a escalar, tinha as mais simples. Sintra já era um desafio, porque a rocha era diferente, era granito, já era um desafio diferente. E depois saltava-se naturalmente então pra Arrábida, que tinha as vias grandes e de dificuldade. E durante esses seis meses, eu tinha disponibilidade, foi um ano em que eu fiquei sem trabalho e aproveitei.
E cresceste como escalador. Depois, como é que aparece a montanha?
E depois a montanha aparece com amigos, contactos que começam inevitavelmente também a escalar. Vamos pra Serra da Estrela, também tem sítios pra escalar, e a Serra da Estrela já dá pra fazer mais umas aventurazinhas de caminhada. Depois, fiquei curioso com neve também, fiz um curso que se chamava "Técnicas Infernais", agora seria um curso de alpinismo.
Sim.
Tirei também o curso de Técnicas Infernais, comecei a me interessar também pelas coisas de neve, de crampons, piolets e já a montanha um bocadinho mais a sério. E depois comecei, era escalada e montanha, e depois ao longo dos anos a escalada começou a ficar mais pra trás, a montanha começou a seguir mais, até ter feito a tal travessia dos Pirinéus em 2014 e aí a coisa da montanha ficou mais a sério.
Aí deixaste a escalada, não é?
Não deixei completamente, mas ficou o montanhismo mais vivo.
Muito bem. Fizeste então essa travessia dos Pirinéus.
2014.
2014. Essa sim foi a tua primeira travessia.
Essa foi a primeira loucura de nunca ter feito nada.
Quantos dias, quantos quilômetros?
820 km, 47 dias.
47? Uau!
Foi feito assim nas calmas, a desfrutar. Não fiz sozinho, fiz acompanhado, com a minha companheira na altura. Aquilo foi mesmo tirado assim do nada, sem nunca termos feito nada mais de um dia, quase, ou mais de dois dias, de repente: "Bora atravessar os Pirinéus." E ela: "Tá, bora."
Estavam sem fazer nada e olha.
Foi do gênero-- não, quer dizer, não foi uma semana antes de ir, mas foi uns meses: "No próximo verão, que tal?" Os nossos trabalhos davam para tirar uma temporada grande. "Olha, vamos tentar, que deve ser giro." Eu tinha trazido um guia há muitos anos atrás dessa travessia. E então: "Bora, bora." E fomos fazer isso.
Começaram onde?
Começamos no Atlântico
Ok. Portanto é em cima, não é?
A travessia liga dois faróis: o Farol de Higuer, que é no Atlântico, e acaba no Farol de Creus, no Mediterrâneo. Ou ao contrário. Nós decidimos fazer do Atlântico para o Mediterrâneo.
Norte para sul.
Norte para sul e oeste para este. Portanto, da esquerda pra direita.
Isso, exatamente.
Fomos andando, também sem destino. Sem destino, não, sem prazo pra acabar.
E fizeram do lado espanhol ou do lado francês?
Fizemos do lado espanhol, que é o GR 11. Existe outra travessia, que é o GR 10, que é do lado francês. Qual é a diferença? Do lado espanhol há melhor tempo, melhor meteorologia.
É virada sul, não é?
Pois. Nós optamos, e é o mais conhecido também.
Olha e Alpes ou Pirineus, o que é mais bonito?
Isso é difícil. Eu gosto muito dos Pirineus também. É difícil. Os Alpes são maiores, obviamente.
Mais inóspitos, se calhar.
Não, curiosamente, não. Bem, não tive esse isolamento de tantos dias, os tais três dias sem ninguém. Mas nas rotas mais comerciais ou mais conhecidas, consegue-se ver menos gente nos Pirineus. Porque os Alpes faz mais buzz e as pessoas dizem: "Alpes, Alpes, Alpes", e há mais gente a ir para os Alpes.
Ok.
Eu lembro-me de encontrar nos Pirineus alemães, por exemplo, e franceses. Franceses já não fazem ali fronteira, mas italianos a fazerem o GR 11. E eu perguntei: "Então, mas aqui vocês têm os Alpes com tanta montanha?" E eles disseram: "Não, mas é que os Alpes têm muita gente. Aqui é mais montanha, sério, mais inóspito." Na altura, ainda praticamente não conhecia muita coisa dos Alpes. E chamou-me a atenção esses comentários.
Em relação aos Pirineus.
Eu gosto muito dos Pirineus também.
Também há ursos nos Pirineus.
Também há. É verdade. Passou-me ao lado completamente. Animal que nunca vi, o urso.
Boa, muito bem. Fala-me então dessa viagem, 47 dias a atravessar os Pirineus. Deduzo que muita neve, muitos circos glaciares.
Nós fizemos no verão. Foi feito no verão. Passámos em alguma neve.
Sim, mas há neve todo o ano nos Pirineus.
Nas zonas onde passámos, passámos em alguma neve. Não levámos sequer equipamento invernal, nada. Tanto que lembro-me que houve um dia que tivemos que voltar pra trás, porque toda a gente por quem nós passávamos dizia: "Não têm crampones, não dá. Desculpem continuar, que não vão conseguir passar." Ainda andamos mais um bocadinho, até que outra pessoa nos diz a mesma coisa e nós achamos então que o melhor era aceitar essa informação e voltar pra trás. Portanto, sim, também havia muita neve.
Pra ter uma ideia, qual era a cota em que vocês caminhavam? Mais baixa, média, alta?
Andávamos sempre ali abaixo dos 2 mil. E passámos pra cima dos 2 mil, mas a média era abaixo dos 2 mil.
E depois, como é que fizeram quando chegaram a Andorra? Atravessaram Andorra ou deram a volta?
Atravessámos. Atravessa-se Andorra.
Que Andorra é uma espécie de círculo ali no meio da fronteira.
Foi um dos refúgios mais bonitos que eu me lembro. Foi à entrada, ainda em Espanha, mas à entrada de Andorra. Eu lembro que os estrangeiros chamavam-lhe a Breadbox, um canadiano que nós conhecemos nessa viagem.
Breadbox, caixa de pão?
Caixa de pão. Parecia uma caixa de pão gigante, que foi lá pousada de helicóptero, ancorada com uns cabos, e era o sítio onde se dormia, não tinha ninguém, era o chamado refúgio não guardado, e estava num sítio sensacional. Era lindíssima a vista. Não tinha nada, era só o sítio para a pessoa dormir e depois no dia a seguir continuar o percurso.
Muito bem.
Foi um dos mais bonitos, que era mesmo a entrada de Andorra.
Nuno, qual é o prazer que se tira de caminhar tantos dias na montanha?
Não é muito fácil explicar.
É porque são muitos dias. Fizeste uma travessia de 80 dias nos Alpes, 47 dias acompanhado nos Pirineus, mas são muitos dias. Não há o cansaço da montanha?
Também há.
Sim.
Também há.
Também houve dias que pensaste: "Estou farto disto."
Houve.
"Estou farto disto, não consigo mais."
Não quero mais. Quero ir embora. Sim. É muito mais fácil fazer uma coisa destas com alguém do que sozinho. A pessoa fala, comenta.
Ajuda a passar o dia.
Ajuda. Quando se está sozinho-
Porque, sob pena de poder estar aqui a dizer uma barbaridade, ao fim de alguns dias, é quase tudo igual ou não?
Depende. Sim, é. E é assim, há muitas paisagens nos Alpes.
Há setores que são surpreendentes.
Claro.
Sei lá, imagino.
Se eu mostrar algumas fotografias dos Alpes pra quem não conhece e disser que são Pirineus, passa.
Muito bem. Mas a pergunta original era qual é o prazer que se tira.
O prazer tem a ver com o desafio. Pra mim é o desafio. Acima de tudo, eu estou ali numa situação mais complicada, é o desafio. É tentar superar, daí eu querer fazer tudo de uma vez. Por quê? Pelo desafio de tantos dias na montanha, cansaço acumulado. Tem a ver com o desafio. Pra mim, tem a ver com o desafio. E é isso que me leva a continuar pra frente.
Levantas-te de manhã e falas contigo e dizes: "Nuno, bora lá."
De manhã é a pior altura.
É?
É quando eu me levanto.
Tens maus fígados.
É quando eu penso: "O que eu estou aqui a fazer?"
Ok.
"Podia estar em casa, na minha cama, e estou aqui." Depois passado uma hora, quando já estou a andar, isso desaparece.
Desaparece tudo.
Mas é quando me levanto, é a pior.
Muito bem. E depois como é o regresso de viagens desta natureza, Nuno?
Vou contar tanto a dos Pirenéus como a dos Alpes. Dos Pirenéus eu lembro-me que quando acabamos, foi muito estranho, porque parece que acabaram os objetivos. Nós chegamos ao fim, fizemos um vídeo tipo: "Pronto, acabamos" e ficamos: "E agora? Amanhã já não vamos andar. Isto acabou." Foi muito estranho. Nem sequer houve uma comemoração. Foi estranhíssimo. Foi a primeira vez que eu, aliás, também foi a primeira travessia, obviamente, mas foi muito estranho, porque 47 dias em que quando acabávamos um dia e pensávamos: "Amanhã o que vamos fazer? Vamos andar. E amanhã? Andar." Sempre. E chegamos ali ao último dia: "Amanhã vamos apanhar uma camioneta para ir embora. Isto acabou." Foi uma sensação estranha.
Bizarra.
E depois caímos em nós quando chegamos cá. Quando chegamos cá a coisa já foi diferente. Nos Alpes, quando eu comecei a perceber que a coisa ia mesmo acabar, uma semana antes, 10 dias antes, comprei o bilhete de avião para vir no dia em que ia chegar ao Mónaco. Nem quis sequer dormir lá mais uma noite.
Quer fazer uma espécie de uma autocelebração. Ou seja, chegaste?
Cheguei, fiz um vídeo final. Apanhei um comboio. Agora deu-me uma branca. Eu vim de uma cidade em França, logo ao lado do Mónaco. Apanhei o comboio para lá e foi o avião. No último dia, vim dormir a casa já.
Ok, portanto caminhaste de manhã.
Caminhei de manhã, cheguei ao Mónaco, comboio, avião.
Foste a Nice.
Nice, exatamente. Fui a Nice e apanhei o avião para cá. Eu queria mesmo era chegar cá, eu queria acabar. Depois a comemoração, fazia acá.
Ok.
Só queria chegar ao meu-
Território.
Território, à minha casa. Sim. E depois mais uma vez passados uns dias, a coisa amadurece. Mas na altura queria mesmo era acabar.
Muito bem. Ficou o bicho, porque agora vais fazer outra, não é?
Ficou. Eu quando acabei a dos Alpes e quando as primeiras apresentações que fiz depois da viagem, quando me perguntaram: "Então e a próxima?" Eu disse: "Não há próxima, acabou." Mas não acabou.
Sim.
Só que isto não é assim.
Portanto, não há uma sem duas, não há duas sem três.
Não há duas sem três.
Sendo que a próxima são os Himalaias nepaleses.
São os Himalaias nepaleses.
Quatro meses, 1700 km, tens tudo preparado?
Tenho tudo já muito preparado. Esta também sozinho. O desafio também é esse, fazer sozinho. Os quilómetros não são muito diferentes dos Alpes, mas vou andar muito mais alto. Vou precisar de muitos mais dias, cerca de quatro meses para concluir essa travessia.
Ok, com muita neve.
Pois, vou ter que levar algum material invernal. Tenho que ter muito cuidado com o peso. Essa parte ainda ando mais ou menos a estudar o que vou levar.
Ok, por falar em peso, numa travessia dos Alpes ou dos Pirenéus, carregas quantos quilos às costas?
Nos Pirenéus levei mais, por inexperiência. Nos Alpes já consegui organizar a coisa muito melhor. Os dias piores, quando eu estou a dizer dias piores, eram os dias de calor em que eu levava no corpo o mínimo de roupa e tinha que ir tudo na mochila, com água e com um backup de comida de dois dias, eu levava cerca de 14, 15 quilos. Para os Himalaias eu tenho que levar menos.
Menos?
Tenho que levar menos, porque vou andar muito mais alto. Eu quero conseguir levar no máximo 14 com um litro de água, com alguma comida, com gás para cozinhar.
Ok.
A minha mochila sem isso tem que estar nos 12 quilos.
Portanto vais viajar quase minimalista.
Muito minimal, mas não é fácil. Tenho que estabelecer e tentar ter o mínimo de conforto, mas sem abusar.
Compromisso difícil.
É um compromisso difícil. A roupa é o mínimo dos mínimos. Essa parte ainda está a ser ultimada.
Estás a ultimar. Muito bem. Vais partir em setembro, não é?
Três de setembro, tenho o bilhete de avião comprado para lá.
Yes.
E depois volto quando acabar.
Uns dias antes do Natal.
Eu espero que seja uns dias antes do Natal.
Vamos a isso. Boa sorte para essa empreitada, Nuno. Olha, estamos a chegar ao fim.
Ok.
Vamos fazer checkout?
Checkout.
Vamos a isso. Então, vou pedir-te para completar as habituais frases: na minha mala vai sempre...
Na minha mala vão sempre várias coisas. Como são sempre saídas de montanha, seja verão, seja inverno, vai sempre impermeável, vai sempre um gorro e umas luvas, vai sempre um frontal, vão sempre tampões de ouvidos, porque dormir sempre acompanhado, a probabilidade de ressones é grande.
Há pessoas muito ruidosas à noite.
E vai sempre papel higiénico.
Ok.
Sempre.
A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.
Não foi uma viagem de montanha.
Então?
Foi antes de eu entrar neste universo da montanha. Em 2000 fiz uma volta ao mundo em que atravessei a Rússia pelo Transiberiano. E essa viagem, logo desde o início, foi a viagem com mais peripécias. E quando eu estou a dizer desde o início, eu fui fazer essa viagem com uma pessoa que não conhecia de lado nenhum.
Como assim?
Era um amigo de um amigo. Eu ia fazer essa viagem com um amigo meu Tinha um amigo que também gostava de fazer a viagem. Eu disse que não havia problema nenhum.
Ok. Depois um desistiu.
O meu amigo desistiu e o amigo dele disse: "Mas eu quero fazer."
Ok.
E eu: "Eu também." Então conhecemo-nos uma semana antes, ficámos um mês juntos.
Caramba.
Correu impecável.
Ok.
Mas foi um risco. Logo aí.
Pois é.
Um risco grande.
Caramba, isso é uma dupla descoberta. Descobrir a viagem e descobrir o companheiro de viagem.
E depois mais peripécias pelo meio da viagem.
Uma a uma. Assaltado?
Fomos assaltados por um taxista. No meio da Rússia, porque perdemos um comboio, porque os comboios na Rússia, eu não sei se ainda é assim, mas na altura, a Rússia eu acho que tem oito, nove fusos horários, não sei se é certo. Mas os horários dos comboios regem-se todos pela hora de Moscovo.
Ok.
Não interessa onde se está na Rússia. E nós a fazer contas, enganámo-nos, perdemos um comboio e aquilo na Rússia não se podia perder os transportes porque tínhamos que dormir nos sítios que eles sabiam onde estávamos a dormir. Se falhássemos era muito complicado de sair de lá.
Pois.
E apanhar à pressa um táxi, claro, fomos roubados pelo táxi. Enfim.
Roubados no sentido de ele inflacionou o preço.
Não, nem foi inflacionou o preço, pediu o mesmo dinheiro. Eu digo que foi um assalto simpático. Eles nunca nos agrediram, nem fizeram tensões de nos fazer mal fisicamente. A única coisa que ele dizia é: "Se não nos derem dinheiro, a gente leva-vos as mochilas." Isto parados à porta do aeroporto. Estávamos no sítio, à porta do aeroporto, e nós negociámos um valor.
Ok, e depois vocês disseram: "Está bem, então assalte-nos."
"Até que é $100." E eu: "$100, $50 a cada um." "Está bem, $100 e dás-nos as mochilas, já estamos no aeroporto." Ele pelo menos deixou-nos onde era suposto.
Boa. Assaltantes com ética.
Com ética.
Olha, o carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?
Olha, curiosamente foi dessa viagem.
Do transiberiano?
Foi disso para a Rússia. Foram meses e meses. E o visto veio para aí dois dias antes de nós arrancarmos.
Caramba!
Foi muito complicado conseguir esse visto para a Rússia.
A recordação de viagem mais cara?
A recordação de viagem mais cara, não vou responder em termos monetários.
Sim.
A recordação de viagem mais cara foi o ano passado. Fui com um grupo fazer um cume no Nepal acima dos 6000 metros.
Um grupo porque tu lideras agora as expedições.
Sim, mas isto não. Alpinismo, não. Eu lidero em montanhismo. Em alpinismo eu tenho sempre de ter alguém que me lidere.
Ok. Então foste com um grupo, para onde?
Fui com um grupo para o Nepal, para uma zona remota do norte do Nepal, próximo da fronteira do Tibete, fazer um cume, que não foi o cume que depois fizemos, foi outro mais baixo, mas para mim foi uma novidade também. E foi um cume de 6000 metros e foi caro pelo esforço físico. Para mim foi onde sofri mais em montanha.
Ok. Não te aconteceu nada?
Não. Só muito cansaço.
Muito cansaço. Longas sestas durante semanas. A refeição mais estranha?
Também não foi nada de especial. Foi no México, grilos e gafanhotos fritos.
Pronto, é especial.
Há coisas bem piores.
Eu não punha o dente, não trincava o dente.
Experimentei.
Gostava de viajar com...? Nuno.
Gostava de viajar com quem partilhe da mesma paixão por desafios e por montanha.
Boa. E tens alguém em vista?
Não. Mas gosto e gostava de viajar com alguém que tenha esse gosto por desafios e por montanha. Agora esta viagem vai ser em solitário.
Sim. Aos Himalaias nepaleses.
Aos Himalaias nepaleses.
Então pode ser que alguém esteja a ouvir esta conversa e te enderece um convite ou se cole à tua viagem, cole no bom sentido, claro, à tua aventura que tens aí pela frente de atravessar os Himalaias nepaleses durante quatro meses, 1700 km. Muitas bolhas nos pés isto. Boa sorte.
Obrigado.
Falta a música. Qual foi a música que escolheste, Nuno?
Uma música que eu escolhi. Vou contar muito rapidamente. Houve um dos dias dos Pirineus em que eu estava verdadeiramente muito cansado e quando cheguei cá a Lisboa a fazer um vídeo, lembrei-me de uma música para meter precisamente nessa secção. E até hoje essa música quando eu estou na montanha e estou a sofrer, essa música passa sempre na minha cabeça. O Trust, "Better Not Stop".
Muito bem. "Better Not Stop". É melhor que não pares. Não pares, Nuno. Grande abraço. Muito obrigado. "Conversas do Fim do Mundo" que estão de regresso hoje, oito dias, já sabem, sejam bons e boas viagens.